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1.2 O “ESTADO-RELAÇÃO”: POR UMA PERSPECTIVA TEÓRICA DISTINTA

1.2.1 O Estado em Gramsci: “sociedade política + sociedade civil”

Seria demasiada pretensão, dentro dos limites a que se sujeita este trabalho, tentar expor com suficiente detalhamento toda a magnitude do pensamento gramsciano, ainda que nos atendo apenas à concepção de Estado por ele desenvolvida. Limitar- nos-emos, por isso, a discorrer sucintamente sobre alguns de seus elementos principais, preocupando- nos mais em enfatizar a forma como utilizaremos os conceitos apresentados na pesquisa que pretendemos desenvolver do que propriamente em discuti- los profundamente.

O conceito de Estado ampliado de Gramsci, ainda que inserido em um universo de operações conceituais muito mais vasto, surge como uma contraposição a visões de Estado presentes tanto no pensamento liberal clássico (o Estado como instância de salvaguarda das liberdades individuais e de manutenção das regras do jogo social, estabelecidas pelas “leis naturais” da economia) quanto no pensamento totalitário (que no Estado interpreta a razão e o fim de todo o sistema social, a própria realização das ações do homem em sociedade).21 A primeira, reducionista, criaria um seccionamento profundo entre sociedade política e sociedade civil, sendo esta tomada como autônoma e auto-regulada, determinando-se em função das livres forças que nela agem, tendo aquela como tributária. Já a segunda perspectiva, ao contrário, tenderia a uma imediata identificação entre Estado e sociedade, uma unificação arbitrária que integraria ao primeiro toda a complexidade orgânica da última.22 Para superá- las, Gramsci propõe uma unidade dialética entre sociedade política e sociedade civil, uma relação de “identidade/distinção” entre ambas as esferas que passam a ser vistas como elementos inextrincáveis de um único bloco, distintas teoricamente, porém unidas na

21 GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a Política e o Estado Moderno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. p. 31-40.

22 SEMERARO, Giovanni. Gramsci e a sociedade civil: cultura e educação para a democracia. Petrópolis (RJ): Vozes, 1999. p. 69-75.

prática social.23 A sociedade política, composta pelos aparelhos oficiais de poder (o arcabouço jurídico institucional do Estado), seria a dimensão de aplicação de uma ação político-coercitiva, garantindo uma determinada estrutura de dominação. A sociedade civil, por sua vez, seria a dimensão em que “se manifestam a livre iniciativa dos cidadãos, seus interesses, suas organizações, sua cultura e seus valores”24, onde se desenvolvem as relações privadas entre os agentes sociais, o espaço onde são construídas as visões de mundo, as formas de percepção da realidade, e em que ocorre o embate entre os diferentes projetos baseados em tais representações. É neste lugar que são produzidos valores e idéias que concorrem entre si, que se confrontam até que um conjunto específico de representações, próprio a um grupo social, impõe-se aos demais, estabelecendo uma determinada “direção”. Portanto, a imposição de um grupo social sobre os demais ocorre como dominação e direção, como força e consenso. Nas palavras de Gramsci:

[...] a supremacia dum grupo social se manifesta de duas maneiras: como

“dominação” e como “direção” intelectual e moral. Um grupo é socialmente dominante dos adversários, que tende a ‘liquidar’ ou a submeter, também, com a força armada; e é dirigente dos grupos afins ou aliados.25

A concepção ampliada de Estado de Gramsci, em suma, consistiria na refutação de sua identificação imediata com a sociedade política, sua aparelhagem político-coercitiva. Mais do que isso, o Estado englobaria também a sociedade civil, o conjunto complexo e dinâmico de aparelhos privados nos quais uma hegemonia se define, ou seja, em que se estabelece a supremacia de um grupo social sobre os demais em forma de dominação (coerção) e direção (consentimento). Seria o Estado “todo o complexo de atividades práticas e teóricas com as

23 Ibid., p. 74.

24 Ibid., p. 75

25 GRAMSCI, Antonio. Quaderni del carcere ? Edizione critica dell’Istituto Gramsci. Org. por Gerratana, V. Turim: Einaudi, 1975. p. 2010. Apud SEMERARO, Giovanni. Op. cit., p. 74.

quais a classe dirigente justifica e mantém não só o seu domínio, mas consegue obter o consentimento ativo dos governados [...]”.26

