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3.2.2 – As identidades punk no ABC, um estudo da vertente “Anjos” por Aldemir Leonardo Teixeira

Buscando apresentar um novo panorama do meio punk nas cidades do ABC paulista se destacou, nesse período, a dissertação de mestrado “O movimento punk no ABC paulista – Anjos: uma vertente

radical”391 desenvolvida no programa de pós-graduação em Ciências Sociais

(Antropologia) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, por Aldemir Leonardo Teixeira.

Nesse estudo o autor parte da constatação que o punk na região metropolitana de São Paulo apresenta duas trajetórias completamente distintas desde a década de 1980392, fazendo com que ao longo desse período se desenvolvessem compreensões identitárias extremamente singulares em São Paulo e no ABC paulista. Dessa maneira:

390

COSTA, Márcia Regina da. 1993, op. cit. 391

TEIXEIRA, Aldemir Leonardo. op. cit. 392

Isso se deve fundamentalmente as circunstâncias do processo que ficou conhecido como Guerra Punk. Cf. PEDROSO, Helenrose Aparecida da Silva; SOUZA, Heder Claúdio Augusto de. op. cit.

Os punks de São Paulo foram caracterizados como punks da city, por se fixarem no centro da cidade, e reuniam-se nas Grandes Galerias (centro comercial de São Paulo, Shopping), precisamente na Punk Rock Discos, seu ponto de encontro, uma loja pioneira em artigos punk rock (com venda de camisetas, discos raros e fitas), precisamente na avenida São João, 489, 1º andar. Estavam mais próximos dos meios de comunicação, consequentemente recebiam maior cobertura da imprensa, servindo como referencial a matérias jornalísticas e programas televisivos. Chamavam a atenção do público pelo visual marcante e chocante que muitas vezes gerava medo nas pessoas (cabelos coloridos e espetados, blusões de couro, botas militares, jeans rasgados, entre outros aspectos) e causava um grande impacto para a época. Diante dos olhares de leigos e curiosos, obviamente despertavam a atenção dos órgãos da imprensa, que intencionados em editar matérias sobre o movimento sempre os procuravam, mas, nem sempre o que era publicado refletia para um lado positivo do esperado, como a própria originalidade do punk, sendo um movimento de conotações contestatórias, anti-

establishment. A conduta exibicionista e debochada dos punks da city como gestos obscenos, palavrões, insultos,

“micagem” em frente às câmaras, contribuía para os enfoques sensacionalistas, mesmo que na maioria das vezes essas manifestações fossem puramente lúdicas, de ironia acerca da sociedade, porém não entendidas e mal interpretadas por ela e pela imprensa.393

Ao passo que:

Os punks do ABC, por estarem numa região industrializada num período de inúmeras movimentações grevistas, vieram acompanhando e atuando paralelamente aos movimentos sindicais entre os anos de 1979 a 1983. Os Anjos de São Bernardo do Campo, em sua maioria, eram operários no setor metalúrgico e

393

articulavam ações políticas, participando das greves, manifestações, panfletagens, piquetes e passeatas. Eram mais ativos politicamente, estando engajados nas questões sociais. Em São Bernardo do Campo os desagrados dos Punks Anjos com a imprensa aumentavam na medida em que as matérias editadas davam ênfase às atitudes adotadas pelos punks da city, como fizessem parte da conduta de todos os punks. Os punks do ABC no geral, além de estarem distantes do centro, sofriam todo tipo de censura e repressão por meio de notas taxativas e distorcidas publicadas pela imprensa (terroristas, bandidos, trombadinhas, delinquentes, selvagens, entre outras) e procuravam evitar os meios de comunicação, pois estavam cientes de que se tratava de um veículo de informação não confiável.394

Diante desse quadro que expressa à composição antagônica entre os punks nas duas regiões, o autor buscou empreender uma investigação visando apresentar como ocorreu essa fabricação das diferenças entre os punks no período de 1977 a 1985, com ênfase no surgimento do punk no ABC paulista, atentando-se mais especificamente a vertente radical, os Anjos que foi o primeiro grupo a desenvolver concepções anarquistas ainda 1981.

Dessa maneira, o autor expôs que a emergência do punk no ABC paulista, ainda no final da década de 1970, coincidiu com o período de intensificação das lutas sindicais e greves na região, resultando na intensificação da repressão por parte dos militares na região. Em meio a esse cenário, o autor observou que os punks, em especial os Anjos, eram:

[...]primordialmente pobres, suburbanos, rebeldes, revoltados com as péssimas condições sociais em que viviam, odiavam a tirania sincrônica de opressão e

394

autoritarismo imposto no ensino educacional, familiar, religioso, patronal e governamental395.

