A UDN tenta anular o pleito na Justiça alegando ausência de maioria ab-soluta e ilegalidade dos votos comunistas. Não consegue. Carlos Lacerda e outros de seus radicais pregam escancaradamente o golpe militar.
Apoiado por seu ministro da Guerra, general Teixeira Lott, o presidente Café Filho, em resposta ao Superior Tribunal Eleitoral, declara que os
No dia 1º de novembro de 1955, em discurso durante o sepultamento do general Canrobert Pereira da Costa, no cemitério do Caju, o coronel de exército Jurandir Bizarria Mamede incita os militares a impedir a posse.
Chama o pleito de “farsa eleitoral”, prega solução extraconstitucional para impedir a posse de Juscelino: “Os caídos de 1954 não voltarão ao poder”.
O ministro Lott, preocupado com os regulamentos e a preservação da disciplina, da hierarquia e da legalidade, pede sua punição ao presidente Café Filho, já que Mamede é vinculado à Escola Superior de Guerra, subordinada diretamente à Presidência da República. A caldeira ferve.
Dois dias depois, Café Filho se licencia, alegando doença. Interna-se na Clínica São Vicente, na Gávea, Rio de Janeiro. O afastamento é atribu-ído a suposto distúrbio cardiovascular, desordem nas coronárias. Mas o Barão de Itararé, em nome do bom humor carioca, corrige para desordem nas “coronelárias”.
Assume o mineiro Carlos Luz, presidente da Câmara, pessedista não simpático à candidatura de Juscelino, próximo dos udenistas que acei-tavam regime de exceção. Passada uma semana do discurso de Mamede, nada decidido. Lott se sente desprestigiado. Então, em 10 de novembro, o presidente o convoca ao Catete, deixando-o sozinho, por quase duas horas, na sala de espera. Situação humilhante. Luz está cuidando de substituí-lo pelo general Fiúza de Castro, já reformado. A democracia, a Constituição e a vitória de Juscelino estão por um fio. O ato de nomeação de Fiúza é assinado.
O presidente Luz finalmente recebe Lott. Comunica a decisão. Lott não reage. Marca a transmissão do cargo para o dia seguinte. Em casa, na avenida Maracanã, recebe a solidariedade, o estímulo e o apoio do ge-neral Odílio Denys, comandante da Zona Militar Leste. São vizinhos.
Denys está reunido com outras lideranças militares. Quer a resistência, para evitar a indisciplina na força terrestre. Entende que o Exército foi humilhado, na pessoa e autoridade de seu ministro, e que há um golpe
em progressão contra as instituições. Depoimento do general Ernesto Geisel, presidente da República no quinquênio 1974-1979:
“Quem articulou todo o movimento foi o Denys, que comandava o I Exército. Lott, em casa, não tinha pensado em golpe. O Denys foi convencê-lo, e o Lott acabou concordando. Naquela noite Golbery [Golbery do Couto e Silva, futura estrela do regime militar de 64]
foi preso, juntamente com os oficiais que estavam no Palácio do Ca-tete. Prenderam todos, inclusive o Juarez [general Juarez Távora].
Quando Lott pediu demissão, o ministro que tinha sido escolhido para o seu lugar era o Fiúza de Castro. Quis tomar posse naquele dia mesmo, mas o Lott disse: ‘Não! Vou preparar os papéis, você vem tomar posse amanhã’. Naquela noite houve o golpe. Depois o Fiúza teve um encontro com o Lott e aí deu-se um diálogo muito interessante. Lott se desculpou por ter enganado o Fiúza naquela ocasião, ao que o Fiúza respondeu: ‘Não, você me enganou toda a sua vida!’ ”76
Na madrugada de 11 de novembro de 1955, tanques e tropas de infan-taria ocupam as ruas do Rio de Janeiro e das principais cidades do país.
