Parte 1 Origens e Problemáticas do Mutualismo Português
1.1. O mutualismo na Europa: diferentes realizações do mesmo ideal? 1 Itália: Monti di Pietà e Società di Mutuo Soccorso
1.1.4. Inglaterra: as friendly societies entre o socorro e a sociabilidade
O principal estudo sobre as friendly societies, a designação inglesa para as associações de socorros mútuos, continua a ser a obra de P.H.J.H Gosden, The Friendly
Societies in England, 1815-187145. Gosden eleva, como principal problemática, o papel da aristocracia operária na formação do associativismo e especificamente para a constituição do movimento mutualista. Uma das conclusões mais relevantes do autor centram-se no facto de a sua distribuição geográfica ter sido determinada pelas necessidades de proteção crescentes da classe trabalhadora surgidas nesse período146, ou
seja, relaciona o seu fomento com o aumento do movimento operários. A obra de Gosden foi pioneira no desenvolvimento de estudos sobre estas instituições. Dela emergiram outras problemáticas que se revelariam estruturantes da evolução do mutualismo inglês, como o papel da classe operária no seu todo, o contributo das friendly societies (FS) para o desenvolvimento da medicina e para a construção do Estado Social no início do século
XX, ou a sua importância como locais de sociabilidade e de promoção de cultura. A investigação introduziu, mais recentemente, mais duas problemáticas estruturantes: as razões que motivavam à participação nestas instituições e o estudo dos seus moldes de prestação de socorros.
Quando comparados com os estudos estruturados para Itália, França e Espanha, as problemáticas desenvolvidas por Gosden apresentam possibilidade de análise muito mais vastas, tendo o autor desenvolvido temáticas como a composição dos membros, a relação entre o equilíbrio financeiro com as contribuições e os subsídios prestados, ou a responsabilidade ética (moral hazard)147 dos seus membros. Depois de Gosden, o mutualismo na Inglaterra conheceu um extenso e amplo debate, uma amplitude de abordagens que resulta da variada tipologia de associações que desenvolveu em Inglaterra. Esta diversidade ficou claramente evidente quando no século XIX o Estado
145 P.H.J.H Gosden, The Friendly Societies in England, 1815-1875, Manchester, Manchester University
Press, 1961.
146 Ibidem, p. 2.
147 Por moral hazard ou responsabilidade ética entende-se, de forma simplificada, o ato de um agente
económico alterar o seu comportamento em função de interesses específicos, normalmente os seus próprios interesses. No caso do mutualismo, a responsabilidade moral coloca-se, sobretudo, na gestão do interesse do agente perante o interesse coletivo.
inglês intensificou os esforços para conhecer o movimento com mais acuidade, tendo inclusive efetuado um exercido de classificação das FS. Desse esforço resultou a elaboração de 17 categorias diferentes que correspondiam a variáveis de dimensão, de distribuição geográfica, de categorias profissionais, entre outras148, o que sublinha a multiplicidade de modelos. Os estudos que se desenvolveram posteriormente procuraram simplificar esta classificação. Uma das qualificações mais significativas foi estruturada por Simon Cordery149, que dividiu as FS de acordo com várias perspetivas. Primeiramente, seguindo uma lógica financeira, separando-as entre as acumulating
societies (as associações que não distribuíam os seus fundos pelos seus membros, ma
investiam-nos) e as split monies (que distribuem os seus fundos entre os seus membros no final de cada ano)150. A esta divisão de cariz financeiro faz acrescer a diferenciação por tipologia de administração, agrupando entre as que eram geridas pelos seus membros, as affiliated orders, e as que eram administradas por patrões, estas em menor número. Separou, por fim, as associações direcionadas apenas para os enterros dos seus membros, as burial societies (que normalmente não eram geridas democraticamente, nem enquadravam a parte da convivialidade). Contudo, de uma perspetiva geral, Simon Cordery define-as como associações voluntárias de operários que oferecem prestações de seguro, mas possibilitavam, simultaneamente, a convivialidade aos seus membros151.
Uma das principais abordagens presentes nos estudos ingleses foca o papel do Estado na promoção do movimento em Inglaterra. Esta problematização deriva, em grande medida, do acompanhamento precoce que o Estado inglês fez do movimento. Com efeito, a primeira legislação europeia específica sobre o mutualismo foi aprovada primeiramente em Inglaterra, em 1793, o Act for the Encouragemente and Relief of
Friendly Societies, de George Rose (diploma que ficou conhecido como o Friendly Societies Act). O interesse pioneiro do Estado inglês surge justificado na literatura pela
tenção dada à questão do combate à pobreza que a análise das poor laws152 propiciou pelo Estado. Martins Gorsky153 corrobora desta ideia e acrescenta duas justificações para o facto. Em primeiro lugar, que o Estado inglês terá tido um conhecimento precoce das FS
