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Rumo ao Catete

No documento Juscelino Kubitschek (páginas 117-122)

Tem à disposição o DC-3 de prefixo PP-ANY, pintado de azul e bran-co, com acomodações para dezesseis pessoas, equipado com duas camas, mesa para máquinas de escrever, material administrativo, estantes de li-vros. Um apartamento-escritório aéreo, em dois compartimentos. Conta com seis meses para apresentar-se e discutir suas ideias e propostas. Ga-rantir compromisso absoluto com a democracia e o desenvolvimento. O

binômio energia e transportes, a conquista do interior, a industrialização.

Falar de seus sonhos e de sua confiança no povo e no país. Tarefa nobre, mas estafante. Decide fazer o primeiro comício bem no coração do Brasil.

Jataí, sertão goiano, 4 de abril de 1955, dez da manhã. Forte ronco no céu.

O homem está chegando. O PP-ANY fura as nuvens, circula, prepara-se e embica direto e reto para a pista de terra do campo de aviação. Pouso-manteiga: desliza suavemente, perseguido por caudaloso rio de poeira.

Manobra, aproxima-se, para.

A porta se abre. Um passageiro sorridente acena com entusiasmo. É Juscelino. Aplausos, cumprimentos, seguem para a pracinha do comício, que reuniu a maior multidão da história jataiense: mais de mil pessoas.

Quando a comitiva chega ao palanque, cai um toró. Corre-corre, disper-são, alguém se lembra do galpão da oficina mecânica. Uns duzentos correm para lá. Juscelino, também. De terno e gravata, ponta do lenço aparecendo no bolsinho do paletó, sobe na carroceria de surrado caminhão Bedford e dispara discurso quase hipnótico. Desenvolvimento, transformação do Brasil, fim da miséria, empregos, democracia, cumprimento fiel das leis e da Constituição. Deixa o povo à vontade, não fala de cima para baixo, sorri muito. Passa alegria, espontaneidade, bom humor, simplicidade.

No final, pede que perguntem o que quiserem. Silêncio. Repete, insiste.

Nada. De repente, um rapaz franzino, de pé bem próximo do caminhão, se anima. É o Toniquinho da Farmácia, Antonio Soares Neto, solteiro, inspetor de seguros, 28 anos. Junta toda a coragem e, voz embargada, pergunta se, caso eleito, o candidato mudaria a capital para o Planalto Central, como previsto na Constituição. Juscelino para, aparenta surpre-sa, reflete teatralmente alguns segundos, e dispara:

— Cumprirei na íntegra a Constituição. Durante o meu quinquênio, fa-rei a mudança da sede do governo e construifa-rei a nova capital.

Euforia, palmas, gritos de entusiasmo. Era o que todos queriam saber. O sonho maior de Goiás e de quase todo o Brasil profundo.

Por que o primeiro comício no quase vazio goiano, de complicado acesso e es-cassos eleitores? Por que não Belo Horizonte, Rio, São Paulo, Recife, Salvador, Porto Alegre ou outra cidade grande? Há quem acredite que foi por ser Jataí o município proporcionalmente mais pessedista do país. Outros, que Juscelino quis prestigiar o amigo Serafim de Carvalho, chefe pessedista local, seu colega de curso de medicina em Minas. Com boa vontade e ingenuidade, até poderia ser. Mas na Minas do manhoso e pragmático PSD de José Maria Alkmim, todo o mundo sabe que, em política, a versão vale mais do que o fato. Juscelino quis começar no coração do Brasil, porque era o ambiente e o palco adequados para anunciar a construção da nova capital e a interiorização do progresso, com ênfase em energia e transportes. A futura Brasília, centro irradiador de civilização, de desenvolvimento e da integração nacional, seria a meta-síntese de seu sonhado governo.

A decisão já estava tomada. O que houve em Jataí foi o anúncio do histó-rico compromisso do candidato. Mais: político hábil e pragmático, cons-ciente da forte resistência à mudança da capital, principalmente no Rio, preferiu não tomar a iniciativa de revelá-la. Melhor fazê-lo perto do local previsto, “surpreendido” por justa e espontânea cobrança popular. Coisa fácil de combinar ou induzir. Solução brilhante, engenhosa, politicamen-te mais palatável. Inclusive junto ao Poder Militar, guardião da Carta Magna e tão influente durante a Guerra Fria. Como um democrata po-deria se negar a cumprir o que a Constituição mandava e o povo cobrava?

