3.8.1 A MULTINACIONAL CULTURAL
3.9 O Brasil e as empresas
Do século XVI até o final do século XIX, a economia do Brasil se desenvolveu essencialmente ao redor da agricultura, fortemente dependente do trabalho escravo africano.
O café foi o produto que impulsionou a economia brasileira desde o início do século XIX até a década de 1930. Bonini e Silva (2000), em sua obra Breve
História da Economia Brasileira afirmam:
A empresa do café criou mercado doméstico para a indústria nascente, mas as importações em geral não foram reduzidas. Os pequenos industriais pediram ao governo o protecionismo alfandegário, argumentando que as importações prejudicavam a indústria local que estava nascendo.65
A Proclamação da República em 1889 trouxe, entretanto, uma mudança a esse cenário. Os estados, integrando uma federação, passaram a ter mais autonomia do que as antigas províncias. Os cafeicultores, com sua força econômica e política, passaram a pressionar o governo para que os lucros da empresa do café ficassem a salvo das eventuais oscilações de preço do mercado internacional.
Nos 60 anos da era republicana, o Brasil ainda viveria sob a influência de tais forças. Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que se seguiram, a industrialização do país aumentou consideravelmente; muitas delas eram subsidiárias das matrizes estrangeiras e realizavam apenas a montagem de peças que eram produzidas no exterior e, naturalmente, tinham de ser importadas.
Nas décadas de 1930 e 1940, surgiriam leis voltadas para a regulamentação do mercado de trabalho. As medidas protecionistas e os investimentos em infraestrutura ajudavam a impulsionar o crescimento da indústria nacional, mas seu desenvolvimento ainda ocorria apenas nas grandes cidades do sudeste do país, fator que acabava gerando uma grande diferença entre as diversas regiões brasileiras.
O final da Segunda Guerra Mundial (1935-1945) traria uma nova circunstância: os países europeus tinham suas indústrias em pleno colapso e precisavam importar produtos industrializados de outros países. O Brasil, aproveitando-se desse fato, passou a vender seus produtos manufaturados a esses países, o que fez com que, já no final da Guerra, houvesse um grande número de indústrias com capital e tecnologia nacionais (cf. a indústria de autopeças).
Na década de 1940, a indústria de bens de consumo, que tinha papel predominante, cede lugar a outras indústrias e outras modalidades de produtos. Desenvolviam-se as indústrias metalúrgicas, siderúrgicas e aquelas ligadas ao
setor de minerais; consideradas importantíssimas para a economia nacional, elas faziam uso de uma tecnologia mais sofisticada e iam ao encontro das necessidades de um país que tentava dar seus passos rumo ao desenvolvimento. O desenvolvimento industrial ocorria em grande parte, entretanto, graças ao capital estrangeiro atraído por incentivos cambiais e benefícios tarifários e fiscais oferecidos pelo governo. A internacionalização da economia brasileira acontecia, então, dentro de um quadro maior de transformações.
Uma nova proposta de economia seria implantada. A política do “desenvolvimentismo”, como era chamada, iria prevalecer nos anos 1950 (no segundo mandato de Getulio Vargas), continuaria com ênfase especial no governo de Juscelino Kubitschek e chegaria até o período do governo militar, que teve início em 1964.
Durante o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1960), o desenvolvimento industrial brasileiro ganhou novos rumos e feições. JK abriu a economia para o capital internacional, atraindo indústrias multinacionais. Foi durante este período que ocorreu a instalação de montadoras de veículos internacionais (Ford, General Motors, Volkswagen e Willys) em território brasileiro .66
A criação da Petrobras em 1953 traria o desenvolvimento de indústrias manufatureiras de derivados de petróleo (borracha sintética, produtos plásticos, adubos, tintas etc.), ampliando as possibilidades de um parque industrial em plena ebulição.
O Brasil passava a vivenciar, nesse período uma situação inusitada. A par com pequenos negócios, firmas tipicamente familiares e empresas nacionais de estruturas conservadoras, surgiam grandes organizações com novas formas de administrar e realizar negócios. As multinacionais, com seus altos dirigentes em suas matrizes, administradas localmente por gerentes estrangeiros altamente qualificados, ocupavam espaços nas áreas urbanas e modificavam estruturas não apenas econômicas, mas também sociais e culturais.
Entre 1969 e 1973, o Brasil viveria o chamado “milagre econômico”. No lugar de produtos importados, havia no país investimento direto; produzia-se uma grande variedade de produtos, estimulava-se o consumo. Era um momento de enorme euforia nacionalista, mas a presença estrangeira na economia nacional tinha papel predominante em uma diversificação verdadeiramente inédita na história brasileira.
... um crescimento acelerado da indústria gerou empregos não- qualificados e ampliou a concentração de renda. Em paralelo, na política, o regime militar endureceu e a repressão à oposição (tanto institucional quanto revolucionária/subversiva) viveu o seu auge. A industrialização, no entanto, continuou concentrada no eixo Rio-São Paulo e atraiu para esta
região uma imigração em massa das regiões mais pobres do país, principalmente o Sertão Nordestino. 67
O Estado supervisionava as relações econômicas que se estabeleciam no país: controlava os movimentos de desenvolvimento industrial e de diversificação de produção, e assumia sob seu controle “alguns empreendimentos, como a produção de energia elétrica, do aço, indústria petroquímica, abertura de rodovias e outros, assegurando para a iniciativa privada as condições de expansão ou crescimento de seus negócios”. (SILVA, 2009).
