SOCIEDADE SIMPLES
12. INTEGRALIZAÇÃO DO CAPITAL
É obrigação do sócio a integralização de sua parte no capital social subscrito. No contrato, os sócios que contribuem com capital se obrigaram a transferir para a sociedade determinada quantia em dinheiro ou em outros bens de igual valor (a ser apreciado pelos demais sócios). É de se observar que nem toda transferência de patrimônio do sócio para a sociedade constitui integralização do capital (pode ser uma doação, por exemplo). Em caso de mora, depois de trinta dias da notificação ao sócio inadimplente, a sociedade tem duas alternativas: excluir o sócio remisso ou acioná-lo judicialmente para que se dê o cumprimento de sua respectiva obrigação.
40 Solução do professor: “é matéria para a jurisprudência decidir”. Poderia ele substituir sua frase por “me inclua
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Aulas n.º 04 e 05
15 e 28 de março de 2008
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13. EXCLUSIVIDADE
Art. 1.006. O sócio, cuja contribuição consista em serviços, não pode, salvo convenção em contrário, empregar-se em atividade estranha à sociedade, sob pena de ser privado de seus lucros e dela excluído.
Refere-se ao sócio cuja contribuição seja somente em serviços. Parte da literatura jurídica afirma que a exclusividade exigida não é absoluta, no sentido de que, se o sócio cumpre regularmente suas obrigações para com a sociedade, por meio de seus serviços, pode se liberar da exigência de exclusividade, só se ensejando a exclusão em caso de inadimplemento. Dessa forma, não haveria impedimento para que o sócio desenvolvesse a mesma atividade econômica de maneira autônoma. Para Otávio Augustus, ainda assim, ferir- se-ia o affectio societatis, pois haveria concorrência entre sociedade e sócio, ensejando a imediata exclusão deste, por descumprimento do contrato – não há como haver comunhão plena de interesses entre concorrentes (em alguns aspectos, por exemplo, a Ford pode ter objetivos comuns aos da Volkswagen, mas não no todo, evidentemente).
De qualquer forma, qualquer sócio está sujeito à exclusão se não cumpriu com as obrigações clausuladas no contrato. Há quem justifique a existência da norma na menção do Código Civil à exclusão do sócio capitalista – que deveria ter um dispositivo correspondente para o sócio que contribui somente com serviços.
No entanto, o professor admite que não deve haver uma exigência absoluta de exclusividade, pois não se pode privar o sócio de desenvolver qualquer outra atividade econômica, ou para que seja sócio de capital de outra sociedade, ou de serviços, se a atividade prestada for diversa. Pode ainda o contrato social autorizar a quebra da exclusividade; por exemplo, uma sociedade de médicos pode autorizar a prestação de serviço de seus sócios em hospitais concorrentes.
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SOCIEDADE SIMPLES
(Continuação)
SUMÁRIO: 1. Administração. 1.1. Administrador. 1.1.1. Deveres. 1.1.2. Excesso de poder. 1.1.3. Relações com terceiros. 1.1.4. Responsabilidade do administrador. 1.1.5. Vedação à substituição. 2. Resolução da sociedade em relação a um sócio. 2.1. Exclusão voluntária. 2.2. Exclusão judicial. 2.3. Exceção de pleno direito. 2.4. Apuração da quota. 3. Dissolução. 4. Liquidação.
1. ADMINISTRAÇÃO
Como visto anteriormente, a sociedade simples delibera com os sócios que representam a maioria do capital social. No entanto, nem todas as deliberações se dão dessa forma. Toda sociedade simples tem um órgão de administração, que tem duas funções básicas: interna, de gestão, de dirigir a sociedade, nas esferas de atuação autorizadas pelo contrato social (ou pela deliberação dos demais sócios), referentes às decisões quotidianas da sociedade; e externa, de presentação da sociedade em relação a terceiros – a rigor, o administrador não representa a
sociedade, pois a forma mais correta de se observar essa relação é por meio da concepção organicista: a administração como órgão da sociedade. Sendo assim, os atos do administrador são como se fosse a própria sociedade agindo, ainda que por meio de órgão seu – que não é uma terceira pessoa, em relação a terceiros. A representação requer, necessariamente, duas pessoas, representante e representado (re-presentar = fazer-se presente novamente41). Pontes de Miranda criou o termo presentação, pois se refere ao modo pelo qual a pessoa jurídica se faz presente. Assim, o administrador presenta, e não representa a sociedade. É importante absorver esse conceito ao se deparar com algum vício ou defeito nos atos praticados pelo administrador em nome da sociedade: em função daquela natureza jurídica (presentação), pode o ato ser considerado viciado ou não.
