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Jornada de trabalho e Mais-valor

2 DESEMPREGO ESTRUTURAL E CRISE DO SISTEMA

2.1 DESEMPREGO ESTRUTURAL NA SOCIEDADE

2.1.2 Jornada de trabalho e Mais-valor

N’O Capital, o estudo do mais-valor, ou mais-valia, aparece em pelo menos três episódios do Livro I: nas seções III, IV e V. O desenrolar da abordagem de Marx (1983) relaciona o estudo do mais-valor ao trabalho excedente, à jornada de trabalho e à composição orgânica do capital, entre outros temas. Estes três aspectos são elementos-chave para a compreensão da lei geral da acumulação capitalista, que reflete a reprodução desses aspectos simples relacionados à jornada de trabalho e a ramos e empresas específicas, mas que adquirem caráter global quando servem de fundamento à explicação do funcionamento da acumulação do capital e de sua reprodução ampliada. São fundamentais também para o exame da superpopulação relativa e do desemprego.

No início da análise do mais-valor absoluta, Marx distingue o processo de trabalho e o processo de valorização. O processo de trabalho consiste em um processo de criação de valores de uso independentemente da forma social em que se insere. Em outras palavras, consiste em realizar a atividade do trabalho para criar bens úteis para a satisfação de necessidades. O trabalho apresenta-se como processo entre homem e natureza, desenvolvendo no homem sua condição de pré-ideação.

O processo de trabalho envolve um fim, um objeto e um meio. Esses elementos se encontram no consumo produtivo e se realizam num produto. Esse consumo se distingue do consumo individual, que produz, em sentido amplo, o próprio consumidor. O processo de trabalho, conforme afirma Marx,participa da condição natural da existência humana, e sua existência, por isso, independe do processo histórico e das formas sociais. No entanto, no interior do sistema capitalista tal processo adquire um caráter duplo: o controle do trabalho está nas mãos do capitalista e o produto resultante fica sob a propriedade do mesmo. O capitalista incorpora o processo de trabalho pela compra da força de trabalho.

No sistema capitalista, por essa característica peculiar e apropriação do processo de trabalho, vincula-se ao mesmo o processo de valorização, que, para além do valor de uso, estabelece o valor de troca, que por sua vez define as condições de valorização dos produtos como mercadorias. Assim, o trabalho se volta à produção de valores que se expressam não como utilidade para o trabalhador, mas para outros – as mercadorias. Pelos processos de trabalho e de valorização criam-se valores de uso, valores de troca e mais-valor para o capital.

Além da criação de mais-valor para o capital, o trabalhador deve, no momento da produção, conservar e transferir ao produto final os valores encontrados nos meios de produção – maquinaria, matérias- primas – a fim de que seu valor seja agregado ao produto e ao seu valor final. Sendo assim, o trabalhador, ao mesmo tempo em que produz, conserva o valor dos meios de produção e cria um valor a mais para a valorização do capital – a mais-valia ou mais-valor.

A conservação do valor se dá, em sentido geral, porque o trabalhador, ao exercer sua atividade, “vivifica” os meios de produção para novas utilidades. Meios de produção e matérias-primas necessitaram de trabalho anterior para serem produzidos ou extraídos. Dessa forma, o trabalhador, ao utilizá-los na produção, realiza trabalho vivo sobre trabalho morto, trabalho passado, e repassa os valores ao produto final.

O valor da força de trabalho se reproduz de maneira diferente. Cada movimento do trabalho cria valor adicional, novo valor para além do valor necessário à reprodução da própria força de trabalho3. O valor que o trabalhador produz referente ao valor de seu próprio sustento é um valor original, criado dentro do processo de produção. Além deste valor, a jornada de trabalho se prolonga e o trabalhador cria valor adicional. “Essa mais-valia forma o excedente do valor do produto sobre o valor dos constituintes consumidos do produto, isto é, dos meios de produção e da força de trabalho” (MARX, 1983, p. 171).

