Juscelino se cerca de assessores de confiança e de intelectuais mineiros.
Monta o secretariado a partir de indicações dos partidos que sustentaram a candidatura. Mas não abre mão de cota pessoal em áreas estratégicas.
Assim, entrega a Secretaria de Finanças ao amigo do peito José Maria Alkmim. Precisava ter a chave do cofre em mãos confiáveis. A base de ação seria o binômio Energia e Transportes. Para comandar a área ener-gética, convoca Lucas Lopes, que já o assessorava desde a Constituinte, engenheiro brilhante, ex-diretor da Companhia Vale do São Francisco.
Para o Departamento de Estradas de Rodagem, fundamental ao sonhado salto rodoviário, recruta o experiente engenheiro Celso Murta, respon-sável pela construção de grande parte da rodovia Rio-Bahia. Executivos dinâmicos, de comprovada competência e experiência, supervisionados pelo próprio governador. Prioridade para investimentos em infraestrutu-ra. Minas era extremamente carente de energia e rodovias.
“Não existia em todo o estado um só parque industrial concebido segundo um planejamento técnico capaz de realizar a transformação da sua matéria-prima abundante numa fonte sempre crescente de bens de consumo. As cidades, quase sempre com luz precária e não dispondo – com raras exceções – de energia nem para acionar um simples torno de marceneiro, viviam isoladas umas das outras, pela inexistência de estradas pavimentadas. Minas Gerais vivia reclina-da em berço esplêndido. Quando me candireclina-datei à governadoria, ao fazer um levantamento das necessidades do estado, fui, de surpresa
Demais secretários de estado: Pedro Braga, Interior; Tristão da Cunha, Agricultura; José Esteves Rodrigues, Viação e Obras Públicas; Mário Hugo Ladeira, Saúde; Murilo Rubião, Casa Civil; Odilon Behrens, Edu-cação; Nélio Cerqueira Gonçalves, Polícia Militar; Affonso Heliodoro dos Santos, Gabinete Militar.58
Alkmim era então muito próximo de Juscelino. Ladino, hábil, astuto, espirituoso. A ele são atribuídos alguns dos melhores causos políticos mineiros. Até alguns de tempos bem anteriores ao dele. Juscelino se de-liciava com suas histórias. Como neste diálogo com a cantora lírica Lia Salgado, mulher do vice-governador Clóvis Salgado:
— Há quanto tempo, Lia! Como você está jovem, esbelta, bonita!
— Obrigada, doutor Alkmim. Mas já sou avó várias vezes.
— Eu sei. Mas é avó por merecimento, não por antiguidade.
E num episódio do final dos anos vinte. Jovem telegrafista, Alkmim estu-dava advocacia. Muito brilho, pouca sombra: franzino, pequenino, metro e sessenta ou menos. Certo dia, Juscelino o apresenta a uma garota linda, alta, de formas perfeitas. Brota doida paixão. Ele se derrete, ela fecha a guarda. Agrada, elogia, presenteia, suspira, geme, carrega água na penei-ra. Nada. Mesmo assim, ele escancara o jogo, propõe namoro. Ela:
— Vê se te enxerga, Zé Maria! Cresça e apareça!
— Crescer eu não garanto, não.
Alkmim sabia utilizar o humor e o bom humor como instrumentos da arte política.
Ainda a equipe. Havia também assessores especiais, da confiança do governador, como os escritores Murilo Rubião, Cristiano Martins,
Alphonsus Guimaraens Filho, Affonso Ávila, Rui Mourão, Autran Dourado, Fábio Lucas, Cristiano Martins. Ou os jovens José Sette Câmara, Divino Ramos, Geraldo Carneiro, Renato Azeredo e Carlos Murilo Felício dos Santos, este seu primo.
Sangue e sonhos novos no governo de Minas. Juscelino revoluciona a ad-ministração estadual. Espana as teias de aranha, quebra tabus, moder-niza tudo. Começa do próprio Palácio da Liberdade, velho e gasto, “não dispondo de um gabinete com o conforto indispensável ao exercício das funções de governador”. Instala-se provisoriamente na Secretaria do In-terior, manda reformá-lo.
Não se submete às velhas rotinas. Dirá: “A tradição na política minei-ra eminei-ra que a eleição paminei-ra governador representava um prêmio, e não um posto de sacrifício”. Levantava-se antes das seis, ligava para a mãe, pedia a bênção. Começava a trabalhar por volta das sete e seguia em frente. Fazia reuniões com a equipe em horários não convencionais, inclusive à noite e nos fins de semana. Usava intensamente o telefone, o que muitos, como o próprio presidente Vargas, ainda consideravam uma temeridade. Pôs o avião no dia a dia do governador. Voava muito por todo o estado. Pri-meiro, num pequenino Bonanza, depois noutro igual e, mais tarde, num Beech-bi, em que fez instalar mesa de trabalho. Esse avião era também conhecido por Mata 7, porque tinha capacidade para sete pessoas e fama de cair fácil.
