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3 PROGRAMA SAÚDE DO ADOLESCENTE (PROSAD): TEXTOS E CONTEXTOS

3.3 Do PROSAD x Lei 12.015/09

A adolescência é marcada por mudanças corporais e comportamentais, que causam diversos conflitos. É uma etapa do desenvolvimento humano marcada por profundas transformações, não apenas físicas, mas também é o início da transição psicológica da infância para a idade adulta (HOPKINS, 1983).

O artigo 227 da Constituição Federal/CF reconhece a importância da abordagem integral para a saúde do adolescente: a mesma deve ser vista como básica para o desenvolvimento social saudável da nação brasileira. Neste contexto, a Emenda à Constituição em 2010 reforçou que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

Com a introdução desse artigo em nosso ordenamento jurídico constitucional, cria-se a obrigatoriedade do poder público de formular políticas direcionadas para a proteção e desenvolvimento da criança e dos adolescentes como sujeitos de direito e não como meros

objetos de intervenção no mundo adulto e, dentre algumas políticas criadas, o PROSAD25 consta como um marco nesse contexto.

A legislação de proteção da infância e do adolescente ganhou argumentos importantes, pós Constituição de 1988, para criação de lei específica que garantisse o amparo integral desse seguimento social. Vejamos o que diz o artigo 227 parágrafos 1º de nossa Magna Carta:

§ 1º O Estado promoverá programas de assistência integral à saúde da criança, do adolescente e do jovem, admitida a participação de entidades não governamentais, mediante políticas específicas e obedecendo aos seguintes preceitos: (Redação dada Pela Emenda Constitucional nº 65, de 2010).

Com o intuito de fortalecer os direcionamentos de políticas específicas para esse grupo etário, para a Promoção de Saúde, o programa foi lançado para identificar grupos de risco, entendendo que os programas de atenção ao adolescente e jovem devem levar em conta as diferenças socioculturais entre os gêneros, detectando precocemente os agravos de saúde para tratamentos adequados e reabilitação, respeitadas as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) garantidas pela Constituição Brasileira de 1988.

Neste sentido, chancelado pela nova ordem constitucional, foi criado em 21 de dezembro de 1989 pelo Ministério da Saúde (MS), através da Portaria nº 980 do Gabinete Ministerial, o PROSAD.

Dessa forma, o Ministério da Saúde define objetivos, diretrizes e estratégias para o Programa "Saúde do Adolescente" (PROSAD) que tem a finalidade de promover, integrar, apoiar e incentivar práticas nos locais onde será feita a implantação e aonde essas atividades já vêm sendo desenvolvidas, seja nos estados, municípios, universidades, organizações não governamentais e outras instituições. Deve interagir com outros setores no sentido da promoção da saúde, da identificação dos grupos de risco, detecção precoce dos agravos, tratamento adequado e reabilitação dos indivíduos dessa faixa etária, sempre de forma integral, multisetorial e interdisciplinar. (BRASIL, 1996, p. 6).

De acordo com dados do Programa (BRASIL, 2011), seu público-alvo seguiria a faixa etária de jovens entre 10 e 19 anos. Entre os principais objetivos dessa Política de Promoção da Saúde, destacam-se a identificação de grupos de risco e a detecção precoce dos

25 As iniciativas na área de saúde remontam a 1989, quando o Ministério da Saúde se voltou para a saúde do adolescente com a criação do Programa Saúde do Adolescente (PROSAD). Em 1999, foi criada a Área de Saúde do Adolescente e do Jovem (ASAJ), no âmbito da Secretaria de Políticas de Saúde. Essa nova área, então, tornou-se responsável pela articulação dos diversos projetos e programas do Ministério da Saúde, que lidam com questões relativas à adolescência e à juventude, em decorrência da percepção da necessidade de uma política nacional integrada de atenção específica aos indivíduos de 10 a 24 anos. (SPOSITO, 2003, p. 25).

agravos, com tratamento adequado e reabilitação, com o propósito de assegurar os princípios básicos da universalidade, equidade e integralidade de ações.

Teve como principais estratégias a execução em todos os estados brasileiros, pelo Governo Federal, promovendo estratégias intersetoriais que aumentassem o alcance do programa e mantivesse um canal de informação e atualização entre as esferas central, estadual e municipal Brasil (1996). Tinha também como objetivo principal treinar e capacitar profissionais e voluntários para atender e acolher os adolescentes.

Dentre os programas que surgiram ao longo do tempo para o público juvenil, pode-se reconhecer que muitas das ações voltadas para a melhoria da saúde dos mesmos não deram certo em virtude do eixo estreito e da desordem dos trabalhos governamentais.

A política meramente curativa, posta em prática antes do PROSAD, não atendia os determinantes da morbimortalidade que poderiam decorrer de causas externas e da prática sexual desprotegida. Desse modo, precisava-se de uma política que abrangesse atividades de promoção, prevenção e atenção ao adolescente, tendo em vista os aspectos culturais, afetivos e psicossociais. Nisto, o programa veio para poder dirimir essas questões, que antes não poderiam ser nem imaginadas. (RUZANY, 2000).

