• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 2 O VALOR DO TRABALHO COMO DIREITO HUMANO

2.3. O direito do trabalho como núcleo necessário à dignidade

Já se falou no capítulo I quanto ao valor do trabalho, não só para as sociedades como para os seus núcleos mais restritos como a família, e para o ser humano considerado em sua individualidade. O trabalho abarca quatro esferas de importância na vida do ser humano: a) a esfera da subsistência, já que é sabido que todo ser humano tem a necessidade primeira, que é intrínseca a sua constituição física, que é a de dispor dos meios para perpetuar a sua vida, meios como a alimentação, o abrigo das mudanças climáticas, a proteção contra outros animais e diversas outras necessidades que vão se complexificando na medida em que a própria sociedade e o ser humano também o vão; b) a esfera de autodeterminação da vida, pois é a partir do trabalho que o ser humano deixa de depender primordialmente dos sentidos e limites que a natureza lhe impõe, passando ser o autor do próprio destino, impondo aos objetos e a si próprio suas próprias finalidades; c) a esfera da sociabilidade, já que é através do trabalho a pessoa atua e modifica não só natureza como os demais, bem como estabelece relações entre a produção própria e a de outrem, numa colaboração mútua entre trabalho, produção, necessidade e desejos; d) a esfera de da auto-afirmação e auto-conhecimento, já que o processo de produção vai exigindo do ser que coloque o que há em si tanto no processo como no objeto e que aperfeiçoe o que há em si neste labor, numa verdadeira dialética de influências de criação e auto-criação.

Ainda quanto à questão da auto-imagem e do lugar na sociedade, várias são as pesquisas no campo da psicologia sobre a importância do trabalho e seus vários significados.

No âmbito internacional o grupo intituladoMeaning of Work International Research Team

(MOW) desenvolveu uma pesquisa em oito países buscando os sentidos do trabalho para os indivíduos. Sobre o resultado desta pesquisa afirma Morín, Tonelli e Piliopas:

Os resultados preliminares desta pesquisa indicam que, para a amostra pesquisada, o trabalho é essencial na vida das pessoas e que estas buscam, ao mesmo tempo, utilidade para suas atividades dentro das organizações e também para a sociedade. Além disso, conforme já apontado por outros estudiosos, os dados desta pesquisa indicam que valores como variedade na natureza das tarefas, aprendizagem, autonomia, reconhecimento, bem como a função de garantir a sobrevivência e segurança são fundamentais para que o trabalho tenha sentido. (MORÍN; TONELLI; PLIOPAS, 2007)

Estudos realizados no Brasil pelas autoras anteriormente citadas, seguindo a mesma metodologia do MOW, chegam às mesmas conclusões quanto à sua amostragem. Demonstrando a coerência entre a tese da importância e do valor do trabalho não só na economia, mas também na construção do ser e na sua interação com a sociedade vista em Marx, Lukács e Hegel. Independentemente da forma em que a organização produtiva, bem como a oferta de trabalho e a realização do consumo se apresentem hoje, ressalta aos olhos o papel do trabalho como atividade intrínseca à personalidade humana. Conforme afirma outro estudo com base nas pesquisas do MOW e de Morin, a maioria das pessoas demonstra que mesmo se tivessem condições materiais para viver toda a vida sem trabalhar, trabalhariam porque o trabalho não se apresenta apenas como forma de sustento, mas também como um meio de se relacionar com o outro, de se sentir parte integrante de um grupo ou da sociedade e de ter um objetivo a ser atingido na vida, uma ocupação (TOLFO; PICCININI, 2007)

O valor do trabalho para o ser humano e a sua imbricação com a dignidade também pode ser extraído de conceitos mais metafísicos, como a clássica tese kantiana. Para Kant, a grande diferença entre os seres humanos e os objetos é a de que só aqueles têm um fim em si mesmo, enquanto os objetos só têm as finalidades que lhes emprestam. Ao se conceber que é o trabalho o instrumento – o meio pelo qual o ser humano consegue imprimir na natureza, nos objetos e na sociedade suas finalidades – pode inferir-se o quão essencial a figura do trabalho se apresenta para o conceito clássico de dignidade humana.

O trabalho cobre uma ampla gama de aspectos condizente à pessoa e a sua dignidade e esta imbricação foi sendo exposta durante a história e as lutas sociais e reivindicações por melhores condições de vida. O tópico relativo à afirmação história dos direitos humanos e sociais demonstra as necessidades e degradações causadas pela ausência de acesso não só ao trabalho como às condições dignas deste e o quão presente nas reivindicações pelos direitos humanos o universo do labor esteve.