Sendo assim, o capital original se distingue, conforme o autor, em duas partes, capital constante e capital variável.

A parte do capital, portanto, que se converte em meios de produção, isto é, em matéria-prima, matérias auxiliares e meios de trabalho, não altera sua grandeza de valor no processo de produção. Eu a chamo, por isso, parte constante do capital, ou mais concisamente: capital constante.

A parte do capital convertida em força de trabalho em contraposição muda seu valor no processo de produção. Ela reproduz seu próprio equivalente e, além disso, produz um excedente, uma mais-valia que ela mesma pode variar, ser maior ou menor. Essa parte do capital transforma-se continuamente de grandeza constante em grandeza variável. Eu a chamo, por isso, parte variável do capital, ou mais

3 No tópico seguinte, a respeito dos salários, é realizada uma explicação mais

concisamente: capital variável (MARX, 1983, p. 171).

Da mesma forma, Marx define uma distinção nos momentos da jornada de trabalho de acordo com a relação com o capital variável, ou o valor da força de trabalho, visto que os meios de reprodução têm seu valor apenas reproduzido. A jornada de trabalho se divide, portanto, em uma parte que representa o trabalho necessário para a reprodução do trabalhador. A outra parte da jornada se refere à produção do mais-valor pelo trabalhador, se refere ao trabalho excedente exercido pelo trabalhador.

A jornada de trabalho não é, portanto, constante, mas uma grandeza variável. É verdade que uma das suas partes é determinada pelo tempo de trabalho exigido para a contínua reprodução do próprio trabalhador, mas sua grandeza total muda com o comprimento ou a duração do mais-trabalho (MARX, 1983, p. 188).

Tendo em vista essa divisão da jornada de trabalho, Marx define as formas de extração absoluta e relativa do mais-valor e os momentos históricos característicos em que essas formas se apresentam. No entanto, em toda a análise do autor, fica evidente que essas formas podem certamente ocorrer simultaneamente, ampliando as formas de exploração da força de trabalho, pela extração, cada vez maior, de mais trabalho e mais-valor não pago. De forma geral, a explicação do autor sobre as diferentes formas de extração do mais-valor é a seguinte:

A produção da mais-valia absoluta se realiza com o prolongamento da jornada de trabalho além do ponto em que o trabalhador produz apenas o equivalente ao valor de sua força de trabalho e com a apropriação pelo capital desse valor excedente. Ela constitui o fundamento do sistema capitalista e o ponto de partida da produção da mais-valia relativa. Esta pressupõe que a jornada de trabalho já esteja dividida em duas partes: trabalho necessário e trabalho excedente. Para prolongar o trabalho excedente, encurta-se o trabalho necessário com métodos que permitem produzir-se em menos tempo o equivalente ao salário. A produção da mais-valia absoluta gira

exclusivamente em torno da duração da jornada de trabalho; a produção da mais-valia relativa revoluciona totalmente os processos técnicos de trabalho e as combinações sociais.

[...]

A produção da mais-valia relativa pressupõe, portanto, um modo de produção especificamente capitalista, que, com seus métodos, meios e condições, surge e se desenvolve, de início, na base da subordinação formal do trabalho ao capital. No curso desse desenvolvimento, essa subordinação formal é substituída pela sujeição real do trabalho ao capital (MARX, 2011, p. 578-9).

A análise do mais-valor expressa o grau de exploração da força de trabalho. Dessa forma, Marx demonstra as diversas lutas que travaram os trabalhadores em relação ao controle da jornada de trabalho e a implementação de uma legislação fabril, que por fim acabou beneficiando mais aos detentores do capital (Capítulo VIII).

A análise sobre o mais-valor perpassa também o estudo e a diferenciação entre taxa e massa de mais-valor. Esse fator é fundamental para o exame posterior das variações da superpopulação relativa.

