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4 Supervisão: um processo interactivo

Fig 4 – Componentes da teoria social da aprendizagem (adaptado de Wenger,

2. Uma abordagem comunicacional em Supervisão

“A necessidade de gerar ambientes fortemente interactivos, desde o início da formação profissional, emerge como uma das tendências mais interessantes da profissionalização dos professores.” (Amiguinho, 1998:40)

No âmbito da Supervisão Pedagógica, o enfoque dos ambientes interactivos é a comunicação como fonte de construção e reconstrução de significados.

58 Nesta medida, interessa reconhecer a importância das teorias da comunicação, nomeadamente a da Escola de Palo Alto e do Interaccionismo Simbólico, para compreender a sua relevância e influência na evolução dos princípios subjacentes à formação de professores e, em especial, aos ambientes de aprendizagem e de prática que a Supervisão Pedagógica proporciona.

Na sua análise das teorias da comunicação, Alsina (2001) reúne três perspectivas diferentes: a perspectiva interpretativa, a perspectiva funcionalista e a perspectiva crítica. A perspectiva que interessa ao nosso estudo sobre processos interactivos de construção de identidades pessoais e profissionais na Formação Inicial é a perspectiva interpretativa.

A perspectiva interpretativa debruça-se precisamente sobre a vida em grupo e sobre a comunicação interpessoal e, por conseguinte, sobre a intersubjectividade das relações sociais. Refere Alsina: “Esta interacción permite que, compartiendo significados, se vaya construyendo la urdimbre de la sociedad.” (2001:163).

Importa antes definir claramente interacção. Edgar Morin define a interacção como uma acção recíproca (1977:51) capaz de modificar comportamentos. No entanto, Edmond Marc e Dominique Picard (2006) sublinham o carácter polissémico da palavra interacção, ou melhor, alertam para a sua dispersão semântica. Segundo estes autores, interacção poderá significar um processo, um objecto ou, na perspectiva interaccionista, um ponto de vista para apreender fenómenos relacionais. Na realidade, para o Interaccionismo Simbólico, a acção funda-se a partir do significado emergente das interacções interpessoais situacionais graças à intersubjectividade dos símbolos da linguagem partilhados. Interagir é, então, construir novos significados sendo um processo hermenêutico de interpretação que se vai constantemente actualizando, ou recontextualizando, para cada indivíduo. Trata-se de uma capacidade reflexiva subjectiva pois o indivíduo controla as suas acções agindo sobre si próprio, sobre os outros e sobre o grupo. A interacção é, então, todo o enunciado que, no seu contexto, é susceptível de criar significado.

O contexto, definido por Neil Mercer (2001:39), como fenómeno mental que consiste em qualquer informação que empreguem os ouvintes ou leitores para

59 compreender o que ouvem ou lêem, é também ele sistematicamente recriado por cada interacção entre falante e ouvinte ou entre escritor e leitor.

“Sin embargo, si nuestro interés se centra en el desarrollo de la comprensión compartida, y no en las características de los textos, el “contexto” se concibe mejor como una configuración de información disponible que empleamos para comprender el lenguaje en unas situaciones concretas.”(2001:41)

Berlo (1991) identifica que há uma relação de interdependência na interacção e que esta varia em grau, qualidade e de contexto para contexto. Os estudos sobre a pragmática da comunicação humana preconizados por Watzlawick, Beavin e Jackson visaram sobretudo investigar a complexidade da interacção tendo em conta que a interacção não é apenas uma troca verbal ou que se limita a uma acção-reacção. A comunicação é antes um complexo multifacetado de vários modos de comportamento- verbais, tonais, posturais, contextuais, etc - que, no seu conjunto, condicionam o significado de todos os outros comportamentos.

Para além disso, a relação entre as pessoas desenvolve-se simultaneamente sob dois aspectos - o racional (objectivo) e o relacional (emocional e subjectivo). Segundo Watzlawick, Beavin e Jackson (1969), porém, é o aspecto emocional que determina o conteúdo da comunicação.

