2 ABUSO DE VULNERÁVEL: UMA LEGISLAÇÃO DE CRENÇAS SILENCIOSAS
2.4 Métodos e tipos de interpretação da norma
A Ação Penal Pública Incondicionada18 procede-se à vítima se menor de 18 anos ou pessoa vulnerável. Assim sendo, qualquer que seja o crime sexual, a titularidade para promover a ação será sempre do Estado, por meio do Órgão Ministerial em caráter privativo, que independe da vontade da vítima para que o fato seja processado e julgado. A ação penal incondicionada aqui colocada, assim, não se discute o desejo da vítima.
Se o desejo não pode ser discutido, o problema perpassa a vítima, atingindo também
18 A ação penal pública é condicionada à representação, e incondicionada nos demais casos. A ação penal pública incondicionada em decorrência das lesões de natureza leve ou grave decorre da súmula do Supremo Tribunal Federal nº. 608, segunda a qual prescreve que: “nos crimes de estupro, praticado mediante violência real, a ação penal é publica incondicionada”. O artigo 225 do CP com a edição da nova lei aboliu a ação penal privada dos crimes sexuais, passando a ação penal pública condicionada à representação sendo a regra geral, a única exceção, que a faz incondicionada, quando a vítima for ou menor de 18 anos ou pessoa vulnerável. Dessa forma, a nova redação do artigo 225 compõe que: Nos crimes definidos nos Capítulos I e II deste Título, procede-se mediante ação penal pública condicionada à representação.
a criança que possa ser fruto de uma relação consentida, por conta da redação da lei 12.015/09, decorrente da vulnerabilidade absoluta.
A autoridade em Direito Penal, Francisco Dirceu Barros, assegura que a não relativização atenta contra o princípio da paternidade responsável e contra o princípio da harmonia familiar, pois a garota menor de 14 anos de idade, ao engravidar de um rapaz, o mesmo não vai querer assumir a paternidade por conta das sanções penais pela mão do Parquet19, através da ação incondicionada pública, crime hediondo, cuja pena varia entre 8 (oito) e 15 anos de reclusão, com causa de aumento de pena. Causa-se, dessa forma, um mal irreparável para o futuro daquela criança, que não terá o reconhecimento de paternidade em seu registro de nascimento.
Diante disso, não poderá o direito de filiação ficar prejudicado pela intervenção do Estado, condenando esse jovem ao crime de estupro de vulnerável, acarretando em muitos contrassensos. Dentre eles, poderemos citar as ações da Corregedoria Nacional de Justiça do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) (Online), que participa do esforço nacional para erradicar o sub-registro de nascimento. Vejamos o provimento nº 13, que dispõe sobre o assunto:
O registro de nascimento solicitado pela Unidade Interligada será feito no cartório da circunscrição de residência dos pais ou no local de nascimento, conforme opção dos interessados. Em alguns Estados o serviço já existe e visa facilitar a vida dos pais na hora da emissão do registro civil de nascimento. O provimento, contudo, torna o processo muito mais seguro e dinâmico. Caso a criança não tenha a paternidade reconhecida, a informação será remetida a um juiz, que chamará a mãe e a facultará de informar o nome e o endereço do suposto pai, a fim de que a responsabilidade imputada possa ser averiguada e confirmada. (CNJ, Online).
De um lado há um esforço por parte das autoridades na busca ativa do pai; do outro, temos uma lei “engessada”, que dificulta a mesma, na concretização de outro dispositivo de lei. Outros dois problemas que podemos citar é: esse mesmo rapaz, ao ser abordado em um estabelecimento de saúde, passa a ser alvo de indagações entre os profissionais da área por conta da tenra idade da menor e da obrigatoriedade da notificação por parte dos profissionais. A equipe poderia estar preocupada neste momento só nos cuidados do binômio mãe/bebê e em formar laços familiares, porém, mesmo uma relação consensual consentida, o rapaz receberá a notícia que o caso será levado ao Conselho Tutelar.
O que estamos colocando aqui é a liberdade do profissional de analisar e avaliar, diante de cada caso, se leva ou não ao conhecimento do Órgão, responsável e habilitado, os casos concretos ao juizado da infância e da juventude.
19 Ministério Público.
Uma última situação, ainda sobre uma relação sexual consentida, mas sob outro sujeito: a mulher se estiver sendo acusada de ter abusado sexualmente por ter mantido relação sexual com menor de 14 anos. Lembrando: a lei vale para meninas e meninos menores de 14 anos.
É evidente, como já falamos e reiteramos, que o menor precocemente amadurecido nas coisas do sexo, seja qual for o motivo que conduz a essa condição, não deixa de merecer a proteção especial do Direito. Na atualidade, uma menor de 14 anos manter um relacionamento sexual amoroso é fato na atual conjuntura do nosso país. Vejamos:
Os dados do governo demonstram que o número de adolescentes entre 10 e 19 anos que se tornam mães no Brasil vem aumentando nos últimos quatro anos. Só no ano passado, elas responderam por cerca de 30% do total de partos realizados nos hospitais do SUS. Cerca de 300 mil mulheres nessa faixa de idade foram submetidas à curetagem pós-aborto. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o número de adolescentes grávidas também está crescendo no país. Entre 2011 e 2012, o total de filhos gerados quando as mães tinham entre 15 e 19 anos quase dobrou: de 4.500 para 8.300. Ainda segundo o IBGE, nessa faixa de idade 18% das mulheres já engravidaram ao menos uma vez. (CARLOS, 2013, p. 3).
Contra fatos não há argumentos. Devemos manter nas equipes de saúde o diferencial no acolhimento das adolescentes, diante de tantos conflitos pela própria idade e pelo momento gestacional vivido, buscando o aprimoramento no atendimento e não o distanciamento, portanto, devemos repensar esse entendimento majoritário do dispositivo penal.
Ante ao que foi trazido neste segundo momento, verificamos o quão importante se faz a temática para a sociedade, pois sabemos que as relações sociais entram em constante metamorfose. Da mesma forma, a norma precisa seguir essa dialética para não perder a sua eficácia e eficiência social.
Diante do exposto nesse capítulo, verificamos alguns questionamentos e procuramos responder outros, como: será o cerceamento sexual para adolescentes menores de 14 anos a solução para outros tipos de práticas, como a pedofilia?
No próximo capítulo, estudaremos a política pública que trata o adolescente e o jovem como sujeito de direito, delineando a trajetória da política ao longo dos anos, até os dias atuais.