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CAPÍTULO 2: A FILOSOFIA DO ABSURDO

2.5 O SONHO E O DESPERTAR

Como analisado, os sonhos ocupam lugar relevante no movimento surrealista. Sob a luz dos estudos de Freud, os artistas acreditam que o sonho permite a “penetração em si mesmo e consequentemente acesso ao supremo conhecimento” (DUPLESSIS, 1963, p. 36). Muitas das obras gravitam em torno da temática do inconsciente a fim de mostrar como essa esfera psíquica trabalha com a realidade cotidiana.

Cidade dos sonhos não apenas configura a maior parte da trama no mundo onírico, como também exibe o percurso da protagonista em busca de seu sonho. A cidade de Los Angeles representa o universo dos sonhos, os personagens na história falam sobre sonhos. Para ilustrar melhor essa presença do sonho na obra de Lynch, segue a análise de uma breve cena.

Existe uma sequência muito específica em que as barreiras entre o real e o imaginário caem e confundem-se, aliadas a um grande suspense e tensão. Embora se trate de uma cena que representa uma ação cotidiana como almoçar em um estabelecimento com um amigo, o diretor atribui um aspecto inquietante e perturbador à sequência.

Decorridos aproximadamente dez minutos de filme, curso em que há uma aparente linearidade de acontecimentos na história entre as personagens Betty e Rita, a narrativa é rompida e focaliza-se a cena de dois homens desconhecidos que se encontram em uma lanchonete. Não se sabe quem são, nem mesmo seus nomes são mencionados em nenhum instante do filme. Um dos homens, cabelos pretos e olhos escuros, apresenta nervosismo em contar ao amigo que teve um sonho sobre o estabelecimento presente, Winkie’s Dinner na Sunset Boulevard. No relato do sonho, ele afirma não saber se o ocorrido foi durante o dia ou à noite, mas que estava sentado no exato banco em que se encontra naquele instante. O amigo participava deste sonho e estava em pé ao lado da caixa registradora. Revela que, no sonho, estava apavorado mesmo sem saber a razão, e que ao notar que seu amigo também estava assustado, o sentimento se intensificou. Em certo momento, o sonhador percebe o motivo do porquê de os participantes do plano onírico estarem apavorados: há um homem assustador nos fundos da lanchonete e segreda que é ele o responsável por esse sentimento de medo.

O sonhador revela que a sensação do pesadelo o perseguiu até depois de despertar e o fez desejar “nunca ver o rosto daquele homem fora dos sonhos”. O amigo, impressionado com o relato, entende, portanto, que a razão do convite ao café é para que o sonhador se livre desse sentimento e encoraja-o a seguir até os fundos da loja para enfrentar o “homem assustador”.

Quando a conversa termina, esse amigo se levanta para pagar a conta, ficando ao lado da caixa registradora – a partir daí tudo passa a acontecer exatamente como foi narrado pelo sonhador, que agora passa a estremecer pelo terror que o atormenta e a sensação de tensão ao se recordar do sonho. Porém, é convencido pelo amigo a ir até os fundos do estabelecimento. Lá o inesperado acontece: o homem monstruoso aparece e o sonhador, em pânico, sofre um ataque cardíaco.

Fig. 9: Homem grotesco (2001, 16’20”)

O homem, apesar de aparentar traços humanos, está inteiramente sujo e gera um intenso desconforto graças aos truques cinematográficos que acercam a cena para produzir esse efeito. A presença do ser estranho que os surrealistas criam ao subverter a realidade é colocado em um momento em que toda a expectativa está inclinada para o contrário: afinal, o relato é apenas um sonho e dificilmente se espera que se torne realidade.

Além dos artifícios cinematográficos como a inquietante movimentação circular da câmera, que causa a sensação de estranheza a cena, ela explora uma dualidade de símbolos. Dentro do restaurante, muitos cartazes estão dispostos para o lado de fora do estabelecimento, entretanto, do lado de dentro, encontra-se apenas números e letras invertidas em todas as paredes, como se os personagens estivessem dentro de um espelho. Em outro momento, quando os dois homens se levantam para se retirar do Winkie’s, há um plano detalhe sobre a mesa que eles abandonam para seguir para o exterior: metade da mesa apresenta o prato e copo vazios, e exatamente a outra metade está com os alimentos intactos. Ainda, já do lado de fora do restaurante, os homens caminham em oposição a placa exibida em plano detalhe e indica o sentido contrário. Essas imagens dispostas em uma única sequência jogam com a percepção do espectador que pode se confundir ao tentar decifrar se as personagens estão dentro do espelho onírico ou fora dele.

É importante ressaltar ainda que assim como os sonhos lançam imagens ou situações que não apresentam coerência no imaginário das pessoas, esse trecho parece não ter uma relação com o restante da história. Somente próximo ao final do filme, quando não envolve mais os aspectos oníricos da protagonista, revela-se que o homem que compartilhava o sonho é um resto diurno das memórias recentes de Diane. A protagonista solicita o assassinato de Camilla no estabelecimento Winkie’s e repara no homem próximo à caixa registradora.

Assim como os surrealistas, David Lynch mescla elementos e retira o espectador da zona de conforto em situações de que pouco delas se espera para suscitar emoções: os dois homens são material onírico de Diane e conversam sobre um pesadelo, que ao final se torna uma terrível realidade dentro do sonho. Este jogo de representações, onde se perde a referência do real, configura-se como um dos principais temas dos surrealistas e aparece com a mesma intenção no filme Cidade dos sonhos.