5 AS POTENCIALIDADES SOCIAIS DA COLABORA ÇÃO EM MASSA
5.2 A criatividade inerente ao trabalho humano e o feti chismo da colaboração em massa
5.2.1 Inteligência coletiva e determinismo tecnológico
Lévy (2011, p. 26), criador da expressão inteligência coletiva, em referência à colaboração em massa, afirma que o papel da informática e das técnicas de comunicação com base digital, na construção e organização do ciberespaço, é “[...] promover a construção de coletivos inteligentes, nos quais as potencialidades sociais e cognitivas de cada um poderão desenvolver-se e ampliar-se de maneira recíproca.”. Em referência à esse processo de colaboração,Tapscott e Williams(2007, p. 47) enfatiza o uso da informática: “Para nós, a capacidade de reunir o conhecimento de milhões (senão bilhões) de usuários de maneira auto-organizativa demonstra como a colaboração em massa está transformando a nova web em algo que não difere muito de um cérebro global.”. Seguindo esse raciocínio,Surowiecki(2006) usa a expressão sabedoria das multidões para designar essa inteligência existente no conjunto das habilidades dos indivíduos. Para isso, ele cita o caso em que pessoas não especialistas dão palpites para adivinhar, em um concurso, o peso de um boi. Mais adiante, o autor apresenta casos de interação entre insetos, tentado demonstrar a força da cooperação entre seres humanos. Ele citaSeeley
(1996), que fez um estudo sobre comportamentos de colmeias, para tentar mostrar a sabedoria das abelhas, relacionando-a com aquilo que ele denomina de sabedoria das multidões. Na realidade, essa concepção teórica, compartilhada por muitos autores, que coloca a inteligência coletiva como “[...] produto inconsciente de uma soma de comportamentos individuais.” (SILLARD,2011, p. 103) termina por reificar a captura da subjetividade dos trabalhadores. Isso fica claro com a afirmativa deSurowiecki(2006, p. 103-104, grifo do autor):
A grande força da descentralização é que por um lado ela encoraja a independência e a especialização, ao mesmo tempo que por outro permite às pessoas coordenar suas atividades e resolver problemas difíceis. A grande fraqueza da descentralização é que não há a garantia de que informações valiosas descobertas em um ponto do sistema encontrem seu caminho através do restante do sistema. Algumas vezes, informações valiosas nunca são disseminadas, fazendo com que sejam menos úteis do que poderiam ser. O desejável seria uma forma pela qual os indivíduos pudessem se especializar e adquirir conhecimento local – o que aumenta o volume total de informação disponível no sistema – ao mesmo tempo que continuassem capazes de integrar esse conhecimento local e a informação pessoa em um todo coletivo, em grande parte da mesma forma como o Google confia no conhecimento local de milhões de operadores de páginas da rede para tornar as buscas do Google cada vez mais inteligentes e rápidas. Para conseguir isso, qualquer “multidão” – seja ela um mercado, uma empresa ou um órgão de informações – precisa encontrar o equilíbrio perfeito entre os dois imperativos: tornar o conhecimento pessoal global e coletivamente útil (como sabemos que pode ser), e ao mesmo tempo permitir que ele continue a ser resolutamente específico e local.
Cabe notar que a informação não necessariamente gera conhecimento. Ela não é, por si só, capaz de alterar estruturas cognitivas. A construção de uma inteligência
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exige um processo de sistematização, onde são necessários métodos de verificação da efetividade dos conhecimentos. Dizer que o caos do ciberespaço representa uma inteligência de multidão não faz nenhum sentido. O processo de gerar conhecimento é um processo sistemático. Observe que os povos que têm uma sistematização no trato das informações destacam-se pela produção do conhecimento e, inclusive, geram conhecimento aplicado para o desenvolvimento de tecnologias. É bem verdade que muitas das vezes isso gera um processo de dominação de outros povos, daqueles que não têm uma maior sistematização na geração e conservação da aplicação do conhecimento, a exemplo dos povos da América do Sul que foram dizimados pelos europeus. Obviamente, não se trata de traçar uma linha evolutiva, de estabelecer a existência de povos atrasados e avançados. Essa perspectiva diz respeito ao tratamento dos conhecimentos para aplicação de novas técnicas estabelecidas como prioritárias pelo conjunto da sociedade. Isso poderá ocorrer até mesmo na produção de medicamentos para doenças ou ainda na criação de técnicas de guerra. Sendo assim, um aspecto expandido, no sentido técnico, de um povo põe em risco os demais povos, pois num eventual embate, o mais aparelhado vence.
Na sociedade atual, são os capitalistas que elaboram essa sistematização, a partir da sua própria racionalidade. Definem os métodos de verificação da efetividade dos conhecimentos, considerando sua finalidade mercantil. Estabelecem o engendro da inteligência do homo-œconomicus, que administra racionalmente um mundo abstrato e puramente quantitativo de valores-de-troca. Assim,
[...] nesse terreno fundamental da vida humana que é a vida econômica, a economia mercantil mascara o caráter histórico e humano da vida social transformando o homem em elemento passivo, em espectador de um drama que se renova continuamente e no qual os únicos elementos realmente ativos são as coisas inertes. (GOLDMAN,1991, p. 47).
