• Nenhum resultado encontrado

Capítulo 2 PRESERVAÇÃO DO CONTEXTO URBANO: AMBIENTE E MONUMENTO

2.5 Revisão crítica de metodologias de identificação do entorno

2.5.2 Metodologia empregada em estudos recentes do IPHAN

Dentro do IPHAN é crescente a compreensão de que para a definição dos limites do entorno é necessário contemplar um maior número de condicionantes que formam o entorno, além da visibilidade. Na atualidade, diversos estudos de revisão da delimitação de polígonos ou perímetros de conjuntos ou sítios urbanos tombados tem sido desenvolvidos pelo Instituto em todo o país.

Estes estudos são conseqüência do Programa de Especialização em Patrimônio (PEP), promovido pelo Instituto em parceria com a UNESCO a partir de 2006. Esse programa de estudos é voltado para jovens profissionais de diferentes áreas do patrimônio que atuam na prática institucional do IPHAN e tem contribuido para promover o debate sobre a preservação no país. Essa produção de conhecimento é uma retomada de uma iniciativa anterior, a “Academia SPHAN”. O IPHAN (antigo SPHAN) agrupou e desenvolveu estudos e pesquisas de cunho acadêmico, entre 1937 e 1967 (a “fase heróica”), para instrumentar e guiar o instituto na seleção de bens (FONSECA, 2005). Dessa maneira, foi formulado um saber através da prática institucional forjado a partir dos trabalhos de inventários, de levantamento de fontes de informação, de proteção de documentos que preencheram lacunas de conhecimento sobre a história da arte no Brasil.

Os atuais ensaios metodológicos desenvolvidos por alguns desses novos pesquisadores propõem a delimitação do perímetro de entorno dos bens tombados calcada na análise morfológica do espaço. Destaca-se o trabalho105 do arquiteto

Rafeal Arrelaro (2008), bolsista do PEP da superindentência regional do Instituto em Minas Gerais, que propõe uma metodologia baseada em quatro critérios a serem levantados em visitas de campo e documentação em arquivos:

1- Importância do monumento e seu entorno na configuração urbana; 2- Valor histórico e/ou artístico do bem isoladamente e de seu conjunto; 3- Importância como marco histórico da cidade e da memória da população; e 4- Importância do traçado urbano como eixo de manifestações culturais.

O método proposto sugere que para a análise da importância do monumento sejam relacionados os critérios da “ambiência”, isto é, a contemplação das relações espaciais do bem com seu entorno e a busca de uma relação “harmoniosa” entre eles (ARRELARO, 2008). Relaciona o conceito de “harmonia” com a visibilidade do monumento em seu conjunto e a sua integração com a área envoltória. Assim, acaba por não distinguir a ambiência da visibilidade.

Para a identificação do valor do bem é feita uma análise específica do bem protegido, isto é, um estudo dos critérios oficiais que conferiram reconhecimento ao bem enquanto excepcional. Já para a investigação da importância enquanto marco, é realizada uma “aproximação” entre a visão dos usuários e a delimitação das áreas de entorno. Este estudo é claramente influenciado pelos princípios da percepção ambiental, de maneira a identificar a influência do bem na imagem do ambiente.

Finalmente, o estudo mais interessante proposto é o da investigação do traçado urbano enquanto eixo de manifestações culturais, através do mapeamento de rotas de procissões religiosas, de maneira a relacionar o traçado urbano local às manifestações culturais da cidade. As rotas culturais106 estão fundamentadas nos movimentos migratórios de grupos humanos, encontros e diálogos e trocas culturais que representam dimensões sociais, simbólicas e filosóficas culturalmente significativas. Esse patrimônio é composto por elementos intangíveis (significação) e tangíveis, que ilustram e contextualizam a sua significação ao longo do espaço e do tempo, isto é, o suporte físico desse patrimônio é o seu entorno construído associado ao propósito da rota (ANDRADE; GHETTI, 2008). O mapeamento desse patrimônio contribui para evitar o seu desaparecimento do espaço urbano, evitando que o indivíduo perca a identificação com o meio onde habita e com a sua própria história.

