III – ENTRE O SONHO E A REALIDADE
3.3 PRELÚDIO NA CIDADE DOS SONHOS: VIDA E MORTE
A narrativa de Cidade dos sonhos é um círculo: após a placa Mulholland Dr.
surgir nos primeiros minutos de filme, a sequência iniciada se trata da tentativa de assassinato contra Camilla contratado por Diane. Entretanto, nos desejos de Diane, Camilla não morre na estrada: ocorre um acidente, Camilla/Rita sobrevive, embora sofra com a perda de memória, e obtém ajuda do duplo da protagonista, Betty.
Porém, não se trata apenas de um único círculo, é um mise en abyme7, onde diversos outros círculos se constroem dentro de outros, sem revelar com clareza qual é o mais sólido dentre todos. E graças a esse desenvolvimento nebuloso da narrativa, permitem-se amplas interpretações de uma única cena, como se houvesse mais de uma maneira de montar o mesmo quebra-cabeça.
7 "Narrativa em abismo" é um termo francês usado para definir narrativas que contêm outras narrativas dentro de si.
Devido a esse corpus ser de natureza plural, onde não se define o gênero fílmico ou começo, meio e fim; as análises a seguir possuem saltos temporais, ao mesmo tempo que procuram seguir a linha narrativa. Elas obedecem à transição que tem início com os sonhos de Betty, a adequação da sua identidade e uma sequência de cenas que desvela o desdobramento da sua personalidade.
Para a seguinte análise, é importante considerar em primeiro momento, que o duplo é um fenômeno que se concebe pela presença e o enfrentamento dos opostos, e Cidade dos sonhos não se afasta dessa essência: vida vs morte, sonhos vs realidade, a curvilínea Mulholland Dr vs a segura Sunset Boulevard. Tendo estas considerações em mente, convém compreender os primeiros traços desde a significativa primeira cena da narrativa, onde o sonho de Diane encontra a própria falência.
A primeira cena em Cidade dos sonhos (2001) é a movimentação de sombras bailando em pares em um fundo roxo. A imagem se distancia revelando diversos casais dançando freneticamente e suas sombras se movem independentes dos corpos. A cena se estende por alguns segundos, escuta-se uma ovação e o rosto de Diane em transparência brilha em primeiro plano. A protagonista está junto a um casal de senhores e eles sorriem. Os rostos dos três lentamente se mesclam com um cenário escuro e somem gradativamente. A sequência continua, a câmera vaga sem identificar o ambiente ao redor em primeiro instante. Ao som de uma respiração pesada, o espectador assume a visão de uma personagem em uma cama. O olhar paira sobre as cobertas e para na direção de um travesseiro, a câmera parece entrar no objeto enquanto a visão escurece terminando em um efeito fade out8.
Embora seja uma primeira sequência breve e aparentemente revele pouco sobre a sua importância para o desenvolvimento da narrativa, esse trecho resgata o início e antecipa o término da história de Diane/Betty através de um jogo de duplicidade.
Configura o início pois, na cena do jantar de noivado de Camilla e Kesher, próximo ao final do filme, Diane narra sobre a origem do sonho de atuar: através de
8 Desaparecimento gradativo da visibilidade de uma imagem no final de uma sequência;
escurecimento.
um concurso de dança jitterbug9. Vencer a disputa a levou decidir sobre se mudar para Los Angeles para tentar a vida como atriz.
Este início de Diane é retratado em um fundo onde a cor roxa predomina.
René-Lucien Rousseau, em Linguagem das cores (2002), destaca o potencial do roxo como uma cor mística, que não aparece em ambientes naturais com facilidade e relembra como ela foi usada pela realeza ao longo da história, como a cor do mártir, da vida na terra e do luto. Destaca-se o valor de transição entre a vida e a imortalidade que a cor representa (2002, p. 129). Portanto, embora marque o triunfo de Diane ao receber a coroa de melhor talento, representa o início da decisão que consome sua vida e os sacrifícios prestados para ascender.
Fig. 12: Concurso de dança (2001, 01’40”) Fig. 13: Sono de Diane (2001, 02’13”)
Ainda sobre a cena, as sombras, em um negro sólido, que dançam em movimentos independentes das pessoas, configuram forte significação. Durante a dança, as sombras se expandem e os dançarinos são por elas envolvidos e, mesmo assim, apreende-se que eles continuam dançando. Segundo Rank, as sombras são comuns na temática do duplo e representam diversos presságios, e em muitos casos, presságios negativos como a morte (2013, p. 89). Aliado ao roxo, que simboliza a imortalidade histórica que a fama concede, o negro obscurece o sucesso que todos buscam. As sombras, como duplos, representam o lado sombrio dos que perseguem essa trilha de reconhecimento.
Justaposta à cena dos dançarinos, em uma transição lenta entre o sorriso de Diane e lençóis vermelhos, apresenta-se o ambiente onde o suicídio irá ocorrer mais
9 Jitterbug é um estilo de dança popular nos Estados Unidos na década de 20.
adiante na narrativa. A cama, os lençóis e o travesseiro na cor vermelha simbolizam o oposto do roxo e do preto na cena anterior.
Essa transição entre o roxo e o vermelho das cenas, embora a primeira cor provenha da segunda, Rosseau afirma que elas também são representações opostas: pois o roxo, mistura entre o azul e o vermelho, é a própria imagem do tecido azul da razão que recai no intenso vermelho “Eu”, sufocando a intensidade da cor quente (2002, p. 129). A cena que se inicia no roxo e termina no vermelho, demonstra que o último triunfa ao final da trama e caracteriza o retorno ao eu no momento da morte de Diane.
Este jogo de opostos e de cores é constante no desenvolvimento de Cidade dos sonhos. O prelúdio entrega as respostas da narrativa, o início e o fim, mas somente de maneira compreensível se o espectador acompanha a transição de Diane – seu início e seu fim na busca por seus sonhos.