“Desenvolver uma pedagogia para a autonomia em contexto escolar significa conceber o ensino como uma prática capaz de transformar os alunos em consumidores
3.2.4.1. No plano intelectual A) Reflexão e questionamento
Na linha de pensamento do explanado anteriormente e pela leitura das notas de campo, diríamos que a F1 parece ser a formanda mais motivada, aquela que mais reflecte na acção e sobre a acção a fim de melhorar a sua prática. Por exemplo, a propósito de problemas pontual e anteriormente diagnosticados como o de falar demasiado depressa em francês por se tratar da sua língua materna ou como o facto de estar muito inerte nas suas aulas, refere a formanda:
“Esforcei-me também por falar devagar e circulei pelas mesas.” (Anexo 3)
Reconhece o seu carácter reflexivo e a importância das críticas construtivas dos supervisores, como se pode verificar pelos seus testemunhos na entrevista:
130 “(…) acho que reflicto muito sobre as coisas, acho que sou bastante introspectiva e então e também as observações, sim agora estou-me a lembrar, talvez fossem as observações que eu fiz que contribuíram mais para a minha auto-formação mas observar também subentende, implica observar a orientadora e observar as estagiárias para além de observar os alunos.” Ou “acho que fui receptiva às críticas que me fazem, por vezes não concordei mas quando não concordava discutia-se, debatia-se, falávamos sobre o assunto em questão ou eu chegava às minhas conclusões ou eu guardava as minhas observações mas tinha em conta as observações pertinentes da minha orientadora ou então realmente chegava às mesmas conclusões e mudava de opinião seguidamente.” (Anexo 3)
Esta formanda reconhece, porém, que nela a reflexividade é uma característica espontânea que surge principalmente a propósito daquilo que ela pontualmente observa. Contudo, a prática reflexiva, conceito schöniano retomado por Perrenoud, é um processo complexo e metódico que deve ser incutido desde a formação inicial de professsores através de dinâmicas interactivas sistemáticas e de processos comunicacionais abertos tais como os que poderão ser promovidos nos e pelos ciclos de supervisão.
“Enfin, une pratique réflexive méthodique s’inscrit dans le temps de travail, comme une routine. Non pas une routine somnifère, mais une routine paradoxale, un état d’alerte permanent. Pour cela, elle a besoin d’une discipline et de méthodes, pour observer, mémoriser, écrire, analyser dans l’après-coup, comprendre, prendre des options nouvelles. » (1999 : 10)
Uma prática reflexiva exige continuidade e disciplina mas também um trabalho de equipa e uma abertura à mudança. No contexto do desenvolvimento pessoal e profissional, a prática reflexiva num ambiente colaborativo é a principal ferramenta para a construção de uma identidade profissional. Perrenoud reforça: “ Une pratique réflexive suppose une posture, une forme d’identité, un habitus.” (2005 :15).
Em suma, de todas as formandas a F1 é quem revela mais a iniciativa de tomada de palavra, numa atitude de abertura e até de uma certa humildade. A formanda levanta questões sobre os problemas identificados colocando dúvidas legítimas e pertinentes. Demonstra ser receptiva à inovação, solicita e oferece colaboração, propõe resoluções
131 para problemas. É segura embora revele alguma sensibilidade emocional relativamente às apreciações feitas quando estas não correspondem totalmente às suas expectativas. Nessa altura, mesmo sem discordar da crítica feita, mostra-se um pouco menos confiante mas não baixa os braços e mostra-se pronta a melhorar. De facto, pela interpretação das notas de campo ao longo do ano lectivo, esta formanda revela uma evolução significativa no seu percurso pessoal e profissional a custo de um trabalho sistemático na medida em que ousa experimentar várias alternativas e tomar decisões.
Como refere Sacristán:
“A actuação do professor não consiste em solucionar problemas (…) que, uma vez
solucionados, desaparecem. Esta consiste em tomar decisões num processo que se vai moldando e adquire identidade quando ocorre, no decurso do qual se apresentam opções alternativas, face às quais é necessário tomar uma decisão.” (1999:87)
A F1 revela auto-confiança e determinação no que respeita às suas competências intelectuais e chega a confessar:
“In – Consideras-te autónoma já?