Percebemos que esta concepção ampliada de Estado se fundamenta em uma visão unificada de política, economia e cultura. O Estado é a materialização das relações econômicas entre os atores sociais, das relações de poder entre eles estabelecidas e dos valores simbólicos que as legitimam e reproduzem. Neste quadro, “a filosofia, a política e a economia, partes inseparáveis duma mesma visão de mundo, possuem convertibilidade entre si”.27 Com isto, Gramsci refutava também o determinismo economicista presente em boa parte das interpretações marxistas, consolidadas principalmente a partir da II Internacional, fosse pelo fato de serem desmobilizadoras — uma vez que firmes em uma crença teleológica quanto ao processo histórico —, fosse por relegarem a segundo plano os campos da cultura e da ideologia, ignorando sua validade como forças materiais.28 Neste sentido, “o Estado é sempre a forma concreta dum determinado mundo econômico, dum determinado sistema de produção”,29 não sendo dele separado ou por ele determinado, mas com ele formando uma unidade. Estruturas e superestruturas, desta feita, formariam um bloco histórico, isto é, um conjunto complexo de elementos subjetivos e materiais que ativamente se relacionam, contraditória e reflexiva mente; ambos os níveis completar-se-iam reciprocamente, uma vez que “as forças materiais são o conteúdo e as ideologias são a forma ? sendo que [...] as forças materiais não seriam historicamente concebíveis sem forma e as ideologias seriam fantasias individuais sem as forças materiais”.30

Ora, a partir de tudo isso não se pode mais aceitar as interpretações mais difundidas sobre a atuação dos organismos estatais — elaboradores e/ou executores de políticas —

26 Id. Maquiavel, a Política e o Estado Moderno..., p. 87.

27 Id. Quaderni del carcere ? Edizione critica dell’Istituto Gramsci. Org. por Gerratana, V. Turim: Einaudi, 1975. p.1591. Apud SEMERARO, Giovanni. Gramsci e a sociedade civil: cultura e educação para a democracia. Petrópolis (RJ): Vozes, 1999. p. 87

28 Id. A concepção dialética da história. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 1991. p.20-30; 61-63. ___.

Maquiavel, a Política e o Estado Moderno..., p. 31-30.

29 SEMERARO, Giovanni. Op cit., p. 88.

30 GRAMSCI, Antonio. A concepção dialética da história..., p. 63.

durante o regime militar. Na medida em que o campo do Estado é alargado pelo pensamento gramsciano e passa a ser percebido não apenas como instância autônoma, mas como uma dimensão diretamente ligada aos movimentos orgânicos de uma sociedade, parece-nos pouco adequado nos pautar por modelos que tomam como premissa a disjunção, a priori, entre a estrutura política e a estrutura sócio-econômica, ressalvando suas relativas independências. Se a sociedade política é tomada como uma instância em si mesma, cuja lógica de funcionamento, devido a sua singularidade, deve ser procurada em seu próprio interior — a despeito de sua “porosidade” —, deixa-se de considerar o espaço mais amplo em que realmente é definida a hegemonia de um grupo, seu papel dominante e diretor em relação aos demais grupos. O Estado, portanto, não pode mais ser visto apenas como um conjunto de aparelhos coercitivos; ainda que tais aparelhos realmente componham sua materialidade, eles também se constituem em expressões de um projeto hegemônico de sociedade, que os contém, mas de muito os ultrapassa. Logo, uma tentativa de compreensão desse Estado não pode se limitar a suas instituições oficiais, seu arcabouço jurídico- institucional. Enfim, se é no espaço da sociedade civil — conforme destacamos anteriormente — que a hegemonia é definida e as instituições políticas são fundamento e reflexo desta mesma hegemonia, o olhar do historiador não pode de maneira alguma dele se desviar.

Tal conceitual, portanto, constituirá a base de nossa pesquisa, ou seja, dele extrairemos as premissas de nossa reflexão, os elementos que fundamentam e direcionam o desenvolvimento de nossa atividade analítica. Em primeiro lugar, o estudo da atuação do INPI como agência formuladora e executora de políticas para os campos da propriedade industrial e da transferência de tecno logia não pode se limitar a seus aspectos jurídico- institucionais, a utilização de seus instrumentos de poder; precisa ir além. A autarquia deve ser pensada a partir de seu papel dentro de um determinado projeto político, que não era único, singular, mas sofria a concorrência de outros e sobre eles conseguiu se impor em um processo

conflituoso. Tais projetos políticos faziam-se representar no interior da instituição, digladiando-se ao longo do processo de tomada de decisões. Não se pode encará- los como elementos puramente concernentes à dinâmica de funcionamento do órgão; refletiam, na verdade, projetos mais amplos gestados no seio da sociedade civil. Um olhar para dentro da instituição, para seus instrumentos de poder, sua estrutura organizacional, deve ser necessariamente acompanhado por um outro mais abrangente, que torne possível a integração do primeiro a uma dinâmica mais ampla de forças que extrapolam as fronteiras institucionais e atingem o espaço privado em que as vontades coletivas se manifestam e se organizam visando fins estratégicos.

Não basta pensar o INPI, enfim, somente a partir de um ponto de vista institucional; é preciso enxergá- lo no universo social de que faz parte, integrado à dinâmica das forças que compõem o tecido do mundo concreto. A compreensão do papel exercido pela autarquia deve passar não somente pelo estudo de seus instrumentos de poder, mas também pelo exame da atuação dos atores sociais organizados em função de projetos específicos a partir de seus organismos de representação — “aparelhos privados de hegemonia” —, tais como as associações de classe, os órgãos de imprensa, as empresas, etc.