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CAPÍTULO 5 PNAISP: entre a saúde pública e a justiça criminal

5.3 Governo da difícil relação entre saúde e justiça

enquanto apenas 16% das pessoas privadas de liberdade em Roraima são presos provisórios, em Sergipe 7 em cada 10 presos encontram-se nessa situação. Além deste estado, outras sete Unidades da Federação têm uma quantidade maior de presos provisórios do que condenados: Maranhão, Bahia, Piauí, Pernambuco, Amazonas, Minas Gerais e Mato Grosso.

(MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2014a, p. 21)

Tanto a falta de assistência jurídica quanto a quantidade de presos provisórios, a ponto de chegar a ultrapassar o número de presos condenados em algumas unidades prisionais de alguns estados do país, demonstram a ilegalidade do funcionamento do sistema prisional. Assim, tanto do ponto de vista da justiça quanto do ponto de vista da saúde podemos dizer que o dispositivo-prisão, embora seja legal, pois está contemplado no ordenamento jurídico penal, possui um funcionamento ilegal, sob o qual vive a população privada de liberdade.

Ora, se a lei não é suficiente para assegurar os direitos, principalmente o direito à saúde das pessoas privadas de liberdade, então podemos concluir que as vidas nas prisões brasileiras estão sujeitadas à ordem do biopoder, que gira em torno da vida que deve viver e da vida que deve morrer. Esse contexto pode ser resumido pela palavra de ordem corrente na sociedade brasileira que afirma que

―bandido bom é bandido morto‖. Trata-se de uma expressão que remete à figura do Homo Sacer descrita por Giorgio Agamben no livro Homo Sacer- o poder soberano e a vida nua, cuja vida por estar fora do direito humano e do direito divino é matável (AGAMBEN, 2012).

sociedade, isto é, a segurança necessária para a governamentalidade59 da sociedade.

O tema da governamentalidade surge nos estudos foucaultianos a partir do momento em que a população passou a ser um problema de segurança para as práticas de governo, na medida em que nem o poder soberano nem o poder disciplinar eram suficientes para governá-la, o que não significa o desaparecimento completo dessas formas de poder. Nesse sentido, Foucault (1995) buscou inventariar essa nova forma de exercício de poder que se desenvolve por meio da relação entre segurança, população e governo. Esse inventário, mostrou que a partir do século XVIII e XIX, período da emergência do biopoder, a atividade de governar pode ser definida da seguinte forma:

uma maneira correta de dispor as coisas para conduzí-las não ao bem comum, como diziam os textos juristas, mas a um objetivo adequado a cada uma das coisas a governar [homem e meio] (...) não se trata de impor a lei aos homens, mas de dispor as coisas, isto é, utilizar mais táticas do que leis, ou utilizar ao máximo as leis como táticas. Fazer, por vários meios, com que determinados fins possam ser atingidos. (FOUCAULT, 1995, p. 284)

Nesse sentido, governar significa mais do que reinar ou julgar a partir da lei, uma vez que a ação de governar, na modernidade, diz respeito ao governo das

59 Foucault utiliza o termo ―governamentalidade‖ para referir-se ao objeto de estudo das maneiras de governar. Para o autor tal termo quer dizer três coisas. ―Por governamentalidade, eu entendo o conjunto constituído pelas instituições, procedimentos, análises e reflexões, cálculos e táticas que permitem exercer esta forma de exercício do poder que tem por objetivo principal a população, de forma geral, a economia política, por instrumento técnico essencial, os dispositivos de segurança. Em segundo lugar, por governarmentalidade, entendo a tendência que em todo o Ocidente conduziu incessantemente, durante muito tempo, à preeminência desse tipo de poder que se pode chamar de

"governo" sobre todos os outros - soberania, disciplina etc. [...]. Enfim, por governamentalidade, eu creio que seria preciso entender o resultado do processo através do qual o Estado de justiça da Idade Média, que se tornou nos séculos XVI e XVII Estado administrativo, foi pouco a pouco 'governamentalizado‘‖. [...] A governamentalidade moderna coloca pela primeira vez o problema da

