2 OS ESTUDOS CONVERSACIONAIS NA LINGUÍSTICA
MOMENTO INTERATIVO
2.3. Os diferentes modelos em Análise da Conversação
2.3.1. Modelo de Cestero Mancera (1994)
Entendendo conversação como uma atividade fundamentalmente linguística, de interação social, com estrutura e funcionamento próprios e independentes, Cestero Mancera (1994) elabora um estudo dos intercâmbios de turnos na conversação em língua espanhola, analisando diferentes elementos e fenômenos linguísticos que acontecem durante o processo de mudança de falante, bem como se esses elementos e mecanismos são suscetíveis de variação, dependendo do contexto em que se apresentam.
A autora localiza seu estudo afirmando que pertence à corrente investigativa da Análise da Conversação, cujo objetivo é descobrir e documentar as organizações sistemáticas da fala na interação conversacional (CESTERO MANCERA, 1994). Adotando esse posicionamento, ela investiga o fenômeno que caracteriza formalmente a conversação, o que lhe confere seu caráter estrutural, a alternância de turnos.
Dessa forma, a mencionada autora toma como fundamentação teórica o esboço de um modelo de intercâmbios, baseado na construção interativa de turnos, proposto por Wilson, Wiemann e Zimmerman22 (1984 apud CESTERO MANCERA, 1994). Esse modelo apresenta algumas ideias, que podem ser assim descritas: a) os participantes de uma conversação usam e dominam a alternância de turnos dentro da interação; b) a transição de turno, em qualquer lugar relevante para que ela ocorra, realiza-se através da sequência de opções propostas por Sacks, Schegloff e Jefferson (já mencionada anteriormente); a pesquisa deve se centrar nos lugares apropriados para a mudança de falante; e c) a tomada de turno pode ser realizada mediante a sinalização de recursos
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WILSON, T. P., WIEMAN, J. M., ZIMMERMAN, D. H. Models of turn taking in conversation interaction. Journal of Language and Social Psycology, 3, 1984.
linguísticos e não linguísticos que se encontram à disposição dos interlocutores (CESTERO MANCERA, 1994, p. 80).
Para conseguir os objetivos propostos em sua pesquisa, a autora faz uso de uma metodologia característica dos estudos em Análise da Conversação, complementando seus estudos com as ferramentas e as técnicas próprias da Sociolinguística variacionista de Labov. Assim, encontram-se as seguintes etapas da pesquisa: 1) coleta de dados (conversações ocorridas em contextos reais e em situações cotidianas); parte-se do pressuposto teórico de que os falantes organizam sua fala para a audiência, isto é, as diferenças internas na fala de uma pessoa representam a influência que esse locutor recebe da audiência; 2) transcrição (a mais detalhada possível, facilitando a caracterização, a codificação e a disposição dos dados para a análise); e 3) análise dos dados, apresentada em duas etapas diferentes: a primeira etapa a ser realizada é uma análise qualitativa do corpus, em que se observa a estrutura formal da conversação: descrição de sua estrutura básica; a segunda etapa é representada pelo exame detalhado do material coletado, partindo da descrição anteriormente realizada, chegando à elaboração do sistema de alternância de turnos que governa a conversação diádica em língua espanhola.
Nesse estudo, Cestero Mancera (1994) aponta que em toda conversação deve haver: a unidade básica, o turno de fala; e a alternância, que consiste na mudança de falantes. A mudança mais comum é aquela em que o falante, ao completar sua última unidade do turno, abre espaço para a alternância sem sobreposições. Considerando o final de turno, a autora consegue identificar elementos constituintes e caracterizadores das alternâncias de turnos de fala. Esses elementos podem ser representados pela curva melódica, pelo alongamento ou não de sons finais, pela velocidade de emissão, pela mudança de falante mediata ou imediata e pela última unidade do primeiro turno completa ou incompleta.
