PARTE I – REFORMA AGRÁRIA E MEIO AMBIENTE:
2. POLÍTICA AMBIENTAL
2.2 PRINCIPAIS INSTRUMENTOS
2.2.5 Instrumentos Econômicos
Tradicionalmente, a produção econômica considera a extração dos recursos naturais como renda sem haver compensação pela dilapidação do capital natural. Da mesma forma, gastos com o controle da poluição e tratamento de dejetos são acoplados na renda do produto. Isso provoca o que os economistas denominam de externalidades. Estas podem ser definidas como os efeitos indiretos que ações privadas provocam sobre o bem-estar comum. Alguns exemplos desses efeitos indiretos são: a poluição do ar provocada pela queima de combustíveis fósseis e biomassa; a poluição de rios por dejetos químicos e a destruição de florestas nativas para permitir o avanço da agropecuária (MAY, 1998).
A Agenda 21 – aprovada na Rio-92 – está repleta de recomendações sobre a necessidade de ‘internalização’ dos custos ambientais nos preços dos produtos (MAY, 1998). A esse preceito que busca corrigir os custos ambientais adicionados à sociedade, dá-se o nome de ‘princípio do poluidor pagador’. Esse princípio não pode ser visto como uma espécie de autorização para poluir e sim como um mecanismo cuja finalidade é incentivar os agentes econômicos a adotarem práticas menos lesivas ao meio ambiente (MODÉ, 2004).
A internalização dos efeitos negativos das atividades produtivas pressupõe, na maior parte das vezes, a intervenção estatal. O Estado pode intervir por meio da regulação direta do comportamento dos agentes econômicos ou por meio do emprego de instrumentos econômicos de política ambiental. Esses últimos permitem a simulação do funcionamento dos mecanismos de mercado, definindo um preço a ser pago pela utilização ou pela degradação dos recursos naturais (CARVALHO, 2004).
No Brasil, a aplicação de instrumentos econômicos na política ambiental ainda é restrita. A legislação brasileira é alicerçada sob mecanismos regulatórios de comando e controle, o que requer intensa fiscalização pelos órgãos ambientais responsáveis. Entretanto, diante das inúmeras dificuldades que a Administração Pública tem para realizar efetivamente essa fiscalização, a utilização de instrumentos econômicos assume cada vez mais um papel
preponderante como um meio racional, eficiente e viável de buscar a proteção ambiental (CARVALHO, 2004).
Entre os instrumentos de intervenção na atividade econômica com vistas à proteção ambiental, podem ser destacados os seguintes (SANTANA, 2004):
- tributos ambientais: impostos, taxas e contribuições de melhoria, dentre outros.
- autorizações negociáveis de exploração: cotas com patamares máximos de emissão de poluentes, em que é permitida a negociação da diferença entre o poluidor que ficou abaixo do patamar estabelecido com outros que ultrapassaram.
- subsídios: recursos estatais direta ou indiretamente entregues aos envolvidos que se dispõem a ter atividades menos ambientalmente impactantes.
- depósito-retorno ou imposto restituível: parte do preço de mercadorias descartáveis é restituída ao consumidor, que pode vendê-las no pós-consumo.
No Brasil, o ordenamento jurídico prevê diversos tributos ambientais, dentre os quais Santana (2004) destaca: taxas municipais de lixo, esgoto e utilização sonora, taxas florestais, taxas de visitação e contribuição de intervenção no domínio econômico17. No entanto, Zeola (2003) afirma que a enorme carga tributária já existente no País dificulta a criação de novos impostos ou o aumento da alíquota dos já vigentes. Nesse sentido, a redistribuição dos tributos de forma adequada, possibilitando punir os degradadores e incentivar os que protegem a natureza, é uma opção que vem se tornando um importante modelo.
Um interessante mecanismo que vem sendo adotado é o ICMS ecológico. Por meio dele, uma parcela da receita obtida na arrecadação do ICMS é destinada ao município proporcionalmente ao seu compromisso ambiental. Como a Constituição Federal permite que 25% dos recursos do ICMS sejam repassados conforme previsto em Lei Estadual, vários estados, conforme suas peculiaridades ambientais, inseriram critérios ecológicos na repartição do ICMS para os municípios (ZEOLA, 2003).
A origem desse instrumento relaciona-se à busca de alternativas para municípios com restrições ao uso do solo que dificultam o desenvolvimento de atividades econômicas clássicas. Usualmente a forma de distribuição dos recursos do ICMS (Imposto sobre operações relativas à circulação de mercadorias e prestação de serviços) privilegiava tão somente os municípios com maior desenvolvimento econômico. Os municípios que apresentavam muitas áreas de preservação permanente, mananciais hídricos e reservas
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A Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) é cobrada sobre atividades de importação ou comercialização de álcool combustível, petróleo, gás natural e seus derivados. Parte dos recursos obtidos é destinada ao financiamento de projetos ambientais relacionados às indústrias do petróleo e do gás.
indígenas, ficavam prejudicados tanto pela restrição de uso econômico de parte de seu território, como pelo menor repasse de recursos tributários referentes ao ICMS (SCAFF & TUPIASSU, 2005).
O primeiro estado a adotar o ICMS ecológico foi o Paraná em 1991. Com a instituição desse instrumento parte da receita do ICMS passou a ser distribuída de acordo com o tipo e o tamanho das áreas de preservação permanente. Em cerca de oito anos, observou-se um aumento da ordem de 142,82% no total da superfície ocupada por unidades de conservação no estado (SANTANA, 2004).
Um dos aspectos relevantes do ICMS ecológico é que não se trata da criação de um novo tributo, o que implicaria em aumento da carga tributária. Trata-se apenas da adoção de critérios ambientais para a repartição de um tributo já existente. Além disso, a utilização desse instrumento tem um ônus operacional mínimo para o Estado. Para sua implementação, em geral, pode-se aproveitar a estrutura administrativa estatal existente (SCAFF & TUPIASSU, 2005).
Nos diversos estados em que o ICMS ecológico foi implantado, obtiveram-se resultados amplamente positivos no que tange às políticas ambientais municipais. Por meio desse instrumento, não apenas as indústrias poluidoras incrementam a arrecadação tributária, mas as ações que levam a melhoria ambiental, como a preservação de áreas verdes, também passam a aumentar os ganhos financeiros dos municípios. A prática do ICMS ecológico mostra que a tributação, em seu amplo sentido, pode e deve ser usada como instrumento nas políticas ambientais (SCAFF & TUPIASSU, 2005).
Os êxitos alcançados com a implementação do ICMS ecológico corroboram com o que Carvalho (2004:20) defende: “[...] existem soluções criativas e caminhos alternativos capazes de oferecer maior eficiência gerencial à política ambiental, observando que não podemos mais nos contentar meramente com nossa atitude normativa [...]”. Para esse autor a utilização dos instrumentos econômicos traz efetividade à política ambiental. Nesse sentido, Modé (2004) também afirma que:
A utilização desses instrumentos deve se dar de acordo com suas respectivas características e finalidades, não se pretendendo atribuir aos instrumentos econômicos função diversa a indução dos agentes econômicos, assim como não aguardar efeito econômico/ambiental eficiente mediante a utilização de uma norma proibitiva ou simplesmente autorizativa de determinada conduta.
O melhor resultado para uma política ambiental e econômica, sem dúvida, advém da utilização concertada de ambos os instrumentos, buscando extrair de cada um deles o que de melhor têm a proporcionar (MODÉ, 2004:95).