6. Verificação empírica da Curva de Laffer Análise retrospectiva
6.1. O Efeito Laffer e as elasticidades dos incentivos: a condição de Fullerton
Canto, Joines e Laffer (1978) e Beck (1979) desenvolvem modelos que
demonstram a hipótese de existir um efeito Laffer, mas nenhum deles estima a Curva
de Laffer, nem a sua relação com as elasticidades relevantes aspectos que são estimados por Fullerton (1982) consciente que, até então, «não existia uma estimação
séria da curva [de Laffer], usando um modelo económico» (p. 4). É na decorrência
deste estudo que surgem os testes «mais simples» (Pyle (1995): 9) efectuados sobre a
validade da hipótese de Laffer: a partir de valores plausíveis das elasticidades da
oferta (e procura) de trabalho estimadas na literatura económica, integram-nas na
equação que permite determinar a taxa crítica de imposto “equação de Fullerton”, de acordo com a designação atribuída por Pyle (1995). A comparação desta taxa
com a que vigora na economia permite posicioná-la na zona normal ou proibitiva da
Curva de Laffer (cfr. Figura 5).
Figura 5 – Metodologia de verificação da hipótese de Laffer a partir da equação de Fullerton
Taxa crítica de
imposto Taxa de impostoem vigor na
economia Taxa de imposto em vigor na economia Determinada em função : - parâmetros estruturais - parâmetros de preferência Maior Menor Economia posicionada na zona normal Economia posicionada na zona proibitiva
82
O trabalho de Fullerton (1982)simula os efeitos das alterações nos impostos
nos Estados Unidos da América, utilizando um modelo de equilíbrio geral próximo do
de CJL. Tal como neste, considera a oferta de capital inelástica em qualquer período,
mas admite que pode crescer ao longo do tempo. No entanto, enquanto que no
modelo desenvolvido por Canto, Joines e Laffer (1978), as receitas fiscais são
distribuídas sob a forma de transferências ou usadas para comprar bens privados,
hipóteses que anulam o efeito rendimento e, em consequência, restando o efeito
substituição, para Fullerton (1982) os trabalhadores reagem aos wedges criados pelos
impostos sobre o trabalho, através de um efeito rendimento e um efeito substituição,
sendo a priori indeterminado o efeito sobre a oferta de trabalho. O modelo não inclui
aspectos de desequilíbrio, nomeadamente desemprego involuntário ou inflação
endógena e é «essencialmente um modelo microeconómico, expressando todos os
preços em termos relativos» (Fullerton (1982): 12).
Embora o modelo seja desenvolvido num enquadramento de equilíbrio
geral, Fullerton (1982) também demonstra que a Curva de Laffer pode ser
determinada em equilíbrio parcial, impondo restrições aos valores das elasticidades da
oferta e procura de factores, bem como à taxa de imposto. Considera, para o efeito,
apenas o mercado de trabalho e um imposto sobre este factor, determinando a taxa
crítica de imposto (τ*) que traduz a equação (ou condição) de Fullerton:
(
)
* 1η ε
τ
η
ε
− = + [15] Com:η Elasticidade da procura de trabalho ε Elasticidade da oferta de trabalho
τ Imposto proporcional sobre o rendimento salarial
Se a procura for inelástica as receitas fiscais aumentam com o aumento da
taxa de imposto. Se, pelo contrário, a procura for elástica, a relação entre as receitas
fiscais e taxa de imposto segue a forma da Curva de Laffer, tendo, portanto, uma
83
positivamente a aumentos na taxa de salário líquida de impostos, a taxa de imposto
que maximiza as receitas fiscais está entre33 0 e 100%, como Laffer apresentava.
Assim, desde que a procura seja elástica e a elasticidade da oferta seja
positiva, é possível determinar a Curva de Laffer em equilíbrio parcial. Quanto mais
elevadas forem as elasticidades da oferta e/ou da procura (em valor absoluto) mais a
taxa crítica de imposto se aproxima de zero.
