2.2 SIGNIFICADO DO TRABALHO
2.2.3 Modelo de Atributos do Significado do Trabalho
Analisando os estudos sobre significado do trabalho apresentados na literatura, Borges (1998a) identificou dois grupos principais, o empírico-descritivo e o em transição, sugerindo que os estudos sobre o significado do trabalho possuem tanto pressupostos comuns a todos os grupos, quanto específicos, a depender do grupo ao qual pertencem. Os estudos pertencentes ao grupo empírico-descritivo, que também é chamado idealista-fenomenológico, caracterizam-se pela influência fenomenológica: (a) são estáticos; (b) compreendem as estruturas entre as dimensões do significado do trabalho como permanentes; e (c) consideram excludentes as técnicas quantitativas e qualitativas. Nesse grupo, o melhor representante é o estudo do MOW (1987), que apresenta, enquanto pressupostos comuns ao significado do trabalho, o caráter empírico da pesquisa; a multidimensionalidade, pois considera as quatro dimensões do significado do trabalho; a multicausalidade, isto é, analisa a variabilidade das quatro dimensões a partir de variáveis como idade, gênero, nacionalidade, ocupação etc.; e o caráter sistêmico, pois trabalha com padrões do significado, resultantes das combinações entre as dimensões (BORGES, 1998a, 1998b).
Quanto à especificidade que coloca o modelo MOW (1987) no grupo sob influência fenomenológica, a autora aponta a abordagem descritiva, esclarecendo que o MOW não realizou uma pesquisa crosscultural e sim uma crossnational, tendo justificado essa escolha pela funcionalidade dos pesquisadores localizados nos oito países pesquisados. Borges (1998b) argumenta que a opção por uma pesquisa crossnational implica adotar a perspectiva
do fenômeno, desconsiderando o contexto em que se insere. Consequentemente, a autora elucida que o estudo do MOW (1987), embora apresente semelhanças e diferenças em suas amostras, desconsidera as diferenças contextuais entre os países. Sendo assim, Borges (1998b) faz a opção de integrar outra vertente de estudos sobre o significado do trabalho, a qual denomina de grupo em transição materialista-dialético, caracterizado pela fraca influência fenomenológica e forte influência existencialista-marxista, o que, à época, representava uma tendência nos estudos da psicologia organizacional e do trabalho, sendo um modo de fazer com que os psicólogos vencessem as negligências relativas à historicidade e contextualização dos fenômenos. Segundo Borges (1998a), os estudos deste grupo notabilizam-se por levar em conta a dinâmica ou o movimento entre as dimensões do significado do trabalho, evidenciando uma dialética dos contrários. Além disso, a análise da estrutura interna do construto focaliza nexos e contradições, introduzindo nexos externos e combinações entre métodos quantitativos e qualitativos nas pesquisas, a exemplo dos estudos de Brief e Nord (1990), Ros e Grad (1991), citados por Borges (1998a).
Quando se inseriu na linha epistemológica influenciada pelo grupo de estudos existencialista-marxista, além de agregar elementos da cognição social, a autora adotou as seguintes estratégias para a construção de seu modelo, quais sejam: (a) enfoque pragmático e contextual; (b) ampliação das relações entre variáveis, de modo a romper com a forma compartimentada no estudo do significado do trabalho, isto é, associar outras cognições, aspectos comportamentais e atitudinais; (c) enfoque dinâmico: ter como centro a construção e transformação de um padrão em outro ou de uma estrutura em outra, associando as mudanças dos indivíduos e do contexto socioeconômico; (d) perspectiva histórica: explorar momentos históricos, relações de trabalho e outras condições sociais; (e) superar o dualismo metodológico; e (f) aperfeiçoamento do instrumental: adequar o instrumento, de acordo com todos os pressupostos anteriores (BORGES, 1998b).
