2. RACIONALIDADE E CORREÇÃO DAS DECISÕES JURÍDICAS NA
2.6 O Direito como Integridade e a Comunidade de princípios
Estudaremos agora a concepção proposta por Ronald Dworkin ao desenvolvimento do conceito do direito.
Dworkin propõe uma teoria preocupada não em descrever, em uma atitude sociológica externa, as regras emanadas de instituições específicas de dada sociedade, mas sim construir uma fundamentação que propicie a na sua interpretação representa a maneira mais adequada de solucionar problemas práticos da vida jurídica. Para ele esta teoria seria o direito como integridade.
Busca Dworkin uma teoria do direito que conduza a uma teoria da verdade das proposições jurídicas, de modo a propiciar decisões judiciais racionais e coerentes com os princípios de moralidade política que fundamentam o direito e a legitimidade daquele Estado. O direito é visto como um conceito interpretativo que deve ser posto em sua melhor luz. Tendo por base à justificação da coerção estatal, sua teoria deve voltar-se a maneira que Dworkin vê mais adequada a legitimar o poder político de um Estado.
Como dissemos, as teorias interpretativas de cada juiz e as teorias de moralidade política que a estas subjazem influem, quer tenham consciência ou não, na maneira como decidirão. Os conflitos interpretativos ao contrário de se constituírem em divergências semânticas textuais da legislação, são, na verdade, muitas vezes, problemas teórico- filosóficos. Trazer à luz estes problemas, permite-nos aferir as bases de racionalidade.
Dworkin visualizará o fenômeno jurídico, enquanto empreendimento prático, como uma prática argumentativa. Não postulará, todavia, uma atitude cético-pragmática.
Sua teoria quer tornar exposta a teia argumentativa existente na visualização da esfera prática do empreendimento jurídico realizado perante os tribunais e nas discussões acerca casos jurídicos e propor uma teoria que conduza esta teia a adstrição do intérprete às preocupações de moralidade política inerentes a legitimidade da decisão. Trata-se de uma proposta de uma ótica do insider.
O autor busca uma proposta de conciliação entre o respeito pelo passado, com a segurança que deste provém, e uma atitude reflexiva para com o futuro. Dessa conciliação chegará a sua hipótese política. Para ele, a análise em plano abstrato das teorias normativas
prévias às interpretações permitiria, inclusive, o encontro da resposta mais correta e mais racional em termos práticos. Chegará a uma integração entre a teoria do direito e uma teoria da justiça e de direitos individuais. Daí a sua controversa teoria das respostas corretas a decisões judiciais.
O direito não seria esgotado em um catálogo de normas institucionais, mas seria sim uma atitude interpretativa e argumentativa, da qual resulta em proposições jurídicas aferidas não apenas de normas institucionais explícitas, estabelecidas por decisões políticas tomadas no passado, mas também por padrões argumentativos (razões de princípio) que decorram da coerência de princípios que essas decisões pretéritas pressupõem.
A sua teoria imporá a todo cidadão uma atitude interpretativa e auto reflexiva, dirigida à política no mais amplo sentido, exigindo de todos a aferição de quais são os compromissos públicos de sua comunidade com os princípios, e o que esses compromissos demandam em cada nova circunstância concreta, de modo a seguir-se uma atitude jurídica construtiva.
Sua teoria será afeta à moralidade política, problema este que subjaz a prática do direito.
Dworkin, aliás, criticará qualquer proposta teórica voltada a eliminação de questões relacionadas aos princípios morais e à política, as quais formam o núcleo racional do fenômeno jurídico.
A coerência de princípios é um ideal, por suposto, mas que produzirá resultados práticos mais adequados, à luz de Dworkin, do que os propiciados pela metodologia convencionalista.
A ideia de coerência de princípios vem sendo trabalhada por outros teóricos. Citamos, por exemplo, Neil MacCormick que parte de uma teoria do direito de inspiração hartiana, mas menciona a coerência como centralidade da reflexão da aplicação normativa.
A integridade permitiria, para Dworkin, a extração do melhor sentido das práticas jurídicas existentes e resultaria em uma teoria argumentativa cuja verdade das proposições seriam encontradas na melhor interpretação moral dessas práticas. A teoria do direito como integridade propiciaria, na concepção do autor, o encontro de respostas objetivas para dilemas jurídicos e de moralidade política.
Dworkin propõe que uma comunidade ao ter consagrado um sistema de direitos e deveres diferentes, consagrou também uma coerência de conjunto, do qual resulta em situações concretas mandamentos comportamentais oriundos de justificativas e razões nascidas da série coerente de diferentes princípios de justiça, equidade ou devido processo legal. Essa coerência originará a integridade a ser aferida segundo a hipótese política que ao
intérprete melhor justifique a prática e a ser perseguida enquanto ideal político principalmente por nossos legisladores, administradores e juízes, cabendo a estes últimos a aferição do cumprimento desta integridade. Não apenas as autoridades individualmente consideradas, mas a comunidade como um todo deva atuar de acordo com princípios91.
