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Indústria de Transformação: derrocada de segmentos tradicionais

SUMÁRIO

CAPÍTULO 2 – PERNAMBUCO NO AUGE DA POLÍTICA DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL DA SUDENE (1960-1985)

3.3 Indústria: perda de dinamismo e desestruturação

3.3.1 Indústria de Transformação: derrocada de segmentos tradicionais

O Gráfico 3.10 coteja a evolução da indústria de transformação de Pernambuco com a nordestina e a brasileira. Estas últimas apresentaram comportamento similar, denotando a persistência do processo de integração produtiva, iniciado nos anos de 1960, não obstante as dificuldades características do período de 1985-2003. Já a indústria de transformação pernambucana, que perderia relevância regional frente à ascensão da indústria baiana, apresentou evolução dissociada, e mesmo declinante, em

relação à verificada no País e na Região83.

Gráfico 3. 10 – Brasil, Nordeste e Pernambuco: evolução do Valor Adicionado da indústria de transformação a preços básicos (índice de quantum do VAB, 1985=100), 1985-2003

Fonte: IBGE/Agência CONDEPE-FIDEM.

Mesmo em termos de crescimento acumulado, é possível observar o fraco desempenho da indústria de transformação estadual, que apenas em alguns anos superou a produção verificada no ano-base e alcançou, em 2003, tão somente 92,8% do VAB de dezoito anos antes.

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Ao contrário do que ocorreu em diversas regiões e estados do País, em Pernambuco deu-se continuidade às estimativas secundárias relativas à indústria. Conforme alerta Cano (2008), a inexistência de informações secundárias e outros aspectos de ordem metodológica dificultam sobremaneira a análise de informações referentes aos setores econômicos, no período. É importante observar, porém, que, no Gráfico 3.9, já se percebem os efeitos de metodologias distintas, em relação, por exemplo, ao Censo Industrial, cujos dados pautaram a análise do capítulo anterior.

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Cano (2008), utilizando dados de produção física estimados para Pernambuco, também havia demonstrado esse declínio, considerando o período compreendido entre dezembro de 1991 e dezembro de 2006.

80,0 90,0 100,0 110,0 120,0 130,0 140,0 150,0 160,0 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 PE NE BR

O Gráfico 3.10 permite destacar, entre 1985 e 2003, alguns subperíodos: (i) o que vai de 1985 a 1987, caracterizado por um relativo crescimento, inclusive superando o agregado da Região e do País; (ii) o que vai de 1987 a 1992, quando se evidencia considerável declínio, mais intenso do que o ocorrido em nível nacional; (iii) o que vai de 1993 a 1996, correspondendo a breve retomada do crescimento, seguindo a trajetória descrita pela indústria de transformação nacional; e (iv) o que vai de 1996 a 2003, marcado pela estabilidade.

À exceção do primeiro subperíodo destacado, em todos os demais o desempenho da indústria de transformação pernambucana esteve muito aquém do apresentado pela homônima regional e nacional, guardando estreita relação com os aspectos concernentes aos principais segmentos que a compunham.

É interessante observar, na Tabela 3.1, a concentração, em poucos segmentos, de pouco mais de 72% do VAB total: fabricação de alimentos; fabricação de bebidas; produtos químicos; metalurgia; material elétrico e de comunicação; e fabricação de

produtos minerais não-metálicos84.

Outros aspectos podem ser ressaltados, em especial os alusivos aos segmentos que mantiveram, perderam ou ganharam participação relativa no total do VAB da indústria de transformação.

Entre os segmentos que perderam peso no VAB industrial, cabe mencionar a fabricação de matérias plásticas e a de material elétrico e de comunicações: no primeiro caso, a participação relativa, que era baixa, em 1985, caiu à metade, em 2003, no contexto em que a indústria pernambucana, em geral, não apresentou dinamismo capaz de justificar a ascensão de qualquer outro segmento (Tabela 3.1).

