2. CONCEITOS E REFLEXÕES
2.3 O EMPODERAMENTO DAS IDENTIDADES PLURAIS
Nas sociedades globalizadas, multiculturais e complexas, as identidades tendem a ser cada vez mais plurais e as lutas pela cidadania incluem, frequentemente, múltiplas dimensões do self: de gênero, étnica, de classe, regional, mas também dimensões de afinidades ou de opções políticas e de valores: pela igualdade, pela liberdade, pela paz, pelo ecologicamente correto, pela sustentabilidade social e ambiental, pelo respeito à diversidade e às diferenças culturais, etc. (...) Ainda que esse diálogo não seja isento de conflitos, o encontro e o confronto das reivindicações e lutas referentes a diversos aspectos da cidadania vêm permitindo aos movimentos sociais passarem da defesa de um sujeito identitário único à defesa de um sujeito plural (SCHERER-WARREN, 2005, p.115-116).
A formação não-formal
A capacidade de mobilização popular contraria o estigma da alienação em massa e, principalmente, evidencia seu real potencial transformador. Os movimentos sociais se inserem no contexto de disputa pelo espaço como organizações de resistência popular, representativas de suas necessidades, de acesso aos seus direitos, constituindo-se em uma experiência emancipatória da sociedade civil. O posicionamento teórico e ideológico acerca do fenômeno dos movimentos sociais urbanos tem sido múltiplo e diverso7. Porém, apresentam um aspecto comum: ainda que surjam em variados contextos, seja com maior ou menor repercussão, os movimentos aparecem recorrentemente manifestando alguma reivindicação ou resistência. Via de regra, ao acirramento das desigualdades de poder (AQUINO, 2008).
No entanto, os movimentos em geral não vislumbram necessariamente a tomada do poder do Estado, mas sim reivindicam a transformação da ordem estabelecida por ele. A cultura política brasileira é historicamente marcada por uma cultura administrativa de órgãos e instituições públicas estruturadas em lógicas burocráticas e corporativas. Uma vez que instituiu-se na política institucional uma tradição de não representatividade, as reações sociais coletivas de caráter político viabilizam formas alternativas para organizar e expressar suas demandas (MARICATO, 2011).
Os movimentos de luta por moradia, por exemplo, exigem a efetividade da ordem oficial vigente na constituição, do direito por moradia e a aplicação da função social
7 Maria da Glória Gohn realizou mapeamentos das diferentes correntes teórico-metodológicas, tanto
clássicas, como as novas teorias contemporâneas que analisam os movimentos sociais em “Teorias dos movimentos sociais: paradigmas clássicos e contemporâneos” (1997) e “Novas teorias dos movimentos sociais” (2008).
da propriedade. E, para fazê-los vigorar, muitas vezes pressionam o Estado praticando a ocupação de imóveis de propriedade privada. É importante afirmar que tal ação não ocorre de forma aleatória, via de regra, a seleção de imóveis passíveis de ocupação ocorre a partir de dois parâmetros: dados disponibilizados pelo poder público municipal de notificação de imóveis não edificados, subutilizados e não utilizados, a partir das diretrizes do Estatuto da Cidade e do Plano Diretor; e pesquisa da regularidade da documentação dos edifícios, bem como das dívidas ativas dos proprietários, principalmente no que se refere ao Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU).
Um prédio vazio, há mais de 17 anos, o proprietário com uma dívida de IPTU, a gente com uma demanda com as famílias com carta de despejo na mão. Então a gente fez um documento, encaminhou para a secretaria municipal de habitação, reivindicando que esse prédio fosse reformado e repassado para as famílias por um programa habitacional para elas. De baixa renda. E aí ficou dois anos na mesa de negociação; enquanto isso, muitas famílias foram para a rua. Então, é importante lembrar assim, primeiro a gente levanta a situação do imóvel, leva para a mesa de negociação, faz o estudo de viabilidade, certo? Caso não tendo condições, é onde a gente ocupa. E todas as ocupações foram encaminhadas dentro de uma plenária do movimento, onde os coordenadores, junto com representação das famílias, falaram: ‘olha, não tem jeito, temos que ocupar’. Antes, a gente tenta negociar, tenta abrir negociação, tenta encaminhar sem que tenha necessidade de ocupar. Caso não tendo jeito, aí a gente ocupa. E aí, a negociação precisa continuar, porque aí com a ocupação, torna-se até mais emergencial, porque as famílias que estão ali realmente necessitam de um atendimento. O objetivo não é de ocupar por ocupar, é ocupar para um futuro atendimento, de preferência definitivo (AQUINO, 2008)8.
