3. Ensaios de Animação Sociocultural na Escola e na Comunidade
3.3. Valor formativo da técnica cénica
3.3.4. O animador sociocultural em contexto escolar
A Animação sociocultural é muito mais do que um conjunto de práticas criativas e participativas. Ela implica uma filosofia de vida, uma conceção do homem e da sociedade,
81 bem como uma forma de fazer e de viver caracterizada por um projeto no qual cada indivíduo constrói o seu próprio destino, com os outros, no contexto da sua comunidade.
Enquanto atividade profissional, a ASC permite trabalhar no âmbito da cultura e do tempo livre, tornando-se a figura do animador sociocultural imprescindível para o seu desen- volvimento, na medida em que promove atividades com uma finalidade cultural, educativa e social, no seio de uma comunidade. Assim, poderá dizer-se que o animador sociocultural é um mediador entre as necessidades e solicitações de um grupo social e a capacidade de lhes dar resposta, por parte da instituição para a qual trabalha. O Animador sociocultural tem co- mo papel principal encorajar a criatividade e a participação, pelo que deve conhecer muito bem o seu público, com as suas necessidades e dificuldades, deve escutá-lo de modo a estabe- lecer uma relação de confiança e adequar as atividades de animação que concebe e organiza às pessoas e aos contextos, visando a socialização das pessoas e a coesão social e o desenvol- vimento da autonomia – da pessoa e da comunidade. Assim entendido, este profissional é um facilitador da democracia: ele favorece a tomada de consciência de identidades coletivas, permite conhecer os interesses de uma determinada comunidade, facilita o aceso à expressão e à ação dos grupos minoritários.
Só a partir da década de oitenta, do século passado, se começou a falar do animador como profissional com formação adequada e estatuto social, embora de reconhecimento len- to.
“Durante 25 anos (1974-1999), verificou-se em Portugal um debate ideológico em torno o estatuto do Animador, por vezes profícuo, outras estéril, mas que, no fun- do, fez acentuar divisões e clivagens muito úteis aos diferentes poderes instituídos que, assim, consideram que a ausência de um estatuto profissional se devia aos Animadores que continuavam “entretidos” a discuti-lo sem contudo alcançarem consenso” (Lopes, 2008, 459).
A lentidão com que avançou a conquista de um estatuto profissional está relacionada com o percurso académico destes profissionais. Segundo Lopes (2008, 478), “o primeiro cur- so superior de Animação Cultural, da responsabilidade da Cooperativa de Ensino Superior Artístico, Árvore I, autorizado pelo Despacho 129/MEC/86, de Junho de 1986”, foi criado nesse mesmo ano, com a duração de três anos e o grau académico de bacharelato. O mesmo
82 autor refere que foi no final dos anos noventa que se registou uma proliferação de cursos de formação profissional nas áreas de animação, criados e ministrados por Escolas Profissionais, existentes em quase todos os distritos; de cursos de Animação e de Animadores no ensino superior público e privado (Universidades, Institutos Politécnicos e Escolas Superiores de Educação), conferindo o grau académico de bacharelato e licenciatura. Este fenómeno não se registou apenas em Portugal mas foi comum a grande parte dos países da europa, como refere o autor antes citado (Lopes, 2008, 504-515).
Reconhecida a necessidade de formar animadores a nível superior, houve também a necessidade de definir uma ética e uma deontologia profissional orientadoras da sua forma- ção. Citando Pantoja, Lopes (2008, 522-524) apresenta o seguinte conjunto de princípios ori- entadores da ética e deontologia da função de animador, aqui sintetizados:
Princípio do sentido profissional; Princípio do sentido de serviço; Princípio da educação;
Princípio da justiça social;
Princípio da coerência profissional;
Princípio das características profissionais e da formação permanente; Princípio da confidencialidade;
Princípio da solidariedade profissional; Princípio de distanciação;
Princípio da legalidade vigente;
Princípio do respeito pelos direitos humanos; Princípio do respeito pelos usuários;
Princípio da coerência institucional; Princípio da participação comunitária; Princípio do trabalho em equipa;
Princípio de respeito e cumprimento do código deontológico.
Estes princípios devem reger o animador, não só individualmente, mas também co- mo elemento nuclear de um projeto, como parceiro no triângulo em que se encontra inserido:
83 ele mesmo, a entidade patronal para a qual trabalha e o grupo com o qual trabalha. Estes são, segundo Ventosa (2002), os três agentes fundamentais da animação, que devem atuar em inter-relação, dado que todos são igualmente importantes e, se algum deles pesar mais do que o outro, poder-se-á gerar um conflito difícil de resolver. Dada a importância deste triângulo, o autor aponta as funções de cada um dos seus elementos:
Esquema 3. Triângulo contratual da animação (Ventosa, 2002, 150 – adapt.)
Conclui-se, então, que o animador nunca deve atuar sozinho. A sua atuação deve ter em conta os outros dois elementos e com eles colaborar de uma forma horizontal, no sentido de conhecer as suas expectativas, prioridades e potencialidades. Por outro lado, também a pluridisciplinaridade se torna fundamental na sua intervenção social, uma vez que há outras ciências sociais que podem dar um contributo muito importante no conhecimento e avaliação dos destinatários da sua intervenção – psicólogos, sociólogos, assistentes sociais e mesmo
O ANIMADOR
Intermediário entre as necessidades e ambi- ções do grupo e a instituição;
Impulsionador executivo do projeto; Organizador e orientador do processo
A INSTITUIÇÃO
Origem da animação – suporte filosófico do projeto;
Oferece a estrutura funcional; Oferece os recursos necessários à
execução do projeto.