Buscando trazer suas estratégias para um plano mais concreto e adotando pressupostos do cognitivismo na psicologia social, do significado do trabalho e da representação social, Borges (1998b) e Borges e Tamayo (2001) elaboraram um modelo, considerando quatro aspectos, aos quais chamam de facetas do modelo: (1) centralidade do trabalho, segundo a concepção do MOW (1987), ou seja, a importância do trabalho relativa a outras esferas: família, lazer, comunidade e religião; (2) atributos valorativos, que consistem nas definições sobre como o trabalho deve ser, isto é, os próprios valores do trabalho; (c) atributos descritivos, que são as características percebidas no trabalho concreto; (d) hierarquia de
atributos, que se refere à ordem de importância que os atributos descritivos e valorativos, separados, têm para cada pessoa.
A centralidade do trabalho supõe a hierarquização das esferas de vida, nos moldes propostos por England e Misumi (1986) e MOW (1987): avaliando família, trabalho, comunidade, religião e lazer. Borges, Alves-Filho e Tamayo (2008) apontam a centralidade como a faceta de maior incidência dos estudos empíricos e que demonstra maior estabilidade. Com relação aos atributos, os autores explicam que, quando as pessoas dizem, por exemplo, que seu trabalho deve ser desafiante, prover o sustento econômico e gerar contatos interpessoais, revelam as características valorativas que atribuem ao trabalho. Portanto, os atributos valorativos têm um caráter prescritivo, pois estabelecem metas ao trabalho. No caso dos atributos descritivos, as pessoas contam sobre o trabalho, ou seja, revelam características concretas atribuídas ao trabalho, porém, em faces ou perspectivas de compreensão distintas (BORGES; ALVES-FILHO; TAMAYO, 2008).
Para a definição dos atributos, a autora realizou revisão de literatura sobre o significado do trabalho e entrevistas com 134 trabalhadores de baixa instrução (BORGES, 1996), obtendo inúmeros atributos, que foram reduzidos em fatores molares [agrupamentos de atributos] por análise fatorial, para melhor operacionalização, conforme Quadro 4.
Quadro 4. Tipologia dos atributos do significado do trabalho
Classes de atributos Atributos
Atributos expressivos Realização; Aprendizagem; Autonomia; Reconhecimento; Saúde corporal Atributos sociais Relações interpessoais/afiliação; Supervisão.
Atributos econômicos Sobrevivência; Ascensão social (carreira); Independência financeira; Insegurança; Assistência social Atributos normativos Obrigação; Contribuição à sociedade; Obediência; Direitos
Atributos intrínsecos Tarefa variada/repetitiva; Ocupação/Ócio; Braçal; Intelectual; Árduo/Leve; Desafiante; Direção/Execução (tarefa em si)
Atributos humanitários Explorador; Dignidade/Humilhação; Igualitário/Discriminante; Hominizador/Alienante
Atributos extrínsecos Conforto; Segurança/Riscos Fonte: Reproduzido de Borges (1997)
Essa tipologia e as falas dos 134 entrevistados (BORGES, 1996) foram úteis para a elaboração das questões do instrumento de mensuração do significado do trabalho, denominado Inventário do Significado do Trabalho – IST (BORGES, 1996, 1998b, 1999). Trata-se de uma escala de 68 itens que engloba duas facetas do significado do trabalho, os atributos valorativos e os descritivos. As 68 assertivas contêm duas colunas de resposta para cada assertiva, sendo uma referente aos atributos valorativos e outras, aos descritivos, com
escala de mensuração do tipo Likert que varia de 0 a 4. Ressalte-se que, segundo Borges (1998b), o IST possui o diferencial de considerar aspectos relativos ao trabalho da corrente marxista, como alienação, exploração e embrutecimento do trabalhador, bem como especificidades da cultura brasileira, sendo esta última característica apoiada na teoria de valores de Schwartz (1992), com a seguinte correspondência: (a) Fator Exigências Sociais reunindo os tipos motivacionais Tradição, Conformidade e Universalismo; (b) Fator Justiça do Trabalho reunindo os tipos Universalismo e Segurança; (c) Fator Realização Pessoal reunindo os tipos Hedonismo e Realização; (d) Fator Sobrevivência Pessoal e Familiar contemplando o tipo Autodeterminação; (e) Fator Esforço Corporal e Desumanização não encontrou correspondência com a teoria de Schwartz (1992) por traduzirem características específicas da cultura brasileira.