Já no caso da fabricação de material elétrico e de comunicações, o primeiro "choque" adveio com a abertura comercial e financeira, no início dos anos de 1990, quando o segmento alcançou uma participação de 17,6% no VAB industrial. Seguiu-se,

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Os dados divulgados pelo IBGE/CONDEPE-FIDEM já partem de uma pré-seleção de segmentos da indústria de transformação, impedindo, portanto, que se façam as adequações metodológicas recomendadas por Cano (2008) e que foram adotadas nos dados de Censo Industrial, utilizados para o período de 1960-1985.

desde então, uma tendência de declínio, reforçada pelo período em que a importação de

produtos similares foi barateada pela valorização cambial (Tabela 3.1)85.

Tabela 3. 1 – Pernambuco: participação dos segmentos no total do VAB da indústria de transformação (em %), 1985-2003

Um dos casos mais emblemáticos e importantes de perda da participação foi o da indústria têxtil, que, de 10,8%, em 1985, passou a 1,2% do VAB da indústria de transformação, em 2003 (Tabela 3.1).

Com a abertura comercial e financeira da economia nacional, a vulnerabilidade

do setor têxtil – já definida pela crise de fornecimento do algodão, provocada pela praga

do bicudo, nos anos de 1980 – tornou-se evidente: queda de 9,3%, em 1989, para 5,3%,

nos anos de 1991/1992, agravada pela valorização cambial ocorrida em meados da década, quando a contribuição para o VAB setorial caiu de 4,6%, em 1994, para 2,5%, em 1996 (Tabela 3.1).

Desde então, até 2003, a indústria têxtil pernambucana não mais se recuperaria, reflexo de variação média de -5,3% a.a., segundo estimativas do IBGE/CONDEPE-FIDEM. Queda expressiva também foi experimentada por atividades correlatas – casos da fabricação de vestuário, calçados e artefatos de tecidos – à conta do

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Embora tenha resistido à avalanche da abertura comercial e financeira e ao próprio período de dificuldades, em virtude do acirramento concorrencial dos anos de 1990, em 2010 a principal empresa do segmento em Pernambuco, a Philips, encerraria suas atividades. Atendendo a estratégias do grupo, a unidade produtiva situada na periferia do Recife seria transferida para a China.

fechamento de diversas plantas, indicando que os empresários dessa cadeia produtiva tiveram que se dedicar a outros tipos de atividade, para sobreviver.

Quanto aos segmentos da indústria de transformação que, em termos de VAB,

ganharam participação, entre 1985 e 2003, é possível destacar a metalurgia86, a química e

a fabricação de alimentos e bebidas. No último ano do período, esses quatro segmentos respondiam por mais de 70% do VAB da indústria de transformação do Estado (Tabela

3.1).

Tal peso tem relação estreita com o dinamismo de cada um deles. Nesse sentido, os Gráficos 3.11 e 3.12 mostram o crescimento acumulado de dois grupos de segmentos: (i) os que tiveram um desempenho "satisfatório" e (ii) aqueles de evolução declinante.

É importante destacar que, mesmo no primeiro caso, o conceito de "dinamismo" deve ser relativizado, uma vez que entre os segmentos desse grupo, a maior taxa média de crescimento ficou em 2,1% a.a. (fabricação de materiais elétricos), desempenho modesto e incapaz de reverter o resultado agregado da indústria pernambucana.

Feita essa ressalva, o Gráfico 3.11 mostra que fabricação de bebidas, metalurgia, materiais elétricos e de comunicação e papel e papelão foram os segmentos que apresentaram, no período, melhor dinamismo. Em alguns casos, como o de materiais elétricos, o comportamento sequer foi suficiente para manter a participação no VAB da indústria de transformação.

Confrontada, em condições adversas, com o mercado internacional, sobretudo nos anos de 1990, a fabricação de materiais elétricos experimentou fortes oscilações do ponto de vista da produção, recuperando-se apenas quando ocorreu a desvalorização cambial, em 1999.

Para os demais, também é possível verificar a ocorrência de consideráveis oscilações, ao longo do período, em função tanto da abertura comercial e financeira, quanto da adoção do Plano Real e da desvalorização da moeda, no final da década de

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A Metalurgia contempla uma das principais e mais tradicionais atividades industriais de Pernambuco: a metalmecânica. Surgida no final do século XIX, quando fora estimulada pelos investimentos ingleses na constituição da malha ferroviária das nascentes usinas de açúcar e, em alguns casos, na urbanização da cidade do Recife, as empresas do segmento logo passariam à condição de fornecedoras de equipamentos para a produção açucareira (caldeiraria, etc.) e diversificariam o portfólio de produtos.

