AS TEORIAS DO DESENVOLVIMENTO E A SUA INFLUÊNCIA NA ORIGEM E EVOLUÇÃO DO
4. As teorias contextualistas e a prática actual da Intervenção Precoce
4.2. Do contextualismo às teorias desenvolvimentais sistémicas
4.2.2. O contributo de Sameroff e do seu modelo transaccional
Sameroff (1975; Sameroff & Chandler, 1975), vem propor um modelo, que designa como transaccional, chamando a atenção para a inadequação de propostas teóricas que pretendem explicar o desenvolvimento partindo de explicações causais assentes em factores considerados isoladamente, sejam de ordem biológica ou ambiental.
Sameroff (1975), refere os resultados de diferentes pesquisas levadas a cabo por Graham, et al. (1962), Corah et al. (1965), Gottfied (1973), Parmelee e Haber (1976), Parmelee e Michaelis (1971) e Werner, Bierman e Frensh (1971) incidindo no estudo da influência do risco biológico ou ambiental, considerados isoladamente, sobre o posterior desenvolvimento da criança, para concluir que: (i) o nível de competências da criança num dado momento do seu desenvolvimento inicial, não está linearmente relacionado com o nível competências que demonstra mais tarde; (ii) para se poderem fazer previsões em termos de desenvolvimento há que adicionar os efeitos do meio social e familiar da criança, que actuam no sentido de promover ou inibir o seu desenvolvimento.
Assim, em contraponto ao constructo, então muito em voga, de continuum de
morbilidade reprodutiva (continuum of reproductive casualty) de Pasamanick e
Knobloch (1964), já anteriormente referido, Sameroff e Chandler (1975) apresentam o conceito de continuum de morbilidade de prestação de cuidados (continuum of
caretaking casualty), que visa incorporar os efeitos transaccionais dos factores
familiares e do contexto social no desenvolvimento da criança. De acordo com este conceito, embora se aceitem os possíveis efeitos negativos iniciais da morbilidade reprodutiva, os resultados finais resultarão do tipo de cuidados prestados pelo contexto social em que a criança está inserida. Num dos extremos do continuum, um meio ambiente acolhedor e estimulante será capaz de eliminar os efeitos de complicações iniciais, enquanto que no outro extremo, um meio ambiente alterado e pouco estimulante poderá potencializar essas complicações.
Sameroff (1983, 1995; Sameroff & Chandler, 1975; Sameroff & Fiese, 1990, 2000) vem propor um modelo inovador, pela ênfase igual que põe nos efeitos da criança e do meio, o Modelo Transaccional, em que o desenvolvimento é considerado como um processo que se vai construindo através das interacções contínuas, dinâmicas e bidireccionais entre a criança e as experiências que lhe são proporcionadas pela
família e pelo seu contexto social. Nesta perspectiva, as situações de risco biológico ou social, susceptíveis de afectar o desenvolvimento durante os primeiros anos de vida, podem ser atenuadas ou potencializadas, respectivamente, por condições do meio, favoráveis ou desfavoráveis.
Na elaboração deste modelo, Sameroff (1983, 1995) vai recorrer aos paradigmas de Pepper (1942, cit. Altman & Rogoff, 1987) e à teoria geral dos sistemas (von Bertalanffy, 1968). Da mesma forma que acontece com Lerner, tal como foi referido anteriormente, também Sameroff vai considerar que nenhum paradigma por si só pode conduzir à teorização de um conceito adequado de desenvolvimento. Em sua opinião, o formismo nega o desenvolvimento, o mecanicismo é reduccionista, o organicismo não valoriza a organização do meio nem as trocas dialécticas organismo-meio e o contextualismo é demasiado complexo, assim a solução estará numa interpenetração de paradigmas. Combina o mecanicismo e o organicismo, que considera aqueles que são mais apropriados para a compreensão do desenvolvimento, e junta-lhes o contextualismo devido à forma como este destaca as múltiplas influências do meio, o que tornando-se confuso e arbitrário quando considerado isoladamente, é enriquecedor quando em combinação com os outros dois. O quadro conceptual a que recorre para a combinação dos vários paradigmas é o da teoria geral dos sistemas (von Bertalanffy, 1968), com realce para os conceitos de sistema aberto e de sistema
fechado e para as quatro propriedades dos sistemas propostas por Laszlo1 (1972, cit. Sameroff, 1983) a que acrescenta uma quinta o movimento dialéctico, conceitos que já explicitámos num outro texto, pelo que não nos deteremos mais neles aqui (Tegethof, 1996).