A POPULAÇÃO
Destinatários da animação; Beneficiários do projeto;
Grupo cujas características justifi- cam o projeto.
TRIÂNGULO CON- TRATUAL DA ANI-
84 professores, podem dar um grande contributo na deteção de problemas de integra- ção/exclusão, consumos perigosos, ou comportamentos desviantes.
Desde há algumas décadas, fala-se muito em comunidade educativa, com a qual se pretende
“assegurar a participação de todos os intervenientes no processo educativo, nome- adamente dos professores, dos alunos, das famílias, das autarquias e de entidades representativas das atividades e instituições económicas, sociais, culturais e cientí- ficas, tendo em conta as caraterísticas específicas dos vários níveis e tipologias de educação e de ensino”27
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Esta comunidade rege-se por direitos e deveres, consagrados no Regulamento Inter- no de cada escola ou agrupamento de escolas, dos quais se podem destacar alguns, atendendo à sua pertinência para este estudo e apresentados no quadro seguinte (com adaptação da auto- ra):
Direitos da comunidade educativa Deveres da comunidade educativa Colaborar no âmbito das suas funções, em
todas as iniciativas de caráter cultural e recreati- vo, ou quaisquer outras, que tenham como fim a valorização do indivíduo enquanto elemento da escola ou elemento do meio em que está inserido; Colaborar em campanhas levadas a efeito pela escola, no sentido da valorização do Homem no seu todo;
Expressar livremente a sua opinião, reco- nhecendo aos outros o direito de se expressarem também livremente.
Fomentar na Escola o convívio saudá- vel, sendo correto no relacionamento com os demais elementos da comunidade escolar; Procurar valorizar-se e contribuir para o desenvolvimento moral e intelectual dos restantes membros da escola.
Quadro 2.- Direitos e deveres da comunidade educativa (do Agrupamento de Escolas Nadir Afonso, de Cha- ves, consultado em 2012, junho)
A participação da família e dos restantes elementos da comunidade na vida das esco- las demonstra o papel importante que a família, a comunidade e a escola têm no contributo para o sucesso das crianças, tanto na escola como na vida. Enquanto parceiros, todos podem
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85 contribuir com os seus pontos fortes, competências, perspetivas e conhecimento para o pro- gresso do processo educativo e todos devem ser bem acolhidos, integrados e as suas contri- buições respeitadas. No entanto, a presença de todos estes elementos traz para a escola, a par dos referidos pontos fortes, outros pontos menos positivos, como sejam os inúmeros proble- mas disciplinares e de anomalia social com que a escola se confronta no dia-a-dia. A cada dia a sociedade e a família descarregam na escola a responsabilidade de resolver situações que, por si só, não conseguem resolver: hoje a escola é chamada a prevenir a toxicodependência e outros consumos prejudiciais e comportamentos considerados desviantes; a formar para o empreendedorismo; a promover a educação ecológica; a motivar para a prevenção rodoviária, a transmitir princípios de educação sexual e hábitos de alimentação saudável; a combater e prevenir a violência; a transmitir valores socialmente relevantes, etc.
A escola é assim uma organização complexa que vive diariamente conflitos e dile- mas ainda mais complexos, fruto das vivências extraescola, como refere Grilo:
“para além da escola e da família, a comunidade é em todas as suas vertentes um factor que cada vez mais influencia e condiciona os comportamentos e atitudes de cada cidadão, sendo portanto essencial que a educação e formação que são minis- tradas tenham em conta esse enquadramento que, em muitos casos, é determinante para o modo como cada um actua no seio da sociedade a que pertence” (Grilo, 2010, 137).
A educação e formação dos jovens dependem de um conjunto de fatores muito vari- ados, relacionados com a sociedade em que se encontram inseridos. À escola é atribuída a responsabilidade de formar para a cidadania, não apenas numa perspetiva específica, mas, como afirma Grilo,
“num quadro muito alargado que integra: a) o ensino dos conhecimentos e saberes considerados essenciais; b) a aquisição de atitudes e comportamentos que habili- tem os jovens a enfrentar um mundo muito competitivo e em mudança; e, final- mente, c) o respeito e a prática dos valores como base para a formação de cidadãos livres, solidários e respeitadores da liberdade dos outros” (Grilo, 2010, 138).
Esta tão grande complexidade – quer a nível de situações, quer a nível de funções a desempenhar – poderá justificar a pertinência da figura do animador sociocultural no contex-
86 to escolar. Este profissional pode ajudar a resolver situações para as quais o professor não tem disponibilidade e/ou formação específica de que se possa socorrer para solucionar muitos desses conflitos ou simplesmente para colmatar muitas lacunas que a nova escola criou. Tra- balhando em cooperação com os restantes elementos da comunidade escolar, o animador conseguirá conhecer, criar e impulsionar movimentos culturais na comunidade, facilitando o desenvolvimento harmonioso da personalidade dos indivíduos. O animador poderá diagnosti- car problemas e necessidades da comunidade, discuti-los com o grupo, facilitando a comuni- cação e a aprendizagem do desenvolvimento autónomo individual e coletivo que vise o saber ser e o saber fazer. O animador poderá servir de intermediário entre a escola, a família e a comunidade, facilitando a intercomunicação e a intervenção saudável da cada um e de todos na vida escolar. Deste modo libertar-se-á o docente para funções mais pedagógicas, canali- zando a sua energia para o processo de ensino-aprendizagem dos alunos, tão necessário à formação académica dos jovens.