"população", isto é, não a soma dos sujeitos de um território, o conjunto de sujeitos de direito ou a categoria geral da "espécie humana", mas o objeto construído pela gestão política global da vida dos indivíduo (biopolítica). Essa biopolítica implica, entretanto, não somente uma gestão da população, mas um controle das estratégias que os indivíduos, na sua liberdade, podem ter em relação a eles mesmos e uns em relação aos outros. As tecnologias governamentais concernem, portanto, também ao governo da educação e da transformação dos indivíduos, àquele das relações familiares e àquele das instituições. É por essa razão que Foucault estende a análise da governamentalidade dos outro para uma análise do governo de si: "Eu chamo 'governamentalidade' o encontro entre as técnicas de dominação exercidas sobre os outros e as técnicas de si"‖. (REVEL, 2005, p. 54-55).

relações que os homens têm com o seu meio, pois se trata do governo da vida.

Assim, se governa por meio de procedimentos, técnicas, táticas as condutas dos homens. Nessa perspectiva da governamentalidade, que põe em relação segurança, população e governo, podemos pensar a relação antagônica não dialética entre o platô da justiça e o platô da saúde.

Podemos ver essa relação antagônica não dialética a partir do grave problema das doenças infectocontagiosas nos presídios. A incidência desproporcional dessas doenças nos presídios em relação à população em geral revela uma dificuldade de combatê-las no interior das prisões. Assim,

ao contrário do que se poderia supor tendo em vista uma população fechada, aparentemente sob controle, são inúmeras as dificuldades para o desenvolvimento de ações de saúde nas prisões. Nesse ambiente onde a circulação de detentos é restrita e os profissionais de saúde evitam circular, os agentes de segurança penitenciária terminam por exercer um papel diferenciado no que se refere à regulação do acesso à saúde. (BRASIL, 2008, 1888).

A dinâmica institucional da prisão põe saúde e justiça numa relação antagônica não dialética. Essa dinâmica (BRASIL, 2008) que gira em torno da segurança distingue dois grupos antagônicos: por um lado, os agentes penitenciários, que têm como tarefa salvaguardar a segurança mantendo sob controle a prisão, por outro lado, os detentos que tentam burlar e escapar a este controle que incide sobre seus corpos. O grupo de detentos, por sua vez, se divide em grupos distintos às vezes rivais, por exemplo, em facção X e facção Y, com as quais os agentes penitenciários estabelecem uma melhor ou pior relação, conforme podemos ver na fala de um agente penitenciário:

o preso da facção ‗X‘ é mais agradecido à pessoa, já o de facção ‗Y‘ acha que o Estado tem obrigação de atender. Com a facção ‗Y‘ a gente não faz mais que a obrigação. Eu digo pra eles: ‗Tenho que zelar por vocês, mas não vamos abusar também‘ (BRASIL, 2008, p. 1892)

Essa realidade conflituosa e tensa entre agentes e detentos, que caracteriza o ambiente carcerário impõe ―aos sujeitos uma tendência a dar a prioridade aos problemas ligados à segurança e à sobrevivência imediata para agentes de segurança penitenciária e presos, respectivamente, em detrimento das questões relacionadas à saúde‖ (BRASIL, 2008, p. 1888). Entendemos por problemas de segurança tudo que se refere aos possíveis conflitos provenientes das rivalidades entre os diversos grupos de detentos, bem como a rivalidade desses grupos com os agentes penitenciários que têm como ofício controlá-los.

É nessa rivalidade que gira em torno da segurança, ou seja, da necessidade de proteção da integridade física tanto dos agentes quanto dos detentos, que se encontram os atores de saúde, cujas funções de assistência à saúde ficam relegadas ao segundo plano de prioridade. Isso ocorre porque, por estarem em contato cotidiano com os presos

muitas vezes são os agentes de segurança penitenciária que julgam a necessidade de atendimento a partir do pedido do preso e atuam facilitando ou dificultando este acesso. Por outro lado, no ambiente confinado das prisões, [os agentes] estão em contato cotidiano e direto com os presos e expostos, como eles, aos riscos infecciosos, especialmente à tuberculose.

(BRASIL, 2008, p. 1888).