O objetivo principal do PROSAD era garantir aos adolescentes o acesso à saúde, com ações de caráter multiprofissional, de forma a promover os cuidados com várias categorias de profissionais, dando um olhar diferenciado e em vários contextos. Como exemplo podemos mencionar o intersetorial – com uma relação reconhecida entre uma ou várias partes do setor saúde, visando alcançar resultados de saúde de uma maneira mais efetiva, eficiente ou sustentável – e o interinstitucional, no sentido de trabalhar em grupo, com vários parceiros, numa relação de envolvimento de uma ou mais instituições que se identifique com o projeto, compartilhando problemas, experiências e objetivos comuns. (BRASIL, 1996).

Nesta linha de conhecimento das diretrizes do programa, que veio para promover a saúde de forma integral, multissetorial e interdisciplinar, com ações pautadas no respeito pela adolescência, a iniciativa visou também entre outros aspectos: crescimento e desenvolvimento; sexualidade; saúde mental; saúde reprodutiva; saúde sexual; saúde na escola; violência e maus tratos; família; prevenção de acidentes; trabalho e lazer (BRASIL, 2011).

Nos chamou a atenção a saúde reprodutiva da adolescente menor de 14 anos pelo fato de trabalharmos em um ambulatório de crianças e adolescentes. Verificarmos, ao longo dos 13 anos de experiência ambulatorial, os contrastes da política descrita focada na

integralidade das ações, somada à lei 12.015/09 e à inserção do artigo 217-A, que tratam dos crimes de abuso de vulneráveis, tutelando os menores de 14 anos. Soma-se a realidade vivenciada pelos profissionais da saúde, tendo que atender uma demanda crescente de menores de 14 anos grávidas e a limitação de uma lei rígida.

Segundo o último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) o percentual dos partos em adolescentes de 10 a 19 anos, realizados na rede SUS, chegou a 25,79%. Em relação à sexualidade, existem dados demonstrando que o nível de fecundidade de adolescentes entre 15 a 19 anos aumentou entre 1970 e 1980, havendo também incremento da fecundidade na faixa entre 10 e 14 anos.(IBGE, 2010).

Com a introdução dos cuidados de puericultura, melhores condições nutricionais, programas de vacinação, entre outros, tem havido diminuição da mortalidade infantil, o que resulta no aumento da população de adolescentes. No Brasil, corresponde a 20,8% da população geral, sendo 10% na faixa de 10 a 14 anos e 10,8% de 15 a 19 anos, estimando-se que a população feminina seja de 17.491.139 pessoas. (YAZLLE, 2016, p. 443).

Dados do IBGE (2010) descrevem que só no Brasil cerca de 700 mil menores estão sendo mães precocemente todos os anos e, desse montante, 2% tem entre 10 e 14 anos. Nessa faixa etária, podemos seguramente afirmar que essas jovens não têm nenhuma maturidade para assumir a maternidade e nem a vida adulta, que, compulsoriamente, com a maternidade, faz com que sejam arrancadas de suas infâncias. E o mais grave: sem nenhuma preparação psicológica e nem financeira para poder dar um bom futuro a essas crianças.

A pesquisa do mesmo instituto mencionado demonstra que o número de adolescentes entre 10 e 19 anos que se tornam mães no Brasil vem aumentando nos últimos quatro anos. Em 2012, elas responderam por cerca de 31% do total de partos realizados nos hospitais do Sistema Único de Saúde. (IBGE, 2010).

Segundo o Instituto, o número de adolescentes grávidas também está crescendo no país. Entre os anos 2011 e 2012, o número de filhos gerados quando as mães tinham entre 15 e 19 anos quase dobrou, passando de 4.500 para 8.300. Nessa faixa de idade, 18% das mulheres já engravidaram ao menos uma vez. Com esses dados, a constatação é que a cada dia no Brasil aumenta o número de jovens que tem a sua vida marcada por uma gravidez precoce.

As questões ligadas à sexualidade e fecundidade adolescentes tem despertado crescente atenção. Há um caloroso debate no país sobre a necessidade de regulação da sexualidade juvenil. O suposto desregramento das práticas sexuais juvenis tem sido um argumento forte comumente invocado para justificar a reprodução nessa fase da vida e seus desdobramentos perversos nas trajetórias juvenis. Identificar representações e práticas de jovens de diferentes segmentos no que tange à gestão da

vida íntima e de suas conexões com as instituições da família, escola, serviços de saúde, grupo de pares, se coloca hoje como via importante para a reflexão sociológica no campo da saúde coletiva. (ALVES, 2015, p. 234).