Esta abordagem requer hipóteses menos restritivas que o modelo de Laffer:
apenas necessita que o efeito rendimento resultante de um aumento da taxa de
imposto seja inferior ao efeito substituição, em valor absoluto, e não que aquele seja
nulo.
No entanto, o modelo de Fullerton necessita da condição adicional de que
a elasticidade da base tributável à taxa de imposto (ξ) seja crescente, em valor absoluto (embora negativa) à medida que a taxa de imposto aumenta. Esta
elasticidade é definida por:
( )
(
1)
1 wL Y Y wL ∂ ε η ∂ τ τ τ ξ ∂τ ∂τ η ε τ + = = = − − − [16]Se a procura for elástica e a elasticidade da oferta for positiva, para uma
taxa de imposto nula a reacção da base tributável à taxa de imposto seria nula e, no
caso da taxa de imposto crítica, um aumento de 1% na taxa de tributação reduziria a
base tributável precisamente na mesma proporção (ξ = −1 ). Se a taxa de imposto se
aproximar de 100%, a elasticidade da base tributável tenderia para
−∞
. Neste contexto, a economia estaria na zona normal se esta elasticidade estivercompreendida entre 0 e -1 e passará para a zona proibitiva quando assumir um valor
inferior a -1.
Aplicando a cada factor produtivo, Fullerton (1982) acrescenta uma terceira
dimensão na Curva de Laffer, tendo em conta os diferentes valores da elasticidade da
33 Considerando valores extremos para o caso das elasticidades, tem-se que, se η=-∞ e, levantando a indeterminação pela
regra de l’Hôpital, obtém-se τ=1/(1+ε): se a oferta for rígida (ε=0) a taxa crítica de imposto torna-se unitária e, no caso da oferta ser perfeitamente elástica (ε=∞), a taxa aproxima-se de zero.
84
oferta para cada factor de produção tributado (Figura 6):
Figura 6 – Terceira dimensão da Curva de Laffer
Taxa de imposto Elasticidade da oferta do factor tributado Zona proibitiva Zona normal Fonte: Fullerton (1982): p. 9
A linha a cheio, que separa a zona normal da zona proibitiva da Curva de
Laffer, indica a taxa de imposto que maximiza as receitas fiscais, para cada valor da
elasticidade da oferta do factor produtivo tributado.
Se a elasticidade da oferta de trabalho tende para zero a taxa crítica de
imposto tende para um, mas se a elasticidade da oferta tender para infinito a taxa de
imposto que maximiza as receitas fiscais tende para zero. Nesta conformidade, se a
elasticidade da oferta de trabalho for suficientemente elevada, a maximização das
receitas fiscais verificar-se-á para uma taxa de imposto baixa; para uma elasticidade
da oferta suficientemente baixa só uma taxa de imposto elevada permitirá maximizar
as receitas fiscais.
Desta forma, Fullerton (1982) considera que a existência da relação inversa
entre taxa de imposto e receitas fiscais depende dos valores da elasticidade do factor
tributado e que «todo o debate se reduz à questão empírica de determinar os valores
dos parâmetros relevantes» (Fullerton (1982): 8), isto é, as elasticidades da oferta do
factor tributado. «Agora podemos reconciliar os conflitos» (p. 10) entre os que
defendem a existência de uma relação inversa ou negam essa relação: «aqueles que
encontram uma relação inversa entre taxas de imposto e receitas devem acreditar
85
Os que encontram a zona normal devem acreditar que um ou ambos daqueles
parâmetros é baixo. Finalmente os que negam a existência de uma relação inversa
para qualquer taxa de imposto podem apenas acreditar que a elasticidade da oferta
não compensada é zero ou negativa (ou a procura inelástica)» (Fullerton (1982): 10).
De realçar que o facto da elasticidade da oferta não compensada ser nula pode
incorporar uma elasticidade compensada elevada.