Após duas validações do IST (BORGES, 1997, 1999b) com a análise dos dados empregando a técnica de análise fatorial e a estimativa dos coeficientes Alpha de Cronbach, foi constatada uma independência funcional cognitiva quando os respondentes avaliam atributos descritivos e valorativos. Isso quer dizer que quando alguém pensa sobre um atributo, aciona uma estrutura cognitiva diferente daquela acionada para pensar sobre outro atributo. Acrescenta-se a esse traço a dinamicidade característica do significado do trabalho, que demanda validações e atualizações frequentes nos itens do IST, razão pela qual, entre os objetivos de Borges (2010), encontram-se estudos comparativos sequenciais do IST. Além da escala de atributos, o instrumento conta com duas perguntas adicionais que correspondem à faceta centralidade do trabalho, de autoria da equipe MOW (1987) e traduzidas no Brasil por Santos (1992 citada BORGES, 1998b), sendo a primeira pergunta para avaliar o nível de importância do trabalho, em escala de 1 a 7, e a segunda, para avaliar a importância relativa do trabalho com relação a outras quatro esferas da vida [comunidade, lazer religião e família]. A última validação do IST foi realizada em 2011, em uma amostra de 411 operários de duas empresas de construção civil em Belo Horizonte (BORGES; BARROS, 2015). O estudo contemplou a atualização de itens e o uso do escalonamento multidimensional para análise estatística, especificamente a Smallest Space Analysis - SSA, em vez de análise fatorial. As razões que motivaram a mudança de técnica baseiam-se em recomendações de psicometristas, que aconselham seu emprego quando existe uma alta correlação entre os fatores, o que era o caso. Soma-se a isso o fato de a técnica SSA, quando comparada com a análise fatorial, melhor discriminar os componentes sem perda de consistência, além de ser a técnica oficial de Schwartz (1992) no estudo de valores. O IST está disponível no Anexo 1 e, a seguir, são
apresentadas as dimensões atuais (BORGES; BARROS, 2015), com as respectivas questões e os Alfa de Cronbach, que variaram entre 0,65 a 0,89, conforme Quadros 5 e 6 e Figuras 3 e 4.
Quadro 5. Tipos de atributos valorativos do IST – versão atualizada
Tipo Valorativo O trabalho deve: α
TV1 Fonte de realização e independência econômica
Ser prazeroso, estimulando o crescimento profissional, social e pessoal, produzindo satisfação na execução e no retorno financeiro recebido, bem como construindo um sentido de utilidade social [reconhecimento e independência].
0,73
TV2 Expressão de respeito e reconhecimento
Promover um ambiente de confiança, respeito e qualidade, em que o trabalhador se sinta valorizado, sendo servido de assistência e recursos necessários para o crescimento da sociedade [outros são beneficiados].
0,85
TV3 Autoafirmação Gerar no próprio trabalhador o reconhecimento de suas qualidades e responsabilidades e méritos, sendo servido de assistência e recursos necessários para o bom desempenho das tarefas. 0,65 TV4 Desumanizante e desgastante Ser desgastante, exigindo agilidade e sobrecarga, e também desumano, na medida em que explora, subvaloriza e disciplina. 0,76 TV5 Fonte de desafio, responsabilidade e
sustento
Ser desafiante, exercido com consistência e reforço [intelectual], sendo meio de ocupação na vida das pessoas e garantia de sustento
econômico básico. 0,80
Fonte: De acordo com Borges e Barros (2015)
As respostas dos participantes em um espaço bidimensional posicionam-se em dois eixos com as dimensões Autonomia versus Exigências Sociais e Humanização versus Desumanização, conforme Figura 3.