Encontraram no rock um instrumento para expressar seus sentimentos e expor a repressão que sentiam no cotidiano. Nesse sentido, “mesmo com um condicionamento primário em relação à política, apoiaram e participaram dos movimentos de resistência trabalhista, depositando confiança e esperança em uma possível mudança social”396. Esse cenário também influenciou para que os punks também passassem a atuar na forma de gang. Pois, conforme autor, a gang funcionava como um mecanismo de defesa, tanto contra grupos punks, quanto em “diversas situações conflitantes, inclusive com a polícia”397.

Ao perceber que a gang se constituiu como um dos principais mecanismos de legitimação identitária dos punks na década de 1980, o autor procurou estabelecer um mapeamento acerca da organicidade dessas coletividades. Desvelando que haviam gangs punk por toda região metropolitana de São Paulo, dispostas principalmente nas regiões periféricas, podiam variar de 10 até 200 membros398, essas, por sua vez, ostentavam rivalidades e espalhavam conflitos, os quais recorrentemente se fundamentavam em concepções bairristas e regionalistas de controle de espaço ou território399.

Assim, as gangs estavam distribuídas da seguinte forma no ABC:

Rebeldes (São Caetano e SBC), Destroy (SBC), Anjos e Abutres (SBC e Mauá), Infratores (Santo André), Invasores (Santo André e Mauá), Demolidores (SBC - consecutivos bairros: Vila Rosa, Jardim Santo Inácio, Jardim

395

Ibidem, p. 07. 396

Ibidem, loc. cit. 397

Ibidem, p. 10. 398

Ibidem, p. 68. 399

Independência,) Maphia (Diadema - Piraporinha), Carniças (Santo André e Maúa), Carecas do Subúrbio (Zona leste e ABC) que após um racha dividiu-se em Carecas do ABC e Carecas da Zona Leste, Coveiros (Santo André), Metralhas do Calux (SBC, Bairro Jd. Calux), Morcegos (SBC- Ferrazópolis), Punkids (São Miguel - Zona Leste), entre outras.400

E ocupavam os seguintes territórios em São Paulo:

Em São Paulo subdividiam-se em: Terror (Pirituba), Metralhas (São Paulo - Zona Norte e Centro), Punks da City (SP - Centro), Carolina da Morte (Santana - Vila Carolina, Zona Norte), TNT (Tremembé), Ratos do Esgoto (São Paulo - Centro), Punks da Morte (Centro), Funeral (Santo Amaro). No final de 1987, adentrando os anos 90, Anarco Punk (várias regiões), algumas facções nazistas ou nacionalistas como: SP-OI (Skinheads - Centro), White Power (Skinheads - Nazi Skins, Centro), Carecas do Brasil (várias regiões) SHARP (várias regiões), Devastação (ABC - envolvia punks e headbangers), SP-Punk (Centro) e Street Punk (várias regiões).401

À medida que se desenvolveram os conflitos entre as gangs de cunho regionalista, pouco a pouco esse embate se estendeu para generalização ao nível da cidade/ região, resultando, por sua vez, no que ficou conhecida como “guerra punk”, caraterizada pela intensificação da rivalidade e embates entre os punks da cidade de São Paulo e o dos ABC paulista.

Em complementariedade, o autor enfatiza que desagradava aos punks da ABC o fato dos punks da São Paulo serem midiáticos e

400

Ibidem, p. 67. 401

recorrentemente concederem entrevistas gerando uma suposta falsa imagem do movimento fazendo com que esse fosse absorvido pela mídia402. Na ótica dos punks do ABC essa exposição midiática do punk inclusive haveria contribuído para incorporação da sonoridade do punk pelo rock n’ roll de cunho comercial que adentrou tardiamente no Brasil.

Do ponto de vista historiográfico o trabalho conduzido por

Aldemir Leonardo Teixeira apresenta ricas contribuições no tocante à

compreensão da emergência das gangs e da consequente guerra punk, temas que embora já houvessem sido explanados nos estudos de Helenrose Pedroso e Heder Souza403, Rafael Sousa404 e Márcia Regina da Costa405, ainda careciam de melhor detalhamento como foi empreendido nessa investigação.

3.2.3- Uma nova teoria para o punk, a investigação de Daniela Lemes