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Capítulo III – A velhice e o envelhecimento no olhar dos outros: Imagens da velhice e

1.4. Imagens da velhice e do envelhecimento

1.4.2. Multidimensionalidade das imagens da velhice e envelhecimento

De acordo com Ribeiro (2007), as imagens da velhice e envelhecimento formam-se na relação entre o processo cognitivo do sujeito-ator e o seu contexto social. Emergem da influência recíproca entre o mecanismo psíquico do sujeito e contexto sociocultural em que este vive (Silva, 2003, cit. in Ribeiro, 2007), produzindo-se diversas imagens na sua estrutura, processo e na variabilidade com diversos fatores. Desta forma, segundo Cerqueira (2010) essas imagens tanto podem assumir uma natureza negativa como positiva, neutra ou

ambivalente (negativa e positiva, em simultâneo), que determinará os moldes de interação

entre os indivíduos das diferentes faixas etárias (intergeracional) ou entre os indivíduos da mesma idade (intrageracional).

As imagens de pessoa idosa e velhice não incidem num indivíduo em particular, mas tendem a ocorrer no plano do imaginário do que se considera ser ‘a pessoa idosa’ (Cuddy & Fiske, 2002, cit. in Cerqueira, 2010), sendo esta muitas vezes “catalogada numa categoria lata, caracterizada como um protótipo que apresenta atributos particulares, distintos dos mais jovens” (Cerqueira, 2010, p. 122). As pesquisas efetuadas a partir de 1980 colocam em evidência que a natureza da imagem transpôs a caracterização dualista (positiva ou negativa) e unidimensional, emergindo subcategorias. No entanto, na maior parte das investigações no âmbito da velhice, centram-se no declínio físico e cognitivo, existindo ainda poucos estudos que evidenciem os aspetos positivos do envelhecimento (Cartstensen & Freud, 1994, cit. in Ribeiro, 2007).

1.4.2.1. Imagens positivas, negativas e neutras

As investigações menos recentes apontavam para que as imagens da velhice e do idoso fossem unicamente negativas, como por exemplo “conservadores”, “descuidados”,

“pobres” e “ deprimidos”, e seriam partilhadas por todos os grupos sociais (Tukman &

Lorge, 1952, cit. in Ribeiro, 2007). Esta tendência é justificada por suceder num período de grande industrialização onde predominava uma quimera negativista dos idosos em relação à produtividade e à evolução técnica (Ribeiro, 2007). Em estudos mais recentes, segundo Ribeiro (2007) presencia-se a concomitância de imagens positivas, negativas e neutras, assinalando alguma inconsistência e variabilidade nos resultados: alguns encontram atitudes neutras para com os idosos (Knox, Gekoski & Johnson, 1986; Perdue & Gurtman, 1990, cit. in Ribeiro, 2007); outros, atitudes mistas (negativas e positivas), “avô perfeito”, “ano de

ouro”, “miserável” ou “severamente debilitados” (Braithwaite, 1986; Hummert et al, 1994,

cit. in Ribeiro, 2007); em alguns casos, atitudes mais neutras ou positivas do que negativas (Lutsky, 1980, cit. in Ribeiro, 2007); e, por fim, atitudes ligeiramente positivas (Kite & Johnson, 1988, cit. in Ribeiro, 2007).

1.4.2.2. Estrutura complexa e multidimensional

Segundo Cerqueira (2010), em relação à estrutura da imagem, em termos de dimensão, registou-se uma mudança nos resultados obtidos. Deixou de se referir ‘a imagem’ (unidimensional) mas ‘as imagens’ da velhice (multidimensional) (Hummert, 1999; Lutsky, 1980, cit. in Cerqueira, 2010; Ribeiro, 2007). Estudos subsequentes apontam a presença de complexidade e multidimensionalidade nas imagens da velhice dado que estas não dependem somente da idade, mas também do estilo de vida associado, sendo decompostas em diferentes subcategorias (Lehr & Thomae, 2003, cit. in Cerqueira, 2010).

Neste contexto, Brewer, Dull e Lui (1981, cit. in Silva, 2011) sugerem três imagens de velhice e relativas subcategorias: i) a imagem de uma pessoa cuidadora, objetivada na figura da avó, que representa a matriarca, bondosa, amiga, serena, e de confiança; ii) a figura do idoso com status (o diplomata), representa a imagem de distinção e respeito, representando-se como competitivo, inteligente, agressivo e intolerante; iii) a figura do idoso, ou cidadão sénior (representa ambos os géneros) é configurada com base na fragilidade pessoal, no anacronismo, na solidão e na preocupação.