A relação de força e confronto exercida pelos movimentos sociais urbanos, fundamenta-se em um projeto de vida e de sociedade efetivamente coletivo, compreendido como uma mobilização essencial inserida no âmbito social. Dessa forma, configuram uma referência de conquista enquanto ferramenta de pressão política através da identificação de ideologias, conflitos e experimentações sociais individuais comuns (AQUINO, 2008). Essa luta coletiva desencadeia uma potencialização na força de resistência popular, evidenciando primeiramente uma consolidação da consciência de cidadania. A criação de um entendimento comum de um projeto de sociedade emancipada busca pelo respeito incondicional de seus direitos.
8 Ivaneti de Araújo: depoimentos [2007-2008]. Entrevistador: Carlos Aquino. São Paulo: Entrevistas
concedidas em campo para a dissertação: A coletivização como processo de construção de um movimento de moradia. 2008. Dissertação (Mestrado) – Curso de Pós-Graduação em Antropologia Social na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.
A articulação popular, dessa forma, permite a produção e difusão de saberes em outros espaços, não institucionalizados, processo caracterizado por Gohn (2011) como educação não formal. A autora destaca ainda doze tipos de aprendizagem possíveis no processo de luta dos movimentos sociais: i) prática: estratégias de organização e mobilização; ii) teórica: conceitos-chave que mobilizam as forças sociais; iii) técnica- instrumental: funcionamento burocrático de órgãos públicos, seus trâmites e legislações; iv) política: conhecimento dos próprios direitos e da estrutura hierárquica da política nacional para saber a qual instância governamental competem as demandas; v) cultural: identificar- se como grupo; vi) linguística; vii) econômica; viii) simbólica: como se auto representam as demandas; ix) social: como falar e ouvir em público; x) cognitiva; xi) reflexiva: principal ferramenta geradora de saberes; e xii) ética: a partir da convivência com o outro.
Entende-se, dessa forma, que a articulação social é sobretudo uma questão simbólica de constituição de cidadania que, por vezes, tende a tornar-se ainda mais significativa do que as conquistas dos direitos propriamente ditas. Os movimentos propõem- se a transformar os meios em fins, pela recriação cotidiana da experiência em resistir impulsionada pelo surgimento contínuo de novas adversidades. O processo de institucionalização das organizações da sociedade civil, por exemplo, avançaram de forma significativa a conquista pelo reconhecimento oficial de suas demandas, descentralizada atualmente em canais públicos de mediação (a exemplo dos conselhos, criados no próprio corpo estatal).
A mesma lógica de institucionalização, quando submetida à ideologia neoliberal, dá origem a novos arranjos civis caracterizados por Scherer-Warren (2005) como articulação inter-organizacional ou associativismo nacional: as Organizações Não Governamentais (ONGs) e associações provenientes do terceiro setor. É possível observar processos de flexibilização da emancipação popular no sentido de criar instrumentos de consenso e controle, articuladas e financiadas por empresas, bancos, redes comerciais ou ícones famosos. Apoiados por substanciais recursos, sejam eles privados, de arrecadação civil ou de fundos públicos, compõem-se por profissionais capacitados, independentemente de sua orientação ideológica, que realizam projetos e planos ditos participativos, em parcerias com o Estado.
A nova conjuntura econômica e política tem papel social fundamental para explicar o cenário associativista atual. As políticas neoliberais desorganizaram os antigos movimentos e propiciaram arranjos para o surgimento de novos atores, organizados em ONGs, associações e organizações do terceiro setor (...). Aliás, as ONGs passaram a ter muito
mais importância nos anos 1990 do que os próprios movimentos sociais. Trata-se de ONGs diferentes das que atuavam nos anos 1980 junto a movimentos populares. Agora são inscritas no universo do terceiro setor, voltadas para a execução de políticas de parceria entre o poder público e a sociedade, atuando em áreas onde a prestação de serviços sociais é carente ou até mesmo ausente (GOHN, 2011, p.11-12).
