Blumenau 21 Itaiópolis 11
Bom Retiro 02 Joinville 01 Concórdia 04 Jaraguá 03
Campo Alegre 03 Orleans 01 Canoinhas 01 Palhoça 03 Caçador 01 Rio do Sul 12 Hamônia 15 São Bento 06 Itajaí 01 Tubarão 01 Indaial 03
Total 51 Total 38 TOTAL GERAL : 89 ESCOLAS
FONTE: Relatório Departamento de Educação, 1939, APESC.
Nota-se no Quadro 14 que 21 escolas foram fechadas em Blumenau e 15 escolas no município de Hamônia, justamente nos dois municípios com maior densidade de estrangeiros, por não satisfazerem as exigências do Decreto n.º 88. Esse quadro torna-se bem elucidativo por determinar os municípios e o número de escolas fechadas em cada um deles.
No Anexo n.º 18 apresentamos exemplos dos atos do Chefe do poder Executivo Estadual, Interventor Nereu Ramos, referentes à interdição de Escolas Particulares por descumprimento das leis federais e estaduais de nacionalização do ensino.
Segundo D’Aquino320, essas escolas foram fechadas porque estavam infiltrados no magistério do Estado elementos preparados para continuarem a propaganda germânica nos meios escolares.
Tivemos a prova disso, quando os requerimentos dessas sociedades foram dando entrada na Secretaria da Justiça, na ilusão de que a autoridaade se deixaria impressionar pelos professores indicados, quase todos nascidos no Brasil, mas filiados às organizações mais suspeitas, a começar pelas próprias sociedades que os preconizavam.
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Porém, outra situação surgiu para aumentar a preocupação das autoridades educacionais. Com o fechamento de algumas escolas, outras eram abertas na casa do próprio professor que ministrava as aulas clandestinamente.
O caso das aulas clandestinas das senhoras Rosa e Sidônia Lauers, por exemplo, ficou registrado no “Parecer n.º 57 de 6 de outubro de 1939 e ainda ocasionou outra denúncia contra o Inspetor Prof. Marcílio Dias de S. Tiago321.
As duas solicitaram verbalmente ao Inspetor Prof. S. Tiago, da 6ª Circunscrição (Joinville), autorização para lecionarem. Segundo elas, a autoridade considerou que quatro (04) alunos poderiam ser aceitos, tendo em vista que esse número não caracterizaria condição de uma escola por nenhum decreto322. Ao serem denunciadas por estarem lecionando na clandestinidade, apesar do pedido verbal, receberam uma multa do Departamento de Educação. Impetraram um requerimento solicitando o cancelamento da multa, mas as requerentes tiveram o provimento de seu recurso negado, recebendo uma multa de 300$00 cada uma.
Quanto à acusação contra o Inspetor Marcílio de Dias S. Tiago, disse o Inspetor Manuel Coelho:
O Prof. S. Tiago sabia da existência da escola, pois o senhor Coletor Estadual cuja repartição está localizada quase em frente a residência das senhoras Lauer lhe havia certificado do funcionamento clandestino da mesma, conforme declaração que me fez a referida autoridade323.
Nesse clima de denúncias e perseguições uma atitude como a do Inspetor S. Tiago não passaria impune. Ele foi imediatamente substituído pelo professor Manuel Coelho, que
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Após essas denúncias, o Prof. Marcílio Dias de S. Tiago, através da Resolução n.º 6623, foi removido da 6ª Circunscrição com sede na cidade de Joinville para a 11ª com sede na cidade de Criciúma, e desta para aquela o Inspetor Escolar em comissão foi o professor Manuel Coelho. 27/7/1939.
