Microbiota Normal
MICROBIOTA NORMAL DO TRATO GENITOURINÁRIO
A microbiota vaginal de mulheres adultas contém principal- mente espécies de Lactobacillus (Tabela 6-2). Os lactobacilos são responsáveis pela produção do ácido que mantém baixo Tabela 6-2 Membros da microbiota normal de importância médica
Localização Organismos importantes1 Organismos de menor importância2
Pele Staphylococcus epidermidis Staphylococcus aureus, Corynebacterium (difteroides), vários estreptococos, Pseudomonas aeruginosa, anaeróbios (p. ex., Propionibacterium), levedu-
ras (p. ex., Candida albicans)
Nariz Staphylococcus aureus3 S. epidermidis, Corynebacterium (difteroides), vários estreptococos
Boca Estreptococos do grupo viridans Vários estreptococos, Eikenella corrodens Placa dental Streptococcus mutans Prevotella intermedia, Porphyromonas gingivalis
Sulcos gengivais Vários anaeróbios, p. ex., Bacteroides, Fuso-
bacterium, estreptococos, Actinomyces
Garganta Estreptococos do grupo viridans Vários estreptococos (incluindo Streptococcus pyogenes e Streptococcus
pneumoniae), espécies de Neisseria, Haemophilus influenzae, S. epidermidis
Cólon Bacteroides fragilis, Escherichia coli Bifidobacterium, Eubacterium, Fusobacterium, Lactobacillus, vários bacilos
aeróbios gram-negativos, Enterococcus faecalis e outros estreptococos,
Clostridium
Vagina Lactobacillus, E. coli3, estreptococos do grupo B3
Vários estreptococos, vários bacilos gram-negativos, B. fragilis, Corynebacte-
rium (difteroides), C. albicans
Uretra S. epidermidis, Corynebacterium (difteroides), vários estreptococos, vários
bacilos gram-negativos, p. ex., E. coli3
1
Organismos de importância médica ou presentes em grandes números.
2
Organismos de menor importância médica ou presentes em números menores.
3
Estes organismos não pertencem à microbiota normal desta localização, porém correspondem a importantes colonizadores.
Tabela 6-3 Principais bactérias encontradas no cólon
Bactéria1
Número/g de fezes
Patógeno importante
Bacteroides, especialmente B. fragilis 1010-1011 Sim
Bifidobacterium 1010 Não
Eubacterium 1010 Não
Coliformes 107-108 Sim
Enterococcus, especialmente E. faecalis 107-108 Sim
Lactobacillus 107 Não
Clostridium, especialmente C. perfrin- gens
106 Sim
1
Bacteroides, Bifidobacterium e Eubacterium (que correspondem a mais de 90%
da microbiota das fezes) são anaeróbios. Os coliformes (Escherichia coli, espé- cies de Enterobacter, e outros organismos gram-negativos) são os anaeróbios facultativos predominantes.
o pH da vagina da mulher adulta. Antes da puberdade e após a menopausa, quando os níveis de estrógeno são baixos, os lactobacilos são raros e o pH vaginal é alto. Aparentemente, os lactobacilos impedem o crescimento de potenciais pató- genos, uma vez que sua supressão por meio de antibióticos pode levar ao crescimento abundante de C. albicans. O cres- cimento excessivo dessa levedura pode resultar em vaginite por Candida.
A vagina situa-se próximo ao ânus, podendo ser colo- nizada por membros da microbiota fecal. Por exemplo, mu- lheres propensas a infecções recorrentes do trato urinário albergam organismos como E. coli e Enterobacter no introito. Cerca de 15-20% das mulheres em idade fértil apresentam estreptococos do grupo B na vagina. Esse organismo é uma importante causa de sépsis e meningite em recém-nascidos,
sendo adquirido durante a passagem pelo canal de parto. Em aproximadamente 5% das mulheres, a vagina é colonizada por S. aureus, implicando em uma predisposição à síndrome do choque tóxico.
Em indivíduos sadios, a urina, quando na bexiga, é es- téril. Contudo, durante a passagem pelas porções mais dis- tais da uretra, a urina sofre contaminação por S. epidermidis, coliformes, difteroides e estreptococos não hemolíticos. A região ao redor da uretra feminina e de homens não circun- cisados contêm secreções que apresentam Mycobacterium smegmatis, um organismo acidorresistente. A pele que reves- te o trato genitourinário corresponde ao sítio de Staphylococ- cus saprophyticus, uma causa de infecções do trato urinário em mulheres.
CONCEITOS-CHAVE
A
• microbiota normal consiste naqueles micro-organismos resi- dentes permanentes do corpo, presentes em todos os indivíduos.
Alguns indivíduos são colonizados, temporariamente ou por longos períodos por determinados organismos. Todavia, esses or- ganismos não são considerados membros da microbiota normal. Os portadores (também denominados portadores crônicos) são aqueles indivíduos nos quais organismos patogênicos encontram- -se presentes em números significativos e, portanto, correspondem a uma fonte de infecção de terceiros.
Os organismos da microbiota normal são
• bactérias ou leveduras.
Vírus, protozoários e helmintos não são considerados membros da microbiota normal (entretanto, os humanos podem ser portadores de alguns desses organismos).
