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Legalidades da ideologia e do significado no/do trabalho

CAPÍTULO I O RETORNO À IDEOLOGIA

I DEOLOGIA E S IGNIFICADO DO TRABALHO : RELAÇÕES POSSÍVEIS Como as pessoas apreendem e representam o ato de trabalhar? E sua atividade

6.1. Legalidades da ideologia e do significado no/do trabalho

As discussões lukácsianas em torno da ideologia consideram, notadamente, as suas determinações mais gerais no âmbito do ser social. Portanto, se por um lado, ele não se detém nos conflitos específicos de uma determinada sociedade, por outro, nos oferece ferramentas precisas para a análise destes. É nessa direção que nessa tese discute-se a existência de um conflito específico no âmbito da forma como a força de trabalho é integrada no processo de produção capitalista.

Resgatando discussões anteriores, foi evidenciado, a partir de Marx, a existênc ia de três elementos do trabalho: a matéria-prima, as ferramentas de trabalho (que, juntas,

compõe os meios de trabalho) e a força de trabalho. Esses três (ou dois) elementos são essenciais às formas específicas do trabalho e o seu arranjo em cada conjunto de relações de produção e sociais são singulares. Logo, o modo como as sociedades tribais organiza m essa tríade é distante de como ela está presente nas sociedades feudais e, por conseguinte, como se encontra no capitalismo.

Nesse último, essa conformação determina as próprias classes sociais fundamentais a esse modo de produção. Nela, após um longo processo histórico122,

formou-se um grupo de sujeitos que passou a deter, por diversos métodos, a totalidade dos meios de produção, quais sejam, as ferramentas (mais recentemente, aprimoradas em forma de máquinas) e os objetos de trabalho (insumos, matéria prima etc.) – a classe burguesa –, ladeado com outro grupo de pessoas que são meios de produção, restando- lhes apenas as suas capacidades de trabalhar – classe trabalhadora. Desse modo, a consecução do trabalho, enquanto atividade coletiva e social, no capitalismo, está condicionada ao encontro da classe social que detém os meios de produção – burgueses – e aqueles que irão dar vida a esses meios, realizando a real transformação da natureza – os trabalhadores. O mediador desse encontro é a retribuição, por parte dos capitalistas, do uso da força de trabalho dos trabalhadores por meio do salário (como já visto, correspondendo ao pagamento apenas de uma parte do tempo de uso da sua força de trabalho, sendo as horas não pagas o momento em que o mais-valor é extraído).

Assim, a forma clássica de uso da força de trabalho no processo de produção capitalista é configurada de tal modo que o capitalista aplica essa capacidade de trabalho dos trabalhadores e retorna a eles não o produto do seu trabalho, mas um salário. Mesmo que o desenho dessa integração esteja materialmente posto (dada a organização do

122 Considerando que uma digressão para especificar como ocorreu precisamente a passagem do feudalismo para o capitalismo fugiria ao escopo desse trabalho, recomenda-se a consulta a outros trabalhos como o de Dobb (1987) para um maior detalhamento de como foi tal percurso.

trabalho), a sua integração não ocorreu de forma pacífica. Nessa direção, Bravermam (1987), Hobsbawn (1987; 2015) e Marx (1867/2013) retratam como o processo de conversão de artesãos e camponeses em trabalhadores assalariados foi (e ainda é) imensamente conturbado: boicotes, greves, destruições de máquinas, entre outras medidas de resistência e enfrentamento foram tomadas pelos trabalhadores. Principalmente entre o século XVIII e XIX essa transformação dos homens e mulheres em trabalhadores foi marcada por intensos embates físicos.

Porém, tal coerção direta dos homens e mulheres tinha o seu limite: a intensificação dos confrontos gerava, por um lado, baixas entre os trabalhadores e, por outro, enquanto estavam em confronto direto, a produção estava interrompida. Por uma ou por outra razão a coerção física dos trabalhadores a se submeterem a forma assalariado de trabalho mostrava-se limitada como estratégia de adequação dos mesmos a nova forma de organização do trabalho. É nesse ínterim que diversas ide as passam a ser gestadas com a finalidade de justificar e valorizar o trabalho assalariado como o melhor meio de vida.