Outros dois formatos de representação de interesses são: o associativismo local, cujos sujeitos são envolvidos por motivações do cotidiano ou coletivos informais, em geral sem nenhum tipo de institucionalização, que lutam por modos de vida alternativos; e as mobilizações nos espaços públicos, abrangentes e de grande visibilidade, que apesar de abrirem-se para uma articulação pública, espontânea e ampla, possui dificuldades enquanto absorção do conjunto de posturas ideológicas (SCHERER-WARREN, 2005). Embora a militância de cunho revolucionário tenha perdido força, o ativismo contemporâneo inclina-se a lutar de forma abrangente pela transversalidade e indivisibilidade dos direitos humanos.
As novas práticas constituem um novo tecido social, denso e diversificado, tensionando as velhas formas de fazer política e criando, em termos de alternativas democráticas, novas possibilidades concretas para o futuro (GOHN, 2011, p.356)
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A partir dos anos de 1990, algumas mudanças foram observadas na articulação dos movimentos sociais urbanos, decorrentes do avanço de novas tecnologias. A maior automação dos processos produtivos, o desemprego, o aumento significativo da economia informal e a forte presença da terceirização enfraqueceu os sindicatos - maior referência de organização do proletariado industrial desde início do século XX (SANTOS, 2008). Se essa condição configurou o movimento social como uma nova instância de luta, mais propensa a particulares interesses do que a causas universais, por outro lado possibilitou ao movimento maior abrangência de mobilização e atuação através de novas ferramentas tecnológicas.
(...) as novas tecnologias, especialmente a Internet e as rádios comunitárias, são um elemento facilitador na difusão das narrativas e ideários em construção pelos sujeitos, nós das redes, mas geralmente não são o único ou principal elemento mobilizador na geração de uma rede de movimento social (...) ela permite um rompimento com o olhar da mídia tradicional que enxerga no movimento uma negação da ordem legal da sociedade. Para eles, a força de um movimento social continua sendo a sua capacidade de organização e mobilização (SCHERER-WARREN, 2005, p. 513-514).
Scherer-Warren (2005) afirma que a nova forma de ser sujeito é via empoderamento social e democrático, de pessoas e causas diversas que objetivam o combate à exclusão em suas múltiplas faces. Por exemplo, apesar de existirem diferenças substanciais entre movimentos de moradia (que ocupam áreas ou edifícios, ou seja, que têm como mote a contestação da propriedade privada) e movimentos de ocupação dos espaços públicos (que contestam, via de regra, seu uso), a atuação de ambos tende a seguir diretrizes essenciais: a desconstrução das discriminações introjetadas na sociedade pelos poderes dominantes, resgatar positivamente as raízes culturais; a criação de novas formas de práticas associativas, construindo novas lógicas éticas e processos sociais emancipadores; a troca de experiências de vários coletivos em redes e participando de mobilizações de base, empoderando-se, assim, na direção de uma ampla rede de movimento social.
A internet e principalmente as redes sociais evidenciam as cidades para além de simples palco das desigualdades e da vida automatizada. A conexão virtual faz com que a informação aproxime os lugares e crie novos formatos de sociabilidade, identidade e valores (SANTOS, 2008; HARVEY 2014). As redes possibilitam um fenômeno inédito na articulação e mobilização dos movimentos sociais, denominado por Scherer-Warren (2005) como transposição de fronteiras: i) territoriais, evidentemente, pela conexão entre as mais diversas escalas de resistência, de locais às regionais, nacionais e transnacionais; ii) temporais, também de forma inédita lutando pela indivisibilidade de direitos humanos de diversas gerações históricas de suas respectivas plataformas; iii) sociais em seu sentido amplo, de compreensão e respeito pela multiplicidade de identidades e o pluralismo de concepções de mundo e a radicalização da democracia através de uma emancipação ampliada da população.
A rede e a rua como expressão do espaço público se interpenetram e criam uma política colaborativa, alimentada em tempo real. O aumento da sociabilidade gera aproximação e identificação dos sujeitos entre si e entre os sujeitos e o meio no qual estão inseridos. A convivência pode produzir consciência no sentido de coexistir com a diversidade e proporcionar união pessoas desconhecidas, por um objetivo comum. A dinâmica da reprodução instantânea evidencia ainda mais esse processo e fortalece a militância política e as ações reivindicatórias. A flexibilidade de perpassar o lugar físico enquanto suporte de mobilização contribui significativamente para a reconquista da rua, devolvendo aos espaços públicos uma de suas principais funções, a atuação política (SANTOS, 2008).