O compromisso com a integridade demanda de nossos magistrados a realização de uma análise criteriosa e séria de qual decisão se ajusta melhor ao direito e aos princípios que racionalmente, em uma aferição interpretativa, estão afetos à nossa comunidade política. Esses princípios seriam padrões argumentativos que representam exigências de justiça, ou de outras esferas da moralidade, aferidas como comprometimentos de nossa comunidade e sustentáculos de nosso direito.
Como já dito em item anterior, para Dworkin, o direito como integridade seria a concepção que em melhor luz coloca o problema da legitimidade política e, via de consequência, a obrigação política do indivíduo.
Dworkin apresenta o problema da legitimidade em prol de sua defesa da concepção do direito como integridade, de modo argumentar que ela configuraria a melhor interpretação construtiva das práticas jurídicas e, mais especificamente, da resolução pelos juízes de casos difíceis, por ser esta a concepção que melhor conduziria a um direito legítimo92.
O direito como integridade levaria, portanto, à comunidade de princípios, substrato da moralidade política do Estado. Deve o Estado tratar os seus cidadãos conforme a integridade de princípios, pois assim cumprindo estaria o princípio da igual consideração e respeito e agindo de forma legítima.
Agora podemos compreender o que significa a afirmação comumente difundida de ser a teoria de Dworkin o resultado de uma teoria do direito, de uma teoria da argumentação e de uma teoria da justiça, todas conjugadas para propiciar os resultados argumentativos do autor93. Apenas, assim, podemos compreender a complexidade da defesa do filósofo ao
91Nesse sentido, ver Dworkin: “ A integridade, porém, é escarnecida não apenas em concessões específicas
desse tipo – o autor faz referência a uma previsão existente na Constituição dos Estados Unidos regia a
escravidão segundo a previsão de que a partir de um determinado ano não poderia ocorrer limitação do poder
estatal de importar escravos -mas sempre que uma comunidade estabelece e aplica direitos diferentes, cada um
dos quais coerentes em si mesmo, mas que não podem ser defendidos em conjunto como expressão de uma serie coerente de diferentes princípios de justiça, equidade e devido processo legal. Sabemos que nossa própria estrutura jurídica constantemente viola a integridade dessa maneira menos dramática. Não podemos reunir todas as regras da legislação e do direito consuetudinário que nossos juízes aplicam sob um sistema de princípios único e coerente. (...)Não obstante, aceitamos a integridade como ideal político. Faz parte de nossa moral política coletiva que tais soluções conciliatórias sejam equívocos, e que a comunidade como um todo, e não apenas as autoridades individualmente consideradas, deva atuar de acordo com princípios.”(DWORKIN, Ronald. O
Império do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 224).
92 DWORKIN, Ronald. O império do direito. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p 260.
atrelamento da veracidade de uma proposição jurídica a argumentos jurídicos que conduzam a melhor interpretação moral das práticas em vigor na comunidade.
Como menciona Dworkin, uma comunidade para ser legítima deve reger-se não apenas em regras, mas também de argumentos de princípios. Na concepção desse autor, esses princípios não necessitam ser expressos na legislação, mas decorrem de intelecções das decisões jurídicas do passado e intepretações do empreendimento argumentativo do direito, em conjunto com a teoria de moralidade política, apta na ótica do intérprete a colocar o direito em sua melhor luz, aferida do conjunto da história institucional.
Esses padrões argumentativos decorrentes de intelecções argumentativas (argumentos de princípios em sentido amplo) abrangeriam duas espécies: as políticas e os princípios propriamente ditos.
Segundo Dworkin, política configura uma espécie de padrão argumentativo que estabelece um objetivo a ser alcançado, em geral, uma melhoria em algum aspecto econômico, político ou social da comunidade. Princípio é um padrão argumentativo que é visto como merecedor de obediência não porque conduza à promoção de um benefício econômico, político ou social considerado desejável à comunidade, mas por ser uma exigência de justiça ou de equidade ou alguma outra dimensão da moralidade94. Os segundos possuem primazia face às políticas.
Uma comunidade de princípios se ajustaria à integridade, a qual, segundo o autor, conduziria à obrigação da comunidade de respeitar princípios necessários à justificativa do direito. A integridade atribui a todos os membros, mas principalmente às autoridades estatais a responsabilidade de aferir os compromissos públicos de sua comunidade política, vista também como comunidade fraternal, atenta que deve estar esta comunidade à igual consideração e respeito aos membros e indivíduos sob seu território. Para Dworkin, através da integridade galga-se uma esfera protetiva mais sofisticada ao ser humano, através de uma atitude fraterna.
