CAPÍTULO 2 MODOS DE PENSAR
2.2 NOVAS E DIFERENTES MÍDIAS
2.2.3 Independência, liberdade e ativismo
Um grupo específico chama a atenção no contexto da multiplicidade de mídias digitais, a mídia independente. Denominação que escolhemos usar neste trabalho, e que merece algum aprofundamento, a mídia independente configura um território de transformação e busca, e não de definições e certezas, já pelo movimento próprio que é o processo da produção jornalística nesses novos ambientes. Mas há também o ritmo acelerado das mudanças tecnológicas das próprias plataformas e dispositivos em que
15 Vale fazer referência a uma nota de esclarecimento emitida pelo The Intercept, chamada de correção e
lida por Willian Bonner ao vivo durante o Jornal Nacional da Rede Globo, no dia 25 de julho de 2019, quando o The Intercept afirma que ao contrário do que publicado pelo jornal, a mídia nunca havia negado que a fonte anônima, no caso da série de reportagens sobre a operação Lava Jato, fosse hackers. “Nunca negamos porque não comentamos assuntos relacionados à fonte, exatamente como nos garante o princípio de sigilo que consta na Constituição federal”, dizia a nota. Disponível em:
<https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/07/25/jn-esclarece-informacao-sobre- intercept.ghtml>. Acesso em: 28 jul. 2019.
essa produção jornalística opera, num ambiente que pode ser talvez mais bem compreendido com aquilo que propõe Henry Jenkins, em seu Cultura da convergência, como vimos na primeira parte deste segundo capítulo.
A denominação mídia independente evoca uma névoa de possibilidades, como temos aos poucos visto ao adentrar um pouco os territórios das mídias eleitas para este estudo, que abarca e é usada em auto-referência por iniciativas de mídia digitais as mais diversas – das midiativistas, como a Mídia Ninja, até às novas iniciativas de organizações mais do mundo das chamadas startups, a exemplo do Jota. A expressão dá nome ainda ao mapeamento realizado pela Agência Pública – uma das referências em jornalismo investigativo e independente no Brasil –, que expusemos no capítulo primeiro, levantamento que engloba mídias diversas, quando nos aproximamos de seus territórios.
Nas novas mídias que emergem no cenário midiático brasileiro, “a preocupação com uma separação da lógica mainstream parece ser a essência das iniciativas que atuam hoje em paralelo ao jornalismo tradicional”, afirmam Evandro de Assis, Leonel Camasão, Mariana Silva e Rogério Christofoletti (2017, p. 12). A primeira característica que se percebe neste universo de novas mídias é a sua diferença ou até mesmo contraposição, em alguma medida ou aspecto, ao jornalismo industrial. “Ao declarar independência – do controle estatal, das forças de mercado ou das convenções do mainstream – as organizações e os atores da mídia buscam reforçar sua legitimidade e credibilidade aos olhos do público, dos colegas e dos legisladores” (KARPPINEN; MOE, 2016, p. 105, tradução nossa).
Dênis de Moraes (2013, p.107-108) considera que, em geral, a tarefa da comunicação contra-hegemônica é a de “reivindicar o pluralismo e o valor das histórias e culturas e motivar-nos à reflexão sobre o mundo vivido”. Com o horizonte do desafio ético, esta comunicação contra-hegemônica se faz ver nos projetos editoriais de agências independentes no Brasil e na América Latina, em contraposição “às diretivas adotadas por agências transnacionais (Reuters, Associated Press, EFE, France Press), cuja produção globalizada responde por parte substancial do fluxo mundial de informações e lhes assegura lucratividade excepcional [...]”, com agendas convenientes aos países desenvolvidos, onde estão suas sedes. Já em um lado oposto, diz o autor, estão as agências alternativas, que “inserem-se entre os segmentos da sociedade civil que reclamam um sistema de comunicação pluralista, opondo-se à centralização das informações em torno de um número reduzido de corporações e dinastias familiares”.
Isso significa, segundo Moraes, (2013, p.109), compreender a comunicação como bem comum e direito humano, sem apropriações e distorções que favoreçam interesses particulares.
No entanto, o conceito de “jornalismo independente” nos remete a um universo mais amplo ainda, indo desde a compreensão de independência como um utópico horizonte, inalcançável na prática, mas necessária na caminhada, como é próprio da ideia de utopia, até noções mais alinhadas à independência enquanto valor inegociável na prática jornalística.
