3.4 Procedimentos de análise
3.4.1 Modelos de tabelas e figuras – Rosch
A referência usada para determinar o grau de prototipicidade dos objetos da categoria roupa foi um teste aplicado a falantes do PB com base em um realizado por Rosch (1975). No teste da autora, pediu-se a falantes de língua inglesa que atribuíssem valores de um (01) a sete (07) para julgar a representatividade categorial de diferentes peças de vestuário. Quanto menor fosse o valor (mais próximo de um), melhor exemplar seria o elemento dentro da categoria; quanto maior fosse o valor (mais próximo de sete), pior exemplar o seria. Constatou-se que a categoria roupa, assim como muitas outras analisadas pela autora, apresenta efeitos prototípicos. Para os falantes, logo, camiseta seria um representante mais ideal de roupa que relógio, por exemplo. Esses resultados são centrais para o presente trabalho, uma vez que constituem uma base empírica para tratar da categoria enfocada na análise dos dados. Mostra-se, a seguir, o modelo de representação gráfica dos efeitos prototípicos encontrados em uma determinada categoria:
Figura 1 – Modelo de representação de efeitos prototípicos em uma categoria
Na figura 1, os números indicados (1, 2 e 3) representam entidades quaisquer dentro de uma categoria cujos limites tornam-se imprecisos perto da linha pontilhada. A entidade 1 seria um exemplar categorial considerado prototípico, como saia dentro da categoria roupa. A entidade 2, por sua vez, seria um exemplar categorial menos ideal que 1, mas, ainda assim, julgado pelos falantes como bem representativo, como, por exemplo, meia dentro da
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categoria supracitada. Por fim, a entidade 3 seria um exemplar categorial pouco ideal, a ponto de os falantes não o classificarem prontamente como pertencente à categoria de que faz parte, como óculos. Rosch (1978) destaca, inclusive, que as categorias não têm limites bem definidos e não são totalmente separadas umas das outras, ao contrário do que se postulou durante muito tempo. Ademais,
é, atualmente, uma descoberta bem documentada que sujeitos concordam amplamente sobre seus julgamentos a respeito do quão bons ou claros exemplares são os membros de uma categoria, mesmo para categorias sobre cujas fronteiras eles discordam [...] (ROSCH, 1978, p.37).25
Por essa razão, no presente estudo, abordam-se os elementos integrantes de categorias atentando mais para os efeitos prototípicos a que se sujeitam que para as fronteiras imprecisas em que se encontram.
A fim de obter resultados próprios da língua analisada neste trabalho, aplicou-se a 17 sujeitos um teste relativo à prototipicidade dos elementos categoriais de roupa que ocorreram em todo o corpus (Apêndice A). Objetivou- se, com isso, abranger itens que não estão presentes na tabela de Rosch (1975), mas que integram o corpus, tais como alpargata, diadema ou lente de contato. Os sujeitos foram selecionados em dois cursos básicos sobre categorização (intitulados Categorização da linguagem e Categorização e Cognição), os quais aconteceram no segundo semestre de 2015 durante a Escola de Inverno do Laboratório Emergência da Linguagem Oral (LELO) e a I Jornada de Estudos da Linguagem, dois eventos promovidos pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Todos os participantes do teste são adultos, falantes nativos do português brasileiro e estão vinculados ao Curso de Letras da UFPel como discentes ou docentes. O teste seguiu o padrão de Rosch (1975): diversos membros categoriais foram apresentados em uma tabela aos sujeitos, que pontuaram cada um conforme a representatividade como peça de roupa. Os valores de referência para a
25 No original, em língua inglesa: “It is by now a well-documented finding that subjects
overwhelmingly agree in their judgements of how good an example or clear a case members are of a category, even for categories about whose boundaries they disagree [...]”.
atribuição de notas foram os mesmos: um (1,0) representa um bom exemplar da categoria; sete (7,0), um mau exemplar da categoria.26 A tabela 6, a seguir, é idêntica à utilizada no teste complementar. Os itens são 48, ao todo:
Tabela 6 – Tabela utilizada no teste complementar
Objeto/Pontuação 1 2 3 4 5 6 7 Saia Chapéu Capa de chuva Roupão Maiô Luva Terno Alpargata Camiseta Calças Casaco Armadura Sapato Anel Jaqueta Bota Máscara Sobretudo Sapatilha Camisola Uniforme Boné Meias Diadema
26 Nenhum informante havia sido exposto à teoria de protótipos e de categorias de nível básico
Cueca Tênis Gorro Lente de contato Suéter Cachecol Lenço Capa Camisa Vestido Mantilha de igreja Blusa Avental Colete Quepe Fita de cabelo Corrente Gravata Pulseira Capacete Poncho Shorts Bermuda Moletom
A nomenclatura referente aos graus de especificidade, por seu turno, seguiu a de Rosch (1978), que destaca haver três níveis principais: o superordenado, o básico, o subordinado. Para referir-se a qualquer conceito ou objeto usando a língua, os falantes lançam mão desses níveis, necessariamente. Por exemplo, quando se aponta para uma maçã e se pergunta o nome desse objeto a alguém, a tendência é ouvir como resposta maçã (nível básico). Não obstante, tal nomeação não é nem muito nem pouco específica, pois se poderia usar fruta (nível superordenado) ou maçã gala (nível
subordinado). Por isso, o nível básico chama-se também de nível intermediário, localizado entre o nível mais abstrato, ou superordenado, e o mais específico, ou subordinado. Em relação à informatividade, o nível básico situa-se também entre os outros dois, dado que não é nem o mais informativo (nível subordinado) nem o menos informativo (nível superordenado). Em seguida, traz-se o modelo de tabela usado para referir-se a tal classificação, exemplificando com os conceitos roupa, casaco e casaco de lã:
Tabela 7 – Modelo de tabela para níveis de especificidade
NÍVEL SUPERORDENADO Roupa
NÍVEL BÁSICO Casaco
NÍVEL SUBORDINADO Casaco de lã
Neste trabalho, é essencial determinar os graus de prototipicidade e de especificidade nos contextos investigados segundo a teoria de protótipos e de categorias de nível básico para alcançar os objetivos propostos. Afinal, os elementos envolvidos na categorização influenciariam o uso de estratégias tradutórias preferidas na língua-alvo?