F1 – Considero e por acaso tenho alguma ansiedade de o ser completamente, de ter uma turma à minha frente e de fazer as coisas conforme a minha leitura das coisas se bem que a minha leitura esteja influenciada pelos seminários …”(Anexo 3)
Destaca-se ainda a sua evolução na correcção discursiva e registo de língua durante o seminário, tornando-se mais cuidados e adequados pois a formanda foi capaz de reconhecer as suas limitações no que respeita à fluência em língua portuguesa.
Nas observações realizadas, foram detectadas maiores expectativas da Supervisora de Francês em relação a esta formanda do que em relação às outras, talvez pelo facto desta formanda ser bilingue e, portanto, dominar muito bem a língua francesa. (cf Anexo 19). De facto, se nos basearmos na teoria do efeito de pigmalião, podemos alvitrar a hipótese de que esta formanda possa ter evoluído mais do que as outras pelo facto das expectativas da supervisora também serem mais elevadas em relação a ela.
No que diz respeito à F2, poder-se-á dizer que esta formanda tem consciência dos interesses e valores que estão em jogo durante a profissionalização e enquanto professora. Assume que, apesar das expectativas serem as melhores, as práticas
132 profissionais exigem trabalho e reflexão sobretudo na adequação pedagógico-didáctica mas também um “moldar” na maneira de ser e estar. Senão vejamos:
“Mas em relação a ensinar, não sei, não é só vocação acho que tem de se trabalhar muito obviamente mas acho que também depende um bocadinho das personalidades, porque há pessoas que são mais extrovertidas, que conseguem transmitir os conhecimentos de uma maneira e há outras que não conseguem, apesar de ter muitos conhecimentos, não conseguem transmitir dessa maneira…
In – isso também vai mudando, não é?
F2 – Também se vai mudando mas também depende muito da personalidade da pessoa mas obviamente que não é só vocação e há muitos professores que podem até nem ter essa vocação e são professores e são bons professores porque exactamente trabalham muito.”(Anexo 4)
Revela-se uma formanda exigente consigo mesma e reconhece que a aprendizagem é um processo dinâmico e gradual. Diz:
“(…)acho que não é só a vocação que nos leva a ser professores, para já aprendemos uma coisa nova todos os dias, acho que não há dia nenhum que não aprendamos uma coisa nova(…)”(Anexo 4)
A F2 sente falta de uma articulação adequada entre a prática e a teoria e argumenta este facto talvez como justificação para alguma da sua insegurança ou falta de apoio das suas colegas. Refere:
“Acho que o orientador de Inglês em termos teóricos, os nossos seminários são sempre em termos teóricos, sobretudo temos sempre um bocadinho de teoria, acho que devia também nos dar algum trabalhinho de leituras em casa para nós nos irmos preparados para…porque é suposto o ano passado nós já termos falado de muita coisa, mas há muita coisa que falhou o ano passado, e que nós não falámos sobre isso, acho que não temos os conhecimentos que devíamos ter.”(Anexo 4)
Em torno das problematizações das situações observadas e discutidas em seminário, a F3 reconhece algumas das suas fragilidades nas suas práticas lectivas. No entanto, é capaz de identificar modos de as prevenir ou ultrapassar admitindo ter sido, para tal, ajudada sobretudo pelos outros membros do núcleo de estágio. Assim, revela:
“(…)por tudo o que aprendi, já vi alguns problemas que tinha, que já sabia que tinha, já sei mais ou menos como é que os posso ultrapassar.
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In – Aprendeste contigo ou contigo e com as tuas colegas, contigo, com as colegas e com a observadora, com as observações da orientadora?
F3 – Mais com as colegas e com os orientadores.” ( Anexo 5)
Apesar de identificar algumas maneiras de superar certas dificuldades que lhe são apontadas, a F3 parece não as pôr posteriormente em prática tanto quanto seria desejável. Este processo de rigidificação (conceito com origem na Escola de Palo Alto) traduz-se na “incapacidade de alterar os padrões transaccionais à medida que o desenvolvimento se faz e as relações mudam”( Costa, 2008) por dificuldades no processo de adaptação à nova realidade que é a de “ser professor”.Os comportamentos verbais e não-verbais indiciam que a auto-estima e o auto-conceito estão intimamente ligados à falta de consciência crítica e à incapacidade de problematização das questões.
Em suma, numa pedagogia para a autonomia, o objecto do desenvolvimento pessoal e profissional deve ser o equílibrio entre o plano intelectual e o socioafectivo pois são interdependentes e indissociáveis.