Isso termina por gerar a atual tragédia social que presenciamos. Nesse contexto histórico, os capitalistas
[...] não produzem mais os bens tornados em mercadorias em função de seus valores de uso diversos e múltiplos, que permitiriam satisfazer as necessidades variadas de seus semelhantes, mas sim para alcançar seu valor de troca comum qualitativamente idêntico em todas as mercadorias que chegam ao mercado. [...] Isto é o fenômeno social fundamental da sociedade capitalista: a transformação das relações humanas qualitativas em atributo quantitativo das coisas inertes, a manifestação do trabalho social necessário empregado para produzir certos bens como valor, como qualidade objetiva desses bens; a reificação que consequentemente se estende progressivamente ao conjunto da vida psíquica dos homens, onde ela faz predominar o abstrato e o quantitativo sobre o concreto e o qualitativo. (GOLDMAN,1991, p. 53).
Portanto, no atual sistema econômico, as energias criativas do homem tendem a ser canalizadas para áreas circunscritas e subordinadas à lógica do lucro, conforme
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apontaFurtado(2008, p.115-117, grifos do autor):
A possibilidade de criar algo para si próprio ou no quadro das relações pessoais míngua: a vida como projeto original tende a ser substituída por um processo de adaptação a estímulos exteriores. O indivíduo poderá reunir em torno de si uma enorme miríade de objetos, mas sua participa- ção na invenção destes terá sido nula. Os objetos que adquire e substitui a qualquer instante podem proporcionar-lhe “conforto”, mas carecem de uma vinculação mais profunda com sua personalidade. A produção de tais objetos está subordinada ao processo de acumulação, que encontra na homogeneização dos padrões de consumo uma poderá alavanca. Alguns desses objetos serão extraordinariamente sofisticados, mas ainda assim pouco duráveis, pois a intensidade da inovação tem como contra- partida a rapidez da obsolescência. [...] Assim, um conjunto de normas derivadas do processo de acumulação sobrepõe-se à atividade criadora em sua expressão mais universal, qual seja, a invenção do estilo de vida da sociedade. [...] Na medida em que a criatividade é posta a serviço do processo de acumulação, os meios tendem a ser vistos como fins, produzindo-se a ilusão de que todo avanço da "racionalidade", na esfera econômica, contribui para a liberação ou “desalienação” do homem. [...] De uma maneira geral, todas as formas que assume a criatividade humana podem ser postas a serviço do processo de acumulação. Mas são aquelas cujos resultados são por natureza cumulativos – a ciência e a tecnologia – que melhor satisfazem as exigências desse processo, o que lhes vale o lugar privilegiado que ocupam na civilização industrial.
Desta maneira, os empresários têm interesse apenas nas tecnologias viáveis, do ponto de vista da lucratividade. Por isso, eles buscam corrigir os excessos dos cientistas e engenheiros, levando ao mercado somente aquilo que os interessa. “Do ponto de vista da empresa capitalista, quaisquer descobertas ou invenções que não encontrem aplicação constituem faux frais de produção, despesas gerais que deveriam, ser reduzidas ao mínimo.” (MANDEL,1985, p. 179, grifo do autor). Então, é um equívoco pensar que uma tecnologia em seu uso comercial é o melhor que a humanidade pode nos oferecer. É necessário ter em mente que uma tecnologia nada mais é que um artefato social e que, por isso, não está livre de influências econômicas, históricas, políticas e culturais. Em decorrência disso, nesta sociedade dividida em classes, permeada de contradições, aqueles que dominam sob o mito do desenvolvimento determinam o uso e o desenho das tecnologias. Nesse sentido, o fetiche está exatamente em acreditar que as tecnologias seguem um caminho inexoravelmente evolutivo, um desenvolvimento linear, onde todos os conhecimentos criados pela humanidade estariam conduzindo os povos para o bem-estar e o progresso econômico e social. É por isso que a transposição das forças produtivas sociais do trabalho em propriedades objetivas do capital é aceita como um processo natural, uma condição necessária para o progresso da humanidade, dando a entender que o desenvolvimento tecnológico seria ele próprio a determinação do movimento histórico, onde as suas etapas seriam explicadas em função de descobertas e invenções tecnológicas. E é nesse sentido que os meios de produção são colocados como opositores e hostis ao trabalhador, naturalizando o aumento da exploração do
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trabalho e do desemprego, como se fosse o único modo de organização da produção na história da humanidade, não podendo este ser explicado
[...] pela suposta consideração da tecnologia em sua forma pura, a não ser que se reforce o caráter fetichista da tecnologia segundo o qual seu desenvolvimento aparece como algo autônomo frente às relações de produção. A necessidade de destacar esse caráter original do desenvol- vimento tecnológico e das forças produtivas em geral no capitalismo e, portanto, de recusar uma história universal da tecnologia são algumas das contribuições de Marx. (ROMERO,2005, p. 21).