É certo que a independência no jornalismo diz respeito a valores e referências inerentes ao jornalismo, que devem orientar sua prática, nas mídias independentes como em quaisquer outras. Uma atuação jornalística independente é premissa para o bom jornalismo, numa referência à liberdade editorial, autonomia sem a qual o jornalista não pode trabalhar de maneira a atender aos interesses públicos, do jornalismo enquanto credível, que apresenta uma verdade justificada (LISBOA; BENETTI, 2015), ainda que um “produto à venda” (MEDINA, 1986). Vale aqui lembrar Traquina (2012), quando diz que o jornalismo sempre se desenvolveu entre a ideologia que o define enquanto um serviço público e o fato de ser um negócio rentável. Karppinen e Moe (2016) afirmam que a independência diz respeito à autonomia, autogoverno ou o direito de uma instituição de criar suas próprias regras e administrar seu próprio negócio.
Em termos gerais, a independência refere-se à ausência de controle externo. Independência significa liberdade da influência de outros, mas também descreve a capacidade de um indivíduo ou instituição tomar decisões e agir de acordo com sua própria lógica. Como princípio normativo, a independência pode ser debatida em diferentes níveis e vinculada a uma variedade de estruturas e discursos. No nível da teoria social geral, a independência pode ser rastreada até a diferenciação funcional da sociedade moderna de várias esferas ou campos da vida social, discutida em trabalhos sociológicos clássicos de Weber a Bourdieu. Em tais contextos, a independência diz respeito à autonomia; autogoverno ou o direito de uma instituição de criar suas próprias regras e administrar seu próprio negócio (KARPPINEN; MOE, 2016, p. 106, tradução nossa).
É parte, portanto, da natureza do jornalismo, como ressalta a editora executiva do The Intercept Brasil, Tatiana Dias, em entrevista para esta pesquisa16, quando afirma
que a questão da independência não diz respeito somente às mídias ditas independentes, mas também à grande mídia e a todo o campo do jornalismo. “O cabo de guerra sobre
16 Entrevista gravada com a editora do The Intercept Brasil, Tatiana Dias, concedida para a pesquisa no
os significados da independência da mídia é pelo menos tão antigo quanto a idéia de liberdade de imprensa” (KARPPINEN; MOE, 2016, p. 105, tradução nossa).
O significado da independência da mídia como um valor normativo depende claramente do contexto em que ela é usada. Muitos dos discursos e conotações estabelecidos em torno do termo podem, portanto, ser rastreados até contextos históricos e culturais específicos, nos quais as organizações de mídia utilizaram intencionalmente a noção para legitimar sua posição. Em países com uma imprensa politicamente alinhada, por exemplo, as tentativas dos partidos políticos de declarar independência das afiliações políticas partidárias históricas podem ser vistas como parte de uma estratégia para ampliar seus leitores de segmentos políticos específicos para um público de massa (ver Hallin e Mancini, 2004, p. 26-27). Da mesma forma, outros tipos de interpretações de independência das organizações de mídia estão sempre vinculadas a suas próprias estratégias de distinção (KARPPINEN; MOE, 2016, p. 107, tradução nossa).
Assis, Camasão, Silva e Christofoletti (2017, p. 6), em uma compreensão do conceito como relacional, dizem, na mesma direção que “[...] a independência no jornalismo pode ter diferentes significados em distintos contextos, ou ainda, ser apropriada em nome de determinados interesses”. Os autores apontam a dimensão de idealização impregnada na busca da independência, que consideramos ora soar como utopia que mobiliza a atuação jornalística, ora como um slogan comercial. Eles consideram:
Se a independência jornalística for compreendida como imunidade total a influências externas, o conceito fica restrito a uma idealização normativa. Por outro lado, se admitida a existência de diferentes intensidades e naturezas de influências, e o pesquisador estiver interessado em compreender a capacidade de um indivíduo ou instituição de tomar decisões e agir conforme sua própria lógica (KARPPINEN e MOE, 2016), abrem-se múltiplas possibilidades de avanço na compreensão das dependências do jornalismo (ASSIS; CAMASÃO; SILVA; CHRISTOFOLETTI; 2017, p. 13).