Esse é o ponto que põe, no dispositivo-prisão, segurança e saúde numa relação antagônica não dialética. Como a segurança vem hierarquicamente em primeiro lugar em relação à saúde isso repercute na avaliação que agentes e detentos fazem dos riscos de vida provenientes das doenças a que estão expostos, bem como na recepção das ações de saúde informativas e preventivas relativas, por exemplo, às moléstias contagiosas. (BRASIL, 2008).

Tanto os detentos quantos os agentes percebem os riscos de saúde provenientes da sujeira presente no ambiente carcerário em que estão expostos, como leptospirose, sarna, e infecções bacterianas, como também os riscos relacionados à tuberculose, a hepatite e a AIDS. Esses riscos são considerados como ameaças contagiosas produzidas pelo contato forçado entre detentos e agentes pela própria condição de confinamento. No entanto, isso gera uma

distorção, na medida em que ―para os agentes de segurança penitenciária, a experiência da confrontação com o vírus e as doenças no exercício profissional vem confirmar o imaginário: a concretização da ameaça que representa a relação com os detentos‖ (BRASIL, 2008, p. 1891).

Isso suscita medidas protetivas por parte dos agentes que reforçam preconceitos em relação aos detentos. Essas medidas consistem em:

identificar os doentes: os presos são vistos como os principais transmissores de doença. Os homossexuais em especial, no caso da AIDS.

Manter distância dos presos: principalmente daqueles identificados como doentes.

prender a respiração ao entrar nas celas ou ao abrir o camburão: último recurso para manter a separação e impedir a penetração do mal, tanto no plano do corpo como no das identidades. (BRASIL, 2008, p. 1891).

Assim, essa ameaça de contágio somada a todos os problemas relativos à segurança demarca cada vez mais a distância entre presos e agentes. O problema de saúde a que ambos estão submetidos não é percebido pelos agentes penitenciários como ponto de convergência, mas de segregação (BRASIL, 2008).

Isso repercute no acesso à saúde por parte dos presos, visto que os agentes penitenciários desconfiam de suas queixas quanto aos seus estados de saúde, já que os consideram dissimulados e nem sempre merecedores de cuidados, por mais que sejam reconhecidos formalmente como sujeitos de direitos. Por exemplo, o sofrimento psíquico não é considerado como motivo suficiente para acessar a assistência à saúde mental, já que do ponto de vista dos agentes penitenciários é necessário que os detentos enfermos apresentem sintomas verificáveis (BRASIL, 2008). Desta forma,

a desvalorização do preso e de sua queixa é acompanhada de uma avaliação informal da demanda de assistência por parte dos agentes de segurança penitenciária, o que acaba por resultar em uma modulação do acesso ao serviço baseada em critérios estranhos à saúde. (BRASIL, 2008, p. 1892)

Nesse contexto, a assistência à saúde é vista pelos agentes penitenciários muito mais como uma questão de mérito do que de direito. Na condição de merecimento a assistência à saúde se torna ―moeda de troca‖ para garantir a disciplina na prisão. Nessa lógica carcerária meritocrática e disciplinar aos profissionais de saúde cabem os cuidados e a recuperação dos presos, porém a segurança cabe aos agentes penitenciários, que vão decidir quem merece ou não merece ser cuidado investindo na vida ou deixando morrer.

Portanto, submetidos a essa lógica carcerária, os profissionais de saúde ficam a mercê da avaliação que os agentes penitenciários fazem dos detentos para exercer suas funções. É nesse sentido que a saúde fica em segundo plano. Desta forma, podemos dizer que o platô da saúde e o platô da justiça travam uma relação antagônica não dialética no dispositivo prisional.

Tal antagonismo não dialético entre os platôs da saúde e da justiça presente nas prisões se replica no âmbito governamental como pode ser visto na cartografia da PNAISP (capítulo 2), a respeito do fio dental que serviu como analisador60 desse antagonismo. Essa situação em torno do fio dental demonstrou que se assistência à saúde está subordinada à lógica da segurança no âmbito do território prisional, que envolve as prisões, bem como as instâncias de governo do Ministério da Saúde (MS) e do Ministério da Justiça (MJ).