O Código Civil, no art. 1.011, em seu parágrafo segundo, estabelece que “aplicam-se à atividade dos administradores, no que couber, as disposições concernentes ao mandato”. No mandato, há a representação; por isso, o Código menciona “no que couber” , pois, aplicada indistintamente a regulação do mandato, ferir-se-ia a concepção organicista da sociedade. Então, à falta de um regramento jurídico completo referente à relação administrador/sociedade, dever-se-á buscar regras e princípios relativos ao mandato para tutelar essa relação jurídica. No entanto, é necessário o cuidado de se observar que a aplicação das normas do mandato à administração se dá em função de analogia prevista em lei, mas com as devidas adaptações, devido à ausência de representação. Afinal, pode haver mandato sem representação42, e representação sem mandato. Quando se entende que o administrador é um órgão da sociedade, não há duplicidade de pessoas43.
41 Otávio Augustus e sua aula de etimologia.
42 Sinceramente, não sei de onde ele tirou isso. Para mim (e para Ana Paola), mandato sem representação é mera
prestação de serviço. Se você concorda ou discorda, e-meie para... você sabe o endereço.
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1.1. Administrador
Pode ser administrador da sociedade simples tanto o sócio como o não-sócio – não há distinção em relação aos poderes conferidos (a extensão dos poderes não guarda relação com a condição de sócio). A diferença: quando o administrador é sócio, e designado para a função no contrato social, seus poderes são irrevogáveis, não cabendo substituição. Sendo o administrador um não-sócio, ou, se sócio, sua designação não constar no contrato social, mas em documento apartado (caso a nomeação tenha ocorrido a posteriori), pode ele ser destituído a qualquer tempo – por decisão da maioria do capital social – ou renunciar aos poderes, sendo permitida, dessa forma, a sua substituição.
Sendo o contrato social silente em relação ao administrador, não havendo qualquer menção a pessoa específica que assumirá a função, todos os sócios terão a atribuição de administrar a sociedade. Cada um deles poderá agir isoladamente. Havendo conflito nas deliberações dos administradores, preponderará aquela aprovada por meio de deliberação dos sócios que representem a maioria do capital social.
O administrador não poderá tomar decisão contrária aos interesses da sociedade. O parágrafo 3º do artigo 1.010 define que “responde por perdas e danos o sócio que, tendo em alguma operação interesse contrário ao da sociedade, participar da deliberação que a aprove graças a seu voto”. O dispositivo não se refere apenas ao administrador, mas a todo sócio que, por meio de seu poder de voto, manifeste interesse contrário ao da sociedade. O direito à indenização só surgirá se houver, de fato, perdas e danos – caso contrário, não há o que se ressarcir. Há que se salientar que, aqui, o interesse é divergente em matéria específica, pois o sócio não pode ter uma situação jurídica ou negocial que o ponha em permanente situação de conflito com os interesses da sociedade – o que ensejaria a quebra do affectio societatis e a conseqüente exclusão do sócio do quadro social; já no primeiro caso, haveria um mero impedimento à participação de deliberação sobre a matéria controversa.
1.1.1. Deveres
É dever do administrador obedecer aos limites designados no contrato social ou no documento em separado que o instituiu. São os limites à prática dos atos necessários ao exercício da atividade vinculada ao objeto social. Assim, o administrador pode praticar qualquer ato em nome da sociedade, desde que necessários ou ligados ao objeto da sociedade, designado em seu contrato social (ex.: comércio de sapatos). A lei exclui, expressamente, como vinculado a esse objeto, em caso de contrato silente, a alienação ou oneração de bens imóveis, devendo tais atos se submeter à deliberação da maioria do capital social – exceto se o objeto social for, de fato, a alienação de imóveis, como numa construtora44, por exemplo. O Código Civil ainda define:
Art. 1.011. O administrador da sociedade deverá ter, no exercício de suas funções, o cuidado e a diligência que todo homem ativo e probo costuma empregar na administração de seus próprios negócios.
Poder-se-ia, de acordo com Otávio Augustus, resumir o dispositivo como “agir, nos negócios da empresa, como se estes fossem seus”. Esse é o critério para se saber se o administrador foi ou não leal à sociedade (se fosse em nome próprio, ele praticaria aquele ato?).
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1.1.2. Excesso de poder
Ocorre quando o administrador pratica ato sem respaldo no contrato social – fora do objeto da sociedade ou contrariando, expressamente, cláusula do ato constitutivo que vede a sua prática. Há duas questões:
a) se houver lucro para a sociedade, o administrador não pode pleitear qualquer proveito por
conta desse resultado positivo – salvo a remuneração prevista no contrato social, ou a participação nos lucros inerentes à sua condição de sócio. Dessa forma, só receberá a quantia ordinária a que teria direito sem qualquer tipo de acréscimo.
b) se o ato implicar prejuízo, independentemente de qualquer outra circunstância, o
administrador responderá, pessoalmente, perante terceiros, e terá que indenizar a sociedade pelas perdas e danos causados.
1.1.3. Relações com terceiros
Nas relações com terceiros, é possível que haja vício da presentação do administrador. No mandato, se os atos forem praticados excedendo os poderes definidos no contrato, o mandante não se vincula ao terceiro envolvido na relação com o mandatário45. No caso do administrador a questão, levando-se em conta a concepção organicista anteriormente mencionada, é se os atos praticados com excesso de poder (atos ultra vires societatis46) vinculariam ou não a sociedade diante de terceiros.