Levantamos estas questões e problemáticas acerca do conceito de mídia independente e sobre a independência enquanto um valor para o jornalismo, reconhecendo o seu valor para a pesquisa. No entanto, ao estudarmos as organizações de mídia selecionadas, não é nossa proposta observar, na perspectiva apontada pelos autores, “as intensidades e naturezas de influências”, ou seja, a independência, em suas práticas. Nosso olhar está nas dinâmicas produtivas, certamente atravessadas por essas questões, que apareceram e que provocamos nas oito longas entrevistas que fizemos para esta tese (na íntegra nos apêndices), já que buscamos também um registro da visão de seus protagonistas. Em suma, sempre sob a ótica de uma aproximação compreensiva
aos fenômenos, além de a independência jornalística em várias de suas acepções não constituir o foco deste trabalho, a última coisa a buscar nesta pesquisa seria um conceito (fechado), uma definição, uma explicação que se pretendesse definitiva para a questão.
Não entramos nessa discussão, embora ela apareça, e também não adotamos, portanto, uma postura que pretenda conceituar, explicar ou mesmo encontrar uma definição para mídia independente. Novamente, estamos aqui assumindo a denominação à luz dos princípios do método da compreensão, buscando mostrar, mais que demonstrar, como este universo de mídia contemporânea brasileira se apresenta e se move. Trata-se, como temos vindo assinalando, de fenômenos midiáticos complexos, com uma rede de forças e aspectos multidimensionais atuando sobre eles.17
Usamos então a denominação mídias independentes para nos referirmos a um universo de novas organizações de mídias digitais que vêm emergindo no Brasil, nas redes (internet) e em redes (mídias sociais e processos colaborativos), em um momento e modelo de jornalismo pós-industrial, com um conjunto de fatores e dinâmicas que as caracterizam e em alguma medida as diferenciam das mídias tradicionais e suas práticas midiáticas (mesmo com relação aos veículos tradicionais que migraram ou que surgiram na internet). Suas práticas produtivas constituem o foco principal desta pesquisa. A denominação vai ao encontro da forma com que elas mesmas se autodenominam ou se apropriam da expressão. Nossa opção por essa denominação é consciente de sua incompletude, de seus limites, e do uso recorrente que a expressão vem tendo no contemporâneo, o que leva, na maioria das vezes, a um esvaziamento ou a uma polissemia, nem sempre saudável, de sentidos.
No capítulo primeiro deste trabalho, na descrição que fizemos do nosso percurso metodológico de seleção de mídias independentes para análise, trouxemos detalhes das características dessas mídias. Vale aqui retomar brevemente que, além do aspecto de redes acima referido, elas ainda se posicionam como produtoras de conteúdos jornalísticos e seus profissionais, como jornalistas; produzem um jornalismo que se diferencia, em alguma medida e/ou aspecto (político, econômico ou social, entre outros), do jornalismo da grande mídia; declaram-se independentes, ou possuem como
17 Chaparro evoca Edgar Morin quando fala das complexidad es do jornalismo, onde o autor francês, em O
problema epistemológico da complexidade, se refere às complexidades como “imbricação de ações, interações, retroações” e diz que “nem o espírito humano nem um computador extremamente potente poderiam medir, ou mesmo discernir, os elementos e os processos desta teia emaranhada” (apud CHAPARRAO, ano, p. 49). A ideia de rede de forças atuando sobre um fenômeno, e não de causas e efeitos, simplesmente, é uma contribuição de Cremilda Medina e Paulo Roberto Le andro para o estudo do jornalismo interpretativo. Com origem em Nietzsche, essa ideia aparece em A arte de tecer o presente; jornalismo interpretativo, lançada pelos autores em 1973 (MEDINA; LEANDRO, 1973).
perspectiva editorial o jornalismo independente; adotam formas colaborativas e ou alternativas para seu financiamento e formas diferentes de gestão da organização.
Além disso, essas mídias apresentam, por vezes, sob o ponto de vista editorial ou de sua cobertura jornalística, um posicionamento engajado, alinhado a temáticas caras à sociedade, como direitos humanos, meio ambiente, democracia etc. Em sua maioria, produzem um jornalismo interpretativo (LIMA, 2009; MEDINA 1988; CANAVILHAS; BACCIN, 2015), em uma perspectiva mais aprofundada e por vezes de caráter mais autoral em suas narrativas hipertextuais.