1990, o que denota a importância de variáveis macroeconômicas para a definição do ciclo de crescimento dos referidos segmentos (Gráfico 3.11).

Gráfico 3. 11 – Pernambuco: evolução do Valor Adicionado de segmentos selecionados da indústria de transformação (índice de quantum do VAB, 1985=100), 1985-2003

Fonte: IBGE/Agência CONDEPE-FIDEM.

No que diz respeito aos segmentos que apresentaram baixo dinamismo, entre 1985 e 2003, é possível destacar, observando-se o Gráfico 3.12, a queda sistemática da fabricação de produtos têxteis e de vestuário/calçados.

Constata-se outra trajetória de queda no segmento de fabricação de minerais não-metálicos, sobretudo entre os anos de 1991 e 1994, quando a indústria extrativa também apresentou desaceleração, relacionada à exploração de gesso e de cimento (Gráfico 3.12).

A fabricação de alimentos também sofreu queda consistente, até o Plano Real. A mudança da base monetária provocou breve efeito-renda e aumentou o poder de compra da população, estimulando atividades relacionadas aos bens de consumo não- duráveis, entre as quais a de alimentos. Em seguida, esse segmento passou a experimentar oscilações até que, a partir de 1999, deu novos indícios de recuperação, em virtude do encarecimento de produtos importados, após a desvalorização do Real.

Além disso, importa considerar que faz parte dele a fabricação de açúcar. O desempenho dessa atividade depende, em primeiro lugar, do nível internacional de preços do produto. Não por acaso, apresentou recuperação, em consequência da elevação de preços, a contar de 2000 e nas fases subsequentes às desvalorizações cambiais, em especial no período de 1999-2003. 80,0 100,0 120,0 140,0 160,0 180,0 200,0 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 Metalúrgica Material elétrico de comunicação Papel e papelão Bebidas

Ressaltem-se, ainda, importantes aspectos setoriais específicos, como a

continuidade dos estímulos do PROÁLCOOL – na segunda metade do decênio de 1980 –,

a manutenção do acesso a recursos financeiros por parte das unidades produtivas do setor, e a própria desregulamentação do "planejamento setorial", quando as atividades do Instituto do Açúcar e do Álcool foram encerradas.

Gráfico 3. 12 – Pernambuco: evolução do Valor Adicionado de segmentos selecionados da indústria de transformação (índice de quantum do VAB, 1985=100), 1985-2003

Fonte: IBGE/Agência CONDEPE-FIDEM.

Como atesta Alencar (1997: 12), foram "tais medidas – e não avanços

tecnológicos – [que] criaram condições para o crescimento da atividade", em Pernambuco,

como decorrência da continuidade da centralização de capitais – pautada na incorporação

de áreas de cultivo de antigas usinas desativadas – nas mãos de poucos grupos

econômicos ligados ao segmento.

Mesmo concentrada a propriedade do capital, a estruturação do parque produtivo sucroalcooleiro seguiu sem grandes transformações: "as usinas praticamente mantiveram (...) a mesma forma de produção de que dispunham no século passado, com melhoria na qualidade do equipamento e nos produtos empregados na fabricação" (ALENCAR, 1997: 13).

Dado o declínio e/ou a sustentação, em bases técnicas defasadas, de atividades tradicionais, os dados indicam, de maneira inequívoca, que o período de 1985- 2003 não foi positivo para a indústria pernambucana como um todo, menos ainda para a indústria de transformação, cujas atividades principais enfrentaram franca decadência. Esse contexto reflete-se também ao nível das empresas, uma vez que a baixa capacidade

20,0 40,0 60,0 80,0 100,0 120,0 140,0 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003

Minerais Não Metálicos Têxtil

Vestuário, calçados e artefato de tecido Produtos alimentares

de acumulação de capital, nos principais segmentos, acabou condicionando reconversões de capital.

3.4 Comércio e Serviços: perda de importância relativa regional e