4 TRABALHO DOCENTE: ORIGEM REGULAÇÃO E SEUS EFEITOS 85 !
4.3 SUBCATEGORIAS DO TRABALHO DOCENTE 92 !
4.3.1 Intensificação 92!
No final do século XX, o capital se articula para a reprodução e acumulação, as mudanças tecnológicas e a organização do trabalho buscam propiciar aumento do envolvimento do trabalhador e a maior produtividade do trabalho realizado. A intensificação do trabalho integra esse processo por meio do estranhamento, elemento de exteriorização e coisificação do trabalhador. Podemos captar a intensificação do trabalho docente nas diversas exigências exteriores à sua vontade, mas também o envolvimento dos docentes, as relações sociais estabelecidas por eles, em função do trabalho e o envolvimento emocional para realizar o trabalho.
Para definir intensificação, partiremos do termo intensidade, que Dal Rosso (2008, p. 23) conceitua como “o emprego das energias vitais do sujeito, em toda dimensão desta expressão, compreendendo as potencialidades físicas, emocionais e intelectuais, conforme exigido para a realização de uma atividade, tarefa ou trabalho, ou seja, o esforço físico, intelectual ou emocional que o trabalhador dispende na execução do seu trabalho”. O autor afirma que a intensidade é condição subjacente ao trabalho, independentemente do modo de produção ao qual esteja submetido. Entretanto, no capitalismo, a ordenação e o controle dos resultados do trabalho existem no sentido de obter, ao máximo, a forma mais organizada de
trabalho, apesar da quantidade e da intensidade envolvida no trabalho fazerem parte da preocupação histórica dos modos de produção anteriores.
Segundo Barbosa (2009), a dinâmica entre a exigência social de intensidade e o grau de esforço humano na realização do trabalho, como também os movimentos sociais de resistência à superexploração por parte dos trabalhadores, variam na interdependência das circunstâncias construídas historicamente. Na variação da intensidade, podemos encontrar movimentos de intensificação do trabalho em um grau maior ou menor. De acordo com Dal Russo (2008, p. 22-23), intensidade diferencia-se, tanto da produtividade, como da categoria envolvimento humano. A produtividade relaciona-se aos resultados obtidos; a intensidade está relacionada ao objeto de trabalho; o envolvimento humano relaciona-se exclusivamente ao sujeito trabalhador. O envolvimento humano refere-se ao esforço empregado pelo trabalhador na realização do seu trabalho, excluindo dessa terminologia a carga de trabalho que, segundo o autor, está exclusivamente relacionada ao objeto de trabalho.
O termo produtividade, por sua vez, deve restringir-se a descrever os efeitos das mudanças tecnológicas sobre a elevação de resultados. Desta forma, é possível separar os conceitos de intensidade, que se refere ao esforço humano despendido, e de produtividade, que se aplica às mudanças técnicas agregadas ao trabalho na produção de mais resultados (OECD20, 2002 apud DAL ROSSO, 2006, p. 70).
Dal Rosso (2008) parte de metáforas criadas por Marx (1983) para ilustrar a porosidade de “tempos mortos” durante a jornada de trabalho, mostrando que existem espaços de não trabalho, de acordo com a organização do trabalho ou tecnologia que os mesmos densificam no trabalho, sem aumentar objetivamente a jornada do trabalhador. Marx exemplifica a porosidade do tempo de trabalho como se os tempos livres, ou de não trabalho, fossem como espaços vazios de uma esponja. Classifica esse processo como heterônomo, ou seja, relação abusiva entre as partes nas relações de trabalho, uma vez que o controle externo restringe o espaço do outro.
A tecnologia empregada para aumentar a produção altera o próprio trabalho, que passa a ser reorganizado e reestruturado, exigindo do trabalhador maior envolvimento e esforço. Dal Rosso (2008) alerta para o fato da evolução tecnológica, a uma primeira vista, parecer estar ligada à intensificação, o que nem sempre corresponde. Sobre isso afirma:
20 OECD (Organisation for Economic Co-operationand Development). 2002. Measuringproductivity: Measurementofaggregateandindustry-levelproductivitygrowth. OECD Manual: Paris: OECD.
O taylorismo talvez seja a prova mais direta desta tese. O estudo científico da organização do trabalho pode trazer resultados fantásticos para os empregadores, consequência do aumento de intensidade, que significa produzir mais no mesmo espaço de tempo e sob as mesmas condições tecnológicas (DAL ROSSO, 2008, p. 25).
