Aspectos lingüísticovisuais dos mapas
2.3 A infor matividade visual dos textos
Segundo Bernhardt (2004), o fato físico do texto, com sua aparência espacial na página, requer apreensão visual: um texto pode e deve ser entendido como um processo que é essencialmente diferente da percepção da fala. O modo escrito necessita da disposição dos caracteres escritos, um processo que fornece sinais visuais para a organização do texto.
Para o autor, podemos imaginar textos dispostos em um contínuo, com uma extremidade composta de textos que transmitem relativamente pouca informação visualmente, e na extremidade oposta, textos que revelam informação substancial por meio de cada pista visível como espaços em branco, ilustrações, variações na impressão e o uso de símbolos não alfabéticos, como números, asteriscos e pontuação. Certamente, a paragrafação, as margens, o uso de letras maiúsculas, e a pontuação fornecem alguma informação ao leitor, mas cada informação é extremamente limitada, enquanto pistas para a organização e relações lógicas dentro do texto. No outro extremo do contínuo, estariam textos que exibem sua estrutura, fornecendo ao leitor uma representação esquemática das divisões e hierarquias as quais organizam o texto.
Conforme Bernhardt (2004), em todos os níveis de estrutura, textos que são muito informativos visualmente compartilham características que não são típicas de textos que não exploram o potencial gráfico da língua escrita. O autor assegura que textos informativos visualmente atingem uma organização retórica, assim como o fazem os textos que são relativamente nãoinformativos visualmente. Ambos os tipos devem direcionar o leitor sobre como o texto deve ser lido, mas a maneira através da qual os textos visualmente informativos alcançam o controle retórico difere em meios importantes em textos nãovisualmente informativos, e em todos os níveis de organização, assim como no discurso inteiro, no parágrafo e na frase. Bernhardt (2004) destaca que, na página impressa, a localização do texto possibilita o uso seletivo do texto por diferentes públicos, com objetivos variados. No texto visível, níveis de subordinação são mais indicados por variações na impressão, tamanho das letras, ou pela colocação de cabeçalhos, do que por meio de laços coesivos ou subordinadores, os quais indicam relações semanticamente dependentes.
O texto reflete decisões do autor em adotar uma variedade de estratégias em resposta ao conteúdo ideacional que varia e o interesse de reunir as informações atrativamente para vários públicos. Cada uma das seções pode ter sido escrita em parágrafos integrados, mas as escolhas põem em destaque o potencial visual da língua escrita, de acordo com Bernhardt (2004).
O autor conclui que estudando textos atuais e a forma como tais textos funcionam em contextos particulares, podemse obter avanços em um entendimento aprimorado do que constituem estratégias efetivas e apropriadas de organização retórica. Ao mesmo tempo, afirma o autor, podemos aprender, a partir de cada estudo, como textos bem
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sucedidos são compostos e de que forma a escola pode atuar para incentivar os estudantes a tornaremse compositores capazes e criativos.
O supracitado autor também afirma que a função vai determinar a forma de organização e a disposição gráfica do texto. Então, baseados no posicionamento do autor, podemos inferir que, em mapas de turismo, se a função é destacar as qualidades da cidade, principalmente os elementos que possuem potencial turístico, o texto será organizado de modo que saliente tudo que poderá ser explorado com essa finalidade. Tal inferência é válida para os dois tipos de mapas analisados nesta pesquisa, e, devido a isso, é mostrado ou ressaltado somente o que é necessário para que o mapa cumpra sua função e alcance seu objetivo.
Há muitos estudos sobre a imagem e sua importância para o desenvolvimento do conhecimento. A questão da informatividade visual é um exemplo, e o estudo dos elementos nas imagens é outro. Esse estudo é proposto por Kress e Van Leeuwen (1996a) que, baseados na LSF, investigaram as funções dos objetos em determinadas posições nas imagens. A seguir podemos evidenciar os sistemas interrelacionados propostos por eles:
I) Valor informativo ou de informação: a localização dos elementos lhes confere valores informativos específicos relacionados às várias “zonas” da imagem: esquerda e direita, parte superior e parte inferior, centro e margem.
II) Saliência: os elementos organizamse de forma a atrair a atenção do espectador em diferentes graus, realizandose através de certos fatores como o posicionamento em primeiro ou segundo plano, o tamanho relativo, os contrastes quanto ao tom (ou à cor), diferenças quanto à nitidez, etc.
III) Framing: a presença ou ausência de estratégias de Framing (realizadas através de elementos que formam linhas divisórias ou mesmo através das próprias linhas do frame, isto é, do enquadramento da figura) desconecta ou conecta elementos da imagem, indicando que, em algum sentido, eles dependem ou não uns dos outros. (KRESS E VAN LEEUWEN, 1996a, p. 183).