Os ministérios da Marinha e da Aeronáutica são cercados, o acesso à Base Aérea do Galeão, bloqueado. É o golpe preventivo de Lott, o 11 de Novembro. Trata-se, na verdade, de um contragolpe, porque garantiu a posse do presidente eleito e a normalidade. O bom humor do Barão de Itararé trocadilhou: “No Palácio do Catete, em 11 de novembro de 1955, faltava Café e Luz, mas tinha pão de Lott”.
O presidente Carlos Luz se refugia no cruzador Almirante Tamandaré, comandado pelo almirante Pena Boto. Está acompanhado de alguns mi-nistros de Estado, chefes militares, de Carlos Lacerda e outros parlamen-tares da UDN. Juscelino acompanha tudo de Belo Horizonte. Lá, expli-cará muito depois, “dispunha de força para resistir a qualquer tentativa de esbulho da minha vitória nas urnas”.
Assume o poder Nereu Ramos, vice-presidente do Senado, primeiro na
de Abreu e Tancredo Neves operam milagres de articulação, negociação e conciliação política. Com o Congresso, com o presidente Nereu Ramos, com Lott, e até com Carlos Luz, de quem depois obterão carta de renún-cia à Presidênrenún-cia da Câmara.
O Congresso aprova o impedimento de Luz e confirma a investidura de Nereu Ramos. Lott é mantido à frente do Ministério da Guerra.
O Tamandaré zarpa rumo a Santos, em busca do apoio do governador paulista Jânio Quadros. Sonho de conseguir forças para reagir. Mas Jânio nem aparece. O cruzador volta ao Rio dois dias e meio depois.
Todos desembarcam no Arsenal da Marinha. Ninguém sofre qualquer constrangimento. Lacerda asila-se na Embaixada de Cuba. Daí, seguirá para Nova York. Dele:
“Ao voltar o presidente Luz para o Rio, subiram a bordo do Tamandaré Juracy Magalhães e Afonso Arinos. Levaram a in-cumbência de me fazer aceitar a decisão da UDN de me fazer refugiar numa embaixada, porque o governo dizia, oficialmen-te, pela boca do general Flores da Cunha, um dos arautos polí-ticos do golpe, não se responsabilizar pela minha vida.”77 Café Filho, dizendo-se restabelecido, tenta reassumir. Novas escaramu-ças, novos problemas. A Câmara e o Senado aprovam seu impedimento definitivo, com fundamento na Constituição. Tendo em vista a perma-nência de manifestações golpistas, o presidente Nereu Ramos envia men-sagem de decretação de estado de sítio ao Congresso, aprovada em 23 de novembro de 1955. Sai a crise, volta a tranquilidade. A posse de Juscelino está finalmente assegurada:
“Quando soube do impedimento de Café Filho, na manhã de 22 de novembro [de 1955], deixei o Palácio da Liberdade, onde havia passado a noite colado ao rádio, e segui para casa, a fim de re-pousar. Estava exausto, mas sereno. Tinha a consciência tranquila, mas não me iludia sobre as enormes responsabilidades que me pe-savam nos ombros.”78
Em meio à crise política, JK enfrenta sério problema familiar e arriscada viagem. Dona Luisinha Negrão Lemos, sua sogra, é internada no Institu-to do Câncer, em São Paulo. Marcam cirurgia para o dia 18 de novembro.
Juscelino e família decidem apoiá-la e confortá-la. “Numa especial de-monstração do carinho pelo genro, ela havia saído de casa pela última vez para votar em mim. Fora, quase carregada, da residência à seção eleitoral.”
Dona Luisinha morre na sala de cirurgia. Figuras ilustres de São Paulo vêm confortar Juscelino. Inclusive o adversário Ademar de Barros, que, preocupado com o ambiente e com a imprevisibilidade do governador paulista Jânio Quadros, recomenda que saia imediatamente de São Paulo.
O empresário Sebastião Paes de Almeida providencia um avião. Juscelino decola às dez da noite para Belo Horizonte, sob terríveis condições de tempo. De Jânio, nenhum sinal. Nem mesmo telegrama de pêsames.