Para Nascimento (2011, p. 89), o uso das novas tecnologias está vinculado “[...] a uma base material que influencia e que também é influenciada: que determina e que também é determinada sócio-política e economicamente.”. Para tanto, devemos compreender as determinações do progresso técnico para além das formações sociais de cada época, verificando que a
[...] tese segundo a qual o desenvolvimento da técnica seria a causa determinante da história não é nova. Já na passagem do século XIX ao século XX ganhou força o interior da II Internacional a concepção de que a humanidade teria passado do modo de produção primitivo ao modo de produção asiático ou escravista e, deste último, ao feudalismo e ao capitalismo, graças ao desenvolvimento de novas tecnologias que teriam tornado anacrônicas as relações de produção existentes a cada momento. (LESSA,2007, p. 261).
Pois, na verdade, “[...] não foi o desenvolvimento técnico que levou à derrocada do escravismo e, depois, ao surgimento do feudalismo, do mesmo modo como não foi o desenvolvimento tecnológico que levou a sociedade europeia do feudalismo ao capitalismo.” (LESSA, 2007, p. 264). Na realidade, “Foi o surgimento de um novo modo de produção, com novas possibilidades de desenvolvimento para as relações de produção e, portanto, para a relação do homem com a natureza, que tornou possível e necessário o aparecimento das novas tecnologias.” (LESSA,2007, p. 264-265). ELukács
(1974, p. 47) reforça: “[...] a técnica é a consumação do capitalismo moderno, não sua causa inicial.”.
É importante frisar que, da mesma forma que a mercadoria encobre as relações sociais de produção, a tecnologia em conformidade com as relações de poder existente torna-se um meio para se atingir fins também econômicos, através do aumento da eficácia na produção de bens e serviços. Seguindo a mesma linha de análise,Novaes
(2007, p. 73-74) observa que
A partir da idéia de fetiche da tecnologia, procura-se argumentar que artefatos tecnológicos que nos parecem no dia-a-dia neutros, intrinseca- mente bons, produzidos tão somente para resolver problemas práticos, contêm relações sociais historicamente determinadas.
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Nesse sentido,Feenberg(2010, p. 195) afirma que “O que se mascara na percepção fetichista da tecnologia é, do mesmo modo, seu caráter relacional: ele aparece como uma instância não-social de pura racionalidade técnica, mais do que o nexo social que realmente é.”. Assim, podemos verificar que
[...] qualquer otimização das forças produtivas dentro do capital, longe de representar uma otimização dos elementos mediadores da relação homens-natureza, é antes um meio de otimizar a relação social de exploração e dominação característica desse sistema. Nesse sentido, o fetiche que decorre desse quadro ergue-se como um fator fundamental de mascaramento desse estado de coisas, significando, pois, um poderoso e imprescindível instrumento para sua perpetuação. Portanto, de acordo com Marx, é justamente esse fetiche que diferencia o capital de outros modos de produção, ou seja, o fato de as forças produtivas – e tudo o que delas resulta e se materializa – assomarem à consciência dos produtores como procedentes do capital e apresentarem-se como que desvinculadas dos que efetivamente lhes impulsionam, reificando, assim, as relações sociais estabelecidas no interior desse processo [...] (WOLFF,2005, p. 67).
Quanto ao processo de desenvolvimento das forças produtivas e a criatividade do trabalhador,Moraes Neto(2009) trata da vinculação estabelecida por Adam Smith entre eficiência produtiva e desumanização das atividades de trabalho, denominada de angústia smithiana.Moraes Neto(2009) observa que, segundoSmith(1983), a elevação da eficiência produtiva, obtida exclusivamente pela via de incremento da divisão do trabalho, possui um desdobramento extremamente positivo em função do incremento da riqueza material, mas, por outro lado, seus efeitos sobre a natureza das atividades de trabalho seriam extremamente perversos, de maneira que as operações simples, exercidas pela maioria dos trabalhadores, não geraria um espírito criativo, no sentido de que o trabalhador não necessitaria “[...] encontrar meios para eliminar dificuldades que nunca ocorrem.” (SMITH,1983apudMORAES NETO,2009, p. 652). Esse dilema smithiano (WEISS,1976) mostra que, caso se caminhe na direção da elevação da eficiência produtiva, teremos que suportar a crescente desumanização do trabalho como um mal necessário, distanciando o trabalhador das suas habilidades criativas. No entanto, a elevação da eficiência produtiva não é uma escolha dos capitalistas, trata-se de uma necessidade engendrada pela própria competição, de maneira a introduzir inovações com o objetivo de rebaixar custos e aumentar margens de lucro (BELLUZZO,[198-?]). É a disputa concorrencial desse sistema que coloca o avanço da ciência e da técnica sob o requisito da competitividade, de maneira a não despertar “[...] o espírito de superação e criatividade, mas a ansiedade em deslocar e destruir o rival.” (KATZ; COGGIOLA,
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