Figura 3. Distribuição espacial dos tipos valorativos e suas relações de adjacências
A Figura 3 mostra que os eixos bidimensionais estão perpendiculares um ao outro, formando quatro quadrantes ou polos. Há uma concentração do lado direito (entre os polos Autonomia e Humanização), indicando que, quando os participantes da amostra definem suas metas com relação ao trabalho, ou seja, como ele deve ser, tendem a organizar duas ideias, equivalendo, operacionalmente, aos grupos TV2 – Expressão de respeito e reconhecimento e TV3 – Autoafirmação. Do lado esquerdo, nos quadrantes formados pelos polos Autonomia- Desumanização-Exigências Sociais estão em uma posição periférica, diferentemente do que ocorreu nas amostras anteriores (BORGES, 1997 e 1999), o que evidência que a noção de trabalho desumanizante e desgastante está gradualmente desaparecendo entre os trabalhadores pesquisados [amostra de operários da construção civil], o que também pode ser observado pelos escores médios de cada um dos tipos valorativos, sendo Expressão de respeito e acolhimento a maior média [4,78] e Desumanizante e Desgastante, a menor média [2,10] (BORGES; BARROS, 2015). Quanto aos tipos descritivos, os eixos mostrados na SSA foram Exigências Sociais-Proteção Sócio-Organizacionais e Humanização-Desumanização, conforme Figura 4.
Figura 4. Distribuição dos tipos descritivos e suas relações de adjacência
Note-se que, diferentemente da estrutura dos atributos valorativos, a Figura 4 revela um número maior de atributos descritivos. Borges e Barros (2015) assinalam que um número maior de tipos pode ser aparentemente desfavorável, por dificultar a interpretação dos resultados. Por outro lado, reconhecem que também pode haver maior discriminação, o que permite compreender o significado do trabalho de forma mais rigorosa. Em consequência, os coeficientes Alpha de Cronbach são menores que os dos atributos valorativos, porém, dentro dos limites estabelecidos pelo Conselho Federal de Psicologia.
Quanto à distribuição, os atributos descritivos mostram-se mais proporcionais e com distribuição uniforme, com ênfase no polo Desumanização, do lado direito, sendo o quadrante esquerdo-inferior formado pelas dimensões Humanização e Proteção Sócio-Organizacional com maior concentração de pontos, indicando a prevalência de sentidos que fortalecem o trabalhador na condição de pessoa em relação ao sofrimento que vivencia. Outra diferença com relação aos atributos valorativos é o tipo TD10 – Ser retribuído equitativamente, que é representativo do polo Desumanização e adjacente ao tipo TD1 – Desumanizado, o que indica o sentimento de que são injustiçados, com tendência à percepção de falta de reconhecimento. Os tipos descritivos podem ser vistos no Quadro 6.
Quadro 6. Tipos de atributos descritivos do IST – versão atualizada
Tipo Descritivo O trabalho realmente é: α
TD1 Ser desumanizado Visto como discriminante e embrutecedor. 0,61
TD2 Sentir-se esgotado e pressionado Desgastante fisicamente, ao mesmo tempo em que exerce pressão e atenção na execução das tarefas. 0,66 TD3 Enfrentar as demandas e a dureza Percebido como uma atividade cheia de afazeres rotineiros e árduos, na medida em que se exige muito e se recebe pouco. 0,66 TD4 Ser responsável [gente]
Percebido com uma responsabilidade [por aquilo que se produz] e um meio de sentir-se socialmente incluído [por estar
ocupado]. 0,68
TD5 Desafiar-se Desafiante e exercido com consistência e reforço [intelectual], trazendo satisfação pessoal em relação aos resultados obtidos. 0,72 TD6 Crescer economicamente Fonte de crescimento, de aprendizado e significante, por meio do qual se adquire o sustento e a independência financeira. 0,75 TD7 Sentir prazer e proteção
Fonte de prazer e satisfação naquilo que se faz, ao mesmo tempo que se sente assistido pelas garantias trabalhistas e de
segurança. 0,63
TD8 Contribuir socialmente e ser assistido Visto como uma contribuição para o crescimento da sociedade [pelos benefícios gerados], além de prover assistência adequada para a execução da atividade e para o desenvolvimento pessoal. 0,69 TD9 Ser reconhecido
Fonte de reconhecimento do que faz, como algo importante para a sociedade e de valorização da participação do trabalhador no