106 A categoria de rotas culturais é muito recente. Foi em 2005 que essa categoria de patrimônio

cultural foi acrescida na nova versão da “Operational Guidelines for Implementation of the World Heritage Convention”, juntamente às rotas naturais migratórias. Comemorando este reconhecimento o Comitê internacional de Itinerários Culturais (CIIC) do ICOMOS lança uma proposição de “Carta de Rotas Culturais” ao final da XV Assembléia Geral do ICOMOS em Xi-an (China, 2005).

Embora a príncípio, a política de delimitação do entorno seja alvo de estudos teóricos pelo IPHAN, os estudos práticos dos entornos ainda se restringem, quase que exclusivamente, à categoria particular107 dos sítios urbanos históricos.

A primeira elaboração de um Plano de Preservação dos Sítios Históricos (PPSH) para áreas de interesse histórico e ambiental tombados ocorre na década de 1970, em sítios históricos de cidades do Nordeste. O PPSH da região metropolitana do Recife (Pernambuco) de 1978 foi a primeira iniciativa destinada a trabalhar uma legislação de preservação cultural fundamentada no conceito de manchas ou conjuntos urbanos (LEAL; FREITAS, 2008).

Na metodologia utilizada pelo PPSH, os sítios históricos deveriam ser seccionados em “zonas”. Essas zonas distinguiam-se entre “zona de preservação rigorosa” (ZR) e “zona de preservação ambiental” (ZPA) com índices urbanísticos e de preservação próprios. O princípio do zoneamento interpreta o ambiente urbano seccionado em “unidades de paisagem”. Essas unidades de paisagem eram determinadas pelos seus aspectos morfológicos, isto é, fisionomias peculiares do tecido urbano que resguardam características específicas e determinam vocações (LEAL; FREITAS, 2008). Para sua determinação, foram estudadas as formas físicas (água, vegetação, solo, rochas), os elementos bióticos (fauna e flora) e os elementos antrópicos (decorrentes da ação humana).

Outras iniciativas de PPSH pontuais se seguiram, sendo que somente em 2004 o IPHAN elaborou o Plano de Preservação dos Sítios Históricos (PPSH), a ser aplicado ao nível nacional. Com a Portaria Nº 299 de 03/08/2004, o Instituto regulou não apenas a criação do Plano de Preservação de Sítio Histórico Urbano (PPSH), mas também o Termo Geral de Referência que orienta a sua formulação, implementação, acompanhamento e avaliação. O programa era formado por um conjunto de inventários de identificação e pesquisa, isto é, levantamentos de informações sobre o sítio histórico urbano. Atualmente este programa está sendo revisado pelo IPHAN, mas ainda é o referencial metodológico para as intervenções em áreas de interesse patrimonial do país.

Dentro do PPSH os inventários identificados como de importância para o estudo da temática da “ambiência” e “legibilidade” são: o Inventário de Configurações de Espaços Urbanos (INCEU) e o Inventário Nacional de Bens Imóveis de Sítios Urbanos Tombados (INBI-SU).

O Inventário de Configurações de Espaços Urbanos (INCEU) é um método de análise da dimensão morfológica dos sítios históricos, que utiliza para o diagnóstico do sítio histórico uma investigação calcada nas dimensões tipológicas, morfológicas e perceptivas do ambiente urbanos. É possível identificar influências diretas108 das teorias de Kevin Lynch (1999) e Gordon Cullen (1983), no que tange aos estudos da percepção das formas urbanas e da atribuição de significados do espaço. Através de uma pesquisa voltada para a descrição e a preservação da forma do espaço urbano, são produzidos os mapas temáticos de: Visão Serial; Relação entre cheios e vazios; Uso do solo; Linhas de coroamento; Sistema de pontuação; Linha de força; Relevo do Solo; Vegetação; Águas de superfície; Gabarito; Data de construção; Fluxos; Acessos; Manchas de estacionamento; Poluição Visual (sinalização, barracos e mobiliário urbano do entorno); e Unidades morfológicas.