Na verdade, chegou a Jataí sabendo de tudo. Desde o sonho mudancista dos Inconfidentes mineiros, que queriam a capital em São João del-Rei, aos trabalhos finais da Comissão de Localização criada por decreto de Vargas de junho de 1953. Que esta acabara de receber o relatório técni-co técni-contratado técni-com a empresa norte-americana Donald J. Belcher,

mape-sediar a nova capital, desenhados em cores diferentes. Que os membros da comissão estavam prestes a indicar qual deles seria. Que o governo de Goiás iria ao seu limite pela causa.

Cinco meses antes, em visita de pré-campanha, havia tratado do assunto com o governador goiano Juca Ludovico, como revela, em outubro de 2010, o lúcido, lépido e irrequieto coronel Affonso Heliodoro dos Santos, 93 anos, presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, subchefe da Casa Civil do presidente JK, guardião de sua memória:

“— No fim de 1954, ficamos em Goiás quase uma semana. Assun-tando, falando de interiorização, integração nacional, capital no Planalto. Circulamos pelo interior, fomos até à Ilha do Bananal visitar os índios. (...) Juscelino escolheu começar a campanha presidencial em Jataí e lá assumir o compromisso da construção e inauguração de Brasília de caso pensado. Ia fazê-la de qual-quer jeito.”72

Nas memórias, Juscelino conta que ouviu a mesma pergunta nas cente-nas de comícios seguintes. A ideia ajudou-o a fisgar apreciável apoio no interior, inclusive no Nordeste.

Brasília, ainda sem nome e endereço completo, já estava na cabeça, no coração e nos planos do visionário candidato. Mais uma vez o instinto kubitschekiano?

JK

De novo o coronel Affonso Heliodoro:

“— É nessa época que Juscelino vira JK, mestre Heliodoro?

— Sim. Foi ideia do Adolpho Bloch, dono da Manchete, muito amigo nosso. O Adolpho era encantado com o Juscelino. Na

campanha para presidente, a gente mandava pregar propaganda eleitoral por toda parte, os adversários estragavam tudo, empor-calhavam, desrespeitavam o nome Kubitschek, uma coisa hor-rorosa. O Bloch então teve a inspiração de imprimir apenas as letras JK bem grandes, em cor, no centro de um papel circular de mais ou menos meio palmo de diâmetro. Colamos aquilo por toda banda, no Brasil inteiro. Nos carros, nos postes, árvores, muros, porteiras de fazendas, onde desse. Foi um sucesso. Logo entrou na imprensa. O Juscelino virou JK. Adorou. Passou a assinar JK.”73

Aprofunda-se a disputa de poder. As pressões contra JK crescem. Seu vice, o petebista João Goulart, aumenta ainda mais o receio e a ira dos antigetulistas contra a candidatura. Pesa a conveniente bandeira do an-ticomunismo, forte na Guerra Fria. No Rio, principal palco e caixa de ressonância do país, em 5 de agosto de 1955, primeiro ano do atentado da rua Tonelero e da morte do major Vaz, o general Canrobert Pereira da Costa, em meio a oficiais reunidos no Clube Militar, condena aber-tamente o que chama de pseudolegalidade e de falsidade democrática, que teriam frustrado a união nacional. Discurso e gesto claramente políticos, legalmente vedados aos militares.

Juscelino reage. Declara que a visão de país de Canrobert é irreal. Grupo de deputados vai ao presidente Café Filho e pede a prisão de Canrobert.

Mas nada acontece. A UDN comanda várias manobras de interesse elei-toral. O debate do modelo de cédula eleitoral ganha as manchetes. Medo de fraude. Carlos Lacerda preconiza adoção do sistema parlamentarista de governo, com um general no posto de primeiro-ministro. Aparece até a incrível Carta Brandi, que teria sido enviada ao então ministro João Goulart, em 1953, relatando entendimentos deste com o presidente ar-gentino Juan Domingo Perón para implantação de república sindicalista no Brasil. Tratava também de contrabando de armas. Inquérito mostrou que era forjada.

A implicância udenista com Goulart era antiga. Por exemplo: quando ministro do Trabalho, circulou, no início de 1954, que pretendia aumen-tar em cem por cento o valor do salário mínimo. A UDN botou a boca no mundo. Também parte da oficialidade militar pressionou. Saiu o contun-dente Manifesto dos Coronéis, texto atribuído ao então coronel Golbery do Couto e Silva. Em 22 de fevereiro de 1954, Goulart deixou o cargo.

Em setembro de 1955, parlamentares udenistas tentaram passar projeto que transferia para o Congresso a eleição do presidente da República, caso nenhum dos candidatos conseguisse maioria absoluta. Perderam, mas não desistiram de atacar e prejudicar Juscelino.

JK era alvo prioritário. Um perigo, sobretudo para os que temiam não ganhar dele.

No documento Juscelino Kubitschek (páginas 117-122)