Para os autores, qualquer texto cujos sentidos são produzidos através de mais de um código semiótico é multimodal. Na análise de textos multimodais, os autores levantam os questionamentos a seguir:
1. Os produtos dos vários códigos deveriam ser analisados separadamente ou de modo integrado?
2. Os sentidos do todo deveriam ser tratados como a soma dos sentidos das partes?
3. As partes deveriam ser observadas interagindo entre si e produzindo efeitos umas sobre as outras? (KRESS e VAN LEEUWEN, 1996a, p. 183).
Os autores afirmam que há dois códigos semióticos integradores, o espacial e o temporal. O primeiro atua em textos cujos elementos estão espacialmente coapresentados, como pinturas, paisagens urbanas e páginas de uma revista; e o segundo atua em textos que
se processam “ao longo do tempo como, por exemplo, a fala, a música, a dança”. Vale ressaltar que nesta pesquisa o nosso interesse está voltado somente para o código da composição espacial dos mapas. Os conceitos mostrados a seguir serão aplicados a estes gêneros.
Em relação ao valor informativo da direita e da esquerda da imagem, Kress e Van Leeuwen (1996a) apresentam o Dado como “algo que o espectador já conhece, é um ponto de partida consensual e familiar para a mensagem”, e o Novo como “alguma coisa ainda não conhecida, ou algo com o qual o espectador ainda não esteja de acordo e deva prestar especial atenção”. Ou seja, o sentido do Novo é “problemático”, “contestável”, “a informação em debate” e o Dado é o “consenso, que dispensa explicações” (p. 187).
Em uma composição visual, os seus elementos constituintes distribuemse de diferentes formas, uns se localizam na parte superior, e outros elementos na parte inferior da imagem. O elemento posicionado na parte superior é chamado pelos autores (p.193) de Ideal, “a essência idealizada ou generalizada da informação, a sua parte ostensivamente mais saliente” (Ibidem). O Real é representado pelos elementos localizados na parte inferior da imagem e se opõe ao Ideal, “por apresentar informações mais específicas, detalhes, como, por exemplo, fotografias, mapas ou gráficos, ou informações mais práticas, diretrizes para agir”. “A oposição entre Ideal e Real pode estruturar relações entre texto e imagem”, nas quais pode se observar a imagem complementando o sentido do texto verbal ou ainda o contrário (Ibidem).
A composição visual também pode se estruturar das dimensões do Centro e da Margem, segundo a dupla de pesquisadores. De forma sintética, a informação posicionada na parte central da imagem é chamada de Centro e os elementos posicionados ao seu redor são chamados de Margens. O Centro é apresentado como “o núcleo da informação ao qual todos os outros elementos estão de alguma forma subordinados” (p. 207). Segundo os autores, “as Margens são esses elementos auxiliares e dependentes” e podem ser “idênticas, ou muito semelhantes entre si, de modo que não exista sensação de divisão entre os elementos Dado e Novo e/ou Ideal e Real” (Ibidem). Os autores (1996) afirmam que o Dado/Novo e o Ideal/Real podem se combinar com Centro e Margem e que a posição das Margensdependerá do tamanho e mais ainda, daSaliênciado Centro.
Sobre as estruturas DadoNovo, IdealReal e CentroMargens, os autores contam que “a linguagem e a comunicação visual podem em muitos casos expressar o mesmo tipo de relação, ainda que de maneiras bem diferentes”. Existem também “relações que são expressas visualmente de modo mais fácil e habitual” (p. 211).
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Códigos de integração como a composição têm função textual, servem para “produzir textos, posicionar os elementos significativos dentro do todo e para proporcionar coerência e ordem entre eles” (Ibidem). A composição de uma imagem ou de uma página “envolve diferentes graus de Saliência com relação aos seus elementos” e a “Saliência pode criar uma hierarquia de importância entre os elementos, selecionando algum como o mais importante, como o merecedor de maior atenção que os demais” (Ibidem). Para os autores, o Dado pode ser mais saliente que o Novo, ou o contrário, ou ainda, ambos podem ser igualmente salientes. E o mesmo se aplica ao Ideal e Real e ao Centro e Margem.
Segundo os autores, quando a composição é o código de integração, a Saliência é julgada com base nas pistas visuais. O leitor é intuitivamente capaz de julgar o “peso” de vários elementos de uma composição, e quanto maior o peso de um elemento, maior é a Saliência. Esta Saliência pode não ser medida de forma objetiva, mas resulta de interação complexa, e de uma complexa relação de negociação entre um número de fatores: tamanho, nitidez do foco, contraste de tons, contraste de cores, posicionamento no campo visual, perspectiva e também fatores culturais muito específicos, como a aparência de uma figura humana ou um potente símbolo cultural. Assim, o peso visual cria uma hierarquia de importância entre os elementos dos textos integrados espacialmente, proporcionando a alguns mais atenção que a outros.
Ser capaz de julgar o peso visual de elementos de uma composição é ser capaz de julgar como esses elementos “se equilibram”. O peso que é colocado em escalas deriva de um ou mais desses fatores já mencionados.