O Inventário Nacional de Bens Imóveis de Sítios Urbanos Tombados (INBI-SU) estruturado pelo IPHAN é um inventário de identificação, isto é, um instrumento técnico que possibilita a seleção e o registro de novos valores para a preservação e defesa do patrimônio imóvel existente no Brasil. Ele tem sido aplicado nos processos de investigação e monitoramento do Instituto. A dinâmica dos inventários desenvolvidos consiste, basicamente, no levantamento de campo, no qual são realizadas as medições dos imóveis, e no preenchimento de formulários sobre características do lote e da construção nele inserida, do estado de conservação do imóvel e entrevista feita com o usuário sobre aspectos socioeconômicos.

Destaca-se alguns conceitos presentes nos dois formulários (anexo 02) de entrevista da comunidade do centro histórico inventariado que indicam como os

108 A elaboração desta metodologia teve a participação e consultoria da arquiteta Maria Elaine

conceitos de paisagem cultural e a vizinhança são interpretados pelo corpo técnico do IPHAN. No que concerne aos problemas de vizinhança, foco específico de nosso interesse, os formulários não exploram a questão de maneira satisfatória. De um universo total de 41 perguntas que constam do formulário de uso residencial (formulário 04) e de 33 que constam do formulário de uso não residencial (formulário 05), a temática é apenas abordada em duas questões, nas de número 30 e 31 e nas de número 26 e 27, respectivamente. Embora os conteúdos das questões estejam bem direcionados quanto às interferências negativas da vizinhança, as impressões que deveriam ser documentadas pela entrevista não se conectam claramente com o imóvel e o conjunto urbano inventariado. Isto é, falta um registro da abrangência (escala do fato) dos problemas identificados. Uma vez que só são identificados os problemas, estes não contribuem para entender a real extensão da degradação e não poderão servir como ponto de partida para investigações da interferência que o entorno exerce no estado de conservação do bem inventariado. Assim, descarta-se uma fonte importante de identificação de riscos (perigo e vulnerabilidade) e possíveis ações de prevenção e proteção do bem patrimonial e da segurança humana, além da contribuição da ambiência para a percepção dos sítios históricos.

Também é um ponto polêmico as questões de número 35 (formulário 04) e de número 31 (formulário 05), pois não deixam claro ao entrevistado o emprego do termo "paisagem natural" para ambientes urbanos. A paisagem urbana é uma paisagem cultural por excelência. Para o público leigo, a "paisagem natural" é compreendida enquanto elemento ou associações de indivíduos vegetais formando composições na paisagem da cidade (desde canteiros a praças ajardinadas). Não é feita uma associação direta com a topografia ou com cursos e quedas de água.

A análise da metodologia proposta indica que os estudos recentes de entorno, em sua maioria, utilizam uma metodologia calcada na análise visual, na percepção ambiental e na morfologia urbana. Assim, como a proposta metodológica de Arrelaro (2008), outros estudos recentes abordam o entorno enquanto desempenhando função secundária e operativa para a preservação dos monumentos. Ao entorno são atribuidas funções de não obstrução, de não competição ou de não agressão de maneira que também podem suscitar valores complementares ao valor do bem

está diretamente ligada ao potencial de integração que tais ambientes podem desenpenhar com as paisagens naturais e urbanas de valor patrimonial, inclusive, o agrupamento de mais de uma áreas de amortecimento de bem protegido são objeto de recomendação, mesmo que signifique aumentar sua extensão.

Na prática, o controle da execução de obras em entornos continuam sendo realizados de forma problemática (JACÓ; NASCIMENTO; FREITAS, 2008). Além do fato do Decreto nº25/1937 não ser consistente na precisão desta área de “vizinhança”, no que diz respeito à gestão dos entornos, um dos aspectos mais controversos, a principal questão é a atribuição de valor destas áreas por parte da sociedade. Uma vez que estas áreas não possuem o valor patrimonial do bem protegido, ocorre por parte da população residente e dos setores desenvolvimentistas uma resistência ao controle dos espaços. Também representam dificuldades para a gestão dos entornos, a tendência (vista em outras legislações culturais internacionais) de se estabelecer áreas de entorno com grandes dimensões, sob a justificativa de preservar a paisagem que emoldura os sítios históricos.

2.5.3 Metodologia elaborada pelo Roteiro de Unidades de Conservação do