148 Cf. Gosden, op. cit., 1961.
149 Simon Cordery, British Friendly Societies, 1750-1914, Londres, Palgrave Macmillan UK, 2003. 150 Ibidem, p. 8.
151 Ibidem.
152 Sobre as poor laws ver a obra clássica de George Nicholls, History of the English Poor Laws: in Connection with the State of the Country and the Condition of the People, Londres, P. S. King & Son, 1898. 153 Martin Gorsky, «The growth and distribution of English friendly societies in the early nineteenth
em função dos inquéritos que efetuou às poor laws, sendo os mais significativos o de 1803 e o de 1813-15. Por outro lado, que terá sido o trabalho realizado sobre as poor laws a colocar uma maior ênfase nas FS. O exemplo mais significativo foi protagonizado por George Rose, que em 1805 elaborou o trabalho Observations on the poor laws154, obra na qual desafia Malthus155 a incluir nas poor laws a possibilidade de atribuir pensões para os membros mais idosos das FS. Mas não foi um caminho linear. Já em 1803, quando John Rickman156 organizou o primeiro censo da população sugeriu, nos trabalhos preliminares, que as FS eram possíveis focos de revolta e insubordinação. Todavia os resultados finais foram mis simpáticas para as FS dado que o relator, Thomas Poole157, via as FS como soluções para os problemas que as poor laws não conseguiam resolver.
Com efeito, as poor laws combatiam a pobreza através de uma escala estabelecida ao nível das paróquias, sendo que em cada paróquia os proprietários pagavam uma taxa, a poor rate, que era depois distribuída aos necessitados, sendo estes identificados pelos administradores da paróquia. O problema deste sistema, segundo as análises historiográficas, era o desagrado que causava nos atores envolvidos: aos proprietários, porque tinham obrigatoriamente de contribuir com uma determinada quantia; aos pobres porque o sistema lhes conferia um estigma de pobreza, para além da gritante precariedade da assistência158. Foi neste contexto que algumas elites começaram a defender um modelo alternativo de combate à pobreza159. As ideias difundidas defendiam, comummente, que o sistema deveria basear-se em contribuições e subsídios regulares. As friendly society vieram, precisamente, materializar estas reflexões. Primeiramente porque nos socorros prestados estava claramente definido, em livros próprios de cada friendly society, um conjunto de regras que iam nesse sentido. Enquadravam-se aí as condições para que um
154 O trabalho de George Rose tem a denominação completa de Observations on the Poor Laws, and on the Management of the Poor, in Great Britain, Arising from a Consideration of the Returns Now Before Parliament.
155 O debate que envolve George Rose, Malthus e os abolicionistas era bastante abrangente. No que respeita
às friendly Societies a questão centrava-se principalmente em torno da possibilidade da elevação dos salários para aumentar as taxas de poupança privada, o que conduziria ao reforço de inscrições nestas instituições, conforme argumentava George Rose. Malthus, em resposta a Rose, viria a colocar, no ensaio
Essay on the principle (pp. 101-102) a possibilidade de que a elevação dos salários iria encorajar a
poupança.
156 John Rickman (1771-1840) foi um político inglês que também se entregou ao desenvolvimento da
estatística no país.
157 Thomas Poole (1766-1837) foi um filósofo britânico muito dedicado à questão da pobreza. 158 Simon Cordery, op. cit., 2003, pp. 21-22.
159 É neste contexto que surge o trabalho de Daniel Defoe, com a obra An Essay Upon Projects, no qual
apresenta um projeto de uma organização denominado «Of Friendly Societies», na qual os indivíduos se poderiam ajudar mutuamente uns aos outros em caso de desastre. Ver Daniel Defoe, An Essay Upon
candidato pudesse ser admitido numa friendly society, o limite de idade, a saúde do pretendente, e um conjunto de outros requisitos mais específicos, como o local de residência e a profissão, sendo vedado o acesso a quem tivesse ocupações consideradas perigosas ou nocivas à saúde, como a profissão de militar ou mineiro. Para além disto, os candidatos teriam de ser propostos por membros efetivos, para respeitar a vertente moral das associações. Estes requisitos de ordem moral estipulavam também que as ajudas não seriam concedidas em caso de o membro ser ferido ou morto como consequência de briga ou de alcoolismo. As análises sublinham que havia grande uniformidade nestas regras entre as diversas friendly societies inglesas160, sendo as mesmas apenas alteradas quando foram inseridos os cálculos atuariais.
Outra temática estruturante dos estudos sobre as FS inglesas prende-se com as razões do seu desenvolvimento e distribuição geográfica. Hopkins argumenta que essa evolução dependeu, essencialmente, da natureza da economia local, ou seja, a maior concentração de FS ocorreu onde primeiramente se sentiram mais os efeitos da revolução industrial161, ainda que Martin Gorsky e David Neave162 refiram que algumas regiões
rurais tenham conhecido também níveis elevados de implementação das friendly
societies163. A perspetiva de Gorsky vai, por sua vez, apresentar o desenvolvimento das FS como o resultado do processo de urbanização e não tanto de industrialização, embora os dois se encontrem interligados. O ponto fulcral na teoria do autor é o facto de o início do século XVIII ter sido marcado por acentuados movimentos migratórios, deixando os migrantes sem proteção social e sem redes de sociabilidade, funcionando aí as sociedades como clubs que enquadravam e integravam os novos membros. Estes clubs, conforme foram descritos por E. P. Thompson164 eram regidos por um conjunto de regras formais que ajudavam a integrar as classes trabalhadoras nos novos locais.