Em contexto de formação inicial, a harmonia entre estes dois aspectos também é muito importante e ao interagirem, tanto supervisores pedagógicos como formandos, estabelecem relações com cada um dos seus interlocutores e com o grupo em geral. Comunicar não é senão um jogo de entendimento mútuo em que os sujeitos têm de ter consciência de que as suas grelhas de referências não são inertes nem verdades únicas e que, portanto, devem ser partilhadas e abertas na percepção das diferenças e das semelhanças.

O terceiro aspecto mencionado por estes autores afirma que os dois aspectos de cada comunicação, o aspecto do conteúdo e o da relação, correspondem a uma linguagem muito especial: uma linguagem digitalmente correcta e por outro lado, uma linguagem “icónica” e carregada de emoção. Assim:

“Os seres humanos comunicam digital e analogicamente. A linguagem digital é uma sintaxe lógica sumamente complexa e poderosa, mas carente de adequada

60 semântica no campo das relações, ao passo que a linguagem analógica possui a semântica, mas não tem uma sintaxe adequada para definição não ambígua da natureza das relações”.(Watzlawick; Beavin, Jackson, 1969:61).

A pragmática da comunicação não foca apenas as palavras mas também a linguagem corporal, podendo compreender melhor um comportamento quando analisamos as duas vertentes.

No âmbito desta perspectiva, a Escola de Palo Alto toma um lugar preponderante na medida em que os seus investigadores estabelecem alguns axiomas a partir do seu estudo sobre a comunicação (Watzlawick, Beavin e Jackson, 1974:49-71), a saber:

- Qualquer conduta numa situação de interacção tem um valor de mensagem e, assim, não se pode não comunicar ou não se pode não influenciar;

- Qualquer comunicação tem um conteúdo e um aspecto relacional, sendo que o conteúdo é determinado pela interacção que se estabelece pelos interlocutores. É nesta interrelação que se estabelece a intenção comunicativa da mensagem, ou seja, a interpretação da mesma. Em suma, na interacção estabelece-se a metacomunicação; - Num processo de interacção, os participantes vão estabelecendo as sequências dos factos à sua maneira, isto é, na interacção o indivíduo não só provoca atitudes como reage a elas;

- Todas as interacções comunicacionais são simétricas ou complementares com base na igualdade ou na diferença, respectivamente. Assim, podemos concluir que na comunicação há relações de poder, de controlo e de estatuto.

Ao invés da perspectiva funcionalista (Comte, Durkheim) que considera a comunicação como uma mera transmissão de uma mensagem de um transmissor para um receptor, a Escola de Palo Alto considera-a como um processo criativo complexo.

Para esta escola, todo o comportamento é comunicação sendo que os comportamentos são construídos pela pessoa no decurso da acção e dependem da situação em que decorrem. Assumir a interacção humana como um sistema aberto é aceitar os princípios da globalidade, da retroalimentação ou circularidade e da equifinalidade (Primo, 2000). O princípio da globalidade anula a unilateralidade da interacção e prevê que qualquer mudança numa determinada parte da interacção

61 humana afecte todas as outras e afecte o sistema no seu todo. A interacção humana não é cumulativa. Quanto ao princípio da circularidade, este evidencia a influência que cada agente ou interactuante tem no outro e vice-versa. Por seu turno, o princípio da equifinalidade permite que a relação interpessoal enquanto sistema aberto atinja um determinado estado independentemente das condições iniciais. Aliás, para a pragmática da comunicação, a organização actual da interacção é mais importante do que a de origem pois a significação adquire-se na evolução do sistema.