De acordo com os autores (p. 213), a composição não é só uma questão de estética formal e de sentimento ou de atrair leitores (embora seja isso também); além disso, ela orienta os elementos significativos dentro de um texto coerente e faz isso de modo que as próprias composições seguem as exigências das estruturas de códigos específicos, produzindo elas próprias sentido.
O terceiro elementochave na composição, na opinião dos autores, é o Framing, o qual é produzido pelo ritmo em alguns textos integrados no tempo. Existe também o “framing visual, que é uma questão de gradação: os elementos da composição podem estar mais fortemente ou mais fracamente enquadrados” (p. 214). Quanto mais forte o framing de um elemento, mais ele é apresentado como uma unidade separada de informação. Cabe ao contexto ilustrar a natureza dessa “separação” de modo mais preciso.
O framing “pode ser produzido de diversas maneiras, por linhas de frame ou de enquadramento, pela descontinuidade da cor ou forma ou simplesmente pelo espaço vazio entre os elementos” (p. 216). O framing é responsável por conectar ou desconectar elementos da imagem. Tal conexão é assim explicada:
A conexão pode ser enfatizada pelos vetores, que podem ser produzidos pelos elementos retratados ou pela ausência de elementos gráficos, conduzindo o olhar de um elemento para outro, começando do elemento mais saliente, que chama mais atenção do espectador (Ibidem).
Cada elemento, Dado ou Novo, Ideal ou Real, Centro ou Margem, pode ter um frame mais forte ou mais fraco (ou nenhum). Kress e Van Leeuwen (1996a) fizeram um estudo das composições lineares e nãolineares. Páginas densamente impressas de texto sugerem uma leitura linear e estritamente codificada, da esquerda para a direita e de cima para baixo, linha a linha. Uma leitura diferente desta pode causar um desconforto no leitor por saber que está desobedecendo à sugestão de leitura linear proposta pelo texto. Páginas como as de tirinhas e imagens como diagramas de linha do tempo também são desenhados para serem lidos de forma linear. Há outros tipos de páginas que podem ser lidas de formas diferentes, não possuem orientações de leitura. Alguns processos de leitura começam no elemento mais saliente e se movem para o próximo elemento mais saliente e assim sucessivamente, como um movimento circular.
Os autores consideram que a fotografia ou o título podem formar um ponto de partida para a leitura de qualquer leitor. O trajeto de leitura mais plausível acontece quando os leitores olham primeiro para a foto e em seguida começam a olhar da esquerda para a direita, do título para a foto. Depois disso, é opção do leitor olhar o corpo do texto verbal. Esse tipo de percurso de leitura não é obrigatório nem codificado: diferentes leitores podem trilhar diferentes trajetos, pois o que determina o que é mais ou menos saliente é proposto pela cultura. Há de se admitir que em diferentes culturas existem variados graus de hierarquia de Saliência, isso permite mais de um percurso de leitura e, por conseguinte, a ampliação do público leitor. Tais percursos podem ser circulares, diagonais, espirais, dentre outros.
Na concepção dos autores, textos podem ser lineares ou nãolineares. Os primeiros são como filmes, em que a única opção dos espectadores é “assistir às imagens na seqüência que foi escolhida” (p. 222). Os autores comparam tais textos a uma exposição de arte – que apresenta suas pinturas em longos corredores a serem percorridos pelos visitantes até chegarem à saída.
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Já os textos nãolineares, que não apresentam nenhum percurso de leitura claro, assemelhamse às novas tecnologias, onde os espectadores podem selecionar suas próprias imagens, e escolher a seqüência de leitura, ou como uma exposição em uma grande sala, onde os visitantes podem circular como preferirem. Os autores ressaltam que o modo como essas exposições são organizadas nunca se dá de forma aleatória, assim como nos textos, em que as imagens não são estruturadas ao acaso.
Os textos lineares descrevem a seqüência de elementos e a conexão entre esses elementos. Já os textos nãolineares selecionam os elementos que podem ser vistos e os apresentam de acordo com certa lógica, e deixam que o leitor faça as conexões entre esses elementos. Em resumo, “os textos lineares e nãolineares constituem dois modos de leitura e dois regimes de controle sobre o sentido” (p. 223).
A partir do exposto, inferese que o produtor de textos deve organizálos de forma coerente e concisa, para prender a atenção do leitor. Isso ocorre nos mapas, de acordo com as intenções de quem os produz e, também, de como tais gêneros serão utilizados. O emprego de diferentes recursos semióticos pode contribuir na estruturação do texto e, por sua vez, na compreensão do mesmo, mas também há de se considerar que recursos mal empregados ou empregados de forma difusa, sem estruturação, prejudicam a leitura, pois não permitem que o leitor estabeleça as conexões necessárias entre os elementos e consiga a partir dessas conexões, interpretar o texto e construir sentido.
Podemos enumerar vários exemplos de situações em que os recursos semióticos são mal empregados, desde uma redação escolar – que apresente falhas quanto à coesão e coerência, ou sentenças ambíguas – até um mapa que contenha informações em demasia, mas que não consiga informar com precisão o percurso a ser feito pelo leitor para chegar a determinado local.