O vice de Jânio, o udenista mineiro Milton Campos, é derrotado pelo petebista João Goulart, vice de Lott. Hora e vez da descombinada dupla Jan-Jan, Jânio e Jango. Difícil dar certo, em caso de turbulência mais forte.
Carlos Lacerda, maior crítico e adversário-inimigo político de JK, ele-ge-se governador da Guanabara. O pessedista Tancredo Neves perde o governo de Minas para o rival José de Magalhães Pinto, udenista benefi-ciado por dissidência pessedista articulada por José Maria Alkmim, ex-ministro da Fazenda de Juscelino, dolorosamente exonerado no final de junho de 1958. Rivalidade com Tancredo? Escassez de espaço político no PSD? Ressentimento?
Para o bem e para o mal do Brasil, Jânio Quadros vem aí.
Irritado, JK se prepara para o que der e vier. Manda avisar Jânio que reagirá com um soco na cara dele, se houver desfeita ou desrespeito.
Tensão na Esplanada. Jânio era considerado emocionalmente instável, capaz de quase tudo em política. Definição do udenista Afonso Arinos de Melo Franco:
— Jânio é a UDN de porre.
Para os amigos, Juscelino gostou tanto de presidir a República que, antes mesmo de ir embora, já queria voltar, e parecia mais novo na saída do que na chegada. Em 31 de janeiro de 1961, aclamadíssimo por multidão na entrada do Palácio do Planalto, ele passa o cargo:
“Tenho neste momento, como razão maior de orgulho, poder en-tregar a V.Exa. o governo da República em condições muito diver-sas daquelas em que o recebi, no tocante à estabilidade do regime.
Está consolidada, entre nós, a democracia e estabelecida a paz que todos esperamos duradoura.”
Tensão, apreensão. É a vez do imprevisível Jânio, que está entre JK e Jango, faixa presidencial no pescoço. Expectativa de tirar o fôlego, enorme preocu-pação. Alívio: ele opta por texto convencional, breve e elegante.
Mas à noite, em rede de rádio e televisão, bate forte. Bombardeia furio-samente JK e seu governo. Queixa-se de tudo, inclusive da dívida externa herdada e do tal vendaval de insânias do discurso de Mariani, agora seu ministro da Fazenda. Pinta quadro terrível, esbraveja, esmurra a mesa.
Reclama que herdou dívida externa superior a dois bilhões de dólares e inflação alta e renitente, por causa da irresponsabilidade do antecessor.
Que a situação calamitosa impõe máxima austeridade e rigor à gestão econômico-financeira. Anuncia aperto de cintos. Prioridade ao reequi-líbrio das finanças públicas. Diz que vai abrir inquéritos para punir os culpados. Como Juscelino, claro.
Grande parte da classe média adora. Há um salvador meio estranho, in-vestido de ampla autoridade, de fala esquisita, que se propõe desentortar o Brasil. Não tem propostas claras, nem programa de governo nem metas.
Mas, mesmo assim, é enfático na sua singular oratória, parecendo saber tudo o que precisa ser feito. Grande ator. O vocabulário e o modo peculiar de usar os verbos, estruturar as frases e pronunciá-las vão gerar amplo folclore político e também situações embaraçosas e até hilárias. Uma delas começa com visita a uma repartição dos Correios, no Rio de Janeiro. Mui-ta gente, ambiente festivo. Jânio vê um funcionário uniformizado:
— O senhor é carteiro?
— Sou sim, senhor presidente.
— Gosta de sê-lo?
— Só nas cartas, presidente.
Outra, muito conhecida, ironiza sua insólita linguagem teatralizada e fama de paixão por bebidas:
— Por que o senhor está bebendo tanto uísque, doutor Jânio?
— Bebo, porque líquido é. Sólido fosse, comê-lo-ia.
Juscelino:
“A popularidade de que desfrutava, mesmo no último mês do meu quinquênio, era uma realidade que incomodava a oposição e com a qual seus líderes não se conformavam. E, para prová-lo, basta citar um fato. Antes mesmo de se cogitar da minha candidatura à senatória, alguns dirigentes da UDN já haviam concertado um programa cujo objetivo seria o de levar-me ao pelourinho. Nesse sentido, meu governo seria reexaminado tendo-se em vista denun-ciar à nação os ‘calamitosos erros que eu havia cometido’. (...) Não
sou infalível, todos os meus atos suscetíveis de protestos devem ser revistos. Não tenho compromisso com o erro.”93
Ainda o 31 de janeiro de 1961. À noite, JK está a bordo de um qua-drimotor da brasileira Panair, rumo a Paris, com Sarah, Márcia, Maria Estela, o médico Carlos Martins Teixeira e o embaixador Sette Câmara.