Nessa direção, alguns trabalhos como o do próprio Marx (1867/2013), Max Weber (1930/2004) e Gramsci (2008) apontam a construção de teorias que possuem a finalidade de criar um consenso social acerca do trabalho assalariado. Seguindo esse mesmo debate é que Anthony (2003) analisa sistematicamente todas as ideias que começam a multiplicar-se durante o século XX a fim de regular o trabalho: tanto do ponto de vista dos trabalhadores, como dos capitalistas, diversas ideias buscam justificar (ou refutar) a forma de trabalho assalariado. Assim, na contramão de como ele era concebido em séculos passados (ora como punição, ora como penitência, ora como atividade indigna ou inferior) o trabalho assume uma centralidade positiva no ideário da época. A essas ideias que tentam regular o trabalho Anthony (2003) denomina de ideologia do trabalho.

Mesmo sem assumir a inteireza do conceito de ideologia – ainda a tratando como ideias socialmente compartilhadas –, Anthony (2003) acerta em classificar os diversos valores, crenças e pensamentos sobre o trabalho que passam a compor o ideário do século XX (estendendo-se para o século XXI) como ideologia. O recurso a conceitualização de Lukács ajuda a entender o porquê dessa aproximação.

Se ideologia é toda ideia que assume a função social de orientar a práxis dos indivíduos no cotidiano para posicionarem-se diante dos conflitos sociais, as ideias que se orientam a justificar/refutar a forma como o capitalismo integra a força de trabalho no processo produtivo configuram-se em ideologias, no momento em que lidam com um conflito social específico. Esse embate, por sua vez, está caracterizado por, de um lado, estar a classe burguesa/capitalista com o interesse vital de integrar a força de trabalho por meio do assalariamento e, do outro lado, estar a classe trabalhadora empenhada em ter a sua força de trabalho aplicada de outra forma (incluindo-se também os embates sobre a repartição dos produtos desse trabalho).

Se durante todo século XX boa parte das discussões em torno desse conflito específico se atinham a forma assalariada do uso da força de trabalho, no último terço desse século mudanças profundas na organização da produção no capitalismo imprimira m novas necessidades por parte da classe capitalista.

Notadamente, tais mudanças ocorreram após a grande crise desse modo de produção durante a década de 1970123. Reunidas sob o processo de reestruturação

123 Em linhas gerais, diversos determinantes podem ser levantados para explicar como em 1970 as relações de produção capitalistas beiraram o esgotamento. Contudo, no centro dessa crise está o acirramento das lutas de classe. Durante o pós -II Guerra Mundial, por um lado, as empresas capitalistas, principalmente, as com sede nos Estados Unidos, experimentaram um profundo período de crescimento sob a égide do paradigma produtivo taylorista-fordista; por outro, os trabalhadores e as trabalhadoras passaram por um intenso processo de formação e organização coletiva, conquistan do diversos direitos que ampliaram o seu padrão de vida. Contudo, ambas as tendências colidiram nessa década pela própria natureza de seu crescimento: a elevação da reprodução do capital significava a redução da participação do trabalho no processo produtivo e o crescimento do padrão de vida dos trabalhadores era resultado da ampliação do acesso aos bens socialmente produzidos. Com isso, em cadeia, diversos elementos centrais da sociabilidade capitalista passaram a ser destruídos, principalmente, a construção do Estado de Bem-Estar Social que

produtiva (Antunes, 1999), essas transformações não ocorreram apenas na dimensão da produção, mas também tiveram reflexos no modo de se organizar os Estados. Do ponto de vista da organização política, os governos passaram a alinhar-se com a agenda neoliberal, a qual tinha como princípios a minimização da intervenção social do Estado (devendo este garantir a atividade econômica “livre”), privatizações da estrutura estatal, participação de organizações sociais na gestão das políticas públicas, a adoção do Mercado como centro da vida social dentre outras (Draibe, 1993). Já na organização da produção, destaca-se a importação de diversas técnicas e pressupostos gestados no toyotismo, quais sejam: o uso racional de recursos, a eliminação de estoques, a empresa- rede, e, com maior acento, o uso intensivo de tecnologia. É nesse período que ocorre um acelerado avanço nos campos da telecomunicação e da microcomputação que permitem novas formas de gestão de pessoas e de organização do trabalho (Alves, 2000).