Nota-se que as reivindicações em relação ao trabalho não eram tão intensas antes do advento do capitalismo. Como visto, as sociedades pré-capitalistas tinham uma relação não mercantilizada com o labor, e o viam como meio necessário apenas para a criação de bens de consumo, não para a geração e multiplicação de valores que seriam lançados no mercado e acumulados. Havia uma relação de deveres e obrigações que dava sustentação às relações sociais fora à exploração direta do trabalho. É quando as relações de responsabilidades e deveres recíprocos entre os indivíduos são afrouxadas - não havendo mais nenhuma proteção

social e relegando-os à solidão e às regras do mercado. Como se o ser humano fosse também mais uma mercadoria - que as tensões recrudescem e o apelo aos direitos sociais começa a fazer sentido. Conforme assevera Esping-Andersen:

A introdução dos direitos sociais modernos, por sua vez, implica um afrouxamento do status de pura mercadoria. A desmercadorização ocorre quando a prestação de um serviço é vista como uma questão de direito ou quando uma pessoa pode manter- se sem depender do mercado. (ESPING-ANDERSEN, 1991, p.102)

Os direitos sociais trabalhistas surgem como reivindicação necessária quando o trabalho, que antes era meio de subsistência, expressão, e auto-criação passa a ser um instrumento direto e intensificado de exploração humana. Com o capitalismo, o trabalho passa a reificar as pessoas, retirando a identificação destas com sua obra e suas finalidades, e submetendo-as a jornadas e processos maquinais sob a ameaça da fome e da completa exclusão social. O capitalismo inverte a finalidade da produção e das atividades, que sempre foram as necessidades ou desejos humanos, e torna o ser humano meio para alcançar a simples reprodução dos objetos e dos lucros, desvinculados de qualquer necessidade ou finalidade humana. É o capitalismo que cria as condições para o surgimento dos direitos sociais do trabalhador. Como coloca José Damião de Lima Trindade, nenhum direito é mais essencial do que estes direitos sociais em um contexto de um modo de produção cuja única lógica é o aumento de lucros que demonstra se dar em detrimento da degradação humana. “Hegel já denunciara que quem se encontra em carência aguda de meios de subsistência está em condição de “total falta de direitos”, numa posição que, de fato, pouca distância guarda da falta de liberdade dos escravos.” (TRINDADE, 2002, p. 131-132).

A lógica do capitalismo não se sustenta na valorização das pessoas, mas sim no aumento do lucro através da exploração humana a qual se intensifica e se refina na medida em que surgem novas tecnologias e formas de organização do trabalho. O Histórico sobre o surgimento do direito do trabalho demonstra que este se dá em um contexto em que o sistema posto se baseia na exploração dos obreiros e que estes se usam das suas lutas para institucionalizar suas reivindicações em prol de alcançar não só patamares dignos de vida, bem como reconhecimento de dignidade no sistema e sociedade capitalistas, não apenas um mínimo vital, Como aponta Jorge Luiz Souto Maior, o direito do trabalho possibilita aos trabalhadores um campo de ação para adquirirem status social, e se torna assim um importante fator de liberdade (MAIOR, 2000, p. 21). Como salienta Herrera Flores:

Sin embargo, la existencia de unas normas jurídicas “garantizadoras” de los derechos laborales es algo importantísimo. Desde ellas, podemos hacer evidentes las situaciones de desventaja en que nos sitúan las puras relaciones

de mercado. Asimismo, con una legislación laboral garantizadora de los derechos de los trabajadores y trabajadoras podremos denunciar las situaciones legitimadas por principios de justicia que, desde sus fundamentos, están sesgados en beneficio de un solo grupo, el cual transgrede continuamente los procedimientos reconocidos “públicamente” como válidos em función de sus propios intereses. (FLORES, 2008, p. 119-120)

Com o desenrolar da história, o amadurecimento dos trabalhadores e suas lutas e o advento do Estado de Bem-Estar Social, ficou evidenciada a importância do reconhecimento dos direitos sociais em uma Ordem que seguisse efetivamente o lume da justiça, já que o contexto demonstrava que a liberdade formal ou liberal além de insuficiente era responsável por cenários não só de desigualdade, mas de extrema exploração e degradação humana. O advento dos direitos sociais não veio por a termo a desigualdade inerente à sociedade capitalista, mas veio minorar o cenário de exploração que beirava à desumanização obreira e exigir, ao menos, o acesso à igualdade de oportunidades e alcançar uma justiça que se fundasse em algum critério efetivo, material (SARLET, 1998, p. 71/72)

O Estado brasileiro, através da Constituição de 1988 reconhece a situação delicada do obreiro no contexto capitalista, bem como a legitimidade dos clamores e de suas lutas sociais em prol do alcance de um status digno de vida e de cidadania. É de se notar que tanto os fundamentos da República, quanto os da ordem econômica perpassam pela valorização do

trabalho humano e na livre iniciativa58 como dimensões da dignidade da pessoa humana e que

além de tudo, a Constituição declara todo um rol de direitos trabalhistas no bojo dos direitos fundamentais e como objetivos: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais e; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Nota-se a tendência, presente em todos os Estados de Bem-Estar Social, de conciliar o sistema capitalista com os interesses da sociedade, assim: com o reconhecimento de o capitalismo não tem como gerar, naturalmente paz e justiça para a sociedade, estabelece-se um novo padrão jurídico, que traz a solidariedade