Vem o comandante e o convida à cabine para escutar discurso de Jânio pelo rádio. Bastaram algumas frases para desanimá-lo: “Jânio Quadros deblaterava, dando murros na mesa. Atacava-me desabridamente, lendo o discurso elaborado por Clemente Mariani”. Agradece aos pilotos, volta à poltrona, tenta dormir, incomodado com a realidade política ainda pre-sente na América Latina.94
No desembarque em Orly, no gelado inverno parisiense, outra surpre-sa: a ausência de autoridades e diplomatas brasileiros. Única exceção:
o embaixador junto à Unesco, Paulo Carneiro. O medo de contrariar o voluntarioso Jânio Quadros e seu governo já atravessara o Atlântico. Evi-tavam JK. Ninguém queria se arriscar. Os ausentes não haviam mudado:
continuavam com o governo. Sempre com o governo, qualquer um. No modo de ver deles, se alguém mudara e, portanto, tinha alguma culpa, era o próprio JK, que era chefe de governo e deixara de ser. Ou deixara de sê-lo, como diria o novo rei, Jânio da Silva Quadros. O mundo gira, a lusitana roda.
O emocionante, tumultuado e meteórico governo Jânio Quadros agre-dirá e perseguirá implacavelmente JK e sua gestão. Quase sete meses de insinuações, acusações, calúnias, ameaças, inquéritos. Tratam de incrimi-ná-lo em irregularidades administrativas. Tentativa feroz de destruir o mito vivo, afastando-o do caminho presidencial do líder udenista Carlos Lacerda. Acordo político?
Jânio valoriza ao máximo os militares, entregando-lhes comissões de in-quérito criadas em função do discurso moralizador. Despreza o Congresso, a que se refere como “Clube dos Ociosos”.
Roberto Campos registrou passagem reveladora do estilo Jânio Quadros.
Convidado para encontro com ele no Palácio da Alvorada, em horário inesperado, 6h45 da manhã, para opinar sobre política cambial, ouve es-pantado: “O povo não gosta de amar. O povo gosta de odiar. Onde estão os inimigos?”95
Essa visão terá pesado na má vontade e perseguição a Juscelino nos meses seguintes? Que influência terá tido no bizarro, voluntarioso e corajoso presidente a ameaça de levar um soco na cara?
A verdade verdadeira é que o presidente Kubitschek entra na história como referência de democrata, desenvolvimentista, inovador e moder-nizador, principal responsável por realizações espetaculares. Apesar da época politicamente ameaçadora dentro e fora do país, neutralizou o golpismo. Rejeitou o continuísmo, presidiu eleições democráticas. Foi tolerante, não perseguiu ninguém, perdoou. Arauto do desenvolvimen-to, empreendedor público sem igual, otimismo contagiante, incutiu esperança e confiança nos brasileiros, aumentou sua autoestima. E co-mandou a execução, em ritmo acelerado, de Brasília, das estradas, das hidrelétricas, a implantação em disparada da indústria automobilística, das indústrias de base, naval e outras, de todo o audacioso Programa de Metas. De Geraldo Mayrink, biógrafo de JK:
“O Brasil saltou dos automóveis de Juscelino para a vassoura de Jânio. A viagem freou o plano econômico dos cinquenta anos em cinco para uma estonteante marcha à ré, política, em apenas sete meses do governo seguinte. Ao passar a faixa que manteve com tan-to suor, nem Juscelino nem o país sabiam que ela seria jogada no lixo da história em tão pouco tempo.”96
Sua confiança e alegria, o sorriso, o avião presidencial percorrendo o país, na fiscalização direta das obras. O uso da mídia para promover as ações de governo e prestar contas. JK tinha paciência, gosto e dom extraordinário para se comunicar com o povo. Foi o primeiro presidente a utilizar a tele-visão para mostrar e explicar o que estava fazendo e acontecendo.
De novo a palavra segura do historiador Francisco Iglésias:
“Com justeza se deu ao período de 1956 a 1961 o nome de Era JK, como se chamou Era Mauá o começo da segunda metade do século dezenove, quando se impõe a figura do empresário Irineu Evangelista de Sousa, nobilitado com o título de Visconde de Mauá. É razoável falar em Era JK, pois o período se distingue dos anteriores, por suas realizações. Decerto, ele deixou enorme dívi-da a ser paga, mas sacode o marasmo oficial; pode-se questionar a mudança da sede do governo, mas ninguém pode negar-lhe o mérito da operosidade e lucidez, bem como o da isenção, no enca-minhamento sucessório, quase sempre feito de modo tendencioso pelo próprio presidente.”97
JK deixa a Presidência amado pelo povo, internacionalmente famoso e admirado, cidadão do mundo, dono de vasto capital político, pré-can-didato pessedista a presidente da República nas eleições de outubro de 1965. A política deu-lhe também adversários e inimigos poderosos e pe-rigosos, que querem vê-lo pelas costas e longe do poder. Futuro incerto?