O autor demonstra, no processo histórico, através de uma análise dialética, destacando os aspectos contraditórios, movimentos de ampliação e redução da intensificação do trabalho do ponto de vista da luta social entre capital e trabalho, alternadamente, de acordo com a correlação de forças entre a classe burguesa e a classe trabalhadora, expressando-se em maior ou menor grau na intensificação do trabalho coletivo. Para Dal Rosso (2008, p. 26):
A noção de movimentos permite supor que também possam organizar-se contramovimentos, ou antimovimentos, que são categorias mais adequadas para tratar de intensidade. Movimentos, ondas ou vagas têm origem e organizam-se em torno a processos que resultam em alteração da intensidade do trabalho ou que modifiquem os meios pelos quais a intensificação é obtida [...] Movimentos, ondas ou vagas de largo prazo atendem a um segundo requisito do argumento imagético, qual seja a unidade interna e as diferenças qualitativas entre os momentos.
De acordo com o autor, através de marcos, identificam-se diferentes movimentos de intensificação, denominados por ele ondas de intensificação21. A primeira onda de
intensificação aconteceu na Revolução Industrial, na Europa, nos séculos XVIII e XIX, especificamente na Inglaterra, combinando mudanças tecnológicas com exigências por maiores resultados. Com base na socialização da mão de obra, foi sendo exigido mais esforço, maiores resultados e maior envolvimento dos trabalhadores, a partir de novas formas de organizar o trabalho. Tais aspectos são compreendidos, pelo autor, como elementos de intensificação do trabalho.
O trabalho, neste período, foi caracterizado principalmente pelos seguintes fatores: exigência de mais horas de trabalho, por meio de muito esforço por parte do trabalhador para realizá-lo e, simultaneamente, o incremento de modernas tecnologias, necessitando de novas habilidades e novo ritmo de trabalho, além da nova divisão social que se configurou nos países centrais do capitalismo.*
Os princípios fundadores da divisão técnica do trabalho perdem força, pois vão perdendo a eficácia. No início do século XX, o fordismo/taylorismo, tendo a finalidade de aumentar a produtividade, entretanto sem gerar mudanças significativas na tecnologia, fizeram parte da segunda onda, empregando o estudo científico da organização do trabalho
21 Dal Rosso (2008), com base na literatura internacional, aponta que com a reestruturação produtiva, introduzindo princípios de flexibilização, desregulamentação e individualização, reconhece um surto de intensificação do trabalho, ao qual classifica, de acordo com as crises econômicas, em ondas de intensificação.
como meio de reorganizá-lo com base na separação entre concepção e execução do trabalho, tornando-se o meio mais eficaz de conseguir a intensificação do trabalho.
Segundo Barbosa (2009), essa nova organização do trabalho condicionou o trabalhador a um novo comportamento. Sobre isso, Gramsci (1968, p. 382) analisa que “na América, a racionalização determinou a necessidade de elaborar um novo tipo humano, conforme novo tipo de trabalho e produção”. Barbosa (2009) ainda ressalta que o proibicionismo e a racionalização do trabalho estão ligados ao controle da moralidade, fato que está expresso em inquéritos criados por algumas empresas, que apontam para a necessidade de um novo método de trabalho ligado a determinando modo de viver, pensar e de sentir a vida. Segundo Barbosa (2009), com base em Gramsci, no domínio moral e físico, encontra-se o uso que alguns trabalhadores fazem do álcool, como também do controle da sexualidade, travestidos de puritanismo.
Em meados do século XX, a partir de um movimento de resistência a essa intensificação, por meio de greves dos trabalhadores, esse modelo de organização começa a ser criticado, considerado pelos capitalistas como dispendioso e ineficiente. Surge no Japão, com Taichi Ohno, a partir de duras críticas, o sistema de produção denominado toyotismo.
Dal Rosso (2008) e Antunes, R. (2007) definem o toyotismo como um conjunto de técnicas e organização da produção e do trabalho industrial, caracterizado por vincular a demanda ao consumo; produção variada e heterogênea; trabalho em equipe e multivariedade de funções; melhor aproveitamento do tempo, no controle de qualidade e no estoque; polivalência do trabalhador operar com várias máquinas ao mesmo tempo; horizontalização e terceirização de elementos básicos.
Nesse movimento é inaugurada a terceira onda, na década de 1980. Dal Rosso aponta a polivalência e o uso das novas tecnologias como principais elementos utilizados na intensificação do trabalho.