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Contrariando o referido depoimento das senhoras Lauers, o Decreto-Lei n.º 301 de 24/02/1939, em seu Art.10, diz que: Serão passíveis da multa graduada de 200$000 a 500$000 e o dobro nas reincidências os professores que, sem prévia licença e registro previstos no Decreto-Lei n.° 88, de 31/01/1938, ministrarem o ensino primário ou pré-primário em classes, individualmente, a domicílio do aluno, ou por qualquer outra forma, seja permanente ou transitoriamente, em caráter fixo ou ambulante. Livro de Leis, Decretos e Resoluções, 1939. APESC.
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COELHO, Manuel. Inspetor Estadual da 6ª Circunscrição, Joinville, assumindo os trabalhos em 15 de setembro de 1939 em substituição ao então Inspetor Marcílio Dias de S. Tiago (Resolução n.º 6623 de 27/7/1939). Consideramos importante ressaltar que as denúncias se estendiam também aos próprios Inspetores, como notamos no caso do Inspetor S. Tiago, denunciado duas vezes e removido de Joinville em 20 de agosto de 1939. Relatório do Inspetor Estadual da Nacionalização à Secretaria do Interior e Justiça, Departamento de Educação referente ao ano de 1939. p. 73. APESC.
recebeu os maiores elogios do Inspetor Federal das Escolas Subvencionadas no relatório enviado ao Ministro da Educação, Gustavo Capanema:
(...) o Interventor Federal, (...) destacou o Inspetor Manuel Coelho, para desvendar todas as falhas que, por ventura, ali encontrasse. Perspicaz, trabalhador, conhecedor do metier e, sobretudo, dotado de um alto sentimento cívico, tratou este funcionário imediatamente de dar cumprimento às suas elevadas funções324.
As denúncias de irregularidades feitas pelo Inspetor Escolar tinham no momento um poder quase ilimitado no que tange ao projeto de nacionalização325, a tal ponto que embasavam as considerações de decretos e resoluções, mostrando o quão importante e respeitada era a figura do Inspetor.
Todo esse sistema de ensino trazia em seu bojo o projeto maior do Governo Vargas, muito bem-aceito a partir de 1937 por Ramos no tocante às transformações econômicas, à rápida expansão das atividades industriais e ao desenvolvimento de núcleos urbanos. As tendências nacionalistas começam a aparecer através da estatização das empresas nacionais, como o Conselho Nacional do Petróleo e outras riquezas do subsolo (Companhia Vale do Rio Doce; a Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda; a industrialização de óleos e fibras nacionais etc.). O Estado sugeria e definia a economia brasileira.
Mas, para movimentar todo esse projeto, estava sendo executado o plano da rede nacional de estabelecimentos de ensino profissional (ensino industrial). Já, a iniciativa Federal para uma maior difusão do ensino primário, que seria “como verdadeiro instrumento de modelação do ser humano326” em obediência aos preceitos da nova
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Relatório da Inspetoria Federal das Escolas Subvencionadas de Florianópolis, 18/10/1939, ao Ministro dos Negócios da Educação e Saúde. APESC.
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MONTEIRO, Jaecyr. Nacionalização do Ensino. As autoridades educacionais nas áreas coloniais do Estado adquiriram grande prestígio, sendo encaradas pelas escolas com uma atenção especial, já que lhe cabia autorizar solenidades extraclasse, bem como, em primeira instância, aplicar os dispositivos do Decreto- Lei n.º 88. Florianópolis: EDUFSC, 1984. p. 65.
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O Ministro da Educação, Gustavo Capanema, considerava “o ensino primário como verdadeiro instrumento de modelação do ser humano, por isto que sobre ele influi enquanto ainda matéria plástica, a que é possível comunicar todas as espécies de hábitos e atitudes”. Essa matéria era competência dos Estados e municípios, sobre os quais a União só interviria indiretamente, concedendo um auxílio (mais econômico e administrativo) aos que possuíssem intensa área de imigração. Os alunos que não passassem no exame de admissão para o ensino secundário poderiam ingressar no ensino industrial, agrícola ou comercial, que os prepararia para o trabalho. CAPANEMA, Gustavo. Conferência feita por ocasião do centenário do Colégio Pedro II a 2/12/1937. IN: SCHWARTZMAN, Simon; BOMENY, Helena;. COSTA, Vanda. Tempos de
Constituição, iria se processar de forma intensa e rápida em todo o País, segundo Vargas327.