Para os Estados Unidos da América, Fullerton (1982) estima a Curva de Laffer
para as receitas de impostos dos rendimentos do trabalho (os dados para 1973
mostram que o wedge total dos rendimentos marginais do trabalho eram de 31,8%)
para várias hipóteses da elasticidade da oferta de trabalho, permitindo, também,
obter a 3ª dimensão da Curva de Laffer (cfr. Gráfico 1 ).
Gráfico 1 – Combinações da elasticidade e taxa crítica
0,285; 4 0,285; 3 0,347; 2 0,374; 1,75 0,482; 1 0,788; 0,15 0,318; 2,5 0,399; 1,5 0,615; 0,5 0 0,5 1 1,5 2 2,5 3 3,5 4 4,5 0 0,2 0,4 0,6 0,8 1
Taxa de impo sto sobre rendimentos trabalho Elasticidade da oferta de trabalho
Fonte: Fulerton (1982)
As simulações efectuadas mostram que seria necessário que a elasticidade
da oferta de trabalho fosse superior a 2,5 para que a economia americana se
localizasse na zona proibitiva da Curva de Laffer, o que contrasta com o valor da
elasticidade da oferta de trabalho agregada calculado por Fullerton a partir de
estudos empíricos existentes (conforme revisão da literatura efectuada no ponto 3., p.
68 e ss.). A taxa que maximizava as receitas fiscais foi estimada em 78,8%, pelo que a
86
razoáveis da elasticidade da oferta de trabalho agregada e da taxa marginal de
imposto sobre o trabalho são ambas suficientemente baixas para permitirem que as
reduções das taxas de impostos aumentassem as receitas fiscais» (Fullerton (1982): 20),
mas no entanto, «não invalidam necessariamente a exigência que essas taxas de
impostos deveriam ser reduzidas» (Fullerton (1982): 20).
A análise de Fullerton (1982) apresenta algumas limitações, nomeadamente
ao assumir elasticidades da oferta e procura de trabalho constantes e ao ignorar
todos os rendimentos não salariais. Acresce que considera apenas uma estrutura de
impostos proporcionais sobre o rendimento, com taxa constante, não integrando a
progressividade, nem formaliza a aplicação das receitas fiscais que, como referimos
anteriormente, tem muita importância no impacto da fiscalidade na oferta de
factores. A abordagem da Curva de Laffer pelas elasticidades da oferta de factores
suscitava outros problemas, nomeadamente o facto da Curva de Laffer pressupor um
modelo de equilíbrio geral e a equação de Fullerton não resultar dum modelo desse
tipo. Também as elasticidades de oferta que são inseridas na equação de Fullerton
resultam praticamente de estudos de equilíbrio parcial no mercado do trabalho, facto
pelo qual foram questionadas as conclusões da evidência estatística (Malcomson
(1986)).
Alguns dos aspectos que constituem limitações na análise de Fullerton (1982)
foram desenvolvidos em trabalhos posteriores.
Bender (1984) retira conclusões semelhantes às de Fullerton (1982), embora
com uma abordagem diferente. Relaxa a hipótese de elasticidades da oferta de
trabalho e capital constantes e inclui, na base fiscal, também os rendimentos de
capital, assumindo, no entanto, uma taxa salarial e de aluguer de máquinas
constantes. Embora a condição de maximização das receitas fiscais seja diferente da
87
enquadramento de equilíbrio parcial34, onde as únicas fontes de rendimento são o capital (K) e trabalho (L), tributados a uma taxa única e proporcional35 (τ), deduz uma condição suficiente, embora não necessária, para que a economia americana se
encontre na zona normal da Curva de Laffer:
1 w L τ ε τ − < , onde w L
ε representa a elasticidade da oferta de trabalho
[17] e 1 r S K S τ ε τ − < , onde r S
ε representa a elasticidade da poupança e S a poupança [18] Face a uma diminuição de 1% na taxa de imposto, as receitas dos impostos
sobre os rendimentos do trabalho irão diminuir se o aumento percentual na oferta de
trabalho induzida pela alteração da taxa de imposto for inferior ao decréscimo
percentual na taxa de imposto36 (eq. [17]). No mesmo sentido, se ocorrer uma redução de 1% na taxa de imposto, as receitas dos impostos sobre os rendimentos de
capitais irão diminuir se o aumento percentual na poupança induzida pela alteração
da taxa de imposto for inferior ao decréscimo percentual na taxa de imposto
multiplicada por K/S (eq. [18]); o aparecimento deste último termo significa que a
redução na taxa de imposto reduz as receitas fiscais do rendimento provenientes de
todo o stock de capital e não apenas do que resulta do aumento do stock de capital
devido à poupança líquida. Por outras palavras, a variação percentual no aumento
do stock de capital é apenas S/K vezes o aumento percentual na poupança líquida
induzida pela política fiscal (Bender (1984): 416-417).
