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2.2 O encarceramento preventivo feminino em massa pelo tráfico de drogas: o que leva

2.2.1 HC 143.641: Da prisão preventiva para a domiciliar

Em análise ao documentário disponibilizado “Nascer nas Prisões – Gestar, nascer e cuidar”, da Fiocruz é possível constatar que a situação apresentada coaduna com o levantamento do INFOPEN Mulheres, sendo a realidade prática dos dados auferidos. Desta forma, da teoria para a prática, a visão do progressivo encarceramento em massa feminino no Estado brasileiro torna-se ainda mais aterradora (BRASIL, 2017b).

Ao lado da notória superlotação carcerária feminina, consequentemente, o Estado encontra-se ineficiente em garantir os direitos fundamentais das aprisionadas, constantes no artigo 5º da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, bem como no artigo 10º da Lei de Execução Penal13 e, ainda, não consegue atender as necessidades de gênero das mulheres encarceradas, principalmente das gestantes, que convivem com doenças não adequadamente tratadas, discriminações no pré, durante e pós-parto, abuso das autoridades

13 Art. 10. A assistência ao preso e ao internado é dever do Estado, objetivando prevenir o crime e orientar o retorno à convivência em sociedade.

penitenciárias, principalmente com o uso de algemas, a falta de assistência psicológica, as impróprias condições de higiene e saúde, e outras séries de questões.

Nesta toada, o parto continua sendo uma situação delicada no meio carcerário: privado de liberdade, tornando-se um momento que, como as próprias presas classificam em documentário, “vergonhoso”: um terço das aprisionadas gestantes entrevistadas afirmaram que foram submetidas às algemas, além de terem tido sempre a escolta de agentes penitenciárias, inclusive no momento do parto (NASCER, 2017). Esta situação viola direito regulamentado no artigo 199 da Lei de Execuções Penais, imposto pelo Decreto nº 8.858 de 2016, qual seja a vedação do emprego de algemas em mulheres durante o trabalho de parto, no trajeto da unidade prisional e a unidade hospitalar e no pós-parto, enquanto está hospitalizada.

De acordo com Juliana Borges (2018), no âmbito da saúde prisional não há tratamento adequado para nenhuma espécie de doença, mas, com maior gravidade, há maiores chances de contração de HIV/AIDS e do agravo da saúde de mulheres portadoras da doença, observado que no país, para todas as mulheres aprisionadas, há 32 profissionais ginecologistas. Isto posto, é conclusivo que as condições humanas no sistema carcerário são mínimas, eis que não suprem o básico da demanda necessária.

Consoante Valois (2017), relatos como os de presas que improvisaram miolo de pão como absorvente, concomitantemente a realização do uso de algemas no momento do parto e a circulação de crianças em estabelecimentos prisionais, não são raros. Outrossim, nem sempre as prisões contam com berçário ou creche – conforme o INFOPEN Mulheres, somente 14% das prisões femininas brasileiras ou mistas possuem centro de referência materno- infantil, para atendimento aos bebês de até 2 anos de idade, ou um berçário (BRASIL, 2017b).

Desta forma, observado que a maioria das mulheres aprisionadas, afastadas de seu seio familiar e sob a dupla cobrança de serem mulheres e encarceradas, são rejeitadas pelas suas famílias, os seus filhos ficam sujeitos a serem encaminhados aos parentes próximos. Entretanto, conforme dissertou Varella (2017), a maior parte das aprisionadas vem de uma família desestruturada, que não teve base sequer para acolhê-la, quem dirá um indivíduo em tenra idade. Assim sendo, não há outra solução que não seja o encaminhamento para instituições de acolhimento do Estado.

