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CAPÍTULO II - DAS MÍDIAS TRADICIONAIS AS AS REDES DIGITAIS: CORPOS

2.3 Representações negras nas mídias

2.3.1 Literatura

A literatura, de acordo com a escritora Ana Maria Gonçalves tem o poder de mover as palavras no sentido de poderem ser usadas para amenizar a carga de perigo que, às vezes, as palavras trazem consigo. De acordo com a autora, a literatura tem ainda o poder de nos

deslocar através e para a história, e assim “poder falar sobre escravidão, sobre racismo, sobre as dores, os medos, as ignorâncias que a gente tem através de uma história em que o leitor pode até se identificar, mas que ele consegue fazer a separação entre um universo real e um universo fictício” (GONÇALVES, 2017).

Com a literatura é possível criar verdades e mentiras, através da ficção isso se torna ainda mais concreto por ser a criação de um mundo imaginário que só o autor tem o poder criar as situações e os personagens (ou seriam os objetos?), de decidir tudo o que é bom e o que é ruim, o que é preciso ficar em evidência e o que é só necessário nas entrelinhas, ou mesmo deixar o que se quer em negação. Com a história dos povos negros desde os sequestros de africanos para serem escravizados no Brasil no período colonial e assim nos períodos seguintes foram contados e recontados em fábulas, escritos, contos, crônicas, textos diversos que, majoritariamente, foram escritas sob o olhar branco. E o que isso quer dizer? É mostrar um ângulo único e baseado no racismo.

Mas falar sobre literatura é também falar sobre histórias possíveis, não necessariamente perfeitas, mas possíveis de refletirem a vida real, de homens e mulheres comuns. Embora problemáticas em certos aspectos, é preciso reconhecer a importância de obras como a já mencionada na pesquisa como “O Mulato” de Aluísio de Azevedo, mas também “O Navio Negreiro” de Castro Alves, “O Cortiço” de Aluísio Azevedo, assim como

“Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha”, considerada por muitos como uma das primeiras obras nacionais com temática LGBT, além de ser um potencial material de análise sobre a masculinidade do homem negro. Estas são apenas algumas das obras da literatura brasileira citadas20, entre outras, que tive contato nos tempos de escola e me introduziram nessas realidades parte ficcionais, parte realistas sobre os homens negros.

Nos últimos anos um novo cenário se ergueu para a literatura negra no Brasil, desde os livros com histórias lúdicas para o público infantil até as ficções científicas para o público adulto, para se ter uma um panorama da nova cara que as histórias escritas por pessoas negras, sobre pessoas negras está movimentando todo um mercado financeiro, cultural e possibilitando novas vivências para as futuras gerações.

Cabe aqui um exemplo muito especial sobre a importância de se contar com a literatura produzida de maneira correta, falando de assuntos até sérios para os pequenos mas de uma forma que os conectem com suas próprias vivências e assim consigam construir suas

20 Sugiro a leitura complementar do artigo “A trajetória do negro na literatura brasileira”, de Domício Proença Filho (2004), que aborda de maneira muito bem argumentada o percurso no negro ao longo da história literária negra brasileira, conseguindo através de uma ampla exemplificação de obras e autores, a identificação de estereótipos e as questão da identidade cultural negra.

identidades a partir de referências positivadas desde a infância, como o livro “O Pequeno Príncipe Preto”, de Rodrigo França (2020) e ilustrações de Juliana Borges Pereira, em uma releitura do clássico francês “Le Petit Prince”, do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry.

E que de acordo com Rodrigues e Pereira (2021), no artigo “O pequeno príncipe preto:

(re)descobrindo a ancestralidade e o afeto na perspectiva da educação antirracista”, os autores perceberam que:

Nesta nova versão, o protagonista da história é um menino negro que astutamente suscita questões de afeto, amor próprio e autoestima de crianças negras, trabalhando também com o resgate de sua ancestralidade africana e a valorização de suas origens. Nesse viés antirracista, a obra deixa a mensagem para os leitores, sejam eles negros ou não negros, de que todos nós somos fortes, belos e potentes para sermos tudo o que quisermos ser; e que possuímos condições suficientes para enfrentar qualquer desafio na vida. (2021, p.16)

Obras como esta buscam representar as novas identidades do povo negro brasileiro que não almejam mais serem representados na literatura como subalternos ou vilões, mas protagonistas de suas próprias histórias. E não somente através de livros, mas de outra ações afirmativas e educativas com a promoção real de uma educação antirracista no âmbito escolar desde os primeiros anos, como por exemplo é o caso da Lei 10.639/0321 e como lembram Rodrigues e Pereira (2021):

A leitura de histórias infantis africanas e afrobrasileiras para crianças, desde a primeira infância, por exemplo, potencializa o imaginário dos pequenos com outras possibilidades de histórias e de vivências que ora podem se assemelhar, ora se diferenciar da sua própria realidade. É importante, nesse processo, a desmistificação de estereótipos e a construção de imagens positivadas das pessoas negras. (2021, p.16)

De todo modo, tem-se na literatura, seja ela clássica ou moderna com o afrofuturismo22 a possibilidade de desconstrução de alguns velhos padrões de nossa sociedade, nesse sentido vemos um potencial meio de transformação social que tem ainda um longo caminho, mas com muito menos barreiras para, enfim, projetar a voz e a visibilidade dentro e fora das páginas de livros.

21 A lei em questão promove de forma determinante o ensino de história e cultura africana e afrobrasileira em todos os currículos escolares tanto no ensino público quanto no ensino privado. Um de seus maiores objetivos é mostrar a luta dos povos negros no Brasil, a sua riqueza cultural e evidenciar a importância e grandes contribuições do negro na formação da nação brasileira nos aspectos social, econômica e político.

22 Embora não seja um termo totalmente preciso em sua definição, visto que é algo recente na literatura negra especialmente, o Afrofuturismo compreende a figura e o protagonismo negro em novas realidades possíveis, inclusive deslocando o imaginário da escravidão para o enaltecimento de um novo imaginário com vivências negras positivadas, resgatando a sua ancestralidade, negritude e fazendo uso, como plano de fundo, das projeções científicas e tecnológicas de futuro.