Para elasticidades não compensadas da oferta de trabalho e de capital de
0,3 (obtidas a partir de estimativas disponíveis na literatura económica37) seria
34 Trata-se de uma análise em equilíbrio estático comparativo, considerando-se que as restantes políticas económicas se
mantêm constantes. As receitas fiscais são dadas por T=τY , onde Y é o rendimento antes de impostos, definido por
' ' Y=w L+r K.
35 Bender analisa, também, a situação de um imposto progressivo sobre o rendimento. 36 A eq. [17] e, normalizando w’ em 1 então dw= −dτ(w= −1 τ), é equivalente a dL d
L τ τ
> − . Da mesma forma, a eq. [18] pode ser descrita por: dS d K
S S
τ τ
> − .
37 Boskin (1978), Howrey e Hymans (1978) no caso da poupança, e Cain e Watts (1973), Kosters (1969), MaCurdy (1981), no
88
necessário que a taxa marginal e média de imposto sobre os rendimentos de trabalho
fosse de pelo menos 77% para que a economia americana entrasse na zona proibitiva
da Curva de Laffer, supondo um sistema de impostos proporcionais e, no caso de
impostos progressivos, a taxa marginal crítica seria de cerca de 83%. Socorrendo-se do
valor adoptado por Fullerton (1982) para a elasticidade da oferta de poupança de 4 e
que a poupança representa 10% do stock de capital (S/K=0,1) o pico da Curva de
Laffer para os impostos sobre os rendimentos de capital ocorreria a uma taxa marginal
de 71%. Estes valores permitem concluir que «a redução da taxa de imposto sobre os
rendimentos pessoais irão reduzir as receitas fiscais dadas as actuais taxas de impostos
nos EUA» (Bender (1984): 419).
Na mesma linha metodológica, Yunker (1986) desenvolve um modelo
aplicado aos Estados Unidos da América e, tal como Fullerton (1982), determina a
terceira dimensão da Curva de Laffer. Muito próximo do de Canto, Joines e Laffer (de
equilíbrio geral, puro do lado da oferta, validade da lei de Say, dotação constante dos
factores de produção, entre outras) tem, portanto, as desvantagens deste. É, no
entanto, um modelo menos abstracto do que a generalidade dos modelos de
equilíbrio geral, uma vez que utiliza apenas parâmetros que existem na estimação
econométrica38.
Para a taxa média agregada vigente nos Estados Unidos da América, de
35%, Yunker (1986) determinou um conjunto de combinações das elasticidades de
oferta de factores que permitiriam maximizar as receitas, e a questão residia em
conhecer quais daquelas combinações tinham aderência à realidade americana. Os
resultados de Yunker (1986) mostram que desde que a elasticidade da oferta de
capital fosse superior a -0,2, a elasticidade da oferta de trabalho teria que ser superior
a 1,8 para que a hipótese de Laffer se verificasse. Como se viu anteriormente, é pouco
provável que esta última elasticidade assuma valores positivos tão elevados, sendo,
38 A relação inversa entre taxa de imposto e receitas fiscais está totalmente dependente, neste modelo, dos valores reais
das elasticidades do output em relação a cada um dos factores e das elasticidades da oferta de factores à sua remuneração líquida.
