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REENCONTRO COM O EU: O VERMELHO

III – ENTRE O SONHO E A REALIDADE

3.7 REENCONTRO COM O EU: O VERMELHO

Próximo ao final do primeiro segmento, no ápice do relacionamento entre Betty e Rita, a realidade não pode mais ser evitada pela primeira. A cena a seguir, é quando as personagens se dirigem a uma casa de espetáculo chamada Silencio.

Nesse local, uma gama de símbolos se manifestam a fim de rebuscar a presença do duplo, ou seja, da consciência de Diane.

Antes mesmo de entrarem na casa de shows, onde as duas solicitam um táxi, a câmera vagueia atrás das personagens e em primeiro plano, ao canto direito da imagem há um panfleto fixado em um poste de ferro com a palavra “Hell”14. A narrativa, no clube do Silencio, apressa-se rumo à destruição de Diane e de suas ilusões e o panfleto antecipa os próximos passos. Tendo como apoio essas observações, pode-se afirmar que, o clube do Silencio, representa a consciência de Betty e o enfrentamento do seu duplo.

O confronto inicia-se mediante um choque de cores: antes de entrar na casa de espetáculo, a câmera realiza um travelling15 rápido em direção a entrada do clube Silencio. Nesse movimento veloz, retrata-se o vento forte que arrasta papéis e sujeira de um lado a outro e termina na discreta porta de entrada da casa de espetáculo. Há uma placa com o nome do local, Silencio, e o azul do letreiro luminoso contamina todo o cenário vazio.

A cor azul com frequência está presente nas narrativas oníricas de Lynch pelo seu valor profundo e imaterial. Para Chevalier e Gheerbrant:

Aplicada a um objeto, a cor azul suaviza as formas, abrindo-as e desfazendo-as. Uma superfície repassada de azul já não é mais uma superfície, um muro azul deixa de ser um muro. Os movimentos e os sons, assim como as formas, desaparecem no azul, afogam-se nele e somem como um pássaro no céu. Imaterial em si mesmo, o azul desmaterializa tudo aquilo que dele se impregna. É o caminho do infinito, onde o real se transforma em imaginário. [...] Entrar no azul é um pouco fazer como Alice, a do País das Maravilhas: passar para o outro lado do espelho.

Os valores de uma cor de significação tão transparente e abstrata simboliza a passagem para o sonhar, ou já se estar presente em um mundo imaterial. Antes de atravessar a porta do clube, Betty está onde sua existência é segura, onde os acontecimentos sucedem em uma progressão ideal e sua inocência é preservada.

Mas ao atravessar a porta, a personagem, assim como o espectador, depara-se com o mundo vermelho e feroz, que confronta a existência da personagem diretamente em emoções resgatadas de seu passado. O vermelho retoma o eu.

A coloração, em contraste ao azul está expressa nas cortinas, nos assentos, nas vestes dos artistas, na maquiagem de Rebekah del Rio e no próprio figurino de

Fig. 25: Betty e Rita no clube Silencio (2001, 1:44’53”)

Fig. 26: Rebekah del Rio (2001, 1:49’20”)

Betty. O vermelho, primordialmente considerado como o símbolo do princípio da vida, cor do sangue e da emoção, é simbolizado por Rousseau como a “temperatura constante, esse belo sangue vermelho, cuja cor quente corresponde aos raios vermelhos do sol captados pelo vegetal e ao veículo da energia, foi para a natureza a experiência decisiva da autonomia individual, da personalidade e da consciência.”

(2002, p. 56, grifo do autor) –, o vermelho é o “ ‘Eu’ pelo ‘Eu’” (2002, p. 57), ou seja, no clube Silencio ele representa o retorno de Betty/Diane para si, que diante do palco, trava um embate interno enquanto o teatro diante de si expõe suas cicatrizes.

Já dentro do local, o ilusionista inicia seu espetáculo com a repetição da frase

“Não há banda” em diversos idiomas, e afirma ao final que, ainda sim, escuta-se a banda. O homem reforça “é tudo uma ilusão, é uma gravação”. Outros números artísticos se sucedem caindo na mesma temática da representação: um homem dubla ao tocar uma clarineta e posteriormente uma cantora desmaia no meio da apresentação e a dublagem continua pelo cenário. É tudo uma representação, como afirma o ilusionista.

Essa cena no clube do Silencio é um divisor de águas. A afirmação do ilusionista parece dialogar e relembrar Diane que, em sua ingenuidade, acreditou no passado que as representações nas telas de cinema pudessem ser fiéis à realidade e que suas crenças nos simulacros da indústria cinematográfica a cegaram em discernir sobre a natureza dos acontecimentos: seriam eles realidade ou ilusão?

Outro símbolo que sustenta esse processo de reencontro de Diane/Betty com o eu é o cenário de um teatro clássico. As apresentações que ocorrem em um palco representam o homem inserido no mundo, é o momento que o espectador

Se projeta realmente no ator, identificando-se com os personagens interpretados e dividindo os sentimentos expressos; ou pelo menos é envolvido no diálogo e no momento. [...] Esse efeito cresce à medida que o espectador também interpreta o papel do ator e se insere em uma situação dramática imaginária. (CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain, 1990, p.

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Considerando essa íntima relação entre Diane e o palco, a cantora que também conversa com a protagonista e a coloca diante de seus fantasmas é

Rebekah del Rio, “La llorona de Los Angeles”16, que interpreta a música “Crying”

de Roy Orbsion, revisitada no filme de Lynch e traduzida para o espanhol. A canção fala de um amor rompido e não mais recíproco, assim como o romance de Diane e Camilla. Rebekah canta à capela e sua atuação é dramática, os close-up17 em seu rosto mostra sua maquiagem com uma lágrima decorativa no rosto e capturam a intensidade crescente da canção. A grande dramaticidade da cena e a identificação de Betty/Diane com a apresentação leva-a a chorar compulsivamente.

Na finalização da sequência, Rebekah del Rio desmaia antes da canção terminar e Betty encontra a caixa azul em sua posse. A cena corta para a casa de Betty, mas essa desaparece e Rita abre a misteriosa caixa sozinha. Quando a caixa é aberta, a história parece se apresentar ao avesso e passa para o segundo segmento da narrativa: o duplo, no caso Diane, será apresentado ao espectador.