Dênis de Moraes (2013, p. 133), no estudo já mencionado sobre agências alternativas na América Latina (oito delas brasileiras), apresenta percepções que dialogam com as nossas – algumas já apresentadas e outras que ficarão mais claras adiante, na reprodução de outros trechos das entrevistas com os jornalistas e na análise das narrativas das mídias independentes que pesquisamos.18 Ele entende que essas
mídias virtuais contribuem para a “construção de um jornalismo em bases ético- políticas mais coerentes e evoluídas”. E descreve que elas:
[...] na essência, diversificam as fontes e óticas interpretativas; incluem outras vozes sociais, agendas e seleções temáticas; atualizam processos de produção jornalística em rede; e optam por textos mais longos com análises, colunas de opinião e contextualização, às vezes ilustradas ou complementadas por charges, infográficos, fotos, arquivos sonoros e vídeos (MORAES, 2013, 133).
Isso tudo em um contexto de vários obstáculos enfrentados por essas mídias, que o autor também denomina alternativas, a se destacar a dificuldade de financiamento e sustentabilidade dos projetos, além da busca por atingir um público maior, fortalecer a articulação entre si, intensificar relacionamento com os leitores e conquistar apoio governamental.
Muitas são, de fato, as possibilidades de denominação e compreensão conceitual desses novos produtores de conteúdos jornalísticos digitais. Renata Parente (2014, p. 2) afirma que a dificuldade em denominar essas “expressões comunicacionais” se dá pela “dificuldade de caracterizar o que é alternativo em meio à circulação de uma variedade de formatos híbridos possibilitados pelas novas tecnologias”. Nessa multiplicidade de
18 As oito mídias brasileiras que compõem o estudo são: Adital (<http://www.adital.com.br/>), Agência
Nacional das Favelas (<http://www.anf.org.br/>), Brasil de Fato (<http://www.brasildefato.com.br/>), Carta Maior (<http://www.cartamaior.com.br/>), Diário da Liberdade (<http://www.diarioliberdade.org/>), Pátria Latina (<http://www.patrialatina.com.br/>), Pulsar Brasil (<http://www.brasil.agenciapulsar.org/>) eRadioagência NP (<http://www.radioagencianp.com.br/>) (MORAES, 2013, p. 143).
denominações para as novas mídias que vemos emergir, os termos mais comuns e recorrentemente utilizados são os de mídia alternativa e mídia independente.
Célia Amorim (2007) apresenta uma análise histórica do uso da expressão mídia alternativa pelos estudiosos no Brasil. A autora demonstra que, originalmente, a denominação está ligada a uma reação de profissionais de imprensa e grupos de intelectuais à censura do período ditatorial brasileiro e à condescendência que os grandes conglomerados da época demonstravam para com os ditadores. Naquele contexto, a mídia alternativa era posta como uma reação ao jornalismo das grandes corporações e à hegemonia do poder econômico na comunicação. Por isso, a mídia alternativa está bem próxima do campo político, sendo, nas décadas de 1960, 1970 e 1980, ligada prioritariamente, a movimentos políticos de esquerda.
Sobre o contexto atual do jornalismo alternativo no Brasil, num movimento que leva em conta distâncias e aproximações com o passado, Geilson Silva (2016, p. 3) observa, com relação às novas mídias:
[...] uma tendência que se destaca é a proximidade aos movimentos sociais, manifesta inclusive na adoção do modelo de coletivos como forma de organização em alguns destes grupos. Um levantamento preliminar das propostas de experiências recentes indica o apoio a um conjunto de bandeiras, valores e compromissos éticos específicos do nosso tempo. Entre eles: direitos humanos, direito à cidade, pluralidade, igualdade de gênero, questão racial brasileira, democratização da mídia, empoderamento feminino, midialivrismo, postura contra-hegemônica ou anticapitalista e crítica à globalização. Renata Parente (2014, p. 2), no entanto, destaca a compreensão da denominação mídia alternativa em uma perspectiva mais ampla, e com aplicabilidade nos cenários contemporâneos de mídia no Brasil. “Seria, então, a partir desse ponto de vista, inadequado apontar como ‘alternativas’ publicações que se revelam em pleno século XXI? ”, pergunta a autora. E responde que acredita que não, ao ressaltar que, “no entanto, [...] os novos contextos demandam novas práticas e, por isso, faz-se necessário ter a clareza que o ‘alternativo’, na contemporaneidade, ganha contornos diferenciados dos observados em décadas passadas”.