Também aqui a afirmação do mutualismo fez-se pelo desaparecimento rápido das instituições que anteriormente protegiam os trabalhadores dos seus problemas específicos. Nesta perspetiva, na origem das friendly societies terá estado o crescimento urbano e industrial, mas também o colapso das fraternidades religiosas e das guildas no
160 Simon Cordery, op. cit., 2003, p. 27.
161 Eric Hopkins, Working-class self-help in Nineteenth Century England: Responses to Industrialisation,
Londres, UCL Press, 1995.
162 Martin Gorsky, op cit., 1998.
163 Ibidem, David Neave, Mutual Aid in the Victorian Countryside: Friendly Societies in the Rural East Riding 1830–1914, Hull, Hull Academic Press, 1991.
164 Ver E. P. Thompson, The Making of the English Working Class, Londres, Penguin Books, 1968, pp.
século XVIII. Esta conjugação originou, depois de 1800, uma grande efervescência de
clubs relacionada com uma sociedade agora mais urbana que exigia novas formas de
gastar o tempo livre e uma nova cultura pública. Para além da convivialidade, as famílias procuravam novas formas de proteção, abrindo caminho à afirmação das formas de apoio social e segurança que as friendly societies ofereciam.
Martin Gorsky sugere também que a distribuição geográfica das FS pode refletir a diferença de salários entre regiões, ou seja, salários mais elevados levariam ao aumento das taxas de poupança e à correspondente inscrição nas FS. Identifica, contudo, a existência de regiões com salários baixos e taxas altas de inscritos nas associações, o que pode contrariar a primeira ideia, sendo este um debate profundamente em aberto na literatura inglesa. Mas, por outro lado, a evidência sugere que as friendly societies podem ter melhorado os níveis de vida da Inglaterra saída da Revolução Industrial, em particular os rendimentos das famílias, o que terá aumentado o número de membros das FS. Todavia, a pertença a uma FS pode ter sido condicionada por outros fatores, como a procura de cuidados de saúde e de proteção contra os riscos dos ciclos de vida. Martin Gorsky sublinha que entre 1714 e 1830 (o período «georgiano») terá aumentado a procura por seguros mútuos de doença, um crescimento relacionado com a propagação de uma nova cultura de saúde, pelo crescente prestígio da medicina e pela expansão dos hospitais. Outro veículo de dinamização das FS prende-se com o facto das FS se terem tornado locais preferidos dos homens de trabalho no século XVIII, sobretudo porque ajudavam a obtenção de novos trabalhos, tornando-se autênticos centros de negócios informais, como acontecia com as cervejarias. Esta função social das FS é igualmente destacada por D. G. Green, que sublinha a importância das instituições como veículos de enquadramento social, sublinhando inclusive a existência de rituais, como cerimónias de iniciação, utilização de palavras-passe e sinais secretos específicos de cada instituição e a utilização de bandeiras e de emblemas, elementos que conferiam uma sensação de pertença aos seus membros165.
No que respeita à finalidade das friendly societies, alguns estudos têm problematizado a importância destas instituições para o desenvolvimento dos cuidados de saúde em Inglaterra166. O trabalho inaugural neste campo foi desenvolvido por James
165 Ver, sobre a temática D. G. Green, Reinventing Civil Society: The Rediscovery of Welfare Without Politics, London, IEA Health and Welfare Unit, 1993; Peter Clark, British Clubs and Societies, 1580-1800,
Oxford, Oxford University Press, 2000, pp. 350-87.
166 Veja-se, sobre a relação entre friendly societies com a prestação de cuidados de saúde, James C. Riley, Sick Not Dead: The Health of British Workingmen during the Mortality Decline, London, The Johns
C. Riley, em 1997, com o título Sick Not Dead: The Health of British Workingmen during
the Mortality Decline. Este autor analisou a forma de prestação de cuidados de saúde e a
relação das FS com os seus médicos a partir do século XVIII, sublinhando o facto dos jovens médicos, com dificuldades em encontrar emprego, começarem a trabalhar nas FS aceitando salários reduzidos, o que potenciava a oferta de cuidados de cuidados de saúde a preços módicos. Note-se que a importância das FS como instituições fomentadoras de socorros sociais foi reconhecida em 1911, quando os poderes públicos instituíram o
Nacional Insurance Act, um diploma que criou o sistema dos seguros sociais obrigatórios
em Inglaterra, um sistema que enquadrou as friendly societies167. Resulta daqui precisamente, da relação entre as associações mutualistas pré-existentes e a criação pelos estados de serviços de proteção social estatal criados no início do século XX, um dos pontos mais interessantes do exemplo britânico.