Há, portanto em Sameroff uma clara inspiração sistémica, que é ainda analítica na forma de tratar a criança, a família e os sistemas sociais como unidades independentes que estabelecem padrões complexos de interacções e de influências mútuas. Ao frisar o carácter recíproco e bi-direccional das influências entre a criança e o meio na construção do desenvolvimento, distingue-se, como se pode ver na figura 1 das perspectivas interaccionistas que, embora tenham em conta as influências da criança e do meio as consideram separadamente em categorias discretas, sem reconhecer a sua interpenetração.
M1 M2 M3 M4
C1 C2 C3 C4
M1 M2 M3 M4
C1 C2 C3 C4
Figura 1. Modelos interaccionista e transaccional do desenvolvimento (Adaptado de Sameroff, 1995)
Sameroff (1995; Sameroff & Fiese, 1990, 2000) apresenta um exemplo, para facilitar a compreensão do processo de interacções contínuas e bidireccionais entre o indivíduo e o meio, que conduzem ao desenvolvimento.
Nesse exemplo, que apresentamos na figura 2, ele mostra como o facto de uma criança ter complicações à nascença pode aumentar os níveis de ansiedade da mãe, que se traduz numa interacção com o bebé tensa e insegura, tornando-o um bebé com temperamento difícil (padrões de sono e alimentação irregulares, choro contínuo...), o que vai provocar um certo evitamento da mãe que tem menos prazer na interacção e se sente cada vez mais insegura, podendo este processo culminar num ligeiro atraso de linguagem na criança.
O
modelo transaccional proposto por Sameroff está, segundo o autor (1995; Sameroff & Fiese, 1990, 1992, 2000), embebido num sistema regulador que é característico de todo o processo desenvolvimental. É fundamental perceber como funciona este sistema regulador, já que a partir dele se poderá desenvolver um conjunto de estratégias de intervenção eficazes, teoricamente fundamentadas, que aumentam a possibilidade de levar as crianças a atingir melhores resultados. Neste sentido, é essencial entender exactamente quais os componentes deste processo, de que forma é que cada um contribui para ele e como se efectuam as transacções entre estes componentes. Este sistema regulador, que integra a criança e o contexto num modelo de desenvolvimento coerente, compreende três níveis ou sistemas reguladores, que
M Ã E C R I A N Ç A C O M P L I C A - Ç Õ E S À N A S - C E N Ç A T E M P E R A M E N - T O D I F Í C I L L I G E IR O A T R A S O D E L I N G U A G E M A N S I E D A D E E V I T A M E N T O T E M P O t1 t2 t3 F i g u r a 2 . E x e m p l o d e c o m o o p r o c e s s o t r a n s a c c i o n a l p o d e c o n d u z i r a u m p r o b l e m a d e d e s e n v o l v i m e n t o ( A d a p t a d o d e S a m e r o f f, 1 9 9 5 )
estão representados na figura 3: o mesotipo, o fenotipo e o genotipo. O fenotipo representa a criança ou o indivíduo, com as suas características próprias e em mudança constante ao longo do processo de desenvolvimento. O genotipo corresponde ao nível de organização biológico que regula o desenvolvimento físico do indivíduo. O mesotipo, conceito desenvolvido por Sameroff em contraponto ao anterior, corresponde ao nível de organização social que regula a forma como o indivíduo se ajusta à sociedade e que se operacionaliza através dos padrões de socialização familiares e culturais. Em cada momento, o comportamento da criança resulta das transacções entre o fenotipo, o mesotipo e o genotipo.
Segundo Sameroff (1995; Sameroff & Fiese, 1990, 1992, 2000), o mesotipo engloba vários sub-sistemas que estabelecem um conjunto de transacções recíprocas com a criança e entre si. Sameroff destaca a contribuição de Bronfenbrenner (1979) e da organização do sistema ecológico por ele proposto, que teremos ocasião de analisar em seguida, para referir que no seu modelo se restringirá à discussão dos níveis de factores ambientais respeitantes à cultura, à família e aos pais.
