CAPÍTULO 2 ABORDAGEM ÀS COMPONENTES DO ESTUDO
2.5. A ponderação de risco
2.5.2. Modelos conceptuais
Segundo um estudo realizado por Eijkelhof (1990), os modelos conceptuais das pessoas comuns e a dos peritos para avaliar o risco das radiações são diferentes.
O modelo dos peritos baseia-se num modo científico de pensar, teórico-racional, que é usado para fazer uma análise racional da ponderação de risco associado a uma determinada situação.
O modelo das pessoas comuns baseia-se na noção de risco e nas suas ideias sobre medidas de segurança. A informação é assimilada com a finalidade de saber o que se deve fazer com as radiações, de modo a diminuir o perigo que elas colocam.
Em resumo, o modelo das pessoas comuns é pragmático e intuitivo e serve para as guiar na percepção de certos riscos e na interpretação da eficácia das medidas de segurança.
Segundo Covello (1984), as causas dessas diferenças podem ser sumariadas do seguinte modo:
a- as limitações intelectuais e a necessidade humana de diminuir a ansiedade levam, muitas vezes, à negação de risco e a simplificações não realistas de problemas essencialmente complexos;
b- excesso de confiança que pode produzir erros de julgamento graves, como subestimar o risco das actividades familiares;
c- o modo como é estimado o risco.
Na tabela 2.13 estão sumariadas as diferenças nos métodos de análise dos riscos entre os peritos e as pessoas-comuns.
Tabela 2.13 – Diferenças nos métodos de estimar os riscos entre peritos e não-peritos (Covello, 1984)
Peritos Não-peritos - dão igual peso a eventos singulares que
podem custar muitas vidas de uma só vez ou múltiplos eventos que custam de cada vez uma única vítima.
- dão maior peso a um evento singular que custe muita vidas de uma só vez.
- dão igual peso a mortes estatísticas e conhecidas.
- dão maior peso a mortes conhecidas.
- dão igual peso a riscos voluntários e involuntários.
- dão maior peso a riscos involuntários.
- usam termos quantitativos para expressar os riscos.
- expressam os riscos em termos qualitativos,
- usam métodos computacionais e experimentais para identificar, estimar e avaliar os riscos.
- usam métodos intuitivos e impressionistas para identificar, estimar e avaliar os riscos.
- dão maior peso a estimativas quantitativas para tomarem decisões.
- dão igual peso a estimativas qualitativas e quantitativas.
- dão igual peso às diferentes maneiras de morrer.
- vêem algumas formas de morrer como sendo “piores” do que as outras.
Segundo Kasper (1979), os peritos tendem a ver as suas avaliações como sendo mais realistas e mais válidas contudo, por vezes, eles também se enganam (Slovic, Fischhoff e Lichtenstein, 1980). Segundo este autor, os peritos:
-falham em não considerarem como os erros humanos afectam os sistemas tecnológicos;
-têm excesso de confiança no conhecimento cientifico actual;
-são insensíveis ao facto de que os sistemas tecnológicos funcionam como um todo; -são lentos a detectar efeitos ambientais crónicos e cumulativos;
-falham em antecipar as respostas humanas a medidas de segurança.
Assim peritos e não peritos podem ter contribuições válidas e a comunicação, entre eles, falhará se qualquer um dos lados não analisar todas as vertentes do problema.
Elementos característicos sobre a forma de raciocinar sobre as radiações
Segundo Eijkelhof, é possível encontrar dois modos de pensar, dentro do modelo apresentado, que se traduzem por um medo excessivo que leva à aplicação excessiva das regras de segurança ou, na situação oposta, um sentimento exagerado de segurança que leva ao incumprimento de certas regras de segurança por as considerarem desnecessárias.
Tabela 2.14: Elementos características dos dois modos de raciocinar sobre as radiações (Eijkelhof, 1990)
I - A radiação é perigosa
1. A radiação/radiactividade/matéria radiactiva é permanente: nunca atinge o valor zero e acumula-se no corpo; no caso de ocorrer contaminação não se pode fazer nada.
2. Os efeitos da radiação/radiactividade/matéria radiactiva são sempre perigosos, conduzem ao cancro e a outras consequências sérias.
3. Todas as radiações são perigosas, incluindo os raios X.
4. As medidas de segurança usadas, em cada situação, são um indicador de risco das radiações.
5. O conhecimento dos limites de radiação permitidos, em cada situação, tem um valor muito limitado pois qualquer quantidade de radiação tem um efeito prejudicial. 6. A radiação é perigosa porque passa através de tudo.
7. A radiação/radiactividade é perigosa porque não pode ser observada pelos sentidos humanos.
8. As consequências nefastas a longo prazo são incertas.
II – Os riscos das radiações são limitados
1. A radiação/radiactividade/matéria radiactiva decresce a longo prazo; no caso de ocorrer contaminação podem tomar-se algumas medidas.
2. Uma pequena dose de radiação será combatida pelos mecanismos de defesa do corpo humano.
3. Os raios X são muito diferentes da radiação, resultante de materiais radiactivos, e são menos perigosos.
4. As medidas de segurança são eficazes na redução do risco associado a uma determinada radiação.
5. Os limites de segurança indicam o nível de segurança: abaixo deles a exposição é segura.
6. A radiação pode ser parada por aventais de chumbo e paredes de cimento. 7 A radiação/radiactividade/matéria radiactiva pode ser medida.
8. Não se sabe muito sobre os efeitos da radiação.
Os critérios usados nessa avaliação são: - a função da radiação na aplicação;
- a existência ou não de medidas de segurança; - o tipo de medida de segurança.
Em resumo, foram detectadas nos estudantes formas de pensar que podem ser designadas como sendo do senso comum. Os estudantes tiram conclusões que lhes parecem lógicas porque foram baseadas na cultura comum. Este modo de pensar pode servir objectivos que são mais importantes e fundamentais do que ter uma visão correcta sobre determinados assuntos (Nisbett e Ross, 1980). Tais objectivos podem ser “sentirmo-nos seguros”. Assim, é possível que este raciocínio baseado no senso comum interfira seriamente com a aprendizagem, especialmente em contextos CTS.