processo produtivo. 0,76
TD 10 Ser retribuído equitativamente Um dever de todos e um direito de ser retribuído proporcionalmente ao empenho na execução das atividades
[financeira e socialmente]. 0,66
O IST não é o único instrumento de mensuração do significado do trabalho utilizado em processos de diagnóstico e em pesquisas na área de gestão organizacional e comportamento organizacional na linha de pesquisa de Borges. Logo após as duas validações (BORGES, 1997, 1999) que antecederam o último exame do IST realizado em 2011 (BORGES; BARROS, 2015), buscou-se ampliar as categorias profissionais envolvidas nas pesquisas. Para tanto, o IST foi ampliado e adaptado por Borges e Alves-Filho (2001), aplicando-se a bancários e profissionais de saúde. Na ocasião, os autores integraram ao instrumento o construto motivação e, por isso, a adaptação do IST contou com entrevistas prévias com os profissionais [grupos de dez profissionais, sendo metade bancários e a outra metade da área de saúde] de forma a elaborar o Inventário da Motivação e do Significado do Trabalho – IMST [Anexo 2]. Aplicada a pesquisa, o IMST confirmou a manutenção de quase todos os itens do IST, à exceção da assertiva “trabalhar é pegar no pesado”, que não apareceu no discurso dos bancários nem dos profissionais de saúde. Além disso, tendo em vista as características profissionais do novo público pesquisado via IMST, os resultados da pesquisa sugeriram o acréscimo de seis itens adicionais referentes a sentir-se produtivo; desenvolver habilidades interpessoais; influenciar nas decisões; aderir a normas organizacionais; expressar criatividade e salário, totalizando 73 assertivas (BORGES; ALVES-FILHO, 2001).
Em comparação ao IST, observa-se que no IMST constam somente os atributos descritivos e os valorativos, não tratando da centralidade do trabalho, tal como ocorre com o IST, que engloba duas questões adicionais sobre tal aspecto. Aqui, cabe uma observação quanto à constituição do IMST. Conforme evidenciado no próprio nome, o instrumento mensura, adicionalmente, a motivação a partir da Teoria da Expectância (VROOM, 1966), uma teoria cognitiva motivacional que admite a existência de relação entre esforço realizado e rendimento do trabalho, focalizando o processo de motivar e não o conteúdo do trabalho. Aspectos mais aprofundados dessa teoria não serão abordadas neste estudo, por não fazerem parte de seus objetivos.
No que se refere às aplicações do instrumento, o IMST foi empregado em três pesquisas empíricas até o presente. A primeira delas foi realizada por Borges e Alves-Filho (2001) e atingiu 488 profissionais de saúde e 155 bancários [67,4% de economia mista, divididos entre 67,8% de homens e 32,2% de mulheres]. A escolha dessas duas categorias considerou que, à época, ambas estavam inscritas no quadro geral de mudanças socioeconômicas, necessitando de melhoria na gestão de pessoas. No caso dos bancários, estes vivenciavam transformações no cenário financeiro internacional, com impactos como a acentuada redução de quadros, intensificação do ritmo de trabalho, aumento das exigências de
produtividade e de qualidade, congelamento ou redução de salários e outros (BORGES; ALVES-FILHO, 2001).
A análise dos resultados dessa primeira pesquisa foi realizada pela técnica estatística fatorial, com rotação oblíqua, além de análise dos coeficientes Alpha de Cronbach. A estrutura fatorial dos atributos valorativos revelou cinco fatores [Quadro 7], mostrando uma estrutura distinta da encontrada no IST [trabalhadores da construção civil e da rede de supermercados], indicando, portanto, que a categoria ocupacional influencia na organização das atribuições de valores ao trabalho. Com relação aos atributos descritivos, também foram encontrados cinco fatores [Quadro 7], os quais, em contraste com as pesquisas anteriores com o uso do IST, mostraram uma divisão nos itens relativos à Justiça Social, passando a ser Recompensa econômica e Condições de Trabalho, o que também é uma diferença entre os operários da construção civil e empregados de redes de supermercados com relação a bancários e profissionais de saúde (BORGES; ALVES-FILHO, 2001).