No Capítulo IX, o autor realiza a análise articulada dos fatores taxa de mais-valor, massa de mais-valor, capital constante e número de trabalhadores, para exemplificar as variações nessas categorias. Essa análise parte do pressuposto do mais-valor absoluto. O estudo da extração relativa de mais-valor pode ser depreendido do Capítulo XXIII, quando este trata das variações na população a partir de fatores como o aumento da produtividade.

Analisando a taxa e massa de mais-valor com base no mais-valor absoluto, Marx define três leis gerais. Tomando como pressuposto que a parte necessária da jornada de trabalho é constante, o autor define a primeira lei: “a massa da mais-valia produzida é igual à grandeza do capital variável adiantado multiplicado pela taxa de mais-valia [...]” (MARX, 1983, p. 239). Dessa forma, a lógica de uma jornada de trabalho é tida a partir da lógica geral do sistema, com a definição média do valor da força de trabalho e, portanto, do capital variável.

A segunda lei pressupõe que o capital variável não depende necessariamente do número de trabalhadores, mas do tempo de trabalho. Assim, se poucos trabalhadores executam, pela extensão de sua jornada, o trabalho de muitos, o capital variável acompanha sempre a quantidade de trabalho despendido. Assim, existe uma tendência geral na redução de

trabalhadores e ampliação da taxa de mais-valor, a fim de ampliar a massa de mais-valor.

Por fim, a terceira lei é definida da seguinte forma:

As massas de valor e mais-valia produzidas por diferentes capitais estão, com dado valor da força de trabalho, e igual grau de exploração da mesma, em razão direta às grandezas dos componentes variáveis desses capitais, isto é, de seus componentes transformados em força de trabalho viva (MARX, 1983, p. 241).

Estas três leis são pressuposto da análise posterior da lei geral da acumulação. No Capítulo XVI, em que já foram tratadas as formações do mais-valor relativo, o autor propõe diferentes fórmulas para expressar a taxa de mais-valor, quais sejam:

𝑀𝑎𝑖𝑠 𝑉𝑎𝑙𝑖𝑎 𝐶𝑎𝑝𝑖𝑡𝑎𝑙 𝑉𝑎𝑟𝑖á𝑣𝑒𝑙= 𝑚 𝑣 = 𝑀𝑎𝑖𝑠 𝑉𝑎𝑙𝑖𝑎 𝑉𝑎𝑙𝑜𝑟 𝑑𝑎 𝑓𝑜𝑟ç𝑎 𝑑𝑒 𝑡𝑟𝑎𝑏𝑎𝑙ℎ𝑜 = 𝑇𝑟𝑎𝑏𝑎𝑙ℎ𝑜 𝑒𝑥𝑐𝑒𝑑𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑇𝑟𝑎𝑏𝑎𝑙ℎ𝑜 𝑛𝑒𝑐𝑒𝑠𝑠á𝑟𝑖𝑜

Essas fórmulas se desdobram em uma terceira fórmula: 𝑇𝑟𝑎𝑏𝑎𝑙ℎ𝑜 𝑒𝑥𝑐𝑒𝑑𝑒𝑛𝑡𝑒

𝑇𝑟𝑎𝑏𝑎𝑙ℎ𝑜 𝑛𝑒𝑐𝑒𝑠𝑠á𝑟𝑖𝑜=

𝑇𝑟𝑎𝑏𝑎𝑙ℎ𝑜 𝑛ã𝑜 𝑝𝑎𝑔𝑜 𝑇𝑟𝑎𝑏𝑎𝑙ℎ𝑜 𝑝𝑎𝑔𝑜

Elas derrubam as hipóteses da economia política clássica da impossibilidade de se ter uma taxa de mais-valor de cem por cento, visto que calculava a proporção entre o trabalho excedente e a jornada total de trabalho. Essa fórmula da economia política, conforme Marx, levava à falsa ideia de que o capitalista paga o trabalho realizado e não a força de trabalho, o que é um engano, visto que o salário pago se refere apenas à parte da jornada de trabalho destinada ao trabalho necessário. As definições de Marx a respeito do salário explicam esse ponto.