Essas características servem de base para a alternância de turno, que pode ser resumida da seguinte forma:
última unidade do turno A completa / alternância sem superposição; última unidade do turno A completa / alternância com superposição; última unidade do turno A incompleta / alternância sem superposição; última unidade do turno A incompleta / alternância com superposição (SILVA, 2005, p. 64).
As combinações sintática, semântica e pragmática, as quais podem existir entre os turnos em cada alternância se baseiam na função que desempenha o segundo turno (o turno B) em relação ao primeiro turno (o turno A). Dessa forma e de acordo com Cestero Mancera (1994, p. 86), é possível estabelecer três tipos básicos de turno de fala: os turnos novos – aqueles cuja única relação com o anterior é de conteúdo, relação motivada pelo fato de que qualquer turno é parte integrante de uma sequência e, como tal, deve manter o fio temático; os turnos relacionados – aqueles cuja mensagem é continuação, extensão, terminação ou comentário de turnos ou unidades de turnos anteriores; e os turnos conectados – aqueles que continuam, complementam ou completam o turno anterior. Pertencem a diferentes participantes, mas, unidos, formam uma única mensagem.
Para exemplificar os turnos de fala do tipo conectado, apresenta-se o seguinte momento interativo, em que a professora explica sobre os seres procariontes, ou seja, aqueles que não possuem núcleo organizado:
MOMENTO INTERATIVO 4
L1 ... seres unicelulares... que são formados por quantas células? apenas?... L2 L3L4L5 ... uma
L1 [uma... são seres unicelulares i: microscópicos... o que significa isso? ((L1 pergunta, mais uma vez pausadamente, enquanto escreve))
L2 ( )
L1 i:sso ... eles só são vistos com auxílio de microscópio... com auxílio de lentes... são unicelulares e microscópicos... foi a primeira característica que os cientistas olharam... observaram para classificá-los no mesmo reino... a segunda característica é que eles são seres unicelulares... de uma célula só ((mais uma vez,L1 usa o dedo indicador para reforçar o sentido de unicidade)) mas não possuem NÚCLEO organizado porque falta a membrana nuclear... tão como é que eles são chamados?... quem lembra? eles não possuem núcleo organizado?... L2 ( )
L1 não... L3 ( )
L1 não... aí é falta de alimentação... L4 procariontes...
A todo o momento, a professora chama a participação dos alunos através de perguntas que têm o objetivo de perceber se houve a compreensão do tópico em questão. Dessa forma, os turnos dos alunos completam e se conectam aos turnos da professora, construindo, colaborativamente, o texto conversacional dessa sala de aula.
Dando continuidade as explicações de Cestero Mancera (1994), que elabora uma classificação dos três tipos básicos de turno de fala, há, segundo a autora, um modelo representativo dos tipos de intercâmbio que podem formar os turnos implicados em cada sequência. Assim, encontram-se as sequências independentes, as relacionadas e as cooperativas. As sequências independentes são formadas por turnos independentes do ponto de vista sintático e semântico. As sequências relacionadas são formadas por turnos que se relacionam semanticamente. E as sequências cooperativas são constituídas por turnos conectados sintática e semanticamente.
Uma das críticas apontada pela autora é que muitos estudos, que se debruçam sobre a alternância de turno a partir de uma análise quantitativa, não levam em consideração o contexto linguístico de produção, fator que explica o tipo de alternância ocorrida. Em suas investigações, ela resgata o contexto linguístico, partindo para uma análise que observa as marcas que permitem a mudança de falante. Tais marcas podem acontecer de forma direta, através de sequências de fala ou locuções que indicam o final da mensagem, ou de forma indireta, por meio do uso dos componentes de inferência que apresentam valores funcionais em um contexto determinado (alongamento de vogais, pausas). Acrescenta-se também às ideias da autora que é possível aparecer marcas não verbais durante o processo conversacional (gestos que indiquem a mudança de falante, meneios de cabeça e contato visual), possibilitando a efetivação da alternância de turno.