É alarmante aferir que 74% das mulheres submetidas as prisões têm filhos, enquanto 53% dos homens, em mesma situação, declaram não ter filhos (BORGES, 2018). É evidente a divisão histórica do papel social de gênero construído, com a distribuição dos cuidados dos filhos sobre o total encargo da mãe e o abandono moral praticado, com frequência, pelos pais. Neste diapasão, nas palavras de Varella (2017, p.45, grifo nosso):

A separação dos filhos é um martírio à parte. Privado da liberdade, resta ao homem o consolo de que a mãe de seus filhos cuidará deles [...]. A mulheres, ao contrário, sabe que é insubstituível e que a perda do convívio com as crianças, ainda que temporária, será irreparável, porque se ressentirão da ausência de cuidados maternos, serão maltratadas por familiares e estranhos, poderão enveredar pelo caminho das drogas e do crime, e ela não os verá crescer, a dor mais pungente.

Não apenas a dor da separação dos pequenos, mas a perspectiva de desvirtuamento dos filhos adolescentes, que sem uma figura do poder familiar irão seguir seus rumos sem uma base sólida de vida pessoal: estes sentimentos assolam estas mães que, impotentes, se quedam encarceradas. Segundo Helpes (2014), a maioria das aprisionadas que são mães, acusadas de tráfico de drogas, atribuem a entrada no cárcere como um meio para intentar melhor vida aos filhos e, reiteradamente, os mencionam nas entrevistas.

Nos dolorosos relatos compilados por Varella (2017), a dor das presas que viveram a experiência da separação do bebê, ainda com leite em seus seios, é imensurável. Consoante o autor, as mães são transferidas para celas específicas para sua condição, juntamente com os seus bebês, com berço e prateleiras para organização de itens como mamadeiras e fraldas. O dia todo, da manhã à noite, a presa vive para seu filho, ficando em prol de seus cuidados e convivendo com outras mamães, com as quais troca experiência.

Ocorre que, em um momento (in)esperado vem a separação e a rotina da presa volta ao que era antes: o laço até ali construído com o menor é duramente rompido e a mãe, que até então teve todos os seus dias em favor daquele, retorna a sua cela, sem muitas perspectivas de reencontrar a criança. A culpa as assola: além da pressão social, a própria presa, mulher e mãe, se condena por ser quem é e estar onde está.

É incontestável, diante de situações como estas, que subsiste a política do punitivismo na seara penal e não a política de ressocialização: embora a lei penal afirme que é papel do

Estado garantir os direitos fundamentais da população encarcerada, os dados concretos, como os trazidos pelo documentário “Nascer nas Prisões” e o INFOPEN Mulheres, demonstram que este mesmo Estado admite um número exorbitante de aprisionadas mulheres, gestantes e mães em situação de prisão preventiva.

Em vistas de atender esta problemática, em março de 2016 restou sancionado o Marco Legal de Atenção à Primeira Infância, pela presidente da época, Dilma Rousseff, que tencionou expandir hipóteses de substituição da prisão preventiva para prisão domiciliar na situação de mães encarceradas. Entretanto, na prática pouco se viu efetividade, posto que o relatório do Instituto Terra, Trabalho e Cidadania, denominado “Mulheresemprisão”, indicou que, 48,8% das mulheres aprisionadas eram mães, com filhos na média dos nove anos de idade (BORGES, 2018).

Nesta toada, em impetração com fins de proteção aos direitos garantidos no ordenamento jurídico brasileiro, os membros do Coletivo de Advogados em Direitos Humanos utilizaram do instituto do habeas corpus coletivo para pleitear em favor das diversas mulheres, presas preventivamente, em condição de gestantes, puérperas ou de mãe de crianças sob sua responsabilidade, bem como em favor destas próprias crianças.

A decisão histórica, que ainda faz com que diversos não adeptos contemplem com maus olhos, eis que defensores da individualização, restou concedida em 20 de fevereiro de 2018, pela Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, consolidando o Habeas Corpus Coletivo nº 143.641, que concedeu a decretação de prisão domiciliar para estas mulheres, em substituição a prisão preventiva, estendendo-se para todas as mulheres presas em território brasileiro que sejam “gestantes, puérperas ou mães de crianças e deficientes, nos termos do art. 2º do ECA e da Convenção sobre Direitos das Pessoas com Deficiências” (BRASIL, 2018c, p. 33).