A difícil relação entre o platô da saúde e o platô da justiça é um problema que já comparecia desde o período de formulação do PNSSP e passou a ser problematizada a partir do Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais do Ministério da Saúde que encontrava dificuldade para levar as ações de cuidados (distribuir preservativo, ofertar testagem) para o sistema penitenciário. O PNSSP foi elaborado no seio dessa relação tensa entre os dois platôs.

Como vimos na cartografia da saúde para o sistema prisional, historicamente a assistência à saúde destinada à população privada de liberdade era fornecida pela justiça na forma de atendimento médico, farmacêutico e odontológico, já que essa

60 O analisador utilizado na Análise Institucional “é aquele ou aquilo que provoca análise, quebra, separação, explicitação dos elementos de dada realidade institucional. Esse conceito é inseparável do conceito de transversalidade, porque é numa situação de questionamento das hierarquias e especialismos que o analisador surge como uma ferramenta analítica que deslocaliza ou despessoaliza a intervenção‖ (ROSSI e PASSOS, 2014, 168).

população, inclusive no que diz respeito à saúde, estava sob sua jurisdição.

Trancada nas prisões essa população sequer era reconhecida como munícipe ganhando este estatuto somente em 2010, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) reconheceu as pessoas privadas de liberdade como população residente, que passou a ser reconhecida não mais como um subgrupo populacional sob a tutela do Judiciário, porém como população munícipe com direito ao SUS.

Iniciada a partir da elaboração do PNSSP, a problematização da relação entre saúde e justiça, as tensões passaram a se expressar de diversas maneiras, por exemplo, no que diz respeito ao financiamento do PNSSP coube ao Ministério da Saúde custear 70% do recurso para as ações de saúde e ao Ministério da Justiça o equivalente a 30% para fornecer a infraestrutura necessária à realização das ações de saúde. Mesmo com o Ministério da Saúde custeando 70% dos recursos o financiamento ficava muito aquém para sustentar o PNSSP, conforme demonstrou a cartografia (capítulo1). Desta forma, apesar da institucionalização do PNSSP em 2003, que propôs outra lógica de funcionamento de oferta de saúde para a população prisional pautada pelo SUS por meio da atenção básica, até 2014, ano da promulgação da PNAISP, havia estados em que a prestação de saúde ainda era ofertada pela secretaria de justiça.

Essa situação sugere que a relação antagônica não dialética entre saúde e justiça na esfera federal, estadual e municipal de governo representa um desinteresse em assistir à população privada de liberdade, já que não se destinava recurso financeiro suficiente para a implementação do PNSSP. É importante ressaltar que a indução de políticas para os estados e municípios por parte do governo federal ocorre, principalmente, por meio da transferência de recursos financeiros para esses entes da federação. Por outro lado, como vimos na cartografia (capítulo1), do pouco recurso transferido da união para os estados e municípios grande parte do mesmo não foi gasto e nem sequer empenhado (2% dos 35 milhões repassados até 2008).

Assim como no dispositivo-prisão o antagonismo entre saúde e justiça no âmbito do governo federal, estadual e municipal remete a um mesmo problema: o da responsabilidade pela saúde das pessoas privadas de liberdade. Ora, se a população privada de liberdade está sob a tutela do Estado brasileiro, logo, os três

entes federativos são responsáveis pela saúde dessa população, conforme a esfera de atuação definida pelo SUS61 para o governo federal, estadual e municipal. Esse problema está na base da dificuldade de acesso por parte da população privada de liberdade às ações de saúde, ou melhor, ao SUS.

Como a vida da população prisional está enquadrada nas malhas do biopoder, esse modo de exercício de poder coloca para a construção de políticas públicas no contemporâneo uma questão ético/política de ―saber como será possível evitar nas práticas de cuidado e governo, cujo poder não pode deixar de ser exercido, os efeitos de dominação e submissão‖ (TEDESCO e RODRIGUES, 2009, p. 47). Entendemos que essa questão ético-política implica a individuação da política de saúde para o sistema prisional.