Assim, entende-se que o projeto de modernização do País passava pela educação, derivando-se daí a necessidade de neutralizar os desmandos regionais (em todos os níveis), provocados por estrangeirismos impertinentes e oportunistas, dar visibilidade ao projeto nacional desenvolvimentista e ao mesmo tempo exigir unanimidade de ação dos governos estaduais.
A educação então era o instrumento de construção da nacionalidade, numa época em que o sistema escolar era proposto na hierarquização dos papéis sociais, formando “elites condutoras e povo conduzido e produtivo” (CARVALHO, 1988).
Isso quer dizer que a educação deveria atender às necessidades das diversas categorias sociais. Dessa forma, teríamos a educação superior para a elite, a educação secundária para a elite urbana, a educação profissional que serviria aos jovens, que formariam o “grande exército de trabalhadores necessários à utilização da riqueza potencial da nação”328.
Entende-se, assim, que a educação deveria estar a serviço da nação, e, assim sendo, a adoção de “medidas legais” em Santa Catarina tinha por fim transformar as escolas estrangeiras em escolas nacionais quanto à sua organização e ao seu objetivo, ou então fechá-las definitivamente e criar outras em seu lugar. A visibilidade da questão nacional dar-se-ia a partir das escolas, dos grupos escolares; através deles haveria o disciplinamento da população atingida e conseqüentemente a afirmação da brasilidade.
Então, para não deixarem sem assistência escolar as crianças que freqüentavam aquelas escolas, o Estado e os municípios criaram outras que melhor atenderiam aos interesses da nacionalização.
De 1937 a outubro de 1942329 foram criadas: a) 244 escolas isoladas330 estaduais;
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VARGAS, Getúlio. O Estado Novo e suas realizações. Presidente Vargas. Rio de Janeiro. Abril de 1938. p. 36-37. Entrevista concedida pelo Presidente da República à Imprensa carioca, em São Lourenço.
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CAPANEMA, Gustavo. Conferência feita por ocasião do centenário do Colégio Pedro II em 2/12/1937. In: SCHWARTZMAN, Simon; BOMENY, Helena; COSTA, Vanda. Tempos de Capanema. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984. p. 189.
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Dados colhidos em D´AQUINO, Ivo. Nacionalização do Ensino. Aspectos Políticos. Florianópolis: IOESC, 1942. Neste livro constam todos os decretos de criação das escolas isoladas estaduais e sua localização, estando em negrito as escolas instaladas na zona de nacionalização.
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Escolas Isoladas segundo a Lei nº 846, de 11/10/1910 (Vidal Ramos/Caetano Vieira da Costa), Secção II, Art. 57 – b, seriam as escolas regidas por normalistas. p. 19. APESC. Segundo o Decreto N.SE - , 26-9- 61/712 (Celso Ramos/Elpídio Barbosa), Capítulo II, Art. 41 – I, são consideradas Escolas Isoladas (EI)
b) 22 grupos escolares331 construídos e instalados, sendo 8 deles construídos e instalados com o auxílio do Governo da União para esse fim;
c) 36 cursos complementares332; d) 407 escolas isoladas municipais; e) 1 grupo escolar municipal.
Diante de todas as determinações impostas por lei, a ação dos inspetores, junto aos professores, seria fundamental, senão vital, para estimular todas as iniciativas que marcariam e valorizariam as conquistas determinadas pelas exigências nacionalistas de Vargas e Nereu.