58 “as leituras que tem sido feitas do inciso 4º do art. 1º são desenvolvidas como se possível destacarmos de um

lado “os valores sociais do trabalho” e a “livre iniciativa”, simplesmente. Não é isso, no entanto, o que exprime o preceito. (...) Isso significa que a livre iniciativa não é tomada, enquanto fundamento da República Federativa do Brasil, como expressão individualista, mas sim no quanto expressa de socialmente valioso. (...) É neste sentido que assiste razão a José Afonso da Silva, ao sustentar que a ordem econômica dá prioridade aos valores do trabalho humano sobre todos os demais valores da economia de mercado.” (GRAU. 2005, p. 200)

do campo moral para o direito (MAIOR; CORREIA, 2007, p. 23). Conforme salienta Grau, a Constituição ao estabelecer diretrizes para um plano de desenvolvimento nacional:

[...] nada mais postula, no seu caráter de Constituição dirigente, senão rompimento do processo de subdesenvolvimento no qual estamos imersos e, em cujo bojo, pobreza, marginalização e desigualdades, sociais e regionais, atuam em regime de causação circular acumulativa – são causas e efeito de si próprias. [...] Nada mais projeta, revolucionariamente, senão que o homem deixe de ser vadio e pedinte (o que é corrente), para tanto cumprindo que no mínimo se lhe assegure direito ao trabalho e condições de dignidade. O programa que propõe não é senão o de instalação de uma sociedade estruturada segundo o modelo do Welfare State e, porque seja assim, a quantos sustentem que a Constituição de 1988 postula mais bem-estar para a sociedade brasileira (GRAU, 2005, p. 218-219)

A fundamentalização dos direitos sociais demonstra esta mudança de paradigma do Estado, de dignidade humana e de desenvolvimento que não pode mais se pautar numa ética e num discurso de que a radicalização da vontade individual e da liberdade do homem e do mercado é o reduto de toda liberdade, justiça e desenvolvimento. Deve-se sim garantir um patamar mínimo de direitos que configurem um âmbito de “exercício efetivo das liberdades e garantia da igualdade de chances (oportunidades)” (SARLET, 1998. p. 71). Há quem encare que para a efetivação dos direitos sociais, as políticas sociais compensatórias sejam a única via. Aqueles que o fazem normalmente encaram o desemprego e a exclusão social como um mal irremediável ou até necessário. As medidas assistenciais são necessárias em contexto de urgência, porém o emprego decente é, no contexto capitalista, a melhor alternativa de garantir um patamar mínimo de dignidade. Isto por que oferece uma solução definitiva e auto- sustentável de inclusão, sem a necessidade de financiamento público recorrente e por que, “em termos psicológicos, o exercício do direito ao trabalho promove a auto-estima, oferece oportunidades para a auto-realização e o avanço na escala social, ao contrário do desânimo e da falta de perspectivas vivenciados por assistidos crônicos.” (SACHS, 2004, p. 25)

Ainda no sentido aqui defendido de direitos humanos como diamante ético, sustenta- se que estes não são realidades metafísicas que devem ser descobertas apenas pelo raciocínio. Os direitos humanos são mutáveis e se consolidam como os aspectos necessários para que em determinados contexto pessoas determinadas possam viver dignamente. No Contexto capitalista, o direito do trabalho é de fundamental importância para o acesso à vida digna e não se dissocia dos direitos clássicos liberais como a vida e a liberdade. Como garantir o direito à vida se não se garante o acesso aos meios de vida? Como garantir o direito à liberdade se não se permite o acesso a formação e expressão da vontade livre? O acesso ao

trabalho garante o acesso aos meios de produção, à participação social, aos bens e ao poder que estes bens trazem em uma sociedade centrada nos valores de troca e não de uso. Assim: “Afirmar-se o trabalho e, particularmente, o emprego, significa garantir-se poder a quem originalmente é destituído de riqueza; desse modo, consiste em fórmula eficaz de distribuição de renda e de poder na desigual sociedade capitalista.” (DELGADO; PORTO, 2007, p. 22)

O trabalho não pode ter importância apenas quanto o acesso à renda, posto que poderia ser substituído completamente pela assistência social, pela responsabilidade os ricos com os pobres ou pela caridade. Conforme coloca Amartya Sen:

[...] o desemprego tem outros efeitos grave sobre a vida dos indivíduos, causando privações de outros tipos, a melhora graças ao auxílio renda seria, nessa medida limitada. Há provas abundantes de que o desemprego tem efeitos abrangentes além da perda de renda, como dano psicológico, perda de motivação para o trabalho, perda de habilidade e autoconfiança, aumento de doenças e morbidez (e até mesmo de taxa de mortalidade), perturbação das relações familiares e da vida social, intensificação da exclusão social e acentuação de tensões raciais e das assimetrias entre os sexos. (SEN, 2010, p. 129-130)

Os direitos fundamentais devem abranger amplos aspectos da realidade humana nas suas mais diferenciadas contingências, é neste sentido que se sustenta que a diferenciação, mesmo que apenas didática, destes direitos entre dimensões, eras, gerações, qualquer que seja o termo, é descabida já que qualquer direito que vise consolidar a dignidade humana merece o mesmo status dos demais e não fazem parte de uma realidade dissociada, agindo sim em complementação ao centro deste feixe ético que é a dignidade humana.