É na prefeitura de Belo Horizonte, então com duzentos mil habitantes, que Juscelino vai descobrir e revelar sua principal e maior vocação: a de executivo, homem de ação, extraordinário empreendedor público. Mos-tra tirocínio adminisMos-trativo e político, capacidade de inovar e de assumir riscos, coragem. Distingue-se claramente do modelo típico de governante da época: o autoritário e preso a velhas rotinas. Moderniza, participa, di-namiza, democratiza. Projeta, executa, fiscaliza, avalia, inaugura, divulga.
Nova mentalidade, novo modo de governar.
Trabalha absurdamente. Toma pé da situação, espanta-se com os proble-mas urbanos e carências sociais. Surpreende-se com a herança financeira, uma calamidade. Cofres limpos, arrecadação baixa, despesas correntes elevadas, dívida crescente. Mas não perde o rumo:
“Na noite de 18 de abril de 1940, após longa vigília no escritório, decidi sobre o caminho que devia seguir. Sendo prefeito, iria agir outra vez como médico. O doente ali estava. Era Belo Horizonte, um doente que repousava num leito de ficus e de rosas. A política havia me envolvido de novo. E dessa vez definitivamente.”33
Araújo, o antecessor, o procura em casa para explicar a gravidade da si-tuação financeira. Aconselha máxima cautela. Que se limite a assinar o expediente, evitando qualquer obra de vulto.
Ao sair, apresenta o motorista que serve ao prefeito, Geraldo Ribeiro.
Um moço simpático, de altura média, mulato, maneiras afáveis, um tanto retraído, olhos muito vivos, espertos. Ganhará de Juscelino o apelido de Platão, pela extraordinária sabedoria e criatividade. Será seu amigo fra-terno e companheiro até na morte.
Depois de passar o cargo, o leal Araújo abre ainda mais o jogo:
— Tenho pena de você, Juscelino. Todas essas gavetas aí são de contas a pagar.
—Jogo de olhos fechados no futuro da cidade.
Dois dias depois, Juscelino assina contratos de obras de valor superior ao de todas as contas guardadas nas gavetas.34
Prioriza obras públicas essenciais para melhorar a cidade, embelezá-la.
Apoia atividades culturais, dinamiza a assistência social. Monta equipe com base em critério de mérito, probidade e confiança. Faz administração independente, inovadora e dinâmica. Trabalha exageradamente. Começa às sete da manhã, segue até a noite. Transmite otimismo, democratiza o acesso ao prefeito, motiva, apoia, inspeciona, cobra. Não é homem de ficar fechado entre quatro paredes, em meio à papelada. Acha errado, não suporta. Burocracia, só a indispensável. Mudança da filosofia, da postura, da qualidade e da escala das ações.
Impõe-se duas obrigações básicas: primeira, comparecimento diário a to-das as frentes de trabalho que fossem abertas, e segunda, visita, toto-das as semanas, a pelo menos um dos comitês de bairro que vai formar. Quer acompanhar pessoalmente as obras, quer proximidade e sintonia com a população. Uma revolução no modo de administrar a cidade. O povo gosta. Prestígio, visibilidade.
Toma decisões rapidamente. Intuitivo, confia no que chama de instinto kubitschekiano, um impulso interior “que sempre me forçou a agir numa determinada direção e na hora adequada, assegurando-me pleno sucesso nas investidas que, a outros, pareciam ilógicas e temerárias.”35
Acreditava mesmo nisso.
Entende-se bem com o governo estadual. Descobre novos caminhos, busca recursos em todas as fontes. Atrai e envolve o setor privado, amplia
os espaços e os horizontes urbanos. Imagina e faz desenvolver projetos urbanísticos inovadores, audaciosos, em estilo moderno. Quase vira a ci-dade do avesso. Chegam a chamá-lo de Prefeito Furacão, por ter posto a cidade de pernas para o ar. Está toda rasgada, repleta de intervenções, muitas delas cirúrgicas. Recupera ruas, avenidas e praças, faz pavimen-tação e ajardinamento, canaliza córregos, cria novos bairros. Amplia as redes de esgoto, melhora o abastecimento de água.
Belo Horizonte vira uma grande obra pública a céu aberto. Divulga as realizações, presta contas.
Cuida também de atividades e projetos culturais. Convoca o jovem Oscar Niemeyer para arquitetar sua primeira grande obra pública: o novo bair-ro da Pampulha. Concluído em 1944, integra arquitetura com escultura, pintura e paisagismo. O nome Juscelino Kubitschek vai ganhando Minas e o Brasil, associado à competência, modernidade e sobretudo muita ação e capacidade de fazer o que promete. Surge o “Poeta da obra pública”, na feliz síntese de João Guimarães Rosa.
Palavra para Niemeyer, quase sessenta anos depois:
“Em termos de arquitetura, Brasília é continuação da Pampulha.
A arquitetura nova que a gente estava se impondo. Mais leve, utili-zando a curva, mais próxima das igrejas de Minas Gerais, mais de acordo com o clima. E os meus problemas de tempo, de corrida.
Tanta coisa! Pampulha foi o começo de Brasília.”36
Lutou pela criação da Escola de Arquitetura e do Museu Histórico. Fez vir do Rio de Janeiro o pintor Alberto da Veiga Guignard, responsável por obras notáveis e formação de artistas mineiros. Em 1942, inspirado na célebre Semana de Arte Moderna de 1922, realizada em São Paulo, promoveu uma “Semaninha” semelhante em Belo Horizonte, importante no arejamento e renovação das artes em Minas.
Passagem luminosa a do impetuoso doutor Juscelino pela prefeitura de Belo Horizonte. Período de descobertas e afirmação, muitas realizações e sucesso.
Pampulha, sua maior obra e joia desse tempo, foi construída sem o conheci-mento do governador Benedito, que estava envolvido com a administração estadual e principalmente com a política. Projeto caro, caríssimo. Juscelino sabia que ele o vetaria. Esconde tudo enquanto pode, disfarça. Começa pela principal estrada de acesso, futura avenida Antonio Carlos. Depois, sem alar-de, urbaniza, e ataca a construção da barragem da Pampulha, para formar a grande lagoa de dezoito quilômetros de perímetro. Junto à margem, ergue cassino, clube náutico, restaurante circular. Também a originalíssima Igrejinha de São Francisco de Assis, primeira do país em estilo moderno, com abóba-das de concreto, que o escritor Eduardo Frieiro chamou de “Hangar de Deus”.
Decoração de Portinari, com painéis de azulejos na parte externa e pintura mural no interior. Tudo em meio ao paisagismo de Burle Marx. Projeto revo-lucionário, execução quase impossível, marco de audácia, sonho e bom gosto.
Quando Benedito soube de tudo e cobrou explicações, já não havia mais volta.
Era melhor concluir. Fato consumado.
Tudo bem. Mas, e a ditadura? Ventos de liberdade, vindos da Europa, varriam o Brasil. Até quando será o Benedito?