Nas décadas de 1970, 1980 e 1990, a economia do país continuou a se expandir, embora com alguns momentos de estagnação. Da Crise do Petróleo até o início dos anos 1990, haveria vários períodos de grande instabilidade monetária e de recessão; a economia ficaria muitas vezes à deriva, com altíssimos índices de inflação (hiperinflação), arrocho salarial, crescimento da dívida externa e crescimento medíocre.
Depois de vários planos de combate à inflação (14), e principalmente depois do ajuste do último plano (Plano Real 1994-2000), fatores como a abertura da economia, o acerto de contas públicas, a adoção de medidas políticas e jurídicas de apoio aos empreendimentos econômicos, a entrada de capital estrangeiro provocada pelas privatizações de empresas estatais, e a estabilidade de regras na forma de conduzir a economia (governos de Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva) conduziram o país à aceleração do ritmo de crescimento e fizeram com que os investimentos no Brasil, investimentos de capital de risco, se transformassem em um negócio atraente.
Integrando-se cada vez mais no mercado internacional do sistema financeiro, o mercado financeiro brasileiro passou a expandir suas ações e a atuar de forma
positiva para além de suas fronteiras. “Com a auto-suficiência no setor de petróleo, que minimizou o problema da dependência do setor industrial em relação ao mesmo, só falta ao Brasil enfrentar um desafio atual, cada vez mais imposto pelo mundo globalizado: a geração de tecnologia de ponta nacional.” (MINA, 2010). 68
Com a crise global que se iniciou em 2008, o ranking das maiores economias passou a ter outra configuração. A respeito da posição do Brasil no ranking mundial, Chade e Dantas (2010), no artigo “Crise consolida Brasil como 8ª economia mundial”, afirmam:
No Brasil, a crise internacional foi compensada pelo mercado doméstico em expansão, crédito e consumo. (...) Para o economista Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating e organizador de dados para o FMI, hoje a realidade é diferente, pois, mesmo com o câmbio relativamente valorizado, o país está em um nível de abertura comercial e competitividade muito maior que no passado. "Isso são fatores que reforçam a solidez da economia brasileira nos dias de hoje, o que fica demonstrado, até mesmo pela forma como superou com louvor a crise mundial", acrescenta.69
Em outras palavras: o Brasil mudou, mudou sua economia, mudaram os valores e as condições reais em que uma empresa funciona. Em meio a todo esse turbilhão e às crises que se sucedem, os executivos brasileiros são cada vez mais exigidos para encontrar fórmulas de gestão que possam proteger as empresas que dirigem e implementar políticas seguras de crescimento e desenvolvimento. Há competição acirrada interna e externa, premência de alcançar as altas taxas de rentabilidade requeridas pelos acionistas e exigência em matéria de qualidade, eficiência, produtividade, satisfação de clientes e fornecedores, criatividade, lançamento de novos produtos e serviços.
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Disponível em: <http://www.carlosmina.com.br/revolucao-industrial>. Acesso em: 15 nov.2010
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Como Maria Amália Bernardi, antiga editora da Revista Exame, afirma em seu livro “Melhor Empresa”:
Com a abertura da economia, as empresas que operam no Brasil deixaram de ser protegidas pelo governo, passaram a enfrentar a concorrência internacional e sentiram também a emergência de competidores nacionais. Surgiu, cada vez com mais força, o fenômeno da consciência do consumidor e da necessidade de dar prioridade à satisfação do cliente. Preço competitivo, qualidade dos produtos e serviços e bom atendimento passaram a ser fatores decisivos para o bom desempenho das empresas. Novas tecnologias não param de surgir, tanto em termos de produto como em termos de processos, e obrigam as companhias a trabalhar de maneira muito mais dura para não se tornarem rapidamente obsoletas. (BERNARDI, 2003, p. 24)
Exige-se, por isso e cada vez mais, os melhores retornos para o capital investido, uma margem de segurança maior, uma melhor atuação financeira para a Companhia no Brasil.
No Brasil e em todos os países do mundo a Companhia se instaura e se desenvolve com seus quadros de referência, seus sistemas de regras e de ideais. Não é possível, entretanto compreender a história da sociedade, em particular dessa instituição, e dos sujeitos individuais se não considerarmos os conflitos, as controvérsias e contradições que perpassam essa relação, se não considerarmos os movimentos de uma estruturação também recíproca, continuadamente recursiva.
O capítulo “Narciso – O Homem Da Companhia” procura estabelecer o contraponto dessa relação; constitui uma reflexão que se volta essencialmente para o sujeito – um ser de relação, de comunicação conflitual com o outro, inserido em um sistema cultural de significações, de transformações e, na contemporaneidade, em um novo ambiente de trabalho.