Herbert Blumer, discípulo do fundador do Interaccionismo Simbólico, George H. Mead, baseia o seu estudo em três premissas fundamentais cujo enfoque são, respectivamente, significado (meaning), linguagem (language) e pensamento (thought):

1 - Os humanos agem para as coisas ou para as pessoas na base do significado que atribuem a essas coisas ou a essas pessoas; (meaning)

2 - O significado surge da interacção social e é negociado através do uso da linguagem; (language)

3 – Os significados são manipulados e modificados através de um processo interpretativo, isto é, a interpretação dos símbolos por parte de um indivíduo é alterada pelos seus próprios processos do pensamento. (thought)

Minding é a expressão que define precisamente o pensamento enquanto conversa interior. Esta capacidade reflexiva dos humanos activa processos cognitivos estimulados pela linguagem - “Language is the software that activates the mind.” (Griffin, 2006:58).

Blumer, por seu turno, refere-se a um processo social interiorizado não devendo considerar-se a interpretação como uma mera aplicação automática de significados estabelecidos mas como “un proceso formativo en el que los significados son utilizados y revisados como instrumentos para la oreintación e formación del acto. Es necessário entender que los significados desempénan su papel en el acto a través de un proceso de auto-interacción.” (1982:4). Para os interaccionistas simbólicos, o ser humano tem, na realidade, a capacidade de estabelecer uma interacção social consigo mesmo,

62 formulando questões a ele próprio e respondendo às mesmas. Com esta qualidade de auto-interacção, o indivíduo estabelece uma relação única com o seu meio ambiente adaptando-se de forma particular a cada situação. Não é somente um organismo que responde a estímulos sociais como é um organismo que actua, modelando a sua linha de acção o seu contexto. (Blumer:1982)

Por sua vez, Griffin (2006) alerta para o facto que se definirmos a comunicação interpessoal como o processo de criação de significado único e partilhado, o impacto desta afirmação dependerá das imagens que ela poderá despertar. Este autor prefere, deste modo, afirmar que a comunicação interpessoal “is a mutual, ongoing process using verbal and non-verbal messages with another person to create and alter the images in both our minds” (2006:53) Por outras palavras, para o Interaccionismo Simbólico, são os símbolos (linguagem verbal e não-verbal) que permitem que as pessoas comuniquem entre si, construindo o sentido das situações sociais da vida quotidiana.

As realidades sociais são construções de significado estabelecidas pela participação das pessoas na interacção simbólica que se produz na sociedade e que, ao mesmo tempo, a constitui. As interpretações individuais e colectivas passam a ser socialmente adequadas e socialmente interiorizadas. A imagem que se tem de si próprio ou a imagem que os outros têm de alguém são construções pessoais de significado que surgem da interacção simbólica, fruto de uma negociação realizada através de símbolos (linguagem verbal e não-verbal). Daí, que para o Interaccionismo Simbólico, o self seja um elemento fundamental na integração das pessoas na trama da existência social. Construímos a nossa imagem não a partir de nós próprios mas fundamentalmente a partir daquilo que os outros possam pensar de nós, ou como refere Griffin (2006: 59) “ we paint our self-portrait with brushes strokes that come from taking the role of the other”. O self está em constante mudança e, por isso, é ele próprio um processo dinâmico de combinação entre o “I” e o “me”, embora a maneira como eu me veja a mim já seja influenciada pela maneira como os outros me vêm.

De facto, na sociedade, as expectativas dos outros têm um efeito socializador sobre o indivíduo. Mead refere justamente o “me” como uma imagem criada pelas

63 representações feitas pelos outros significativos e denomina esta imagem mental compósita de generalized other. Por outras palavras, trata-se de um conjunto organizado de informações que um indivíduo traz consigo sobre o que são as expectativas e atitudes do grupo social. Sempre que agimos ou sempre que tentamos avaliar a nossas acções ou as dos outros é a esse conjunto de informações que recorremos.