89
mesmo possível que assuma valores positivos e negativos, traduzindo uma curva da
oferta de trabalho em forma de gancho. Para um valor da elasticidade da oferta de
capital39 de 0,4 e, para os valores adoptados no modelo para as elasticidades do produto a cada um dos factores e a taxa média de imposto, a elasticidade da oferta
de trabalho teria que ser, para se verificar a hipótese de Laffer, de, pelo menos, 5,53, o
que seria demasiado elevado, de acordo com as estimativas de Killingsworth (1983)
(Gráfico 2 e Gráfico 3).
Gráfico 2 - Taxa de imposto que maximiza as receitas fiscais em função das elasticidades da oferta de trabalho e capital
Gráfico 3 – Curvas de Laffer para as diferentes combinações da elasticidade da oferta de trabalho e de capital
Elasticidade da oferta de trabalho ε 0% 35% 100% Taxa de imposto 2,23 3,67 5 η =1η =0 5, η =0 η =5
Legenda: η- Elasticidade da oferta de trabalho à sua remuneração; ε- Elasticidade da oferta de capital à sua remuneração. Fonte: Yunker (1986)
Este estudo permite extrair duas conclusões importantes:
i. Contrariamente aos defensores da teoria do lado da oferta, que consideram
que as elasticidades da oferta (de trabalho e capital) eram fortemente
positivas, a abordagem de Yunker mostra que a hipótese de Laffer se
verificava sob determinadas circunstâncias de elasticidade de oferta
39 Boskin (1978) estima que a elasticidade da oferta de capital (medida pela elasticidade da poupança à taxa de juro) seria
de cerca de 0,4 e Killingsworth (1983) que a elasticidade da oferta de trabalho à taxa salarial antes de impostos, para homens, assumiria valores negativos no intervalo 0 a -0,4, enquanto para as mulheres estaria no intervalo de 0,2 a 0,9. «A elasticidade total (rendimento e substituição) estimada da poupança à taxa de juro encontra-se entre 0,3 e 0,4. Enquanto que este valor não é demasiado elevado, usando padrões convencionais, é substancialmente maior do que todas as estimativas obtidas anteriormente…» (Boskin (1978): S4).
Receitas fiscais
Taxa de impo sto 35%
[ε=2,23;η=5]
[ε=3,67;η=1]
90
negativas. O autor determina combinações de valores de elasticidades da
oferta de capital fortemente negativas com elasticidades da oferta de
trabalho ligeiramente positivas, que validam a hipótese de Laffer, e que se
podem adaptar ao mundo real.
ii. Também se tem defendido, ao se assumir elasticidades de oferta de factores
positivas, que muito dificilmente a hipótese de Laffer se verifica. Yunker
comprova este parecer, uma vez que as elasticidades da oferta teriam que
ser demasiadamente elevadas para se verificar aquela hipótese e, muito
dificilmente, aqueles valores se verificariam na prática.
Nesta mesma linha de verificação empírica, Browning (1989) analisa
empiricamente a versão mais simples do teste da Curva de Laffer, em equilíbrio
parcial, em que o único imposto é proporcional sobre os rendimentos do trabalho (à
taxa τ) e que a oferta de trabalho depende da taxa salarial líquida de impostos, e obtém uma taxa crítica de imposto ( * 1
1 S
τ = +η , onde ηSrepresenta a elasticidade da oferta de trabalho, que admite ser 0,2) sobre os rendimentos do trabalho de 83%,
muito superior à taxa em vigor nos EUA, e uma elasticidade das receitas fiscais à taxa
de imposto de 0,87.
Para Browning (1989) os «resultados de uma análise tão simples são
meramente sugestivos, mas permitem compreender porque é que estudos empíricos
mais elaborados concluíram, de uma forma geral, que estamos a um “longo caminho”
do pico da curva de Laffer, e a importância das elasticidades da oferta de trabalho
para este resultado» (p. 45). Browning desenvolve este modelo simples em quatro
aspectos fundamentais.
