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Senador da República

No documento Juscelino Kubitschek (páginas 153-160)

Capítulo 13

Muito apoio goiano, muito voto, mas não havia vaga. Consegui-la en-volveu operação complexa. JK teve de mobilizar meios para compensar pessoas prejudicadas pelo projeto. Só haveria eleição se o pessedista Taciano Gomes de Mello, médico potiguar que viera para a goiana Pires do Rio nos anos vinte, eleito senador em 1958, renunciasse ao mandato.

Mais ainda: seu suplente, Péricles Pedro da Silva, teria de concordar em não assumi-lo. Faltavam mais de cinco anos. A engenharia política de compensações deu certo. Abriu-se a vaga, o Senado e a Justiça Eleitoral convocaram eleição para completar o mandato. JK se candidatou, tendo como suplente José Feliciano Ferreira.

“— E a candidatura ao Senado, por Goiás, coronel Affonso Heliodoro?

O senhor chefiou parte da campanha, não é?

— Chefiei. Dei a partida, organizei tudo. O presidente queria estar perto de Brasília. Tinha rica experiência a oferecer ao Senado e enorme respeito pelo Congresso. Necessitava de uma tribuna alta. Precisava de condições para se defender. E tam-bém de status político para cuidar do projeto JK-65. Político sem mandato fica fragilizado. Havia também as ameaças do doido do Jânio, com acusações e investigações despropositadas, tanto que deram em nada. No Senado, haveria maior proteção e condições de esclarecer e rebater as sandices dele.

— Mas por que Goiás?

— Por opção do presidente. Pouco antes de deixar o Palácio do Planalto, os jornalistas perguntaram o que ele ia fazer. Respon-deu: ‘Quero ser fazendeiro em Goiás’. A repercussão foi enor-me, os goianos adoraram. Recebemos carta do então senador maranhense Victorino Freire, grande amigo do presidente, comunicando que iria renunciar ao cargo para que o Juscelino pudesse se candidatar no seu lugar, pelo Maranhão. Uma coisa comovente. A ideia da senatória vazou, empolgou Goiás, mas não havia vaga.

— Foi então que o senador Taciano Gomes de Mello cedeu o lugar.

Renunciou ao mandato em 10 de janeiro de 1961. Dizem que ganhou cartório em Brasília.

— Ele renunciou, abrindo espaço para a candidatura do presiden-te. Foi complicado. O Taciano foi nomeado juiz do Tribunal de Contas de Brasília. Juscelino foi eleito em 4 de junho de 1961.

Uma vitória apoteótica, consagradora.”100

Adorava Brasília, não desejava afastar-se da política, sonhava forte com o seu JK-65. A cadeira do Senado era ponto fundamental da construção dos alicerces do projeto. Refúgio, imunidade, voz. Sem ela, no envene-nado ambiente vigente, ainda influenciado pelos reflexos da Guerra Fria e pela propensão ao golpismo de parte das Forças Armadas e de muitos udenistas, estaria muito vulnerável. Correria o risco, com a passagem do tempo, de ficar marginalizado. A política é cruel. Espaço vazio, espaço ocupado. Não há vácuo duradouro. Dizem em Minas que no caminho da porta da casa de político sem mandato a grama cresce depressa.

JK não demorou na Europa. Queria desencadear a campanha, precisava vigiar os movimentos de Jânio. Apesar de considerado imbatível, mer-gulhou na eleição com entusiasmo quase infantil. Montou escritório em Goiânia, alugou pequeno avião, visitou a maioria dos municípios. Dis-cursou, negociou, plantou sementes políticas, deixou rastro de esperança.

Dura maratona. Aconteceu de quase tudo.

Instalou escritório eleitoral em Goiânia, entregou a Affonso Heliodoro.

Mas precisava de alguém confiável e familiarizado com a política goiana.

Preferencialmente um articulador hábil e operativo. Indicaram o jorna-lista Eliézer Penna, ex-secretário estadual de Justiça, homem dinâmico e cativante. Corte para Goiânia, 8 de junho de 2010, diálogo com Penna, 85 anos:

“— Por que JK ao Senado por Goiás?

— Ah!, sem o mandato de presidente da República, ele pre-cisava de outro. O Jânio veio como uma fera pra cima dele.

