CAPÍTULO II – ENQUADRAMENTO TEÓRICO
2. Tecnologias informáticas na Educação Pré-Escolar
2.1. Importância e vantagens para as crianças e educadores
Amante (2003), na sua tese de Doutoramento, cita vários autores reafirmando a importância da familiarização da criança desde a idade pré-escolar, com as tecnologias informáticas, quer porque estas fazem parte inquestionável do mundo que a rodeia, quer pela relevância educativa das experiências que lhe podem proporcionar (Davis & Shade, 1994; Haugland & Wright, 1997; Clemente & Nastasi, 2002), citados por Amante (2003).
Há mais de vinte anos que já se lhes reconhecem vantagens a nível do desenvolvimento sócio-emocional. Investigações na área mostram que um uso adequado das tecnologias informáticas permite que se:
• Desenvolvam, espontaneamente, laços de cooperação entre as crianças;
• Eleve o auto-conceito dos utilizadores e a auto-estima ao proporcionar oportunidades de sucesso;
• Medeiem relações, tendo um efeito profundo ao nível dos valores;
• Aumente a motivação;
• Promova o auto-controle – crianças impulsivas mostram menos comportamentos agressivos com o computador (Papert, 1980; Hope, 1987; Hohmann, 1990; Ponte, 1992).
Mais recentemente, outros estudos permitem afirmar que as crianças do ensino Pré- Escolar podem beneficiar da integração das tecnologias informáticas. Em Behrman & Shields (2000) são referidas investigações que sugerem que o uso do computador, com o objectivo de praticar jogos educativos, visitar sites não lucrativos e fazer os trabalhos de casa, pode fornecer benefícios intelectuais e académicos. Também segundo Moreira (2002) “quando aplicadas de modo apropriado, as tecnologias podem desenvolver as capacidades cognitivas e sociais, devendo ser utilizadas como uma de muitas outras opções de apoio à aprendizagem” (12). De facto, a sua integração nas práticas educativas do Jardim-de-Infância, não substituindo outras actividades e materiais tradicionalmente importantes nestes níveis de escolarização como a expressão artística, manipulação de blocos, de areia, de água, recurso a livros, exploração de materiais de escrita, realização de dramatizações (Brinckman & Taylor, 1996), permitem a criação de “espaços de interacção e partilha pelas possibilidades que fornecem de comunicação e troca de documentos” (Ponte, 2002: 20). Representam, além disso, uma ferramenta de trabalho para o educador de infância e um elemento integrante da sua cultura profissional, pelas possibilidades alternativas que fornecem de expressão criativa, de realização de projectos e de reflexão crítica (Ponte, 2002). Este mesmo autor (id) afirma que as tecnologias informáticas oferecem grandes possibilidades e desafios para a actividade cognitiva e social dos alunos e professores de todos os níveis de ensino, do Jardim-de-Infância à Universidade.
Gentilhomme et al. (2003), a partir de estudos levados a cabo, sintetizam dez razões para utilizar o computador no Jardim-de-Infância, pelas vantagens que lhe estão associadas. Se devidamente explorado, pode:
• Favorecer a interajuda – o facto de estarem duas ou três crianças por computador favorece que os mais competentes ajudem os que têm mais dificuldades;
• Permitir o desenvolvimento das capacidades de observação e escuta, ao exigi-las, por exemplo, para responder às instruções ou avançar no desenvolvimento da actividade;
• Facilitar a diversificação de tarefas a propor e a realizar – labirintos, memórias visual ou auditiva, jogos de atenção;
• Permitir o desenvolvimento da motricidade fina, já que a criança necessita de precisão para clicar com sucesso onde pretende;
• Permitir o desenvolvimento da linguagem e aprendizagem da leitura e escrita, incluindo a aquisição de vocabulário lógico (associação clicar/objecto e nome do objecto), pela repetição das instruções, verbalização para haver interajuda e explicitação das estratégias usadas;
• Promover a criatividade – a criança desenha, pinta, junta, digitaliza e modifica as imagens. Os trabalhos podem ser armazenados e organizados em álbuns, CD-ROMs ou num site da Internet, aumentando a motivação;
• Proporcionar uma igualdade de acesso entre os que têm e os que não têm em casa meios informáticos;
• Respeitar o ritmo de cada criança no processo de aprendizagem, permitindo-lhe, por exemplo, que gira o tempo e progrida por níveis de complexidade;
• Promover o desenvolvimento da autonomia, desde acções básicas como ligar o computador, colocar um CD-ROM, iniciar um programa, sair e apagar, até outras mais complexas como resolver problemas;
• Facilitar a comunicação entre professores e entre professores e alunos e o acesso a recursos de alto valor didáctico.
Tentando especificar mais o possível contributo das tecnologias informáticas em contextos de aprendizagem para a Infância, nomeadamente no Pré-Escolar, faça-se um breve percurso pelas áreas curriculares onde a tecnologia pode desempenhar um papel essencial.
Muitos estudos fundamentam a importância das tecnologias ao nível do Conhecimento do Mundo, afirmando que “podem proporcionar aos educadores e às crianças oportunidades únicas de acesso a pessoas, imagens, sons, informações muito diversificadas e dificilmente acessíveis de outro modo”, constituindo poderosos recursos educacionais (Haugland e Wright, 1997; Grácio, 2002; Rada, 2004 citados por Amante, 2007).
A nível da área da Formação Pessoal e Social e, mais concretamente da Educação para a Diversidade, as tecnologias poderão contribuir para uma maior compreensão e aceitação do outro (Haugland e Wright, 1997 citados em Amante, 2007). Segundo Amante (2007) as tecnologias poderão constituir uma forma de a criança desenvolver, desde cedo, consciência das diferenças sociais, culturais, raciais e étnicas, assim como de exteriorizar valores, desenvolver atitudes, percepções e comportamentos transculturais positivos que contribuem para a construção de uma sociedade mais justa e mais tolerante.
Também se podem constituir uma mais valia ao nível da área da Expressão e Comunicação. Relativamente às competências verbais, os jogos informáticos podem encorajar a produção de discursos mais complexos e fluentes (Davidson & Wright, 1994). Também os programas de desenho ou outras aplicações de produção podem estimular a imaginação e a criatividade da criança e o relato do que realizou (Clements & Nastasi, 2002). Estudos realizados por McCornick (1987, citado por Van Scoter et al., 2001) revelam resultados muito interessantes em crianças mesmo com perturbações de fala. A utilização dos computadores poderá ainda estimular a emergência de alguns conceitos matemáticos tais como, conhecimento de formas,
contagem e classificação (Amante, 2007). Pode ainda contribuir para o desenvolvimento de conceitos de simetria, padrões, organização espacial, entre outros (Clements & Swamintham, 1995).
Existem aptidões e competências no desenvolvimento das quais a escola tem um papel de grande importância, e que se tornam uma exigência no contexto da Sociedade da Informação, para o desenvolvimento das quais as tecnologias informáticas assumem um lugar de destaque. São enunciadas no Relatório do Conselho Nacional de Educação (2002) as seguintes:
• Uma cultura do saber cientifico e tecnológico;
• Um espírito empreendedor e uma capacidade de inovação;
• A capacidade de auto-aprendizagem ao longo da vida, criando estímulos para a melhoria da produtividade individual e de grupo/equipa;
• A capacidade estratégica e de visão sobre novas oportunidades de negócios ou novas actividades;
• A capacidade de liderança, de organização por processos e de gestão por projectos:
• A inovação.