Em primeiro lugar, introduz alterações progressivas nas taxas de impostos,
uma vez que o sistema americano de impostos sobre o rendimento é progressivo,
através de inclusão de um rendimento salarial isento de imposto. Neste caso, a taxa
91
de imposto de 0,73, valores relativamente inferiores aos encontrados quando se utiliza
uma taxa proporcional, concluindo que quanto mais progressiva for a alteração na
taxa de imposto menor é a taxa crítica e a elasticidade das receitas fiscais.
Em segundo lugar, analisa os efeitos da redução da oferta de trabalho sobre
as receitas fiscais futuras dos impostos sobre o capital, ou seja, introduz a análise em
equilíbrio geral, e compara estes resultados com os de equilíbrio parcial. Apesar de ser
usual considerar-se o enquadramento de equilíbrio geral como adequado, os
resultados de Browning (1989) apontam para que a abordagem em equilíbrio parcial,
embora gere estimativas da taxa crítica de imposto inferiores, a diferença é, na maior
parte dos casos, pouco significativa em relação ao equilíbrio geral, e no que respeita
à elasticidade das receitas fiscais à taxa de imposto são muito semelhantes nestes dois
enquadramentos. Num modelo40 de equilíbrio geral com um produto e dois factores de produção trabalho, cuja oferta é variável e tributado à taxa marginal τ; capital, com oferta constante e tributado à taxa τK, e com uma parcela do rendimento isenta de imposto (A), as receitas fiscais são:
( ) K
RF=τ wL−A +τ rK
e a variação das receitas fiscais face a uma variação da taxa marginal de imposto:
k
dRF dL dw dr
wL w L A K
dτ = +τ dt +τ dτ − +τ dτ enquanto em equilíbrio parcial é:
dRF dL
wL w A
dτ = +τ dτ −
A comparação destas duas últimas equações evidencia a existência de
dois novos termos no enquadramento de equilíbrio geral: Ldw d
τ
τ , que indica os
40 O modelo de equilíbrio geral de Browning (1989) é definido pelas seguintes equações: Função produção: Y=LσK1−σ
Função procura de trabalho: FL =w Função oferta de trabalho: LS=f w
( )
N =f(
1−τ)
w Função procura de capital: FK =r Função oferta de capital: K=K92
impostos adicionais sobre os rendimentos do trabalho, resultantes do aumento da taxa
salarial e é positivo; e, kKdr d
τ
τ , que mostra a redução nos impostos sobre os
rendimentos de capital resultantes da redução de r, e é negativo. A magnitude destes
dois termos determina o impacto em equilíbrio geral e parcial. No entanto, as
estimativas da taxa crítica, naqueles dois enquadramentos são muito próximas
(ligeiramente superiores em equilíbrio geral).
Em terceiro lugar, introduz a afectação dos recursos a actividades não
tributadas (questão que se desenvolve no ponto 6.2., p. 94 e ss.) quando a taxa
marginal de imposto aumenta. Esta nova metodologia permite analisar o impacto de
um aumento na taxa marginal de imposto sobre a base fiscal, resultante da alteração
na oferta de trabalho e a reafectação de recursos a actividades não tributadas. Para
valores plausíveis dos parâmetros relevantes, a taxa crítica de imposto é
significativamente inferior a qualquer um dos casos analisados anteriormente por
Browning.
Por último, introduz o impacto dos impostos sobre os rendimentos de trabalho
na poupança e receitas fiscais futuras, em particular dos impostos sobre os
rendimentos de capital. Embora, num enquadramento de equilíbrio parcial, as receitas
fiscais actuais sobre os rendimentos de capital não sejam afectadas, porque não há
alterações no stock de capital e a taxa de remuneração é constante, há, no entanto,
mesmo neste enquadramento, que considerar os efeitos das alterações nos impostos
sobre os rendimentos de trabalho na redução da poupança (devido à diminuição no
rendimento disponível) e das receitas fiscais futuras. E, embora esta análise requeresse