Assim, a um nível macro refere-se aos códigos culturais (conjunto de costumes e normas relativos à educação das crianças numa determinada sociedade), a nível da família menciona o código familiar (conjunto de códigos que permite a um conjunto de indivíduos formar uma identidade colectiva distinta do conjunto da sociedade e que se estende através das gerações), e, finalmente, refere o código individual dos pais (interpretação individual que cada figura paterna faz dos códigos sociais e familiares). Ainda no que diz respeito ao código familiar, Sameroff considera que este integra,
rituais (que definem papéis e ditam a conduta nos cenários familiares), histórias (que
transmitem orientações e preservam acontecimentos importantes a transmitir de geração em geração), mitos (que influenciam as interacções individuais e salientam
M E S O T IP O M1 M2 M3 F1 F2 F3 F E N O T IP O G E N O T IP O G1 G2 G3 F ig u ra 3 . M o d e lo tra n s a c c io n a l d o d e s e n v o lv im e n to in te g ra n d o o s s is te m a s re g u la d o re s a m b ie n ta l, g e n é tic o e in d iv id u a l. (A d a p ta d o d e S a m e ro ff, 1 9 9 5 )
aspectos das histórias familiares) e paradigmas (que mudam o comportamento individual quando em presença de outros membros da família).
Mais recentemente Sameroff (Sameroff & Fiese, 2000), vai referir-se ao código familiar enquanto um conjunto de valores e crenças que podem ser observados através do estudo das práticas e das representações familiares. A forma como os modelos das relações desenvolvidas no contexto familiar são memorizados e guiam o comportamento individual ao longo do tempo, constituem as representações
familiares, que proporcionam um sentimento de estabilidade e podem ser analisadas
através das histórias familiares. Por sua vez, as interacções observáveis entre os membros da família, constituem as práticas familiares. Estes padrões são repetitivos e proporcionam um sentimento de coerência e de identidade, e podem ser analisados a partir dos rituais.
A constituição do mesotipo, ou seja, a constituição do contexto social em que a criança se desenvolve, que acabámos de analisar, é fundamental para compreendermos a forma como o desenvolvimento se processa e, consequentemente desenharmos programas de intervenção, quando necessário. Uma vez na posse deste conhecimento, Sameroff (1995; Sameroff & Fiese, 1990, 1992, 2000) considera que é necessário dar mais um passo em frente no sentido de identificar aquilo que ele designa como os pontos nodais em que as estratégias de intervenção podem incidir, e que se encontram nos interfaces entre a criança, a família e os sistemas culturais, nomeadamente quando ocorrem as regulações desenvolvimentais. Estas dividem-se em três categorias:
· Macrorregulações: dizem respeito a mudanças importantes na experiência que se prolongam ao longo do tempo (ex.: entrada no jardim de infância). São as que proporcionam as condições básicas para a socialização em cada cultura e, a nível do mesotipo, estão ligadas ao código cultural.
· Minirregulações: dizem respeito a actividades diárias de prestação de cuidados, como a alimentação, o vestir, a toilette. A nível do mesotipo, estão ligadas ao código familiar.
· Microrregulações: dizem respeito a interacções momentâneas entre a criança e o prestador de cuidados, como por exemplo padrões de interacção que aumentam ou diminuem comportamentos inadequados na criança. A nível do mesotipo, estão ligadas ao código individual dos pais.
À medida que o desenvolvimento ocorre, a criança vai evoluindo ao longo de um continuum, que parte de um polo inicial em que predomina a regulação do outro,
exercida pelo exterior, para chegar a um polo em que predomina a auto-regulação. Na figura 4, procurámos tornar mais explícita a forma como opera este sistema regulador, integrando, no modelo proposto por Sameroff, e que apresentámos na figura 3, as características do mesotipo e os pontos nodais em que operam as regulações, através das interacções criança-meio.
Em termos de intervenção precoce, o modelo transaccional tem implicações a nível da identificação de objectivos e estratégias de intervenção. Especialmente no desenho da intervenção, é importante analisar cuidadosamente o sistema regulador para perceber onde incidir exactamente a fim de a tornar mais eficaz. Observando os seus pontos fracos e fortes podem identificar-se objectivos que podem minimizar a intervenção aumentando em simultâneo a sua eficácia. O modelo proposto por Sameroff separa conceptualmente o efeito elicitado pela criança, a interpretação que os pais dele fazem e a resposta que dão. Assim, ele identifica três categorias de intervenção, consoante baste, uma alteração no comportamento da criança, nas percepções dos pais relativamente à criança ou uma adequação das competências dos pais, para repor uma boa regulação no sistema desenvolvimental (Sameroff, 1995; Sameroff & Fiese, 1990, 2000; Sameroff & MacKenzie, 2003). São as seguintes as categorias de intervenção, que estão esquematizadas na figura 5, e a que chamou os 3 Rs da intervenção:
MESOTIPO MESOTIPO
Nível de organização social
Padrões de culturais socialização Padrões familiares de socialização
Códigos Culturais Código Familiar Código Individual 8Rituais 8 Histórias dos Pais 8 Mitos 8Paradigmas