A polivalência ocupa completamente o tempo de trabalho da pessoa, a imagem de trabalho poroso perde sentido, nem mesmo os chamados tempos mortos existem mais, todo momento constitui-se em instante de trabalho. As bordas entre horário de não trabalho e trabalho efetivo mais que se tocam, coincidem. Portanto, a noção de polivalência amplia o grau de intensidade do trabalho a níveis muito mais elevados do que aqueles atingidos pela divisão entre concepção e execução. No sistema da polivalência não há lugar para repetição de movimentos, vários trabalhos são feitos simultaneamente. O engajamento do trabalhador é muito maior e o envolvimento de suas energias físicas, mentais e afetivas acontece ao máximo (DAL ROSSO, 2008, p. 28).
Para o autor, esses processos, denominados de intensificação, resultam em maior dispêndio das capacidades físicas, cognitivas e emocionais do trabalhador, com o objetivo de melhorar qualitativamente os resultados.
Oliveira, Duarte e Vieira (2010) observam algumas categorias relacionadas ao trabalho docente que emergem das mudanças nas relações de trabalho expressas na discussão acima e que estão intimamente relacionadas às políticas educacionais. Indicam que há uma ampliação no tempo e inclusão de novas atividades, denominando de intensificação do trabalho.
Ao analisar a intensificação e o ensino, Apple (1995, p. 39) aponta que é um tema que implica na sofisticação do desenvolvimento da racionalização e controle do trabalho docente, o que acontece em meio a vários tipos de reação dos docentes.
[...] representa uma das formas tangíveis pelas quais os privilégios de trabalho dos/as trabalhadores/as educacionais são degradados. Ela tem vários sintomas, do trivial ao mais complexo – desde não ter tempo sequer para ir ao banheiro, tomar uma xícara de café, até ter uma falta total de tempo para conservar-se em dia com sua área. Podemos ver a intensificação atuando mais visivelmente no trabalho mental, no sentimento crônico de excesso de trabalho, o qual tem aumentado ao longo do tempo (APPLE,1995, p. 39).
O principal efeito da intensificação sobre o trabalho docente, segundo Apple (1995), é a perda da qualidade do serviço que é prestado, sendo a qualidade entendida como serviço bem feito, tanto em termos de produto resultante, quanto de processo de realização do trabalho.
Segundo Arroyo (1997), na educação, a luta dos trabalhadores pela formação e profissionalização do trabalhador fez do trabalho docente o centro da ação de humanização, sobretudo no setor público que deve ser um espaço educativo e de humanização, envolvendo gestores e professores, a formação continuada e o aperfeiçoamento no trabalho, devendo ser percebido como um direito do trabalhador. No entanto, a relação no trabalho, na reestruturação produtiva, vem adaptando esses sujeitos a novas demandas, preconizadas no tayloriamo, fordismo e toyotismo. Sobre isso, Arroyo informa que:
Não se trata de uma diferença de termos apenas. Trata-se de uma inversão de valores. Não adianta qualificar o trabalhador para o trabalho desqualificador [...] que tarefas não podem ser enriquecidas, devendo ser eliminadas? [...] Há muitas tarefas tão repetitivas, inúteis e desgastantes que é impossível torná-las qualificadoras (ARROYO, 1997, p. 63).
Para Garcia e Anadon (2009), existe uma colonização administrativa do tempo dos docentes, pressionando-os a assumir responsabilidades fora do seu horário de trabalho.
A intensificação do trabalho docente nos tempos contemporâneos é também resultado de uma crescente colonização administrativa das subjetividades das professoras e das emoções no ensino, sendo indícios desse fenômeno a escalada de pressões, expectativas, culpas, frustrações, impelidas burocraticamente e/ou discursivamente, relativamente àquilo que as professoras são ou deveriam ser profissionalmente, àquilo que as professoras fazem ou deveriam fazer, seja no ambiente escolar ou mesmo fora da escola. (GARCIA; ANADON, 2009, p. 71).
Na atualidade podemos inferir que os sistemas de avaliação de desempenho dos alunos afetam a qualidade de trabalho oferecida pelo professor e acabam por intensificar o trabalho docente, trazendo novas exigências advindas de fatores como os citados por Oliveira (2002, p. 44):
Sobrecarga trazida pelos novos processos de ensino e avaliação, forçando os professores a encontrar meios alternativos para responder as demandas crescentes [...] Tudo isso vem somar às condições extremamente extenuantes de trabalho a que o professor já era submetido, extrapolando muitas vezes o que é prescrito como sua atividade.
Dando continuidade a essa discussão, é preciso destacar que a intensificação guarda estreita relação com a precarização do trabalho, subcategoria que vamos discutir a seguir.