Os conceitos mídia alternativa e mídia independente são frequentemente relacionados, ou mesmo confundidos, no cenário de ampla oferta de mídias. Downing (2010) traz ainda outras denominações, além destas, para essas novas mídias – como mídia participativa, mídia tática, mídia dos movimentos sociais, mídia da comunidade, mídia dos cidadãos, mídia do terceiro setor e mídia de contrainformação –, e diz que todas elas possuem seus prós e contras. Para o autor:
O termo mídia alternativa é uma designação completamente insossa, já que tudo é uma alternativa para alguma coisa, embora do ponto de vista de Chris Atton (2001), a própria imprecisão do termo nos ajuda a reconhecer como a prática cultural cotidiana é impregnada por uma variedade extraordinária de formas de mídia alternativa (DOWNING, 2010, p. 52).
Segundo Chris Atton (2001), a mídia alternativa não estaria relacionada somente ao conteúdo, tampouco com seus temas de interesse, mas, sim, com a forma e linguagem em que esse conteúdo é divulgado e no contexto de como a comunicação é construída.
Ela tem potencial para oferecer ainda mais do que “interpretação”; elas fornecem aos leitores acesso a experiências vivas de outros leitores (ativistas) e, ocasionalmente, os oferece como parte de uma rede de projetos socioculturais e sociopolíticos. A mídia alternativa pode fornecer narrativas poderosas de resistência para os contra- públicos que são escritas por esses mesmos contra-públicos (ATTON, 2001, p. 153, tradução nossa).
Com a possibilidade de participação de novas vozes, Atton (2001) aponta que as mídias alternativas, ao contrário dos meios de comunicação de massa, não limitam o acesso do público. Enquanto na mídia tradicional o leitor pode, por exemplo, enviar cartas aos editores, na mídia alternativa, em um ethos democrático e participativo, “onde os leitores são muitas vezes capazes de contribuírem com artigos e participam da tomada de decisões editoriais, até mesmo se tornando editores”. Ao oferecer suas páginas aos leitores e ativistas, a mídia alternativa “suscita ativamente essa participação por sua própria construção, oferecendo-a em lugar de espetáculo; identidade em vez de mera representação” (ATTON, 2001, p. 155, tradução nossa). Cabe anotar que a grande mídia vem se adaptando desde uns anos, respondendo positivamente à crítica apresentada por Caio Túlio Costa (2006, 2014), assumindo, sob a sua ótica e na linha de seus interesses, cada vez mais as potencialidades trazidas pelas tecnologias digitais e de redes. Assim, por exemplo, no item referente à participação das audiências, não é mais possível hoje não se abrir de algum modo à interação. A mídia velha brasileira, apesar de ter tardado a entrar no digital, vem sendo ágil recentemente nos processos adaptativos, como, por exemplo, na caça aos cliques, promovida hoje em formas novas e atuais de promoção da indústria do entretenimento.
Quanto ao conceito de mídia independente, Downing (2010) aponta que é o “preferido por Herman e Chomsky para denominar a mídia de notícias não corporativa, não estatal e não religiosa” (DOWNING, 2010, p. 52).19
O termo tem uma motivação fundamentalmente retórica, em especial para contestar a alegação frequente de que a mídia de notícias em países com políticas capitalistas liberais, principalmente nos Estados Unidos, trabalharia com total liberdade e independência. Por enquanto tudo bem; no entanto, os novos vieses implícitos no uso do termo por Herman e Chomsky embargam toda uma coleção de termos de mídia e expressões culturais fundamentais nessa área, termos que não têm diretamente nada em comum com notícias ou jornalismo.
Dentro desse contexto de referências, Downing (2010, p. 54) reconhece que a definição “dessas mídias está condenada a ser muito mais difícil que a definição de mídia convencional, cujas formas, estruturas e gêneros organizacionais são, em comparação, realmente bem mais restritos”. Não surpreenderia, ele afirma, que as definições que ele acaba de mencionar “se sobreponham em alguns pontos, e sejam sempre insuficientes. É uma reflexão direta dessas formas de mídias antropologicamente polimorfas”.
Fugimos, como é possível reiterar, da condenação da dificuldade de definição do que seja a mídia independente, apontada por Downing (2010), já que as definições se sobrepõem e são insuficientes, por nossa escolha por uma abordagem compreensiva dos fenômenos. Pretendemos manter viva essa tensão entre o justo desejo de definir e explicar as coisas e o método da compreensão, que prefere a compreensão à explicação, a noção ao conceito, um campo semântico pertinente e inteligível a uma verdade entendida como ponto final (KUNSCH, 2012; 2016).
Nesse cenário de investigações e diferentes formas de enfocar as mídias independentes, parte dos pesquisadores acentua fortemente em suas análises o lado da liberdade, da contestação, da produção ativista e colaborativa da notícia por parte de