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ESCOLA CEFAPRO

ATITUDE DIANTE DO DISCURSO

3.3.2 Letramento digital

Na década de 1980, com a popularização da tecnologia digital, o uso do personal computer ganhou força, mas usar um computador exigia conhecimentos de linguagem e de sistema operacional específicos que poucos possuíam. Com o desenvolvimento do conceito de interface e, na década de 1990, com o avanço das TIC, representada principalmente pela internet, a Sociedade de Informação ganhou espaço, o que motivou novas maneiras de interação, novas práticas de leitura e escrita, exigindo, consequentemente, novos letramentos.

Em analogia à alfabetização e ao letramento nos estudos tradicionais e analógicos, Frade (2007, p. 74) define alfabetização digital em oposição a analfabetismo digital afirmando que o

[...] analfabetismo digital poderia ser utilizado para já alfabetizados que não alcançaram o domínio dos códigos que permitem acessar a máquina, manuseá-la e que, portanto, não podem utilizar seus comandos para práticas efetivas de digitação de texto, leitura e

74 produção de mensagens para efeitos de interação a distância ou

para uma leitura de informação ou mesmo de leitura e escrita de outras linguagens (visuais, por exemplo).

Para a autora, os alfabetizados nos estudos tradicionais e analógicos que ainda não dominam os códigos de acesso ao computador e seus recursos não podem ser considerados alfabetizados digitais. Pondera, ainda, que “é preciso garantir o aprendizado de alguns usos da máquina, ensinando alguns códigos desse novo artefato: é necessário que se aprenda o que é um mouse, o funcionamento do teclado, os códigos para inicialização, gravação e término da tarefa, entre outras habilidades” (FRADE, 2007, p. 74).

Coscarelli (2007, p. 31), para conceituar alfabetização digital, elenca alguns questionamentos, entre os quais os seguintes:

[...] estamos preparados para lidar com esse instrumental que se disponibiliza com o advento da informática? Sabemos digitar? Sabemos formatar textos? Sabemos lidar com planilhas? Sabemos criar apresentações? Sabemos navegar? Como então vamos ajudar nossos alunos a dominar essas ferramentas e entrar nesse mundo novo, se não o conhecemos? Os professores precisam encarar esse desafio de se preparar para essa nova realidade, aprendendo a lidar com os recursos básicos e planejando formas de usá-los em suas salas de aula.

A alfabetização digital, para a autora, pode ser compreendida como saber lidar com as ferramentas básicas disponibilizadas pelo computador, assim como alfabetização é compreendida como codificação e decodificação do código linguístico escrito. Ao responder aos questionamentos que apresentou, declara que muitos educadores, ainda resistentes ao uso do computador, não podem ser considerados nem mesmo alfabetizados digitalmente. Isso significa, então, que a distância a ser percorrida para que possam ser considerados letrados digitalmente, condição necessária para o trabalho pedagógico, ainda é infinitamente longa.

Ela também destaca que “para que a informática se instaure como tecnologia educacional, é preciso que os professores se preparem para operar desembaraçadamente com esse instrumental” (COSCARELLI, 2007, p. 40).

75 Evidencia-se, assim, que o conceito de alfabetização digital, tanto para essa autora como para Frade (2007), está diretamente ligado ao uso instrumental dos recursos de informática.

Esse uso instrumental dos recursos de informática também é abordado por Xavier (2003, p. 5) quando discute a condição de analfabeto digital. De acordo com o autor, para deixar a

situação de „analfabeto digital‟, é necessário muito mais que dominar a escrita alfabética e utilizar as vantagens de suas potencialidades sociais e econômicas. Embora não seja preciso ser „expert‟ em computação para vencer as limitações impostas pelo analfabetismo digital, é preciso, no mínimo, entender como funcionam os sistemas de „navegação‟ no oceano de dados que encharcam a Internet. Só se sai da „ignorância digital‟, conhecendo pelo menos parte das „infovias‟ ou autoestradas virtuais por onde trafegam as informações relevantes que ficam à espera de serem transformadas em conhecimento. É preciso saber „buscar‟ uma certa informação na rede digital, utilizar com eficiência os „mecanismos de busca‟ em

sites que têm como função única armazenar e disponibilizar todas as

páginas eletrônicas da Internet que abordam certos temas ou assuntos.