Sabendo que a PNAISP é uma política de saúde destinada à população encarcerada em estabelecimentos prisionais vivendo em estado de dominação é necessário estabelecer as táticas e estratégias de resistência, por meio das quais tal política poderá resistir ao biopoder exercido pelo Estado e se desviar dos estados de dominação lá onde ela deverá se efetivar, ou seja, no território prisional. Sobre o tema da resistência é necessário considerar três pontos:

a) a resistência não é ―anterior ao poder que ela enfrenta. Ela é coextensiva a ele e absolutamente contemporânea‖: isso significa que não há anterioridade lógica ou cronológica da resistência - o par resistência/poder não é o par liberdade/dominação; b) a resistência deve apresentar as mesmas características que o poder: ―tão inventiva, tão móvel, tão produtiva quanto ele [...] como ele, ela se organiza, se consolida [...] como ele, ela vem de 'baixo' e se distribui estrategicamente‖: a resistência não vem, portanto, do exterior do poder, ela realmente se assemelha a ele por assumir as suas características - o que não quer dizer que ela não seja possível; c) as resistências podem, por sua vez, fundar novas relações de poder, tanto quanto novas relações de poder podem, inversamente, suscitar a invenção de novas formas de resistência: ―Elas constituem reciprocamente uma espécie de limite permanente, de ponto de inversão possível [...] De fato, entre relações de poder e estratégia de luta há atração recíproca, encadeamento indefinido e inversão perpétua.‖ (REVEL, 2005, p.

75-76)

61 Conforme a da Organização, da Direção e da Gestão Art. 8º: As ações e serviços de saúde, executados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), seja diretamente ou mediante participação complementar da iniciativa privada, serão organizados de forma regionalizada e hierarquizada em níveis de complexidade crescente. (BRASIL, 1988)

Sendo assim, como um modo de exercício de poder, o biopoder se instala como jogo, no qual comparecem estados de dominação e práticas de resistência, isto é, de libertação aos estados de dominação. Esse jogo se configura na combinação entre segurança, população e governo, na qual as resistências estão presentes com seus desvios e inversão das relações de poder. Ora, as resistências estão para o pensamento de Foucault assim como a potência está para o pensamento de Negri, isto é, inventando modos de escapar ao poder constituído.

Para pensar as resistências aos estados de dominação que podem emergir no exercício do biopoder retomamos o conceito de governamentalidade, uma vez que nos permite entrever modos possíveis de desvios e reversão no jogo de poder.

Se por meio dos estudos do poder soberano e do poder disciplinar e biopoder Foucault mostrou como somos objetivados por técnicas de poder e governados nas relações de poder, através do conceito de governamentalidade ele traz outra perspectiva para fazer valer a liberdade dos sujeitos na relação consigo mesmo, com os outros e, consequentemente, com os estabelecimentos institucionais destinados a governá-los.

Sendo o Biopoder exercido na forma de governo, já que se realiza muito mais por meio de táticas do que de leis, Foucault (FOUCAULT, 1984 [2004]), mostra que não somos apenas manipulados nas relações de governo, porém sujeitos politicamente ativos, visto que também utilizamos táticas para escapar aos estados de dominação. Não podemos nos esquecer de que o biopoder é constituído de uma anátomo-política como também de uma biopolítica e é no âmbito da biopolítica que a vida é disputada por meios de práticas de resistência. Na cartografia da saúde para o sistema prisional as práticas de resistência comparecem do lado dos movimentos sociais que propuseram modos específicos de cuidado para as pessoas privadas de liberdade. Voltaremos a este ponto no próximo capítulo.

Por fim, a entrada da vida nas tramas do poder como objeto das práticas de governo que se desenrolam num jogo entre dominação e resistência circunscreve o que chamamos de domínio de realidade metaestável da PNAISP, pois na medida em que o platô da justiça se articula com o platô da saúde formando o biopoder, as políticas de governo se instituem na tensão entre a decisão da vida que deve ser qualificada e da vida que deve ser descartada. Essa decisão recai, em particular,

sobre a vida das pessoas privadas de liberdade para as quais se destina a política de saúde para o sistema prisional.

CAPÍTULO 6 Teatro de individuação da política de saúde para o sistema