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Psicologia Positiva e a Teoria do Florescimento Humano

No documento Seminário IDN Jovem [V] (páginas 88-90)

O advento da Psicologia Positiva na cena científica, ao final da década de 90, mos- trou-se um marco importante para a organização da literatura científica que aborda as potencialidades humanas utilizando-se de critérios científicos rigorosos. O início do movimento foi proposto e defendido por Martin Seligman e Mihaly Csikszentmihalyi

(2000), que reconstituíram um breve histórico das investigações delineadas no campo de conhecimento da Psicologia, sublinhando que após os processos do fim da Segunda Guerra Mundial foram disponibilizados grandes esforços no sentido de pesquisar as psi- copatologias e desordens de comportamento das pessoas. Com isso, foram esquecidas outras nuanças da vida humana e o padrão proposto revelou um retrato incompleto da realidade, colocando em evidência os desajustes e negligenciando as características comuns e cotidianas dos seres humanos (Gable e Haidt, 2005). A partir da identificação dessa lacuna, tornou-se propícia a nova proposta da Psicologia Positiva (Wood e Tarrier, 2010), que buscava organizar toda uma literatura já existente que se encontrava dividida, tornando difícil a proposição de teorias e métodos adequados para o levantamento e a compreensão de aspectos positivos dos seres humanos.

Seligman e Csikszentmihalyi (2000, p. 5) apontaram assim a necessidade de ampliar o foco dos estudos, que em sua maior parte privilegiavam aspectos psicopatológicos e nega- tivos, para também investigar fenômenos que, segundo os autores, fazem “a vida valer a pena de ser vivida”. Para tanto, foram sugeridos temas como autoestima, otimismo, espe- rança e resiliência. Desse modo, o termo guarda-chuva psicologia positiva abrange o estudo das emoções, características e instituições positivas, no intuito de suplementar o arcabouço de conhecimentos produzidos acerca do sofrimento humano, sem, entretanto, simplesmente substituí-lo, mas procurando torná-lo mais completo (Seligman et al., 2005).

A Psicologia Positiva procura evidenciar, portanto, as condições que contribuem para o florescimento ou funcionamento ótimo das pessoas, grupos, comunidades e insti- tuições, considerando a dinâmica entre processos positivos e negativos envolvidos nas manifestações humanas. Contudo, analisar o que é positivo ou “bom” abarca uma pers- pectiva multidimensional, na qual deve ser reconhecida a complexidade de novas teorias e designs metodológicos (Gable e Haidt, 2005).

Um dos principais focos de discussão dessa área refere-se às abordagens filosóficas que embasam as teorias e técnicas de intervenção propostas por estudiosos dos temas das Psicologia Positiva, as abordagens: a) hedônica, inicialmente elaborada pelo filósofo Epí- curo (342-270 a.C.), que propõe a maximização do prazer e a diminuição do desprazer como postura ética – “Don’t worry, be happy!”, incluiria as experiências de fluxo (Flow)

que foram posteriormente endereçadas a uma abordagem própria de busca pelo engaja- mento; e b) eudaimônica, originalmente desenvolvida por Aristóteles (384-322 a.C.), que refere-se a cultivar virtudes e autenticidade consigo mesmo, com uma postura ética de busca pelo sentido de vida e do seu papel no mundo – “Be all that you can be”, “Make a difference” (Peterson, Park e Seligman, 2005).

Tais tipos de orientação à felicidade deram origem a discussões acerca do “tipo” de vida vivido e suas características e influências na busca pela satisfação com a vida. Defi- nidas por Seligman (2004) em seu livro Felicidade Autêntica como: a) vida prazerosa,

que apresenta uma orientação hedonista de busca pelo prazer e por emoções positivas; b) vida boa, que caracteriza a predominância de experiências de fluxo (Csikszentmihalyi e Csikszentmihalyi, 1990) e busca por se envolver com atividades cativantes; e c) vida significativa, que apresenta uma orientação eudaimônica de busca por sentido de vida.

Um estudo realizado por Peterson et al. (2007) com 845 adultos norte-americanos

demonstrou que as diferentes orientações realmente tratava-se de construtos distintos, mas que esses construtos não eram incompatíveis ou excludentes, sendo cada tipo de vida associado à satisfação com a vida (Diener e Diener, 1999). Essa compreensão das possibilidades de organização da vida de cada indivíduo teve uma importante função na Psicologia Positiva e de seus temas, sugerindo quais poderiam contribuir para um nível mais elevado de bem-estar, e de forma mais duradoura.

No entanto, Seligman (2011) procurou diferenciar a satisfação com a vida e os afetos positivos, que fazem parte do construto Bem-Estar Subjetivo (Diener, 2000), e que estariam

mais presentes no tipo de vida prazerosa, do bem-estar como florescimento, que apresen- tar-se-ia de modo mais evidente nos tipos de vida boa e significativa. O bem-estar subje- tivo pode ser compreendido como uma avaliação subjetiva da própria qualidade de vida que envolve necessariamente uma avaliação global de todos os aspetos da vida de uma pessoa, priorizando condições internas ou subjetivas, e a presença de afetos positivos (Albuquerque e Tróccoli, 2004). Outro construto utilizado para investigar a avaliação de aspectos da própria qualidade de vida é o “Bem-Estar Psicológico” (Ryff, 2014), que considera seis dimensões principais: a) Autonomia; b) Domínio Ambiental; c) Desenvol- vimento Pessoal; d) Relações Positivas; e) Sentido de Vida; e f) Autoaceitação. Já o bem- -estar conforme proposto na Teoria do Florescimento Humano (Seligman, 2011) pode ser

entendido e também avaliado com base em cinco dimensões: a) Emoções Positivas, defi- nidas por aquilo que sentimos, como prazer, entusiasmo e conforto (felicidade e satisfa- ção com a vida); b) Engajamento, que significa entregar-se por inteiro em uma atividade envolvente, incluindo estados mentais de fluxo (Flow); c) Realização; “realizar pela realiza-

ção em si” ou a vitória em sua forma momentânea; d) Relacionamentos; que referem-se aos níveis percebidos de apoio social e a capacidade para “amar e ser amado”; e) Sentido, que significa pertencer ou servir a algo que se acredita ser maior do que o próprio eu.

No documento Seminário IDN Jovem [V] (páginas 88-90)