As consequências de tais mudanças para o mundo do trabalho são diversas, mas, para efeitos dessa tese, se destacam dois: o crescimento do desemprego e a heterogeneização do trabalho. No primeiro polo, o uso intensivo de tecnologias permitiu a ampla eliminação de postos de trabalho tradicionais, com a consequente criação de novos empregos, mas, em menor número e com exigências de qualificação e experiênc ia que interditavam a reabsorção dos trabalhadores expulsos do processo produtivo. Consequentemente, os diversos países começaram a conviver com taxas basais de desemprego inelimináveis (Antunes, 2010).

O desemprego, nesse nível, não se conforma apenas como uma consequência dessas mudanças, mas é um efeito esperado e possui funcionalidades expressivas no

garantia o atendimento demanda de reprodução das relações sociais e de produção capitalista. Em paralelo, o crescimento das empresas europeias com outro padrão de produção, a construção de um mercado consumidor cada vez mais heterogêneo, a migração de capital do setor produtivo para o financeiro e, a gota d’água, o brusco encarecimento das fontes de energia fósseis levaram a falência o modelo de produção vigente. Para um maior detalhamento sobre esse processo, consultar Antunes (1999), Clarke (1991) e Harvey (2010).

capitalismo. Como já analisado por Marx (1867/2010), o desemprego tem uma função econômica, qual seja, a de rebaixar os salários dos trabalhadores e trabalhadores que estão sendo empregados: devido a existência de um grande contingente de trabalhadores disponíveis, o oferecimento de condições mais precárias de trabalho passa a ser admissíveis pelos trabalhadores que não veem alternativas. Contudo, Mandel (1987) destaca uma segunda função, agora social e política do desemprego. O crescimento do desemprego também conduz os trabalhadores a uma situação de competição entre si pelas parcas vagas de trabalho. Isso se traduz na redução da participação desses trabalhadores nos seus organismos de classe, os quais, consequentemente, passam a ter o seu poder de luta reduzido. Ou seja, o desemprego tanto permite que o capital encontre melhores condições para se reproduzir, seja do ponto de vista econômico (por repassar uma menor parte dos bens socialmente produzidos para esses sujeitos), seja social (por reduzir os embates e conflitos com os trabalhadores, conseguindo impor as suas exigências com maior facilidade).

Por outro lado, esses elevados índices de desocupação foram a base social para a heterogeneização do trabalho. Esse último fenômeno caracteriza-se pela multiplicação de formas de trabalho na atual etapa do capitalismo. Diferentemente do período tayloris ta - fordista (e até anterior a ele) em que o assalariamento era a forma hegemônica de trabalho (ou melhor, de integração da força de trabalho na produção), na atualidade, esse formato é extremamente variado: trabalho por tempo de trabalho determinado, meio período, home work, estágio, voluntariado, microempreendimento, trabalho por conta própria, autônomo - e segue a lista. Se as vagas formalizadas, de trabalho assalariado registrado, começam a se fazer rarefeitas, não fechando a conta entre a quantidade de postos de trabalho ociosos e de trabalhadores desempregados, a única alternativa posta, imediatamente, aos trabalhadores é a criação de novas formas de obtenção de renda. É

nesse ínterim que o crescimento da informalidade se faz em paralelo à elevação do desemprego (Cacciamali, 2000).

Muito distante de ser um efeito secundário, tal heterogeneização (que inclui os trabalhos informais, e, portanto, o trabalho por conta própria) é requerida pela atual dinâmica de reprodução do capitalismo. Ou seja, para baratear os custos com o emprego da forma de trabalho, o assalariamento (precário) não é mais a única alternativa: a terceirização de etapas importantes da produção e comercialização das mercadorias para essas novas formas de trabalho garantem um novo patamar de reprodução do capital (Antunes, 2011; Tavares, 2004).