Em geral, na Formação Inicial de Professores, os formandos trazem ideias pré- concebidas do que é ensinar, ser professor ou ser aluno, informações que construíram pelas suas vivências pessoais e sociais. Algumas são inclusivamente estereotipadas, facto que importa desmistificar e desconstruir a partir da compreensão e análise de situações reais. Ou seja, é importante reconhecer as representações sociais dos formandos para ajudar a transformá-las. As representações diferenciam-se dos conhecimentos pelo facto de que se tratam de construções circunstanciais elaboradas num determinado contexto e para fins específicos. A construção da representação social é determinada pela tarefa e pela natureza das decisões a tomar enquanto que os conhecimentos se armazenam na nossa memória. As representações sociais são, portanto, imagens mutáveis e efémeras. São criações do sujeito e, por isso, únicas. Tal como se pretende mostrar com a seguinte ilustração (Morissette, 2002)

Fig.5- A representação como construção social (2002:18)

No processo da Supervisão Pedagógica, as informações e saberes vão sobrepondo-se à medida que as interacções entre supervisores-formandos-alunos evoluem. Tal como o entendemos, o processo da Supervisão Pedagógica enquanto processo de socialização é um processo de construção crescente, não de forma aditiva

64 mas como um todo. É um processo aberto que abraça a qualquer momento mais conhecimento através de redes comunicacionais colaborativas. De facto, a colaboração e a partilha renovam a motivação do formando relativamente à aprendizagem. Quer o supervisor quer o formando, no final do ano escolar, serão certamente pessoas diferentes do que eram no início devido à experiência interaccional que mantiveram ao longo dos meses.

Perrenoud reforça esta ideia: “Une tache coopérative provoque des conflits sociocognitifs et favorise l’évolution des représentations, des connaissances, des méthodes de chacun par la confrontation avec d’autres de voir et de faire. La confrontation des points de vue stimule une activité metacognitive dont chacun tire un bénéfice, même si cela ne débouche pas sur une action collective “(1999:64)

Erving Goffman, considerado o reanimador do interaccionismo simbólico, interessa-se pelo estudo da dramaturgia como metáfora da interacção pessoal social. Para este autor, a vida quotidiana é uma encenação teatral onde o actor se expõe publicamente com regras de conduta interiorizadas e que através de uma negociação permanente com os outros, vai definindo a sua identidade. Goffman (1959) divide o indivíduo em actor e personagem, correspondendo o primeiro ao biológico e ao cognitivo e o segundo à imagem que ele tem de si mesmo. Na teoria de Goffman, porém, é o conceito de “frame”que é essencial. Para ele, a construção da realidade social diária desenvolve-se mediante um fluxo contínuo de definições das situações. Definir uma situação significa “identificar cooperativamente una cierta estructura de interacciones, expresiones, comportamientos, expectativas, valores, como adecuados a los sujetos en aquel momento” (Wolf, 1982:35). Deste modo, diremos que “frame” é o sistema de premissas, de instruções necessárias para decifrar e dar sentido ao fluxo de acontecimentos. Este sistema permite definir as situações de interacção e a competência dos indivíduos interactuantes e estabelecer os limites do comportamento apropriado a cada situação.

Em conclusão, para o Construtivismo, o fundamental é a produção de sentido a partir da interacção social. A linguagem constrói o mundo, não o representa e, portanto, a comunicação é um processo social. As implicações desta ideia são sobretudo as

65 seguintes: a de que a identidade é fruto da interacção, logo que as múltiplas interacções que vivemos permitem-nos ter diversas identidades. Por outro lado, fica-nos a ideia de que sendo qualquer acto co-construído, nada tem significado fora de contexto.

É sob esta perspectiva de “ecossistema” que pretendemos sustentar a nossa investigação. Não é possível estudar a atribuição de identidade profissional fora dos sistemas de (inter)acção nos quais o indivíduo está envolvido e explicitamente implicado. A formação de identidade pelos próprios sujeitos – interiorização activa – também só pode ser analisada dentro das trajectórias sociais onde a sua biografia pessoal e profissional é construída (Dubar, 1997). Como sintetiza Costa (2007), a identidade constrói-se no balanço dinâmico entre autonomia, diferenciação e dependência.

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IV- Metodologia