Nessa concepção, segundo Dworkin:
sustenta que argumentos jurídicos adequados repousam na melhor interpretação moral possível das práticas em vigor em uma determinada comunidade. A essa teoria da argumentação jurídica agrega-se uma teoria da justiça, segundo a qual todos os juízos a respeito de direitos e políticas públicas devem basear-se na ideia de que todos os membros de uma comunidade são iguais enquanto seres humanos, independentemente de suas condições sociais e econômicas, ou de suas crenças e estilo de vida, e devem ser tratados, em todos os aspectos relevantes para seu desenvolvimento humano, com igual consideração e respeito.” ( DWORKIN, Ronald. Levando os
direitos a sério. São Paulo: Martins Fontes, 2010, contra capa).
O modelo de princípios insiste que as pessoas são membros de uma comunidade política genuína apenas quando aceitam que seus destinos estão fortemente ligados: aceitam que são governadas por princípios comuns, e não apenas por regras criadas por acordos políticos. (...) Os membros de uma sociedade de princípios admitem que seus direitos e deveres políticos não se esgotam nas decisões particulares tomadas por suas instituições políticas, mas dependem, em termos mais gerais, do sistema de princípios que essas decisões pressupõem e endossam. (...) Cada membro aceita que os outros têm direitos, e que ele tem deveres que decorrem desse sistema, ainda que estes nunca tenham sido formalmente identificados ou declarados (...) O modelo de princípios torna específicas as responsabilidades da cidadania: cada cidadão respeita os princípios do sentimento de equidade e de justiça da organização política vigente em sua comunidade particular. (DWORKIN, 2006, p. 258)
Temos, agora, subsídios para entender qual a resposta de Dworkin ao questionamento sobre o que é para ele o direito:
O que é o direito? Ofereço, agora, um tipo diferente de resposta. O direito não é esgotado por nenhum catálogo de regras ou princípios, cada qual com seu próprio domínio sobre uma diferente esfera de comportamentos. Tampouco por alguma lista de autoridades com seus poderes sobre parte de nossas vidas. O império do direito é definido pela atitude, não pelo território, o poder ou processo. Estudamos essa atitude principalmente em tribunais de apelação, onde ela está disposta para a inspeção, mas deve ser onipresente em nossas vidas comuns se for para servir-nos bem, inclusive nos tribunais. É uma atitude interpretativa e auto reflexiva, dirigida à política no mais amplo sentido. É uma atitude contestadora que torna todo cidadão responsável por imaginar quais são os compromissos públicos de sua sociedade com os princípios, e o que tais compromissos exigem em cada nova circunstância. (...) A atitude do direito é construtiva: sua finalidade, no espírito interpretativo, é colocar o princípio acima da prática para mostrar o melhor caminho para um futuro melhor, mantendo-se a boa-fé com relação ao passado. É, por último, uma atitude fraterna, uma expressão de como somos unidos pela comunidade apesar de divididos por nossos projetos, interesses e convicções. Isto é, de qualquer forma, o que o direito representa para nós: para as pessoas que queremos ser e para a comunidade que pretendemos ter. (DWORKIN, 2006, p. 492)
Assim, construindo uma teoria do direito do ponto de vista interno de análise jurídica a partir das constatações oriundas da filosofia hermenêutica, Ronald Dworkin propõe uma visualização prática do direito apta a constituir os fundamentos que, em sua ótica, são os mais adequados à justificação da argumentação jurisdicional em casos difíceis, nos quais, há grandes questões valorativas em jogo e o conteúdo semântico de normas jurídicas encontram- se vagos ou literalmente contrários a princípios de moralidade política fundamentais à comunidade em questão. Na sua proposta, o direito, enquanto fundamento da prática concreta de perquirição de proposições jurídicas verdadeiras, é uma atitude interpretativa e auto reflexiva, dirigida à moralidade política, na qual as decisões institucionais do passado devem ser vistas em uma ótica construtiva. Todo o cidadão passa a ser responsável por perquirir quais são os compromissos públicos de sua sociedade com os princípios, e o que tais compromissos exigem em cada nova circunstância, embora, obviamente, apenas as decisões do poder público sejam passíveis de imperatividade, e as do Judiciário, de definitividade. No
centro do império do direito está o juiz que terá a competência de decidir quais as pretensões individuais e coletivas encontram-se embasadas na integridade de princípios, que este afere em uma dialética entre as decisões políticas do passado e uma teoria de moralidade política que melhor consagre o princípio da igual consideração e respeito e propicie legitimidade aos atos estatais.
Como no centro do império do direito dworkiano está o juiz, o qual deve ele zelar pela integridade de princípios que regem a comunidade, elaborará uma teoria de como um juiz ideal, intérprete-filósofo a quem dá o nome de Hercules, encontraria esta integridade de princípios.
No centro do império do direito dworkiano está o juiz. Deve ele zelar pela integridade de princípios que regem a comunidade.
Dworkin elaborará uma teoria de como um juiz ideal, intérprete-filósofo a quem dá o nome de Hercules, encontraria esta integridade de princípios.