Quanto aos objetivos gerais da adaptação da escala, o IMST mostrou-se útil e consistente, tendo em vista as proporções de variância explicada, os coeficientes Alpha de cada fator, os coeficientes de fatorabilidade e a capacidade de os escores nos fatores diferenciar as categorias ocupadas, de acordo com a análise dos autores. Contudo, no que diz respeito ao significado do trabalho, a escala dos atributos descritivos do IMST mostrou-se menos consistente quando comparada com o IST, levando os autores à dúvida quanto ao formato tabular do IMST. A fim de superar as limitações verificadas na primeira pesquisa, que incluiu o aperfeiçoamento do inventário, a melhoria de seus índices de consistência e verificação da estabilidade estrutural dos fatores, Borges e Alves-Filho (2003) empreenderam a segunda aplicação do IMST, de modo que, se superadas as limitações, o IMST pudesse ser ampliado a outras categorias profissionais para a mensuração do significado do trabalho e da motivação.
Essa segunda pesquisa contou com uma amostra de 525 participantes, sendo 55,2% de profissionais de saúde, 23,4% empregados do setor petrolífero e 21,3% bancários de uma sociedade de economia mista, sendo a maioria dos participantes casada [60%], com filhos [71,4%] e composta por mulheres [67,2%] (BORGES; ALVES-FILHO, 2003). Dessa vez, os autores dispuseram as escalas de modo diferente, sendo: 64 itens de atributos valorativos na forma de frases, cada uma descrevendo um valor do trabalho. O participante responde, atribuindo escore de 0 a 4, em linha tracejada que antecede cada uma das frases. Em seguida, um bloco com 62 itens referentes às expectativas e aos atributos descritivos, mantendo-se a forma tabular, com a característica de o participante escrever o escore e não mais marcar entre
alternativas disponíveis. Por fim, um terceiro bloco formado pela escala de instrumentalidade, com 49 itens. Este formato do IMST (BORGES; ALVES-FILHO, 2003) é totalmente diferente da primeira versão aplicada por Borges e Alves-Filho (2001), que assumindo a forma tabular para todas as escalas, exigia escolher entre cinco alternativas [0 a 4] quatro vezes para cada assertiva [duas vezes para motivação e duas, para significado do trabalho].
As respostas dessa segunda pesquisa foram analisadas pela técnica de análise fatorial com rotação ortogonal e eliminação de itens com cargas em dois fatores; análise de índices de consistência e confiabilidade. Quanto à análise fatorial, a escala dos atributos valorativos não conseguiu confirmar a estrutura com cinco fatores, porque dois deles [FV3 – Realização e FV5 – Autoexpressão], diferenciados na primeira pesquisa (BORGES; ALVES-FILHO, 2001) não se diferenciaram nessa segunda pesquisa (BORGES; ALVES-FILHO, 2003), tornando-se um único fator [FV2 – Autoexpressão e Realização Pessoal]. Com relação aos atributos descritivos, evidenciou-se uma redução da proporção de variância explicada de 37% para 33%. Contudo, houve um fortalecimento da consistência dos fatores, com Alpha de Cronbach variando entre 0,77 a 0,92 na pesquisa de 2003 versus 0,69 a 0,89 na de 2001. A comparação entre os fatores pode ser vista nos Quadros 7 e 8.
Quadro 7. Comparativo de análises fatoriais dos atributos do IMST 2001 e 2003
Primeira versão anterior – 2001 Segunda versão – 2003
Atributos Valorativos Atributos Valorativos
Fator α Fator α
FV1 – Justiça do trabalho 0,89 FV1 – Justiça do trabalho 0,92
FV2 – Desgaste e desumanização 0,80 FV2 – Autoexpressão e realização pessoal 0,81
FV3 - Realização 0,84 FV3 – Sobrevivência pessoal e familiar 0,78
FV4 – Bem-estar socioeconômico 0,69 FV4 – Desgaste e desumanização 0,77
FV5 - Autoexpressão 0,77
Atributos Descritivos Atributos Descritivos
Fator α Fator α
FD1 - Autoexpressão 0,86 FD1 - Autoexpressão 0,91