A potência social emancipadora do cotidiano
A modernidade, porém, não é feita do encontro homogeneizante da diversidade do homem, como sugere a concepção de globalização. É constituída, ainda, pelos ritmos desiguais do desenvolvimento econômico e social, pelo acelerado avanço tecnológico, pela acelerada e desproporcional acumulação de capital, pela imensa e crescente miséria globalizada, dos que têm fome e sede de justiça, de trabalho, de sonho, de alegria. Fome e sede de realização democrática das promessas da modernidade, do que ela é para alguns e, ao mesmo tempo, apenas parece ser para todos (MARTINS, 2000, p.18-19).
Retomando brevemente os conceitos de espaço público e urbanidade, parte-se do pressuposto de que as especificidades dos fenômenos urbanos são decorrentes das transformações da sociedade no seu conjunto. A cidade, de fonte puramente material, emerge na perspectiva do cotidiano como referência de suporte às relações sociais. Ela assume uma simbologia muito potente, de agência, associada diretamente aos propulsores das ações, os agentes, que interferem em conjunto nas questões de materialidade. Em uma escala aproximada, a cidade se transforma na capacidade de agir de cada agente individualmente. Que, tendo em vista a ampla diversidade de agentes e hipóteses de ações, compõem um complexo campo de ação coletiva cotidianamente modificada pela ação social (AQUINO, 2008).
Certeau (1998), por sua vez, analisa o simples ato de caminhar como um processo de apropriação do sistema topográfico pelo pedestre, que ocasiona a transformação do espaço. Ou seja, consideram-se os movimentos cotidianos pela cidade como uma efetiva realização espacial: “os jogos dos passos moldam espaços. Tecem os lugares. As motricidades dos pedestres formam um desses sistemas reais cuja existência faz efetivamente a cidade” (p.177). A própria noção de espaço urbano em si, definida pelo autor, é indissociável da questão de mobilidade dos habitantes da cidade.
Villaça (2012), levantando a questão da luta de classes como pano de fundo, também se aproxima desse discurso. O autor complementa a discussão afirmando que as condições impostas pelas limitações e restrições das elites e das múltiplas manifestações da governabilidade se apropriam do tempo da população. Não literalmente, mas enquanto símbolo, principalmente a apropriação da mobilidade como instrumento de controle. José de Souza Martins (2000), por sua vez, trata desses processos em face da angústia cotidiana das incertezas, como um anúncio dos progressos e linearidades, que em nenhum momento
realmente mostra suas realizações efetivamente humanas. Em um contexto de país onde a miséria e a gritante desigualdade social são reconhecidas, pela análise teórica, como uma condição funcional da modernidade disforme; um completo cinismo em relação à desumanização das pessoas.
Os violentos contrastes entre a riqueza e a pobreza, os conflitos entre os poderosos e os oprimidos não impedem nem o apego à cidade nem a contribuição ativa para a beleza da obra. No contexto urbano, as lutas de facções, de grupos, de classes, reforçam o sentimento de pertencer [...]. Esses grupos rivalizam o amor pela sua cidade (LEFEBVRE, 1969, p. 11- 12).
Independentemente de uma análise esmiuçada das maneiras como o faz, a metrópole suporta ao mesmo tempo o conjunto da massa cidadã generalizada e a particularidade de cada mundo interior, individual. O maior desafio de gestão do espaço urbano em relação à essas variações de escala, enquanto provedor de abrigo e diversas infraestruturas, é justamente a simultaneidade entre o avanço exponencial do crescimento demográfico e o processo de urbanização, de ritmo significativamente mais lento.
(...) na metrópole o ser humano vira multidão: vontades e desejos não satisfeitos; impotência diante do cotidiano repetitivo e alienado, no qual o sujeito não se reconhece como produtor de suas próprias condições de vida; e como criador da metrópole (CARLOS, 2007, p.39).
Ou seja, ao passo que as relações sociais se multiplicam continuadamente e, evidente, continuam a se tornar progressivamente mais complexas, o sujeito urbano busca na escala da vida cotidiana um refúgio às imposições da ordem distante (LEFEBVRE, 1969). Observa-se nessa escala, as especificidades de hesitações e questões de cada sujeito, que em comum possuem a dificuldade de compreender-se imerso em diversas formas de dominação. Em uma luta cotidiana para compreender seu viver individual, que apresenta-se como absurdo, destituído de sentido (MARTINS, 2000).