O que se entende hoje – há, inclusive, dispositivo legal expresso – é que vincula a sociedade. É o que se depreende do artigo 1.015 do Código Civil:
Art. 1.015. No silêncio do contrato, os administradores podem praticar todos os atos pertinentes à gestão da sociedade; não constituindo objeto social, a one- ração ou a venda de bens imóveis depende do que a maioria dos sócios decidir. Parágrafo único. O excesso por parte dos administradores somente pode ser oposto a terceiros se ocorrer pelo menos uma das seguintes hipóteses: I - se a limitação de poderes estiver inscrita ou averbada no registro próprio da sociedade;
II - provando-se que era conhecida do terceiro;
III - tratando-se de operação evidentemente estranha aos negócios da sociedade.
O inciso I trata da limitação dos poderes contida no contrato social (o qual, ao estar devidamente registrado no Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas47, torna pública a limitação). Nesse caso, haverá vinculação pessoal e direta entre o administrador e o terceiro.
Quando o administrador age regularmente no exercício de suas funções ele jamais é responsabilizado por esses atos (um empréstimo bancário feito pelo administrador, presentando
45 Porque o terceiro tem o direito de conferir se os atos estavam ou não dentro dos limites dos poderes de
representação do mandatário. Era só ler a procuração. Mas pode, também, o mandante se vincular ao terceiro, caso ratifique o ato do mandatário.
46 Se eu não tivesse lido o livro de Haroldo Malheiros Duclerc Verçosa, não teria idéia do ruído em latim que saiu
da boca do professor.
47 Não paguem o mico de falar em “Junta Comercial”, como o professor fez a aula inteira. Sociedade simples não é
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OTÁVIO AUGUSTUS CARMO
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a sociedade, não o torna devedor – exceto, como ocorre na prática bancária, se o contrato tornar o administrador responsável pela dívida, das mais variadas formas: co-devedor solidário, fiador, avalista etc.). Nesse caso, o administrador se vincula em razão de outro negócio jurídico (contrato de fiança, assunção de dívida), mas não por conta do ato de presentação.
O inciso II menciona o conhecimento de terceiro da limitação dos poderes do administrador, apesar de não contida no contrato social. Cabe à sociedade provar esse fato, sob pena de responder pelos atos ultra vires societatis.
Já o inciso III trata de “operações evidentemente estranhas as negócios da sociedade”, fora, portanto, de seu objeto social. O texto poderia ser considerado redundante, já que a regra geral estabelece que não cabe ao administrador praticar qualquer ato que não se relacione com o objeto social; no entanto, a expressão “evidentemente” complica o entendimento – quando seria evidente a estranheza da operação? Poderia ser flagrante a dissociação do ato do administrador do objeto social no exemplo de suma sociedade de advogados em que aquele sócio incumbido da gestão compra R$ 40.000,00 em passagens aéreas para a Escandinávia48. Mas, ainda assim, poderia o terceiro entender que era para um congresso, uma feira ou exposição, ligada aos interesses da sociedade49. Haveria, assim, necessidade de prova, no caso concreto, para se averiguar se o terceiro tinha consciência da estranheza do ato do administrador ao objeto social.
1.1.4. Responsabilidade do administrador
Configurando-se o excesso de poder, responderá o administrador, por dolo ou culpa, pois deixou de ser um homem ativo e probo, devendo, então, indenizar a sociedade, caso haja prejuízo – e é necessário que haja, pois nos casos previstos nos incisos do art. 1.015, o administrador é quem responde diante de terceiros, não havendo vinculação da sociedade. Diante de terceiros, portanto, havendo dolo, somente o administrador responde; havendo culpa, responde solidariamente junto à sociedade50.
1.1.5. Vedação à substituição
As normas da sociedade simples vedam a substituição do administrador; este não pode delegar seus poderes a terceiro – se fizer, se responsabilizará pelos atos do mandatário, caso haja prejuízo à sociedade, ainda que não tenha havido culpa. A delegação ocorre quando o administrador celebra contrato de mandato com um terceiro, outorgando-lhe amplos poderes, para que pratique qualquer ato em nome da sociedade.
No entanto, não há vedação para que o administrador celebre um mandato para atos específicos. Assim, nomear-se-á um procurador da sociedade (e não do administrador) para a prática de negócios pontuais. Não haverá substituição da figura do administrador, nem ensejo de responsabilidade deste, ou qualquer tipo de ilegalidade. Se esse procurador exceder seus poderes, conforme as regras do mandato, responderá sozinho diante de terceiros51.
48 Disseram que tá rolando uma micareta massa lá.
49 Ah, então o negócio de micareta era mentira, é? Aí, sacanagem... 50 Isso o professor não falou. Copiei do livro.
51 Havendo simplesmente abuso de poder (descumprimento de instruções específicas – comprar um carro verde em
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2. RESOLUÇÃO DA SOCIEDADE EM RELAÇÃO A UM SÓCIO