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Nasce o PSD

No documento Juscelino Kubitschek (páginas 75-79)

Capítulo 9

O PSD nacional começa a ser estruturado mais tarde, depois da Lei Eleito-ral, publicada em 28 de maio de 1945. A comissão organizadora, presidida por Agamenon Magalhães, reunia-se no apartamento de Benedito Valada-res, na rua Raul Pompeia, Copacabana. Sua primeira convenção, conduzi-da pelo pragmático Valaconduzi-dares, ocorre em 17 de julho de 1945, no Teatro Municipal, Rio de Janeiro. Objetivo: homologar a candidatura presidencial de Dutra.37

Tancredo Neves, oito anos mais novo que Juscelino, seu amigo por mais de quarenta anos e até o fim, relembra:

“Juscelino era uma criatura fascinante, que cativava as suas amiza-des. Era dotado de um sentido caloroso de afetividade e humanida-de. Não havia ninguém que dele se aproximasse que não se rendesse ao carisma do seu espírito extraordinariamente dotado. Homem de cultura, de sensibilidade e de inteligência, ele tinha, para cada um, um tipo de conversa que agradava. Essa amizade se transformou numa solidariedade política inquebrantável. Quando se cuidava de criar novos partidos, tivemos longa conversa para examinar a situ-ação e tomar resoluções. Isso em 1945, começo de 1946. Naquela época, o que se cogitava saber era se nós iríamos para a UDN, para o PSD ou para o PTB. Estudamos juntos a conjuntura mineira e chegamos à conclusão de que nos uniríamos ao PSD, o partido onde tínhamos amigos e também o que se nos afirmava mais con-dizente com a ordem socioeconômica de Minas Gerais. Ele foi, logo em seguida, eleito deputado federal para a Constituinte de 1946 e eu fiquei lutando, até que fui eleito para a Assembleia Mineira.”38 Dutra foi indicado candidato à Presidência da República. Primeiro-se-cretário do partido, Juscelino entrega-se à instalação da sede regional e às filiações. Recorre com sucesso aos comitês de bairro que havia criado quando prefeito. Visita todos. Entra nas casas, conversa com os eleitores.

Consegue vasto número de adesões.

E o esperto Benedito? Também age rápido, concentrando-se no interior.

Escolhe em cada município pessoas de confiança ou grupos políticos

alia-dos, capazes de trazer-lhe maior força política. Poder na cabeça, sonhos de altos voos, agora democráticos. Visão de Tancredo Neves, filiado ao partido desde o começo:

“O PSD foi a transformação da máquina administrativa que o Valadares montou para o seu governo, em partido político, acres-cida realmente de algumas lideranças políticas mais representati-vas. Foi organizado, inventado com o que havia de mais represen-tativo na liderança política do interior de Minas. O Valadares deu um balanço nos seus redutos, verificou aqueles mais fracos, onde os adversários eram mais fortes, e fez a troca. Trouxe os adver-sários para ele e entregou os seus companheiros para a UDN.”39 Mesmo com a faca e o queijo na mão, Valadares não conseguirá plena hegemonia no diretório regional. Juscelino e outras estrelas em ascensão vão abalar sua liderança.

Nas eleições de 2 de dezembro de 1945, o PSD mineiro faz a maior bancada do partido na Constituinte: Benedito Valadares, Luiz Martins Soares, Juscelino Kubitschek, Carlos Luz, Rodrigues Seabra, Pedro Dutra, Bias Fortes, Duque de Mesquita, Israel Pinheiro, João Henrique, Cristiano Machado, Wellington Brandão, Joaquim Libanio, José Maria Alkmim, Augusto Viegas, Gustavo Capanema, Francisco Rodrigues Pereira, Noraldino Lima, Celso Machado e Olinto da Fonseca Filho.

Juscelino é o segundo mais votado.

Para a professora Maria Victoria Benevides, da Universidade de São Paulo, o PSD permaneceu como um estilo de prática política voltada para posições de centro, para o entendimento e o pragmatismo. E a União Democrática Nacional (UDN), sua principal adversária, como um “estado de espírito”.40

O PSD mineiro será essencial na trajetória pública de Juscelino. Essen-cialmente centrista, o partido vai se tornar ícone de um modelo de ação política caracterizado pela habilidade, prudência, moderação, habilidade,

pragmatismo, disposição ao diálogo e entendimento, negociação e conci-liação, objetividade, proximidade do poder. E instinto de sobrevivência sem igual. Deliciosa ironia de Tancredo no tempo de intensa efervescên-cia do debate político-ideológico no país: “Entre a Bíblia e O Capital, o PSD fica com o Diário Oficial”.

Arguto e bem-humorado pessedista, Tancredo dizia que o partido era muito hierarquizado. Todo o mundo sabia a ordem e hora da chegada e as posições. Ninguém precipitava ninguém, ninguém empurrava nin-guém. Era um partido de generais de divisão, de generais de brigada, de coronéis, majores, capitães. E cada um tinha a promoção natural, quando era sua vez. Os novos sabiam esperar e os velhos, como lhes dar opor-tunidades. As dissidências foram episódicas. E a UDN mineira? Para Tancredo, ela era o espírito antiditatorial, o espírito liberal. Reunindo grande parte da nata da intelectualidade mineira, foi quem praticamente doutrinou a democracia em Minas depois da ditadura Vargas. O espírito da UDN era mais jurídico do que político. E o do PSD, realista, ligado ao cotidiano, muito mais político do que jurídico. Muito mais imediatista do que projetado para o futuro. O udenista acreditava muito nos efeitos de sua pregação, de sua doutrinação, explicava.41

O nome de Dutra foi homologado em 17 de julho de 1945, primeira convenção nacional do PSD. Em Belo Horizonte, 8 de outubro seguinte, presente o candidato Dutra, a comissão executiva do PSD indicou os candidatos à Assembleia Nacional Constituinte, entre eles Juscelino.

Vargas é deposto pelas Forças Armadas em 29 de outubro de 1945. É o fim do Estado Novo. Muda tudo. Juscelino deixa a prefeitura de Belo Horizonte. Tancredo Neves:

“A causa mais importante da queda de Vargas foi o grande conflito ideológico entre o governo de Vargas e a nova ordem democrática que se implantava no mundo. Antes do grande conflito mundial, os governos eram mais ou menos autoritários em toda a face da terra.

Não era possível sustentar-se uma luta pela democracia na Europa e manter uma ditadura interna. E toda aquela rapaziada que fez a guerra, toda aquela oficialidade, imbuída da mística democrática, quando chegou ao Brasil, não via justificativa diante de si mesma para apoiar um regime ditatorial, um regime de força.”42

No documento Juscelino Kubitschek (páginas 75-79)