O PROSAD, apesar de apresentar diversas mudanças na sua estrutura desde sua implantação, serviu de alicerce para toda a outra Política Pública e promoção da saúde dos adolescentes e jovens a despeito de sua criação ter sido principalmente pelas mudanças sociais, presentes no seu contexto e seus fundamentos. Pois, desde a sua constituição, veio enfrentando o desafio de aprimorar o modelo para alcançar outros mais eficazes, dentre eles: a ampliação da participação dos adolescentes nos serviços; a sua participação na gestão; a avaliação e reconstrução dos serviços, possibilitando o empoderamento dos jovens para resultados mais efetivos e de maior abrangência. É digno de nota o crítico reconhecimento do programa sobre a pouca participação dos jovens no planejamento, na execução e na avaliação das atividades oriundas de políticas públicas.

Logo após a criação do PROSAD, dando seguimento ao cenário das políticas para o público juvenil, em 13 de julho de 1990, foi sancionado pelo então Presidente da República Fernando Collor de Melo o Estatuto da Criança e do Adolescente, ratificando os cuidados com os menores de 18 anos, regulamentando os direitos das crianças e dos adolescentes e inspirado pelas diretrizes fornecidas pela Constituição Federal. Assim, o ECA internalizou uma série de normas internacionais, como a Declaração dos Direitos da Criança, Regras Mínimas das Nações Unidas para a administração da Justiça da Infância e da Juventude, dentre outras. (BRASIL, 1996).

O ECA veio substituir o Código de Menores (Lei n. 6.697/79), que vigorou de 1979 até 1990. A argumentação desse dispositivo foi a execução e o desenvolvimento de uma nova e específica política de atendimento à infância e à juventude, expressa pelos princípios constitucionais basilares da descentralização político-administrativa e da atuação da sociedade civil em várias partes.

Houve, assim, a garantia de que as crianças e adolescentes passassem a ser tratados como sujeitos de direitos fundamentado, no art. 7º do ECA, pois antes só eram reconhecidos como simples objetos de ação da família e do Estado. Apesar deste reconhecimento no corpo constitucional, essa parcela da população não foi visualizada nas políticas públicas como protagonista de sua história, com identidade própria. (KERBAUY, 2013; LEÃO, 2013).

Constituído como principal instrumento de garantia de direitos da criança e do adolescente, o Estatuto foi uma valiosa ferramenta para o atendimento integral da criança e do

adolescente. O mesmo exige do estado brasileiro e dos grupos sociais a continuidade dos resultados impostos pelo artigo 227 da Constituição Federal.

O referido artigo visa à produção, execução, acompanhamento e controle social de políticas constitucionais e estatutárias capazes de mudar os conceitos arcaicos de infância e juventude presente no dia a dia da dinâmica social da população.

O Estado tem o dever de criar, programar e organizar, políticas, planos, programas e serviços para o público infanto-juvenil, pois eles serão os futuros cidadãos de nossa nação.

Na avaliação da agência da ONU, a desigualdade econômica reforça e é reforçada por outras desigualdades. Por exemplo, a desigualdade enfrentada pelas mulheres mais pobres no acesso a serviços de saúde, onde apenas algumas privilegiadas conseguem planejar sua vida reprodutiva, reflete-se na incapacidade de desenvolver habilidades para integrar a força de trabalho remunerado e alcançar poder econômico. (UNFPA, 2017, p. 13).

De acordo com o que está assinalado no corpo textual do artigo 227 da CF/88 e reflexivamente no ECA, a criança e o adolescente devem estar assegurados por políticas públicas de proteção, promoção e direitos, bem como a tutela de suas respectivas famílias.

Em função da vulnerabilidade, adolescentes e jovens vivenciam inúmeros problemas, dentre estes, a gravidez indesejada, violências e maus tratos, DST/AIDS e desrespeito aos seus direitos de cidadãos de acordo com o Ministério da Saúde:

A vulnerabilidade desta faixa etária é outra questão que faz com que ela necessite de um cuidado ainda mais amplo e sensível. Essa maior vulnerabilidade aos agravos, determinada pelo processo de crescimento e desenvolvimento, pelas características psicológicas peculiares dessa fase da vida e pelo contexto social em que está inserido, coloca o adolescente na condição de maior suscetibilidade às mais diferentes situações de risco, como gravidez precoce, doenças sexualmente transmissíveis (DST), acidentes, diversos tipos de violência, maus tratos, uso de drogas, evasão escolar, etc. (BRASIL, 2006).

O legislador, assim, imaginou que iria solucionar vários problemas com uma norma mais rígida, principalmente os casos de pedofilia que todos os dias estampam as folhas de jornais. Porém, infelizmente, verificamos com o advento desse novo dispositivo penal várias controvérsias atingem os sujeitos que a lei alcança diretamente e indiretamente. Exemplos disso são as menores de 14 anos grávidas com relação consensual e os profissionais da área da saúde, que tem a obrigação de notificar ao Conselho Tutelar todos os casos independentes de ter havido abuso ou não.

3.4 Contextos familiares e a contribuição da equipe multidisciplinar na execução das