A falta de discernimento dos cidadãos em relação ao espaço que os envolve propicia ainda o desenvolvimento de um processo de banalização da vida cotidiana, que a descontextualiza de sua história. Para Martins (2000) são, portanto, como espectadores inconscientes do cenário que possuem diante de seus olhos, equivalendo os elementos da vida social e do urbano a um plano de superficialidade.
[...] Eis uma vida cotidiana bem decupada em fragmentos: trabalho, transporte, vida privada, lazeres. A separação analítica os isolou como
matérias brutas (quando na verdade resultam de uma longa história e implicam numa apropriação da materialidade). Eis o ser humano desmembrado, dissociado. (MARTINS, 2000, p.92)
Todavia, a vida cotidiana não se reduz à escala doméstica, nem deve ser associada apenas à banalidade do ritual diário, indefinido, que não possui momentos de real conexão com a amplitude da cidade. O imaginário dos espaços públicos, talvez por esta falta de pertencimento, se aproxima de forma gradual a um símbolo da vigília social. Cada vez mais caracterizado pela passagem, pela associação à velocidade e dinamicidade de fluxos (SANSÃO, 2013). Não suficiente, observamos muitas vezes que os conceitos de gestão urbana estão cada vez mais desprovidos das reais demandas da vida cotidiana dos cidadãos. E a rua como a escala urbana mais próxima ao homem, dessa forma, também torna-se progressivamente mais distante da atual realidade nos grandes centros urbanos (MARICATO, 2011).
Mais embaixo, a partir dos limiares que cessam a visibilidade, vivem os praticantes ordinários da cidade. Forma elementar dessa experiência, eles são caminhantes, pedestres, cujo corpo obedece aos cheios e vazios de um texto urbano que escrevem sem poder lê-lo (CERTEAU, 1998 p.57).
A partir da perspectiva de Certeau (1998), cada sujeito individualmente possui a autonomia da legibilidade da urbanidade de acordo com a sua historicidade. Wilheim (2010) caracteriza esse processo como um sistema complexo, que representaria a cidade. Onde dentro dele encontram-se diversas conexões possíveis entre outros conjuntos que o compõem. Existem conjuntos dos quais participam pessoas, coisas, paisagens, ações, ideias e sentimentos significativos para o dia-a-dia. Cada conjunto tangencia-se e se superpõe a outros gerando, assim, pontos de empatia e de conflito. A vida em uma cidade é composta pela integração desses pontos de inflexão, onde entende-se uma melhor qualidade à medida em que a cidade for capaz de acolher o mais variado número de conjuntos, pois, nesse caso, aumentam-se as hipóteses de vida e ação dos cidadãos.
A questão seria compreender o que os libertaria do fragmento do tempo, do processo mecânico, repetitivo e coletivo. Entender qual é o papel da historicidade, que se faz notar pouco a pouco aos sujeitos construtores da história, que paradoxalmente, não se enxergam claramente neste processo. Seria possível ainda conceber à cidade uma espécie de dispositivo articulador de tangência entre relações espaciais e sociais? Segundo Certeau (1998), sim, a urbanidade é transformada e poetizada cotidianamente de acordo com cada sujeito que dela faz parte.
O autor supõe que, dessa maneira, o usuário possa trazer para dentro si a legibilidade de um determinado espaço público pelo reconhecimento, coexistência e repetição de suas ações cotidianas. Assim, a partir de identificações sociais e culturais, o indivíduo seria capaz de sugerir diferentes possibilidades de uso dos espaços urbanos. Martins (2000) afirma que a vida cotidiana possui a potência de confortar o desencanto vivido pelo todo, pelo futuro incerto, pela história corrompida pelo domínio do capital e do poder; da mesma forma como tornou-se também um ponto de referência de criação das novas esperanças da sociedade. “Não ignorar a vida cotidiana é o ponto de partida para decifrar sociologicamente o possível” (p.10).
O novo herói da vida é o homem comum imerso no cotidiano, onde está presente o tempo e o lugar da eficácia das vontades individuais, do que faz a força da