É nesse novo contexto do mundo do trabalho que se pode questionar se as assertivas de Anthony (2003) sobre a ideologia do trabalho ainda são válidas. Naquele período os interesses capitalistas em torno do uso da força de trabalho estavam relacionados, hegemonicamente, ao assalariamento desses trabalhadores, sendo esse o mecanismo primordial de extração de mais-valor. Contudo, nessa etapa do tardo- capitalismo o que se verifica é a assunção de um novo interesse dessa classe, qual seja, a de que os trabalhadores não apenas adiram ao trabalho assalariado, mas também, às formas mais diversas de trabalho que existem na atualidade.

Nessa direção, não é precipitado que nesse novo mundo do trabalho, reflexo de uma alteração na dinâmica de reprodução do capital – e, portanto, das suas próprias demandas –, estejam presentes ideias que também justifiquem a destinação dos trabalhadores para essas outras formas de trabalho, diversas do assalariado. Consequentemente, a hipótese levantada é de que acompanha a heterogeneização do trabalho uma heterogeneização da ideologia sobre o conflito de integração da força de trabalho no processo produtivo: em paralelo à ideologia relativa ao trabalho assalariado, também estariam presente outras ideologias ligadas às mais diversas formas de trabalho.

Consequentemente, se, como aludido na subseção anterior, as ideologias se efetivam por meio dos significados, conquanto, ela tenha corpo na linguagem social, cabe especificar do que se tratam os significados aqui investigados.

Na Psicologia, Sociologia, Administração e outras áreas se estruturam, ainda que mais recentemente, diversas investigações sobre o fenômeno dos significados (e dos sentidos) do trabalho. Conforme revelado por Bendassolli, Coelho-Lima, Pinheiro e Gê (2015), no contexto brasileiro predominam quatro abordagens distintas sobre a temática, quais sejam: a que considera apenas a investigação do sentido, aquelas que se centram sobre os significados, aquelas que não distinguem ambas e outras que estudam tanto o sentido, como o significado. O que está em jogo nessas abordagens é a diferenciação (ou não) dos significados (que seriam as concepções socialmente circulantes acerca do trabalho) e dos sentidos (como essas concepções são apropriadas por cada indivíduo), e o foco no estudo desses aspectos conjugados ou isolados.

Esses estudos, por sua vez, ganharam fôlego a partir dos esforços promovidos pelo grupo de pesquisas intercultural do Meaning of working (MOW), o qual, desde a década de 1980 tem se dedicado a levar diversos aspectos em torno do tema do significado do trabalho. O desenho de investigação utilizado por esse grupo, notadamente, centrou- se em survey com um grande público, construindo modelos de estruturação do que seriam esses significados. Ao longo dessas quase quatro décadas de estudos, agregaram-se outras abordagens, tanto de viés cognitivista, existencialista, construcionista, de estudos culturais e histórico-cultural (Tolfo, Coutinho, Baasch & Cugnier, 2011).

Como explicitado anteriormente, a presente tese busca sustentação para discussões acerca do significado do trabalho, a abordagem histórico-cultural, com forte acento nas articulações vigotskianas. Desse modo, aqui se compreende os significados do trabalho todos os modos como os sujeitos e as sociedades que participam abstraem a

realidade do trabalho em suas diversas dimensões (organização do trabalho, vivências no trabalho, condições de trabalho etc.).

Resgatando o objetivo dessa tese, serão focalizados os significados existentes entre os trabalhadores por conta própria que se relacionam a forma como esses se inserem no mundo do trabalho. Esses, seguindo a tese proposta nesse capítulo, seriam a realização das ideologias direcionadas a regulação da forma como as capacidades de trabalho dos trabalhadores são integradas nas atuais relações de produção.

Estando postas as articulações teóricas que sustentam essa tese é possível passar ao tratamento pormenorizado dos achados da pesquisa de campo que compõe esse trabalho. Este, por sua vez, permitirá avançar nas reflexões teóricas postas até esse momento, bem como, elaborar uma resposta qualificada ao objetivo central desse estudo.

PARTEII