No Senado, grande nome da República, grande orador, ho-mem de muita projeção, ia botar um freio no Jânio. Apesar de

que o Jânio era meio doido. O Juscelino era um sujeito dócil, muito liberal e compreensivo, cordial. Mas tinha muita cora-gem. Ele me contou que, se o Jânio tivesse faltado ao respeito na entrega do cargo, ia meter-lhe a mão na cara na frente de todo o mundo. E era homem pra isso! Foi oficial da Polícia Militar de Minas, participou da Revolução de 1932. Um ho-mem muito sério e responsável.

— Como foi a campanha?

— Foi água de morro abaixo! Fácil! O povo adorava o Juscelino.

— É verdade que furtaram o dinheiro dele num comício?

— Foi lá em Inhumas. Carregaram o JK na chegada e, quando ele meteu a mão no bolso depois, cadê o dinheiro?! (Risos.) Tinha uns 120 cruzeiros, tudo trocado.

Dinheiro miúdo, pra dar uma gorjeta, essas coisas. Engraçado:

nunca vi o Juscelino enfiar a mão no bolso. Lá em Caldas Novas ele molhou as mãos naquela água quente, e eu pensei: ‘Agora ele põe as mãos nos bolsos para enxugar’. Que nada! Ele enxugou foi nos cabelos. Eta mineiro! (Risos.)

— Como vocês organizaram a campanha?

— Pegou fogo foi de março a 4 de junho de 61. Havia um es-critório eleitoral, em Goiânia. O Juscelino ficava no Hotel Bandeirantes, quinto andar. Levantava às seis da manhã e co-meçava a agitar todo o mundo. Decidia rápido e certo. E ele tinha uma turma que era de Minas. Além do coronel Affonso Heliodoro, me lembro do Fausto Fonseca, que cuidava do di-nheiro. Fizemos uma lista dos municípios que considerávamos de visita obrigatória, seus problemas e aspirações. Eu preparava uma lista dos principais líderes de cada lugar pra ele conhecer e citar nos discursos. Fazia o maior sucesso. Mandava carta as-sinada por ele para todos os líderes municipais, parlamentares, jornalistas, gente influente.

— Muita viagem? Naquela época, Goiás era maior ainda, pois in-cluía Tocantins.

— Viajamos de avião e de carro. Eram três ou quatro municí-pios por dia. Uma correria. Muita ação, muito movimento.

Andamos muito, fomos às maiores cidades e às pequenas também. O homem não parava. Muita gente vinha a Goiânia para encontrá-lo. Era fácil trabalhar com ele. Muito doce, mas muito enérgico, afirmativo. Não tinha preguiça, estava sempre com pressa. Um líder natural. Você sabe: assessor sem apoio não vale nada. E ele apoiava a gente pra valer, va-lorizava. Tudo que precisávamos, era só telefonar e ele man-dava na hora. Era impressionante.

— É verdade que JK não perdia o bom humor?

— Sempre alegre, animado, apressado. E tem outra coisa: vestia-se impecavelmente. Nunca vi ninguém igual. Elegante, tudo bem combinado, os sapatos sempre limpos e brilhantes. Quem en-graxava era o Geraldo Ribeiro, motorista dele.”

Nas eleições de 4 de junho de 1961, JK venceu o destacado líder polí-tico Wagner Estelita Campos, do PDC, apoiado pelo presidente Jânio Quadros. Obteve 84,5% dos votos.

Vai para o Senado, mas não tira os olhos das eleições de 3 de outubro de 1965 nem dos movimentos e ameaças vindas principalmente de Jânio e de seu tempestuoso governo.

No discurso de posse no Senado, em 13 de julho de 1961, impressionou, marcou. Trechos:

“Felizmente, a obediência aos comandos que nos impunham reces-so, sonolência, perigosa passividade, não foi seguida, acatada, con-siderada justa e compreensível. E não só materialmente tocamos nos pontos críticos de nossa estrutura para fortificá-los, como re-cebemos e seguimos as inspirações de um novo espírito afirmativo, e nos deixamos contaminar pela ambição mais nobre, pelo sopro da revolução do desenvolvimento em que se contém o objetivo de libertar os brasileiros de uma pobreza crônica, pobreza que vem mantendo milhões de patrícios nossos, de homens como nós – os mais heroicos e os mais desamparados dos brasileiros –, numa su-jeição total, numa trágica e inqualificável estagnação.

Aqui estou, Sr. Presidente, para confessar a minha parte de cul-pa nessa revolução do nosso tempo, nessa insubmissão a cânones e preconceitos que impediam a marcha do Brasil para uma nova etapa de sua existência. (Palmas. Muito bem.) Sou réu confesso des-sa trama libertária. E foi por assim considerar-me que abandonei o repouso no estrangeiro e vim submeter-me ao julgamento dos meus concidadãos no pleito livre que se verificou em Goiás e me conferiu a honra de ser um dos senadores da República.”