Em dois estudos realizados com jovens, jovens adultos, adultos de meia-idade e idosos (Hummert et al., 1994; Schmidt & Boland, 1986, cit. in Cerqueira, 2010) emergiram doze subcategorias: oito delas negativas (abatido, ligeiramente enfraquecido, vulnerável, muito enfraquecido, mesquinho/miserável, isolado, vizinho inquisitivo e ocioso) e quatro positivas (estilo John Wayne moderado, matriarca/patriarca generosa/o, avô perfeito e sábio). Estes resultados confirmam o carácter multidimensional e complexo das imagens associadas à velhice e ao envelhecimento, assim como o facto das imagens positivas serem mais associadas a relações afetivas e próximas.

Kite e Jonhson (1988, cit. in Ribeiro, 2007) definiram três categorias: i) personalidade- expressividade (as imagens mais positivas apareciam nos idosos em relação aos jovens); ii) funcionamento cognitivo (as imagens que os jovens detinham dos idosos eram mais negativas do que as imagens que os idosos tinham dos próprios idosos); iii) aparência física (as imagens

eram mais negativas em relação aos idosos, por comparação a qualquer outro grupo etário). Mais uma vez emerge a complexidade das imagens. Apesar do predomínio das imagens negativas em relação à velhice e ao envelhecimento, também coexistem imagens positivas mais frequentes entre os mais jovens (Ribeiro, 2007). Segundo Ribeiro (2007), verifica-se nestes estudos a superioridade de imagens negativas, centradas sobretudo no âmbito da competência cognitiva e capacidade física. É, ainda, interessante verificar que essas imagens negativas se transformam quando existem relações de proximidade e/ou laços familiares.

Também Cuddy e Fiske (2002, cit. in Silva, 2011) propõem três imagens que pessoas não idosas tendem a ter sobre idosos: i) a imagem do idoso afetuoso e competente; ii) a imagem do idoso competente e frio; iii) a imagem do idoso incompetente e frio. Estas imagens são o resultado da conjugação de duas grandes dimensões: competência – na qual o idoso é visto como autónomo e capaz – e afetividade – na qual o idoso é visto como genuíno, amigável e confiável. Destaca-se que a imagem de competente e cordial não emerge, pois tende a ser atribuída somente aos elementos do endogrupo.

Por seu lado, Hummel (1995, cit. in Silva, 2011) identifica três imagens distintas da velhice: i) a imagem da velhice ingrata (negativa) enfatiza as dificuldades e as perdas que estão associadas à velhice; ii) a imagem da velhice florida ou bem-sucedida (positiva), que invoca a uma forma mais gratificante de ver a velhice; iii) a terceira imagem da velhice (positiva) surge associada ao desempenho de um papel específico: o de avó. De acordo com Ribeiro (2007), estes resultados permitem inferir uma avaliação mais geral do idoso na sociedade e mais específica na sua comunidade. Verifica-se uma diferença de resultados: são mais negativos quando se fala dos idosos e da velhice em geral e do impacto social do envelhecimento; mais positivas quando se referem a idosos específicos ou da comunidade, principalmente pela associação a aspetos afetivos e familiares (Vanbeselaere, 1993, cit. in Ribeiro, 2007).

Em geral, as imagens incidem em três dimensões (Harrigan & Farmer, 1992, cit in cerqueira, 2010): biológica, psicológica e a social.

 Quanto à dimensão biológica, relacionada com a aparência física e funcionalidade, emergem as seguintes subcategorias: saúde/doença, presença/ausência de atração física e desejo sexual, sonho e esforço.

 A dimensão psicológica propende a concentrar-se na componente cognitiva,

destaca-se: rigidez, tranquilidade, responsabilidade, senilidade, inteligência, memória,

 A dimensão social é associada a uma componente afetiva dos indivíduos, salientando-se as subcategorias: abandono, isolamento, alheamento, stresse, reforma e uso do tempo livre. Assim, em todas as dimensões há aspetos positivos e negativos, com o predomínio de imagens negativas nas vertentes biológicas (Ribeiro, 2007).

Em suma, verificamos nos diversos resultados que a velhice e o envelhecimento assumem uma imagem negativa, principalmente, ao nível da aparência (aspeto físico) e do aspeto funcional. Sob o ponto de vista psicossocial são mais suscetíveis de emergir imagens positivas (sabedoria, experiência e maturidade). Outro elemento transversal na investigação é a existência de resultados variáveis e complexos, sendo difícil a análise comparativa e a generalização. Tal tem sido associado às metodologias utilizadas nos estudos, mas também tem sido analisado como uma característica das imagens (inconsistentes, variáveis, implícitas e complexas) (Ribeiro, 2007).

Segundo Dovidio e Gaerther (1986, cit. in Ribeiro, 2007), o discurso negativo sobre velhice tende a emergir de modo implícito, ou seja, expressa-se de modo subtil, indireto e, até, inconsciente. De acordo com Bailey (1991, cit. in Cerqueira, 2010) e Harris, Page e Begay, (1988, cit. in Cerqueira, 2010) “a investigação sugere que tal ocorre quando os indivíduos não têm consciência de que possuem determinadas imagens, e por esse motivo não as podem identificar ou controlar” (p. 123).