O sucesso dessa empreitada nacionalista não dependia somente da estática da lei, mas da força dinâmica dos que iriam executá-la. E o objetivo destes seria “ajudar” os estrangeiros a vencerem a dificuldade para assimilarem-se à sociedade nacional, porém tinham como maior obstáculo a língua, principal característica do nacionalismo alemão.
aquelas que possuem uma só turma de alunos entregue a um só docente (p. 11). Secretaria Estadual de Educação.
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Grupos Escolares eram amplas construções que deveriam apresentar, preferencialmente, simetria bilateral, de modo que as seções masculina e feminina ficassem em lados opostos e separados por um pátio interno. Possuíam salas internas para até 45 alunos. As classes da seção masculina poderiam ser regidas por professores/as. Já a feminina, apenas por professora. O curso tinha duração de quatro anos, com 5 horas de aulas diárias, de segunda a sábado. NÓBREGA, Paulo. Grupos Escolares: Modernização do Ensino e Poder Oligárquico. In: DALLABRIDA, Norberto (Org.). Mosaico de Escolas. Modos de educação em Santa Catarina na Primeira República. Florianópolis: Cidade Futura, 2003. p. 253-255.
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Cursos Complementares. Anexos aos principais grupos funcionam cursos complementares de dois anos. Destinam-se, como lhes insinua a denominação, a completar o ensino ministrado naqueles estabelecimentos. Corresponde o programa desses cursos aos dois primeiros anos ginasiais. Interventor Nereu Ramos em Relatório apresentado ao Presidente Getúlio Vargas sobre o exercício de 1939 em setembro de 1940. APESC.
13 INTENSIFICAÇÃO DO USO DA LÍNGUA VERNÀCULA NAS ÁREAS DE COLONIZAÇÃO
Uma língua comum é o veículo de uma cultura comum e, portanto, acaba criando laços que se inserem como elementos constitutivos de sua personalidade Bobbio, Matteucci e Pasquino 333
A dificuldade de assimilação dos estrangeiros, especialmente os alemães, era constituída pelo forte sentimento patriótico que os núcleos preservavam. Desagregar os núcleos alemães em todo o território brasileiro era fundamental para construir a unidade nacional. E a língua comum seria o instrumento transformador do que era considerado um “problema nacional”, a assimilação do estrangeiro.
Por que essa necessidade em Santa Catarina? Para se ter uma idéia, em visita a algumas escolas no Norte do Estado, em 1939, o Inspetor Areão resolveu fazer, como ele mesmo disse, “um pequeno inquérito” para ter uma idéia do número de crianças que falavam a língua alemã. O resultado do “inquérito” foi o seguinte:
a) classes percorridas 91
b) matrícula geral 3568
c) média de alunos por classe 39,2
d) falam o alemão 1902
e) percentual dos que falam o alemão 53,3%
f) compreendem o alemão 158
g) não falam o português 107
Incrédulo com o resultado, relata Areão: “Dentre os alunos que falam e compreendem o alemão mais de 5% não tem nenhuma ligação de sangue com a raça alemã. São puros caboclos segregados pelo meio em que viviam” (AREÃO, 1939).
Percorrendo as salas de aulas, o Inspetor Areão teve a oportunidade de se dirigir diretamente às crianças e mostrou-lhes que havia necessidade de se falar constantemente a língua nacional. Indicou-lhes que a deturpação de certos vocábulos normalmente
333
BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política. 2. ed. Brasília: Universidade de Brasília; Gráfica Editora Hamburg Ltda., 1983. p. 796.
terminados em “ão” e os que possuíam “r” ocorria devido ao pouco uso que eles faziam da língua nacional.
Então, tendo em vista o resultado colhido por sua pesquisa na zona de colonização alemã, resolveu colocar em evidência a região do Sul do Estado, zona influenciada pelo colono italiano. Pesquisou para saber dentro das salas de aula a percentagem dos que conservavam a língua de seus avós, dos que falavam ou compreendiam essa língua.
QUADRO Nº 15 - SUL DO ESTADO ZONA ITALIANA - NÚMERO DE ALUNOS DO 1º ANO