Precipuamente, como discorrido, o instituto da prisão preventiva está de acordo com a Constituição da República Federativa Brasileira de 1988 quando esta dispõe no artigo 5º, incisos LIV e LXI, entretanto, esta medida é excepcional e, como tal, deveria ser utilizada somente quando não é possível manter o indivíduo em liberdade, ou seja, em casos de extrema necessidade – o que não ocorre na realidade prática, logo que é deferida em diversos

casos, principalmente sob o fundamento da ordem pública, e se alonga no tempo, eis que sem prazo para findar.

É mister enfatizar que o habeas corpus é remédio judicial que tem por finalidade evitar ou fazer cessar a violência ou a coação à liberdade de locomoção decorrente de ilegalidade ou abuso de poder, estando previsto no artigo 5º, inciso LXVIII, da Constituição Federal da República de 1988. Entretanto, a previsão constitucional é no sentido singular, ou seja, em face de um único paciente, sendo que a impetração de habeas corpus coletivo restou como inovação jurisprudencial.

Neste sentido, o Habeas Corpus Coletivo nº 143.641 surgiu como hipótese de proporcionar tratamento digno a estas mães e mulheres, bem como as crianças envolvidas, dando-lhes adequado desenvolvimento, que não um panorama degradante e cruel proporcionado pela pena. Conforme frisou o Coletivo de Advogados em Direitos Humanos na impetração do writ, é fulcral reconhecer a condição especial das mulheres no cárcere, principalmente quanto a mulher pobre, que se vê privada do amplo acesso à justiça, e também destituída do direito à prisão preventiva pela domiciliar, sobrecarregando, ainda mais, o encarceramento preventivo de mulheres (BRASIL, 2018c).

É crucial destacar que o artigo 5º, inciso XLV da Constituição Federal de 1988 refere que nenhuma pena passará da pessoa do condenado, e isto parece não ocorrer no caso das mulheres presas, vez que a privação da liberdade as transcende e alcança às crianças que portam, bem como as já geradas, de formas irreparáveis. Logo, é essencial combater este injusto panorama.

Face tais exposições, é conclusivo que o habeas corpus coletivo, diante de violações em massa, se faz instrumento precioso para a proteção dos direitos das aprisionadas, principalmente da liberdade, devendo ser admitido com louvor. Outrossim, a impetração de um único writ em face de diversos indivíduos respalda em economia processual, conferindo maior amplitude possível de defesa e salvaguarda de garantias fundamentais, diluindo diversas ações em uma única prestação jurisdicional, tornando-a mais célere e eficaz, consoante destacaram os impetrantes (BRASIL, 2018c).

Outrossim, o Habeas Corpus Coletivo nº 143.641 respaldou na inclusão na legislação do artigo 318-A14 no Código de Processo Penal, em 19 de dezembro de 2018, em vista de ser uma alternativa ao encarceramento em massa feminino. Consoante o artigo, o juiz tem a obrigação de substituir a prisão preventiva pela prisão domiciliar nos casos em que se tratar de mulher gestante ou mãe ou responsável por crianças ou pessoas com deficiências, desde que não seja acusada de crime com violência ou grave ameaça a pessoa e nem tenha sido cometido contra filho ou dependente – como no caso dos crimes de tráfico de drogas, se atendidos os demais requisitos (BRASIL, 2018c).

Portanto, conforme a redação do próprio Habeas Corpus Coletivo nº 143.641 (BRASIL, 2018c, p. 16), diante das avultosas violações de direitos fundamentais no sistema prisional, o habeas corpus é “um remédio processual à altura da lesão”, que visa garantir e efetivar os direitos humanos, seja para as encarceradas, seja para os filhos destas, mantendo- se a esperança de que as penas não venham a ultrapassar a pessoa destas aprisionadas, atendendo aos direitos das mulheres e ao melhor interesse dos pupilos envolvidos.

2.2.2 Um olhar de humanidade pelo (des)encarceramento: As políticas e medidas