Os organismos da microbiota normal habitam as superfícies cor-
•
porais expostas ao meio ambiente, como a pele, a orofaringe, o
trato intestinal e a vagina. Os membros da microbiota normal
diferem em número e tipo nos vários sítios anatômicos. Os membros da microbiota normal são organismos de
• baixa viru- lência. Em seu sítio anatômico usual, não são patogênicos. Con-
tudo, quando deixam seu sítio anatômico usual, especialmente no caso de um indivíduo imunocomprometido, podem causar doenças. A
• resistência à colonização ocorre quando os membros da micro-
biota normal ocupam sítios receptores da pele e superfícies muco- sas, impedindo, assim, a adesão de patógenos a esses receptores.
Membros importantes da microbiota normal
Pele
• . O membro predominante da microbiota normal da pele cor- responde a Staphylococcus epidermidis. Esse organismo é uma importante causa de infecções em válvulas cardíacas artificiais e
próteses articulares. A levedura Candida albicans, também en- contrada na pele, pode alcançar a corrente sanguínea e provocar infecções disseminadas, como endocardite, em usuários de fárma- cos intravenosos. S. aureus também está presente na pele, embora seu principal sítio seja o nariz. Esse organismo causa abscessos na pele e em vários outros órgãos.
Orofaringe
• . Os principais membros da microbiota normal da boca e garganta são os estreptococos do grupo viridans, como S.
sanguis e S. mutans. Os estreptococos viridantes são a causa mais
comum de endocardite subaguda.
Trato gastrintestinal
• . O estômago contém pouquíssimos orga- nismos devido ao baixo pH. O cólon contém a microbiota normal
mais numerosa, bem como a maior diversidade de espécies,
incluindo bactérias anaeróbias e facultativas. Existem bacilos e cocos gram-positivos, e também bacilos e cocos gram-negativos. Os membros da microbiota normal do cólon são uma importante cau- sa de doenças que ocorrem externamente ao cólon. Os dois mem- bros mais importantes da microbiota do cólon que causam doença são os organismos Bacteroides fragilis anaeróbios e Escherichia
coli facultativas. Enterococcus faecalis, um facultativo, também
corresponde a um importante patógeno.
Vagina
• . Os lactobacilos são os organismos predominantes da microbiota normal da vagina. Mantêm o pH vaginal baixo, inibindo o crescimento de organismos como C. albicans, uma importante causa de vaginite.
Uretra
• . O terço distal da uretra contém uma variedade de bactérias, principalmente S. epidermidis. A uretra feminina pode ser coloni- zada por membros da microbiota fecal, como E. coli, predispondo a infecções do trato urinário.
QUESTÕES PARA ESTUDO
As questões sobre tópicos discutidos neste capítulo podem ser encontradas nos itens Questões para estudo (Bacteriolo- gia clínica) e Teste seu conhecimento.
Patogênese
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Um micro-organismo é considerado um patógeno quando é
capaz de causar doença; entretanto, alguns organismos são al- tamente patogênicos, isto é, frequentemente causam doença, enquanto outros raramente o fazem. Patógenos oportunis- tas são aqueles que raramente, ou nunca, causam doença em
indivíduos imunocompetentes, mas são capazes de causar infecções graves em pacientes imunocomprometidos. Esses oportunistas são membros frequentes da microbiota normal do corpo. A origem do termo “oportunista” refere-se à ca- pacidade de o organismo aproveitar-se das defesas reduzidas para causar a doença.
A virulência é uma medida quantitativa da patogeni-
cidade, sendo determinada pelo número de organismos re- queridos para causar a doença. A dose letal de 50% (DL50) representa o número de organismos necessários para matar metade dos hospedeiros, e a dose infectante de 50% (DI50) corresponde ao número necessário para causar infecção em metade dos hospedeiros. A dose infectante de um organis-
mo necessária para causar doença varia significativamente entre as bactérias patogênicas. Por exemplo, Shigella e Salmo- nella causam diarreia ao infectarem o trato intestinal; contu- do, a dose infectante de Shigella é inferior a 100 organismos, enquanto a dose infectante para Salmonella é da ordem de 100.000 organismos. A dose infectante das bactérias depen- de principalmente de seus fatores de virulência, como, por
exemplo, se os pili permitem sua adesão adequada à mem- brana mucosa, se produzem exotoxinas ou endotoxinas, se apresentam uma cápsula para proteção contra a fagocitose e se são capazes de sobreviver às diferentes defesas inespecíficas do hospedeiro, como o ácido estomacal.
Há dois usos para o termo parasita. No contexto des-
te capítulo, o termo refere-se à relação parasitária entre as bactérias e as células hospedeiras; isto é, a presença da bac- téria é prejudicial às células hospedeiras. Dessa maneira, as
bactérias patogênicas para humanos podem ser consideradas
parasitas. Alguns patógenos bacterianos são parasitas intra- celulares obrigatórios, por exemplo, Chlamydia e Rickettsia,
uma vez que são capazes de crescer somente no interior das células hospedeiras. Diversas bactérias são parasitas faculta- tivos, pois são capazes de crescer intra ou extracelularmente, ou em meios bacteriológicos. O outro emprego do termo “parasita” refere-se aos protozoários e helmintos, discutidos na Parte VI deste livro.
POR QUE OS INDIVÍDUOS SÃO ACOMETIDOS