UM ENCONTRO EM 1956
“K ...K ...K ...Katie... noc...c...c...curral...”, ele estará cantando. E n tão fará um a pausa, pensará um instante. “Que loucura!”, dirá. “É tudo um a loucura!” Assim, com sua palavra favorita, expressará tanto a perpétua surpresa diante dos disparates d o mundo como seu prazer com eles.
E um tipo travesso de oitenta e quatro anos, c o m pelede criança, cabelos brancos esvoaçantes, a cabeça lig eiram en te inclinada para um lado com o todos os que são m uito su rdo s e um elegante cachecol em volta do pescoço. V ive num quartin h o apertado, num a m inúscula pension de famille do sul da França. A q u i, mal se pode andar: junto à cama fica a mesa, com um a prateleira parafusada do lado, para os elásticos de borracha de vários tamanhos que ele am ealha com o um esquilo; debaixo dela, u m conjunto de instru m entos de gravura; sobre a m esa um a lente d e aumento, um a
bizarra farsa vitoriana — Two in the M orning, ou M y Awful D ad — um a colher e um pacote de sem entes de mostarda tonificantes. N o chão, pilhas de livros e revistas; no guarda-louça, pacotes de cartas bem arrumados, com rótulos “para D use”, “para Stanislavs k i”, “para Isadora Duncan”; pelas paredes, na cabeceira da cama, no espelho, em cada prego ou parafuso, m aços de recortes de jornal cheios de comentários mordazes a lápis verm elho grosso: “B estei ra!” “Absurdo!” e, só ocasionalmente, “A final!”
Gordon Craig são dois. Um é o ator — vê-se logo por seus chapéus de abas largas e o albornoz árabe, que ele joga em torno de si como um manto. Tem sólidas raízes no teatro — sua mãe era Ellen Terry, seu primo é John G uielgud — quando jovem repre sentou com Henry Irving. Foi um a experiência que nunca esque ceu. Seus olhos brilham, levanta-se de um salto com excitação e descreve numa vívida pantomima com o Irving amarrava os sapatos em The Bells ou como Irving dava chutes no ar enquanto via seu inimigo ser levado à guilhotina em The L yons Mail.
No extremo oposto está o outro Gordon Craig, o homem que escreveu que os atores deviam ser abolidos e substituídos por marionetes, e que não devia haver m ais cenário, apenas telas móveis. Craig amava o teatro de Irving — suas florestas pintadas, trovões feitos com folhas de zinco, m elodram as ingênuos — mas ao mesmo tempo sonhava com outro teatro em que todos os elementos convivessem harm oniosam ente e a arte fosse uma religião. Essa idéia da arte pela arte desapareceu do mundo: hoje em dia tantos bons artistas são ricos e bem -sucedidos que quase nos esquecemos de que até pouco tem po atrás os artistas eram vistos como seres especiais e sua arte com o algo à parte da vida.
Há cerca de meio século Craig abandonou a interpretação para ser cenógrafo e diretor de alguns espetáculos cujo objetivo era simplesmente criar beleza no palco. Esse punhado de espetáculos foi visto por poucas pessoas m as, graças à atenção despertada pelas teorias e desenhos que ele publicou na m esm a época, sua influência estendeu-se pelo mundo inteiro, atingindo todos os teatros com
pretensões a um trabalho sério. Hoje, em m uitos lugares, seunome já está esquecido, mas os diretores e cenógrafos estão apenas com eçando a captar suas idéias. E claro que no Teatro de Arte de M oscou, onde fez os cenários de H am let, ainda se lembram dele. Velhos m aquinistas falam de Craig com grande respeito e suas m aquetes são reverenciadas no museu do teatro.
Antes da Prim eira Guerra Mundial, Craig já havia encenado seu últim o espetáculo. Retirou-se para a Itália, editou um a revista, The
M asque, desferindo bordoadas em tudo que considerava medíocre
e falso, construiu para si mesmo uma m aquete e começou a fazer experiências com um sistema de cenografia baseado em telas e ilum inação. A pureza das telas, a beleza form al das equações das quais provinham , fascinaram-no com pletam ente; apesar de muitos convites, nunca m ais trabalhou num teatro real novamente.
Insinuaram maldosamente que ele não queria ver suas idéias inviáveis postas à prova; não é verdade. Craig nunca retomou ao teatro porque recusava qualquer com prom isso com a prática. Não queria nada m enos do que a perfeição, e não vendo modo de atingi-la no teatro comercial, buscou-a em si m esmo.
A gora, em seu quartinho, como em tantos outros quaitos ao longo dos anos, em Florença, em Rapallo, em Paris, sua vida é auto-suficiente. Estuda, escreve, desenha; devora catálogos de livrarias, coleciona obscuras farsas vitorianas, encadernando-as com estranhas e belas capas que ele mesm o desenha. Está escre vendo um a peça, Drame para Loucos, com 365 cenas para mario netes, para a qual já desenhou os cenários e figurinos, desenhos encantadores em brilhantes cores prim árias, bem com o imaculadas plantas m ostrando como construir os cenários e com o fazer as cordas dos bonecos passarem pelas portas. Faz constantes revisões, • tom ando um a cena de uma das caixas no chão, mudando uma palavra aqui, uma vírgula ali, até que esteja tão próxima da perfe ição quanto possível. Pode nunca ser lida nem encenada, mas ' está completa.
D urante m uito tempo Craig foi ignorado em seu próprio país. M as não guarda nenhum rancor. C onfessa que há dias em que se
sente triste, cansado e velho— e vive sem pre em extrema pobreza. Tom a então uma colherada de sem entes de mostarda e imediata m ente recupera sua grande energia: pode ser um novo visitante, a cor da luz, o sopro da batalha, o sabor do vinho, e lá está ele de novo no topo do mundo. “É um a loucura, o teatro”, diz ele. “De qualquer modo, é melhor do que a Igreja.” No momento seguinte já está sonhando com uma nova produção de A Tempestade ou de
M acbeth, e vai começar a fazer algum as anotações, talvez um
desenho ou outro.
Dizem que é o ouro escondido nos cofres dos bancos que faz a prosperidade de uma nação; dizem que é o sacerdote guardião da cham a secreta que mantém a religião viva. O teatro tem poucos sábios e poucos defensores zelosos de seus ideais; temos o dever de prezar e venerar Gordon Craig.