Em nossos estudos, verificamos que o viés mais técnico que se associa à alfabetização digital, bem como, em contrapartida, o viés mais social para o letramento digital possivelmente são oriundos de discussões acadêmicas sobre a alfabetização e o letramento dos meios analógicos. Ao tecermos um paralelo entre os processos de alfabetização e de alfabetização digital, percebemos que ambos se limitam a explorar as técnicas: de codificação e decodificação para a alfabetização e de uso dos recursos básicos do computador para a alfabetização digital. No mesmo processo de equivalência, destacamos o letramento como uso social da linguagem e o letramento digital como uso social da linguagem desde que tendo como suporte a tecnologia e seus recursos nas práticas de leitura e escrita.

Entendemos que isso se comprova na definição de letramento digital de Xavier (2003, p. 2):

O letramento digital implica realizar práticas de leitura e escrita diferentes das formas tradicionais de letramento e alfabetização. Ser

76 escrever os códigos e sinais verbais e não-verbais, como imagens e

desenhos, se compararmos às formas de leitura e escrita feitas no livro, até porque o suporte sobre o qual estão os textos digitais é a tela, também digital.

Para que o letramento digital possa ser implementado na escola, não podemos ignorar uma formação de educadores que ultrapasse o mero uso técnico das TIC, vá além dele; que vá além da alfabetização digital, a fim de que o trabalho pedagógico com a tecnologia promova efetivamente o letramento digital dos alunos.

Quevedo, Crescitelli e Geraldini (2009, s.p.) afirmam que os educadores precisam refletir sobre a concepção de tecnologia como uma ferramenta que auxilia no processo de ensino e aprendizagem. Acreditamos que tal reflexão pode ocorrer por meio de discussões fomentadas em momentos de formação continuada que possibilitem a construção de uma nova concepção de tecnologia na escola. De acordo com as autoras, da perspectiva

da formação de profissionais, entendemos que o desenvolvimento das competências e habilidades necessárias para a formação em ensino a distância e novas tecnologias aplicadas à educação não ocorre meramente pela ampliação de habilidades técnicas; ocorre, sim, por intermédio da reflexão acerca do processo de ensino- aprendizagem, da concepção de tecnologia como ferramenta gerada com base no conhecimento acumulado (QUEVEDO; CRESCITELLI; GERALDINI, 2009, s.p.).

Seguindo os preceitos dos autores apresentados, a noção de alfabetização digital é aqui compreendida como o saber necessário para o uso dos recursos tecnológicos disponibilizados no computador e na internet, o passo que o letramento digital é considerado o saber necessário para o uso social que fazemos desses recursos tecnológicos em práticas de leitura e escrita.

Durante o desenvolvimento desta pesquisa, observamos que o processo de alfabetização digital já está em fase de superação por parte dos professores de Língua Portuguesa que acompanhamos. No entanto, o letramento digital almejado por todos ainda está longe de se consolidar. Os professores cujas aulas observamos estão em processo de letramento digital, já que conseguem pensar em atividades baseadas no uso das TIC em seus projetos pedagógicos, mas ainda não possuem

77 os conhecimentos necessários para criarem atividades alternativas, de modo que repetem as opções didáticas que lhes foram apresentadas nos cursos de formação, como o uso do blog e a navegação na web, por exemplo.

Acreditamos que, assim como ocorre no caso da alfabetização e do letramento tradicional, a alfabetização e o letramento digital são processos que se complementam e que demandam tempo para maturação e acomodação dos novos saberes.

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CAPÍTULO 4

APRESENTAÇÃO DOS DADOS

E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

79 A apresentação e a análise dos dados obtidos são realizadas neste capítulo. Inicialmente, apresentamos e analisamos os dados em três momentos da pesquisa (inicial, intermediário e final). Em seguida, com base em nossas observações, discutimos as possibilidades e os desafios gerados pelo uso das TIC em aulas de Língua Portuguesa, bem como a importância da formação continuada dos professores para atuar nesse contexto. Tecemos as relações entre os resultados obtidos, no intuito de responder as três perguntas de pesquisa desta tese:

 quais são os desafios formativos, pedagógicos e institucionais encontrados pelos professores de Língua Portuguesa na utilização das TIC no processo de ensino e aprendizagem?;

 quais são as possibilidades de trabalho pedagógico com a tecnologia disponibilizada pelo Projeto UCA nas aulas de Língua Portuguesa?;

 como pode ser a formação continuada do docente de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental para atuação em contextos digitais?