Permanece no Senado até 8 de junho de 1964, quase três anos. Homem de ação, continua sem maior apetite pela atividade legislativa, pela tribu-na, pelos acertos e jogos da rotina parlamentar. Mas faz política o tempo todo, dentro e principalmente fora do Congresso. Mergulha fundo no PSD, seu partido, participa de tudo, articula entendimentos, constrói alianças e apoios, sempre voltado para o retorno ao Palácio do Planalto.

O JK-65 mantém ativos escritórios políticos em Brasília, Rio, São Paulo e Belo Horizonte. Affonso Heliodoro dos Santos e outros auxiliares de confiança trabalham sem parar.

Kubitschek aceita convite da Organização dos Estados Americanos (OEA) para participar da coordenação da Aliança para o Progresso, pro-grama derivado da Operação Pan-Americana, por iniciativa do presiden-te John F. Kennedy, de quem era amigo.

Forças terríveis

Em 25 de agosto de 1961, Jânio, alegando misteriosas “forças terríveis”, faz lacônica carta manuscrita ao Congresso Nacional, renunciando ao mandato presidencial. Decisão polêmica, ainda não cabalmente esclare-cida. Muitos acreditam tratar-se de tentativa de golpe, aproveitando a circunstância de que o vice-presidente João Goulart, que visitava oficial-mente a China comunista, provaveloficial-mente teria a posse vetada pelo poder

militar. Jânio então voltaria nos ombros de seu exército de eleitores para chefiar governo forte, acima do Congresso, instituição que desprezava.

Outros creem que tudo não passou foi mesmo de tresloucado gesto ou até de efeito de consumo excessivo de bebida alcoólica.

Mas é fato que Jânio sonhava desvencilhar-se das críticas, pressões e limi-tações impostas a seu governo pelo Congresso, a que chamava de “Clube dos Ociosos”, como visto. Queria comandar um Executivo forte e sem peias. Governo forte, Parlamento fraco. Seu final de agosto de 1961 foi de muita emoção e irritação. Primeiro, desentendeu-se com o demolidor político udenista Carlos Lacerda. Este o acusou publicamente de prepa-rar golpe. Logo depois, tomou conhecimento de que o deputado federal pessedista Carlos Murilo Felício dos Santos, primo e confidente de JK, tinha em mãos lista com número de assinaturas mais do que suficien-te para instaurar Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), focada no suposto golpismo presidencial. Para o combativo e mercurial Jânio, um desaforo e também um perigo. Todos sabem como uma CPI começa, mas ninguém sabe como acaba.

Temores ocultos, frustrado golpe branco, maluquice ou álcool demais, o certo é que Jânio não pôde voltar.

As lideranças militares realmente vetaram a investidura de Jango. Viam nela a volta do getulismo e até a ameaça de uma república sindicalista.

Instala-se crise político-militar. Assume interinamente o presidente da Câmara dos Deputados, Paschoal Ranieri Mazzilli. Forças fortes contra e a favor da legalidade, clima de quase guerra civil. Diante do impasse, re-correm a Tancredo Neves e a outros líderes políticos. Negocia-se, então, a troca do presidencialismo pelo parlamentarismo. Jango tomaria posse, mas não governaria. Um arranjo palatável para as Forças Armadas.

Relutante, Jango absorve a solução. Na manga, um trunfo: a emenda constitucional do parlamentarismo previa sua confirmação em plebiscito.

Torna-se presidente da República, chefe de Estado, papel semelhante ao da rainha da Inglaterra. Quem comanda o governo é o primeiro-ministro Tancredo Neves, chefe do gabinete parlamentarista formado em 8 de se-tembro de 1961. Além de desestabilizar politicamente o país, quase jogá-lo em ditadura militar ou mesmo guerra civil, o tresjogá-loucado gesto janista também custou caro à economia, particularmente às finanças públicas.

Palavra para Carlos Lacerda, consogro de Clemente Mariani, ministro da Fazenda de Jânio, que certamente exagerou:

“Clemente Mariani me contou e repetiu outro dia que durante os quase 30 dias (sic) que durou a crise da renúncia do Jânio, para manter o Brasil vivo, quer dizer, o Brasil em condições de produzir e trabalhar, teve que emitir mais dinheiro do que nos cinco anos do quinquênio de Juscelino.”101

No documento Juscelino Kubitschek (páginas 153-160)