Juscelino nem cogitava dos riscos de voar. Metera na cabeça que não mor-reria de acidente aéreo. Instinto kubitschekiano? Fazia contatos em todas as regiões, inspecionava obras, motivava os executores, cobrava prazos e qualidade. Ganhou o apelido de Governador a Jato. Mas, depois de al-moçar, costumava dormir por dez ou quinze minutos. Um velho hábito.
Acordava refeito, animadíssimo.
Governo Kubitschek: mudança de mentalidade, de escala de ação, de postura, de modelo de gestão, de prioridades e objetivos, de método de governo. Juscelino:
“Concebi, pois, um plano, desdobrado em duas etapas: a) eletrifica-ção e estradas; e b) industrializaeletrifica-ção. A carência crônica de energia emperrava, em todas as regiões, as condições propícias, bastante numerosas, à propulsão industrial. A situação era dramática e ne-nhum programa de desenvolvimento poderia ter êxito se não se corrigissem, com urgência, essas deficiências, através de uma rápi-da ampliação rápi-da faixa de aproveitamento do potencial disponível no estado.”59
Como? Mediante incentivo à iniciativa privada, política tarifária de estí-mulo a novas inversões e estabelecimento de um fundo de eletrificação por intermédio de uma taxa vinculada. Imaginação, coragem, objetividade.
“É de estradas que precisamos primeiramente, basicamente, fundamen-talmente.” E o dinheiro para o ambicioso e caro programa rodoviário?
Conta nas memória que, pouco a pouco, descobriu os caminhos. Não ficou preso somente ao magro orçamento do DER. Recorreu ao governo federal, estimulou o setor privado. Concluiu que não deveria realizar con-tratos pequenos, porque os empreiteiros não conseguiriam caucioná-los nos bancos. E o vulto das obras impunha utilização de máquinas caras, em vez das ferramentas simples e carroças puxadas a burro, que levavam anos para abrir um simples corte numa colina geologicamente mais resis-tente. Tudo do tempo do chamado regime manual.
Certo dia de abril de 1951, voando de Belo Horizonte a Varginha no monotor Bonanza, teve um estalo: promover um sistema de concor-rência capaz de cobrir, mediante execução integrada, a rede de estradas programada, as 16 estradas-tronco. Estabelecer um consórcio de firmas para executá-las. Os pagamentos seriam feitos em promissórias, com vencimentos distribuídos por várias datas, em prazos sempre longos, de até oito anos.
Juscelino busca recursos na própria imaginação, no governo federal, no setor privado, em agências de financiamento nacionais e do exterior, como o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird), o Eximbank, a Impex-Paris, o Banco Nacional de Desenvolvimento Eco-nômico (BNDE), o Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), o Fundo Rodoviário Nacional. Projetos e programas identifi-cados, corria atrás de investidores e financiadores.
Administração realmente inovadora, revolucionária. Mudança de men-talidade, de prioridades e objetivos, de escala, de tecnologia. De JK, 25 anos depois:
“O problema era o binômio energia e transportes. O pessoal do PSD vinha me dizer: ‘Governador, o que nos interessa é a nome-ação da professora, do delegado, porque isso é que dá prestígio ao político’. Eu dizia: ‘Vamos mudar essa mentalidade, vocês vão ver que as coisas serão outras com o desenvolvimento’. Eu choquei mui-ta gente. Depumui-tados vinham me pergunmui-tar qual a importância de se construir uma central elétrica no Norte de Minas, se o municí-pio dele era no Sul. Eu explicava que essa central iria favorecer o município dele, porque melhoraria todo o estado, mas precisaria ter calma, eu não poderia tirar Minas da pobreza com um decreto.
No final do governo, todos já tinham aceitado. O binômio energia e transportes foi uma arma poderosa na minha campanha à Presi-dência da República.”60
Bons programas e projetos estratégicos saem do papel. O vasto potencial de desenvolvimento mineiro é mobilizado. O crescimento acelerado da geração e distribuição de energia elétrica e a expansão da malha rodo-viária abrem novas perspectivas. Melhoram a vida do povo, integram as grandes regiões, induzem o fortalecimento e a diversificação da econo-mia, puxam a industrialização.