Introdução
A popularidade do tema das migrações, num contexto de avanço de movimentos populistas e anti-imigração a Ocidente, exige uma cuidada e compreensiva análise dos factos, sob pena de falha grave na missão do Estado de conservação da segurança e inte- resse nacional. Nessa medida, pretendemos esclarecer o produto da relação entre o fenó- meno das migrações e o fenómeno da segurança, procurando ir além de noções pré- -concebidas, premissas dos regimes de verdade e práticas discursivas da classe política e dos média. Só uma compreensão profunda da intrincada relação de interdependência entre causas migratórias, efeitos securitários e resoluções políticas, bem como das múlti- plas e diversas variáveis intervenientes, permite afirmar os factos estáveis e prováveis, base indispensável à realização de uma política de Estado competente e eficaz. A perda de controlo dos factos pelos policymakers corre o risco de se transformar num vazio, des-
tinado a ser preenchido por móbeis políticos e mediáticos. Um entendimento claro não dispensa o debate, sobretudo entre a comunidade científica (Koser, 2015): “I think, in this [academic] field (…) [w]e have two opposing poles: one that’s pro-migration, one that’s anti-migration and the two simply don’t talk (…). We are losing the space for a sensible, objective, critical debate (…). We need the space to have that discussion. To say what’s good, to say what’s bad”.
No caso, procurando esclarecer o que é que reforça potencialmente a segurança –
what’s good – e o que se coloca como ameaça à segurança – what’s bad.
No plano teórico, reúne algum consenso que as migrações têm o poder de “(…) exacerbar as condições que fomentam o conflito violento no sistema internacional” (Adamson, 2006, p. 191). As comunidades migrantes são, por vezes, suscetíveis à mobili- zação política, noutras, portadoras de recursos de apoio a conflitos internos; podem con- ter “oportunidades para as redes de crime organizado” (Adamson, 2006, p. 191), explo- radas como vias para o terrorismo (Adamson, 2006, p. 191). A estas acrescem outras ameaças de fonte transnacional que colocam em causa a segurança, o interesse das sobe- ranias e, em último caso, a sua própria existência.
Metodologia
Procurando compreender se/e como as migrações afetam a segurança do Estado, recorremos a um método de investigação qualitativo baseado nos resultados da plata- forma GoogleScholar utilizando os termos Migration, Security e International. Como requi-
sito e por razões de credibilidade, selecionámos apenas os artigos com mais de 40 cita- ções.
Motivados pela polémica conjuntura de debate em torno das questões migratórias- -securitárias e procurando compreender a natureza e limites dos fenómenos em causa, lançámo-nos sobre um processo de revisão da narrativa da temática focada no entendi- mento teórico-dogmático proposto pelas Relações Internacionais. Por esta razão, no ato de pesquisa na plataforma Google Scholar, não foram selecionados artigos que tomas- sem por objeto apenas as policies particulares de determinados Estados. Foram ainda
consideradas outras fontes, como livros, capítulos, documentos institucionais e confe- rências.
A problemática de determinação da relação entre o fenómeno das migrações e o fenómeno da segurança não dispensa a operacionalização individual dos conceitos, seguida da definição da sua inter-relação.
Migrações
“Os processos de interdependência, globalização e alargamento da União Europeia têm provocado níveis maciços de migração pelo globo (…)” (Salmon e Imber, p. 57), quadro conjuntural que reforça a pertinência política e académica da temática. Plano e Olton (1988), no Dicionário de Relações Internacionais (p. 104), definem o conceito de “migra-
ção” como “movimentos populacionais de um Estado ou região para outro (…)”. A aceção adotada pela Organização Internacional para as Migrações (IOM), no “Glossário da Migração”, descreve o fenómeno como “O movimento de pessoas fora do seu espaço usual de residência, quer além de fronteiras internacionais quer dentro de um Estado” (IOM e UN, 2019, p. 135), aludindo não só à “migração internacional” como à “migração interna” (IOM e UN, 2018, p. 13).
O fenómeno caracteriza-se ainda quanto à direção do fluxo: quando se trata do fluxo de entrada num país, é chamado de “imigração”, e quando se trata de saída, de “emigra- ção” (Plano e Olton, 1988, p. 104). A variação na extensão do processo torna também necessária a distinção entre o “migrante de longo-prazo (…) aquel[e] que mud[ou] o país habitual de residência por, pelo menos, um ano” e o “migrante de curto-prazo” (IOM e UN, 2018, p. 15).
Figura 1 – Visão Geral: População Migrante Internacional
Fonte: United Nations (2018).
A deslocação pode ter natureza voluntária, partindo do livre-arbítrio do migrante, como é o caso dos migrantes económicos, que se deslocam em realização da sua liber- dade pessoal em busca de emprego ou um padrão de vida mais elevado (Teles, 2017), ou involuntária, designadas “migrações forçadas” (Schiefer e Almeida), estas por sua vez referentes aos indivíduos que “(…) cruza[m] fronteiras internacionais por ordem a fugir das violações de direitos humanos e do conflito” (Betts e Loescher, p. 1). Partem em fuga a cenários de “desastre ambiental, colapso ambiental (…) [de] fragilidade de Estado” (Betts e Loescher, p. 2), de “conflitos bélicos, terrorismos, perseguições, (…) ou insegu- rança alimentar” (Marinucci, 2017).
Figura 2 – Número Total de Migrantes Internacionais
Fonte: Migration Data Portal (2019).
Para o ator Estado, a prioridade analítica é dada aos grandes fluxos migratórios, capazes de gerar assinaláveis impactos sobre a segurança, estabilidade política e econó- mica, tanto em países de origem como em países de destino. É através da formulação e implementação de políticas que o Estado gere os fenómenos migratórios, estabelecendo a articulação entre estes e os objetivos desejados em termos de realização da sua segu- rança e interesse nacional, pelo que a política de migração baseia-se na criação de estraté- gias ou “sistemas” que “permitam algumas categorias de migrante entrar”, enquanto tentam manter outras categorias fora – “claramente um desafio significante” (Adamson, 2006, p. 175; Salmon e Imber, 2008, p. 75). “Derradeiramente, (…) é como os Estados respondem aos fluxos migratórios globais através da formação de políticas e implemen- tação que determinarão a extensão a que a segurança nacional é reforçada ou diminuída pela migração internacional” (Adamson, 2006, p. 198).