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1.1 - Influências internacionais: a moda e a arte

A moda é uma realidade presente em todos os períodos históricos e esteve desde sempre ligada à cultura e ao tempo histórico. Como veremos mais adiante, a iconografia torna-se a grande aliada desse estudo, permitindo-nos investigar a organização social, económica e cultural das sociedades, já distantes no tempo.

Apesar de o conceito de moda só aparecer efetivamente no século XVI, com a expressão da individualidade e o surgimento da burguesia, é durante o período barroco, que se verifica uma maior ostentação no vestuário e respetivos adornos, onde tanto as roupas masculinas e femininas se viam sempre muito enfeitadas, com tecidos bordados, rendados e luxuosos. França dita a moda a partir da segunda metade do século XVII, sendo a figura do rei Luís XIV (1638-1715), fundamental para se compreender esse período, sendo que, para o rei de França, ostentar o luxo era a forma de demonstrar seu poder e vaidade, e a corte o seu palco, de onde saíam todas as principais influências para toda a Europa88.

É em França que surge o primeiro jornal de moda, designado Mercure Galant89, criado pelo Ministro das Finanças da época, Jean Baptiste Colbert (c.1619-1683), trazendo informações sobre as roupas francesas e instituindo o conceito de rotatividade de coleções por estações.

Uma das características mais importantes do vestuário na época do Barroco era, sem sombra de dúvida, o rufo. Esta peça, essencial na primeira metade do século XVII entre os mais nobres e a realeza, apresentava-se como colarinho plissado, que se usava à volta do pescoço, dando o aspeto de cabeça erguida, e altivez, fazendo parte tanto dos trajes femininos como dos trajes masculinos90.

88 Cf. CARDOSO, Ana Cláudia Dias, A Joia como Complemento da Moda, Dissertação de Mestrado em Design de Moda, Faculdade de Arquitetura, Universidade Técnica de Lisboa, 2010, pp. 21-22. Disponível em: https://www.repository.utl.pt/handle/10400.5/2784. Acedido a 10 de março de 2020.

89 Vide, Le Mercure Galant And The Roots Of The Modern Fashion Industry Disponível em:

https://www.fashionologiahistoriana.com/costume-history-legends-essays-in-english/le-mercure-galant-and-the-roots-of-the-modern-fashion-industry. Acedido a 02 março de 2019.

90 Vide, A Moda do Barroco. Disponível em:

http://www.conteudoseducar.com.br/conteudos/arquivos/3541.pdf. Acedido a 20 de maio de 2020.

54 Apesar de encontrarmos um rico vestuário feminino, tentaremos encontrar um paralelo no vestuário masculino, visto os nossos objetos de estudo serem adornos de joalharia manifestamente masculinos.

No domínio do simbólico, as joias podem conferir, tanto à mulher como ao homem, em inter-relação com o traje e seus acessórios, uma dimensão de luxo e aparato.

Destacam-se os diademas, colares, botões, anéis, fivelas e demais adereços mais ou menos completos, muitos com dimensões invulgares que permitem atestar o glamour de certas ocasiões e o portento económico e estético dos respetivos possuidores.91

É no ambiente da corte, que a joalharia e o vestuário se associam, numa adaptação entre materiais e estilos, mas também, dando lugar a uma conjugação cromática formal92. A realeza e os aristocratas, criam todo um dinamismo teatral, numa união visual entre os suportes têxteis e os ornamentos, reforçando neste período a forte tendência da criação e projeção de joias, segundo as características dos seus destinatários e do próprio guarda-roupa93.

As vestimentas masculinas não constituíram uma exceção, e foram também marcadas pelo exagero característico do barroco. Os homens pertencentes à nobreza e à realeza utilizavam cabelos, ou perucas, compridas abaixo dos ombros, adornadas com grandes cachos. Ao mesmo tempo, a barba passou a ser démodé, sendo que mostrar o rosto sem barba era sinal de estatuto, de riqueza. No entanto o bigode mantinha-se sendo, no entanto, mais fino do que em tempos anteriores. Como o excesso e os efeitos dramáticos eram palavras de ordem, os homens passaram a usar chapéus de abas largas com plumas94.

As roupas masculinas seguiam o exagero característico da época, usando um género de bermuda larga e presa aos joelhos com laços de renda, sobre meias longas de seda que podiam ser brancas ou coloridas, dependendo das combinações desejadas. Por fim, vestiam um casaco alongado com cintura marcada, uma das imagens da época, sendo

91 Cf. SOUSA, Gonçalo de Vasconcelos e, Percursos da Joalharia em Portugal - Séculos XVIII a XX, Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes da Universidade Católica Portuguesa, Universidade Católica Portuguesa – CITAR, Porto, 2010, p. 28.

92 Cf. SOUSA, Gonçalo de Vasconcelos e, op. cit., p. 12.

93 Idem, p. 52.

94 Vide, Historiando Moda: o Barroco (séc. XVII – início séc. XVIII), 2012. Disponível em:

https://historiandomoda.wordpress.com/2012/11/23/periodo-barroco/. Acedido a 25 de maio de 2020.

55 enfeitado com um jabô de renda, substituindo os rufos. Nos pés, era costume usar sapatos baixos com sola inteiriça ou botas de cano alto95.

Os trajes ou vestimentas femininas da época, eram compostos basicamente por vestidos de rendas e folhos, encimados por corpetes em “V”, com decotes retos e marcando cinturas finas, com saias amplas, recorrendo a armações em formato de sino.

Sobreposto aos vestidos era usado o manteau, um manto aberto à frente, que deixava visível a saia e o corpete. Relativamente aos tecidos, destaca-se o uso das sedas, com cores vibrantes (vermelhos e azuis intensos, rosas e o amarelo).96

Os retratos, tanto femininos, como masculinos, vão, ao longo deste nosso período de estudo, permitir-nos percecionar a relação da mulher com a moda e compreender a tipologia de joias usadas, mas também analisar os materiais, influências e estilos usados97.

O retrato de aparato representou um elemento desde sempre privilegiado na perpetuação da imagem no tempo, expressando um programa iconográfico eximiamente estruturado, em que nada era deixado ao acaso, exibindo de forma clara e inequívoca as tendências estilísticas da época e o gosto vigente98.

Podemos concluir, que a moda barroca, foi buscar à joalharia o seu complemento, propiciando um completo discurso histórico, econômico, sociológico, etnológico e tecnológico.

95 Idem.

96 Cf. POLLINI, Denise, Breve história de Moda, São Paulo, Editora Claridade, 2007, s/p.. Disponível em:

https://books.google.pt/books?id=IH91DwAAQBAJ&pg=PT29&lpg=PT29&dq=penteado+fontange&so

urce=bl&ots=u6HWB1A49E&sig=ACfU3U2iL9c1A6b83mtBgV5VudddQc6gpA&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwjFotKdje7gAhUsShUIHToZA9cQ6AEwDnoECAUQAQ#v=onepage&q=pen teado%20fontange&f=true. Acedido a 02 março de 2019.

97 Cf. SOUSA, Gonçalo de Vasconcelos e, A Joalharia em Portugal: 1750-1825, Barcelos, Companhia Editora do Minho, S. A., 1999, p. 165-167.

98 Cf. SOUSA, Gonçalo de Vasconcelos e, Percursos da Joalharia em Portugal - Séculos XVIII a XX, (…), p. 36.

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